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domingo, 4 de junho de 2017

#PEGAI NUM PINCEL E TINTAS COLORIDAS E REFAÇAI A VIDA NUM BELO PAINEL# - Graça Fontis: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Concentração do lúcido infinito...
Alegria calma, de devagar lentidão, humilde e, todavia, excessiva, invade-me como um sangue às chamas ardentes de emoção, de sem-limites de sentimento, de sem-fronteiras das utopias, eleva-me sobre mim, sobre a minha angústia, trans-fere-me a uma evidência dominadora que eu respirasse como um ar de altura, frio ads-tringente à soleira de montanha longínqua. Alucina-me o absurdo como um labirinto: como ser eu nos outros? Ser irredutível e múltiplo? Só assim a solidão deixaria de ec-sistir. Por que o amor aparece como a verdade, e como ela se gasta, se destrói? Será o amor um limite, será a verdade um limite, apenas a procura de um repouso que não há? O que é o Belo? - pergunto-me agora, neste instante-limite em que expilo a fumaça do cigarro, respiração comedida, cont-emplando o céu plúmbeo nesta manhã de inverno, faz muito frio. Belo é o que se não sabe, o que se não conquistou, o que se não conheceu, o que se não vislumbrou, o que se não con-templou, o que se não verbalizou. Abrir o corpo e a mim que moro nele. E que só nele moro enquanto o procuro, desejo sabê-lo. Nada há de conhecido, de sabido, tudo fulgura em re-velação, tudo esplende em a-nunciação, tudo re-presenta em fulguração. O meu sentir re-flui da presença do corpo para a evidência que o ilumina.
Cantos idílicos ou nostálgicos, risos e flores brancas ou lilases, vermelhas ou rosas, iluminem o mortal destino, a eterna sina, o desejado ser livre, para o ermo envelar fundo, na essência e ser dele, noturno do pensamento, curvado já em vida sob a idéia dos clímaces alucinados, cônscio da lívida esperança do caos redivivo, eis o que me perpassa a vida em todas as suas dimensões sensíveis, racionais e intelectuais, a carne e os ossos, até mesmo as entranhas das vísceras.
Ser livre é con-templar a natureza e perceber com percuciência e perspicácia que o ser humano é a criatura mais importante do uni-verso e que faz parte intrínseca da vida e sem ele jamais haverá felicidade, em verdade o mundo, a terra, a ec-sistência, sentimentos e emoções que abram as portas para receber outras luzes a encaminharem os passos em direção ao infinito do amor e da amizade.
Desamarrai a nota dos espectros que massacram o espírito!
Bradai um sofrimento violento que se crava na alma
Espectado pelo inerente pulso das vossas garras!
Sois quem despedaças a alma sumida
Sereis inapto de bem-querer … ou somente por egoísmo?
Como facultas um padecimento tão bárbaro
Lacrimejas o físico flagelado pela nostalgia
Fluindo das suas artérias a seiva que idolatrou!
Sois a obscuridade de um sujeito dantes apaixonado
Um ser denso a quem a chama se deliu
Habitas sensações golpeadas, andrajoso pela idade
Cujos pedaços dos mélicos instantes não arriscar agregar! Refugia-se no silêncio e no cigarro. Ó, homem de letras, que estás a fazer da tua existência…. Sabes colorir a vida quando pretendes… Quando algo se aparenta nebuloso, enclausuras-te no mutismo…. A vida é feita de peças suaves com fragrância e muitos acúleos… também o sabes… não renuncies à vida e se ela não está colorida, és um artista… pega num pincel e tintas coloridas e refaz a vida num belo painel. Remiras agora do meio deste amanhecer, serena e cã, cercada do que não possuí balizas. Institui-se na cordilheira, medita para a extensão, onde te avistas num sorvedouro similarmente, traje de alvo a aglomeração dos evos como de uma claridade da lua que te lembra a extinção. A extensão exauri-te até o patamar da reminiscência, o limiar do que te sobrepuja, onde derrama o teu quebranto, o carinho cálido de um pranto, o meneio de indícios que se equivalem como repercussões de um dédalo.
Sai desse quarto poeta, que enclausuraste e te fez cair no abismo….
Devo olhar de néscios olhos para a beleza, para o que ecs-tasia o íntimo e o mais profundo, para a volúpia da carne fresca e ávida de prazeres insolentes.
O que levo dessa vida efêmera tanto vale se é a glória, fama, amor, ciência e vida, como se fosse apenas a memória de um tripúdio bem planejado e projetado, o xis da ec-sistência, por ser eternamente definitiva incógnita, dispensa minha ciência, dispensa a religião que não cultuo, debocha da máxima latina “cogito ergo sum”, aos olhos da sensibilidade e do espírito verdadeiro despautério. O mistério sinistro ou fascinante da morte, por ser assaz metafísico, dispensa o prosaísmo a que estou mais que familiarizado, e sou capaz de elevar-me além do Olimpo, onde os verbos traduzem a conjugação sublime de sua raiz ligada ao sufixo, as palavras verbalizam o eterno de ser sensível. Resolvo, para os devidos fins e conformes, dar o cabo de mim, varrer-me pros confins, muito além do jardim...


(**RIO DE JANEIRO**, 04 DE JUNHO DE 2017)


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