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quinta-feira, 31 de março de 2016

**NÁUSEA DO VAZIO/VAZIO DA NÁUSEA - XXIII PARTE** - Manoel Ferreira


A caminhada da vida... Tantas intempéries, tantos percalços. Precisamos respostas. Entregamo-nos aos questionamentos, indagações, mergulhamos profundo em nós mesmos, nalgum cofre da inconsciência a luz.
Esquecemos das dimensões trans-cendentais; centramo-nos nas contingências, vazios, náuseas, nada, efêmeros, angústias, tristezas, solidão, são o que nos dará a resposta de que tanto necessitamos. Foge-nos o outro, foge-nos a entrega, foge-nos o amor. A vida são contingências, é através das buscas do que há atrás delas que nos encontraremos, virá-las pelo avesso, às avessas. Perdemo-nos. Andamos na sombra, nas trevas. Zumbis no mundo.
Pus a minha vela no cantinho da janela. Um símbolo. Senti que era o momento de partir, de seguir a viagem. Estava livre para esta jornada. Não sentirei solidão. Sem amarras, sem algemas, sem correntes. Abrir a "gaiolinha", deixar os pássaros voarem, voarem, voarem. Abrir as dimensões sensíveis, emoções, sensações, sentimentos, mesmo sem saber verbalizá-los, deixá-los livres. Chegarei ao meu destino, chegarei à colina. A liberdade de amar não me deixará sozinho.
Sentado naquele restaurante, alheio a tudo que estava acontecendo, pensava na minha vida, inventariava os éritos do passado. Olhei de soslaio, percebi uma jovem mulher olhando-me muito profundamente. De repente, levantou-se de sua mesa, aproximou-se da minha: "Posso sentar-me aqui com você?" Disse que sim, puxei-lhe a cadeira. "De hoje em diante, considero você meu namorado." Enquanto pensamos na vida, a vida está acontecendo, a vida acontece. Não esperava mesmo que uma mulher fosse ser tão direta comigo, sem me conhecer, dizer que me considerava seu namorado. E tais palavras deram panos para mangas. Ficamos muito tempo conversando, expondo-nos. Disse a Berenice o que achava podia fazê-lo. Segredos, mistérios. Ela não. Abria-se espontaneamente. De início, fiquei espantado com tanta sinceridade, dizia-me tantas verdades. Sensível, sincera, verdadeira - foram as virtudes e valores que percebi nela, senti-me admirado. "Quê mulher fantástica!... Não será que esteja sonhando? Só pode... Nada acontece assim deste modo."
Deixei-a em casa.
- Sérgio, então...
- Então o quê, Berenice?
- Quando nos encontraremos novamente? Disse sério mesmo. Considero sim você meu namorado. Não saí do restaurante com você de mãos dadas apenas como uma aventura, aventura de poucos minutos. Um beijo, um abraço. E nunca mais.
- É o que deseja mesmo, Berenice?
- Sim... Quero você na minha vida.
- Podemos tentar, não é verdade? Se não der certo, cada um segue o seu próprio caminho.
- Tudo vai dar certo... Depende de você exclusivamente.
- Como assim: depende de mim? Não entendi.
- Deixe para lá...
Não houve beijo. Apenas um abraço de despedida.
- Amanhã nos encontraremos, Sergio...
- Virei vê-la...
- Está bem...
Fui eu a procurá-la sim no outro dia. Não me saiu da mente um só segundo por todo o dia. Queria reencontrá-la, ver mesmo que não estive sonhando, Berenice era uma verdade. Alguma coisa não estava bem em mim, mas não soube verbalizar. Estava estranho, apesar de sentir-me alegre.



Manoel Ferreira Neto.
(31 de março de 2016)


**NÁUSEA DO VAZIO/VAZIO DA NÁUSEA - XXII PARTE** - Manoel Ferreira


Nada fácil colocar seis drágeas de remédios na mão feita concha... Sente-se que está vivendo de medicamentos. Contudo, é necessário. Berenice colocou-os num pires de xícara na minha frente.
- E é para tomar os remédios, Sérgio - disse-o categoricamente, sem qualquer chance de recusa - Estou vendo a sua carinha, olhando para eles. Você precisa de tomar os remédios. Quer ter um verdadeiro AVC e ficar com sequelas? Quer isto?
- Não quero. Deus me livre das sequelas que deixa o AVC. Deus me livre.
- Então, tome os remédios direitinho. Vai tomá-los nos horários prescritos pelo médico. Cuido disso.
- Está bem, meu amor.
Após o café da manhã, como estava uma manhã de sol ameno, agradável, fomos para o jardim. Berenice agarrada a mim: abraçando a minha cintura.
Sentamo-nos na mesa de mármore, lado a lado.
- Sérgio, posso lhe dizer uma coisa muito séria? Posso, meu amor querido?
- Pode dizer tudo o que quiser.
Beijou-me a face direita, beijo molhado de saliva. Sabe aquele friozinho que percorre todo o corpo? Senti esse frio perpassar-me por inteiro.
- Enquanto preparava o nosso café da manhã, estava me lembrando de quando nos conhecemos. Passei algumas noites pensando em você. Sinceramente, querido, angústias e vazios trituravam-lhe a alma, faziam de você um verdadeiro "zumbi". Estava sim perdido no mundo. Não via respostas para nada de sua vida. E insistia em viver isto. Não sabia o que fazer! Percebia que as coisas tinham de ser como você queria que fossem. Pensei comigo: "Vou deixar as coisas acontecerem. Esse casmurro de meu namorado vai ter de mudar..." Senti profundamente quando você sentiu o amor em você, e senti também que estava tenso, amedrontado. Deixei acontecer.
- Sim... Fiquei amedrontado. Lutei muito interiormente com isto. Luta ferrenha, Beré. E quanto mais lutava, mais dores e sofrimentos, mais tensões. Chegou ao limite.
- Já me disse o porquê de suas recusas em aceitar o amor por mim, admitir que me ama. Mas creio que também era por o vazio, as angústias serem dimensões de sua vida literária, queria vivê-los inteiramente, mergulhar neles, conhecer-lhes. Mas se esquecia do homem.
- O homem não é uma ilha. Desculpe-me o lugar-comum, mas é isso mesmo. Sem a dimensão do amor que habita o homem, ele nada é. Mas sei perfeitamente disso.
- E agora está se sentindo renascido? Angústias e vazios não lhe pegam mais, não é? Vive agora um amor real, humano.
- Sei que a solidão em que estava mergulhado nela fazia de mim um zumbi.
- A sua situação estava, era muito grave, Sérgio - riu - Essa Berenice aqui é do balacobaco, Sérgio.
- Oh, se é... Uma coisa foi muito importante, amor. Você não fez exigências, não pegou no meu pé para mudanças. Deixou as coisas acontecerem naturalmente. Digo-lhe: com exigências, faço tudo da mesma forma, ainda pior. Não aceito exigências.
- Sempre soube disso. Você, amor, é um perfeito "casmurrão". Sou mulher. Tenho os meus jeitinhos de lidar com as coisas.
- Rendi-me ao amor, mergulhando no meu estado de humanidade a viver a vida.
- Agora é viver a vida na sua dimensão humana, verdadeiramente humana. Era disso que você estava precisando: encontrar sua identidade humana, um norte. Sou o seu norte, sua bússola, sua companheira, sua mulher que o ama demais, ama muito mesmo.
- Não encontrei apenas uma bússola, um norte. Encontrei uma mestra para me seguir, uma mestra do amor.
- O amor transcende a tudo. Amor da essência de que é feito o ser humano. A insustentável leveza do ser pode-se traduzir ao transbordamento da felicidade, não acha?
- Do vazio à plen-itude do amor.
Levantei-me da mesa. Andei um pouco pelo jardim. Berenice ficou me olhando. Senti os seus olhos nas minhas costas. Havia intuído algo que iria dizer. Por isto, levantei-me da mesa. Achei muito precipitado o que me ocorreu. Com ternura, acariciei uma rosa branca.
- Sérgio - chamou-me - Por que não diz o que está pensando? Diga, meu bem... Estou aqui para ouvir.
Virei-me. Estava naquela posição tão a si peculiar: cotovelos nos joelhos, amparando o queixo com as mãos, olhando-me fixamente. E no olhar a espera de algo.
Levantou-se da mesa, foi ao meu encontro. Abraçamo-nos. Beijamo-nos. Maravilhosos os sentimentos, lindos.
- Então, meu amor...
- Então, o quê?
- Vai me dizer ou não o que está pensando?
- Fico admirado como você me conhece, conhece profundamente. Está dentro de mim, escarafunchando-me.
- Meu amor, deixe de rodeios... Precisa de parar com estas escapadelas.
- Está bem...
- Diga...
- Quer se casar comigo verdadeiramente? Casamento como manda o figurino.
- Meu amorzinho querido...
Pulou no meu pescoço de um modo que caimos no chão. Rolamos na grama, abraçando, beijando, amando-nos.
- Era tudo o que eu queria ouvir, Sérgio... Sim, vamo-nos casar como manda o figurino. Agora, amor, preciso ir aos afazeres. Tenho de fazer umas compras no centro da cidade. Acho que não tem problema de irmos juntos. O sol não está quente.
Fomos nos produzir para sair.



Manoel Ferreira Neto.

(31 de março de 2016)

*HISTÓRIA DE AMOR** - Manoel Ferreira


Há tantas lindas histórias de amor na Literatura. Histórias que se tornaram universais, eternas, lidas, relidas, translidas até hoje. Os corações dos leitores pulsam, sonhos e esperanças do Amor, da felicidade, da alegria. Despertam o leitor sim para o encontro do Amor.
Nada crio, nada componho, se em mim não sinto, se não me habita. A minha criação depende substancialmente das verdades na alma. Há muitas coisas que gostaria de escrever, mas não são de minha realidade. Quem sabe algum dia venham a sê-lo.
História de amor era algo que gostaria de escrever. Tentei duas vezes, a partir das minhas relações com as minhas ex-mulheres, acabaram não sendo "história de amor", estava equivocado: não as amava. Os escritores enganamo-nos em demasia com o Amor. Criamos o Amor em nós por alguém, mas no quotidiano des-cobrimos tudo não haver passado de ilusão, fantasia, ficção pura.
Não sou homem que espera do Amor o absoluto, a verdade, a pureza, a singeleza. O amor é humano: traz em si todas as dimensões humanas, desde os problemas às conquistas. Esperava do Amor apenas a dimensão humana, a minha dimensão humana. Numa outra dimensão: "A insustentável leveza do ser pode-se traduzir ao transbordamento da felicidade".
O amor aconteceu na minha vida. Muitos problemas em todos os níveis antes de assumi-lo, não fora fácil. Angústias e vazios faziam de mim um "zumbi". Como escritor, não queria afastar-me deles, eram os meus "utensílios" de jornada na Literatura, na Filosofia. Ao mesmo tempo, era mister que eu vivesse a minha identidade, amor da essência de que é feito o ser humano. Muitos problemas aconteceram, mas rendi-me ao amor.
Decidi então escrever um romance. Do vazio à plen-itude do amor. Quê tarefa árdua! De início, senti-me inseguro, não seria capaz desta façanha. Mas quando presenciei tantas curtições dos amigos, curtições até de quem não conhecia. Os comentários... Neles, as amigas cobrando de mim que Sérgio e Berenice vivessem o amor que lhes habitava, amavam-se demais, tinham direito a viver o grande amor. Ouvi os pedidos das amigas. Estão eles agora vivendo o grande amor. Sérgio precisava de um norte na sua vida, de uma bússola que o acompanhasse na vida, saísse das angústias e do vazio, entregasse-se ao amor, à plen-itude do amor.
Não é tão simples escrever um romance on-line. Escrever o capítulo e publicar, escrever o capítulo e publicar. Fica-se à mercê dos leitores, suas opiniões, suas exigências... Mas isto para mim está sendo muitíssimo mágico, um esplendor mesmo.
Vamos em frente. Vou contar essa história que está cativando tanto os leitores. Um romance de travessia...



Manoel Ferreira Neto.
(31 de março de 2016)


**NÁUSEA DO VAZIO/VAZIO DA NÁUSEA - XXI PARTE** - Manoel Ferreira


O sol açoitava com um feixe de raios de ouro as vidraças do quarto quando acordei, por volta das oito horas da manhã. Sensação deliciosa de calma, de repouso, de bem-estar, acariciava-me os membros.
A porta do quarto abriu-se. Era Berenice. Cabelos molhados - havia acabado de tomar banho -, estava de penoir cinza, alegre, o rostinho resplandecia alegria.
- Como dorme! - exclamou, sentando-se ao meu lado, beijando-me - Você está bem, amor?
Primeira manhã após retornar do hospital.
- Estou bem sim, amorzinho.
- Ainda estou de férias. Vou cuidar de você. Sérgio, você precisa de muito repouso. Ouviu o médico falar para não sobrecarregar a mente. Isto significa que deve ficar uns dias sem escrever.
- Ah, não... Isso não...
- Sim senhor... Uns dias não vão lhe custar muito.
- No final da tarde, algumas palavras...
- Dia ou outro deixo sim... Você ama o meu jardim. Tem aquela mesa de mármore lá. Escrever sob o contato da natureza, das flores, o ventinho ameno deve ser muito bom. Costumo fazer os meus trabalhos da faculdade lá. Aprecio bastante. Mas criar literatura é muito diferente.
- Está bem, aceito...
- Você é dócil, Sérgio - deu uma risadinha, beijou-me os lábios - Só é preciso saber conversar com você. Benzinho, não faça mais isto comigo, por favor! Fiquei completamente desnorteada, quando você caiu de rosto no prato de comida. Dei um pulo da mesa nem sei como. Levantei você. Estava desmaiado. Papai me ajudou a levar você para o quarto. Deitamos você na cama. Esperamos uns dez minutos para você acordar do desmaio. Levamos você para o hospital às pressas. Não parava de chorar com a sua cabeça no meu colo, passando a mão no seu rosto. Esperava que acordasse com o carinho. Nada. No hospital, direto para o CTI, princípio de AVC. E você sabe o que causa isto, não sabe?
- Preocupações, tensões... Não se esqueça, Benzinho. Sou psicólogo.
- E não se cuida! Isso é que é.
- Está bem agora. É o que importa. Mas precisa ser cuidado. Ah, Sérgio, vou trazer você num "cortado" só. Vai ver comigo. Entendo que um homem sozinho não sabe se cuidar. E você, além de ser muito disperso, não liga. Está escrevendo é o quanto basta. E a sua vida, como fica ela? Você morre as letras ficam aí.
- Arrumei uma babá - disse-o, dando uma gargalhada - Meu Deus!... Nessa idade...
- Sim, arrumou... E uma babá que o ama muito, muito, muito... Amor, vou arrumar o seu café da manhã. Tome um banho. Fará bem a você. Não tranque a porta do banheiro. Por favor...
- Está bem... Estava mesmo pensando em tomar banho. Se não o faço de manhã, meu dia é verdadeiramente um lixo.
Berenice levantou-se da cama. Foi até o armário embutido, retirou um penoir de dentro, penoir de seu pai. Entregou-lhe a Sérgio.
- Sabonete e toalha tem lá no banheiro. Já está arrumado para o seu banho.
- Está bem, meu amor... Obrigado.
Berenice foi arrumar o café da manhã de Sérgio. Apesar de ainda preocupada comigo, estava feliz. Meu Deus, como uma mulher pode amar um homem desse modo!
Abri a torneira do chuveiro.
Então, começa para mim uma vida nova.
Às vezes, num estado de semi-inconsciência interminável - durante os dias após a crise de vazio -, via-me condenado a viver numa espécie de sonho interminável, singular pesadelo de lutas estéreis. Espantado, tentava reagir contra aquela fatalidade, mas, no momento mais desesperado de uma luta encarniçada, um poder desconhecido derrubava-me de novo. Sensações indescritíveis. Voltava a sentir que se desvanecia outra vez um abismo de escuridão profunda, sem limites, sem nada diante de mim. E precipitava-me, gritando interiormente - ouvia os meus gritos - de angústia e de desespero. O que sentia por Berenice era muito forte e muito presente. E quanto mais lutava contra estes sentimentos mais e mais as manifestações psíquicas, emocionais se revelavam.Outras vezes, pelo contrário, eram instantes de felicidade. Meu corpo adquiria uma vivacidade enorme; a hora atual só era alegria e vitoria, acordado, sonhava uma felicidade inaudita. Uma esperança inefável vivifica a alma como o orvalho; quiseramos chorar de alegria, e, se bem o organismo seja vencido por tantas sensações extremas, enquanto sintamos o tecido da vida desgarrar-se, regozijamo-nos de uma regeneração e de uma ressurreição.
Abre-se a porta do banheiro.
- Benzinho, você está bem?
- Estou, meu amor.
- Fiquei preocupada. Estava demorando no banho.
- Estou aqui sentado debaixo da água, deixando-a cair em mim. Sabia que, se você deixar a água penetrar-lhe a carne, é uma maravilha para as tensões do corpo, psíquicas. Amo de paixão a água. Faz-me muito bem.
- Vou deixar você terminar seu banho.
- Já estou de saída, meu amor.
- O nosso café da manhã já está na mesa.
- Sim, querida...
Berenice fechou a porta do banheiro. Fechei a torneira. Enxuguei-me na toalha. Vesti o penoir. Sai.



Manoel Ferreira Neto.
(31 de março de 2016)


quarta-feira, 30 de março de 2016

**PARABÉNS POR SEU ANIVERSÁRIO, MESTRA E AMIGA RITA HELENA NEVES** - Manoel Ferreira


Para mim, a gratidão é o gesto sublime da vida, do homem. Saber agradecer com sinceridade, com amizade, com amor e carinho é uma arte das mais mágicas.
Se se deseja profundamente a caminhada para o ser, mister trans-formações, mudanças, estar disponível a novos conhecimentos, experiências e vivências. Precisamos de mãos que se nos estendam, que nos ofereçam amizade, que nos leguem a confiança, que nos incentivem, que nos impulsionem. Muitas vezes, e quase todas, pensamos que estamos prontos, acabados, atingimos nível inestimável, fechamos os horizontes à frente, tornamo-nos "poste de cimento armado". Negamo-nos as transformações que nos são necessárias. Puro orgulho.
Lembro-me, prezada e inestimável Mestra e Amiga Rita Helena Neves, como se estivesse agora, quando abri uma notificação, havia um comentário de seu, comentário sem precedentes, comentário sensível, inteligente, de profundo conhecimento, comentário de arte e intelectualidade. Pensara comigo próprio: "Neste nível, eis um comentário que trans-forma, muda os caminhos, re-vela outros horizontes". Preparei o post com todo carinho, amizade, ternura, era merecedor de figurar nas minhas páginas, nas de que participo. Os amigos assim vão conhecer mais profundamente as minhas "coisinhas". Fi-lo. E tantas vezes os seus comentários inteligentes, sensíveis, profundos revelando com categoria as profundidades de minha obra, que decidi presentear-lhe com uma Comunidade de só críticas suas.
Ao longo do tempo, fui eu próprio conhecendo as entre-linhas dos textos, das poesias, a minha filosofia foi se tornando mais nítida, mais clara, mais transparente, dando-me oportunidade e chance de mergulhar inda mais em mim, abrir os cofres inauditos da inconsciência, da intelectualidade, as "gaiolinhas" da sensibilidade, libertando os pássaros, deixando-lhes voarem, voarem, voarem. E mesmo o homem fora se trans-formando sensivelmente. Tudo se transformando, tudo se transformando, novas idéias, novos ideais, novos sonhos, novas esperanças.
Tenho o orgulho de dizer publicamente que o seu carinho com a minha obra - obra que tanto conhece profundamente -, com a sua amizade por mim, desejando-me o melhor na vida de escritor, de homem. Uma amizade sincera e verdadeira, uma entrega intelectual
absoluta.
Hojé é o seu Aniversário. Odeio isto de "Parabéns! Felicidades! Sua vida seja plena de realizações e conquistas". Cumprimento os amigos reais e virtuais com estas palavras, mas revelo os meus sentimentos. E por quê? - perguntar-me-á você. São lugares-comuns, e eles nada dizem. Mas eu digo com eles.
Durante todo o dia de hoje, estive pensando como iria cumprimentá-la por seu aniversário. Fosse no real, escreveria uma mensagem num cartão escolhido a olhos de lince. Cumprimentá-la não significava apenas os desejos de felicidade, de conquistas, de realizações; cumprimentá-la significava mostrar-lhe "de verdade" a amizade que nutro por você, sempre o melhor e mais melhor conquiste, realize.
Feliz Aniversário, minha Mestra querida, minha Amiga inestimável. E muitíssimo obrigado de coração por todas as coisas que venho conquistando na vida literária com a sua presença ao meu lado, presença de amizade e de críticas sem precedentes.
SEJA MUITO FELIZ MESTRA.
Um grande Abraço!!!



Manoel Ferreira Neto.
(30 de março de 2016)


**NÁUSEA DO VAZIO/VAZIO DA NÁUSEA - XX PARTE** - Manoel Ferreira


Saindo do hospital, tendo ficado cinco dias internado:
- Berenice, estou brincando, e com pouca arte, ou nenhuma, não faz a mínima diferença, mas tudo não é alegre na minha galhofa. Quiçá ranja os dentes... Berenice: vários mistérios me inquietam: explique-mos!
Falava sério, cada palavra muito bem pronunciada, em voz baixa. Ultrapassando a porta do hospital, tomaríamos um táxi, dissera-me:
- Saindo do hospital, você com as suas coisas sérias engraçadas. Valha-me Deus!...
- Não é nada engraçado, meu amor querido. Pense bem: querem transformar o homem segundo as exigências da ciência e do bom senso. Já pensou o bom senso de um homem? Prefiro o nonsense do homem, é uma coisa linda de se con-templar, enquanto o bom senso é de se arrebitar o rabo e sair na carreira de tão ridículo. Mas como sabem que o homem pode ser trans-formado, que deve ser trans-formado? Como sabem que essa trans-formação será útil ao homem. É uma suposição gratuita. É lógica, mas não humana. Você deve estar pensando que estou louco?
- Você não é louco, não está louco, meu amor - disse, abrindo a porta traseira do táxi, mandando-me entrar.
O táxi dera partida.
- Está se sentindo bem, Sérgio? Vou cuidar de você. Ficará de repouso completo.
- Está bem... Mas continuo com o que estava dizendo. O homem gosta, ama, é apaixonado por construir, é evidente. Mas por que gosta também de destruir? Não será porque sente horror instintivo de chegar ao fim, de terminar suas construções - Berenice dera uma gargalhada. Sabia o que causara a gargalhada: "horror instintivo". Até o motorista riu, aquele risinho comedido, de quem só deveria ouvir sem nada expressar, estava a serviço, coisas de clientes são coisas de clientes - Talvez só chege a construir em projeto: talvez goste de construir casas para não as habitar, em seguida abandonando-as às formigas e aos animais caseiros. As formigas tem outros gostos que o homem. Constroem seus formigueiros para a eternidade, é a finalidade de toda a sua existência e o seu único ideal, o que lhes honra a constância e o espírito positivo. Vamos construir juntos o nosso "ninho" de amor, com amor, carinho, ternura, amizade, é a finalidade de nossa existência, o nosso único ideal.
- Amor, pára com esta palhaçada... Não sei se fico contente com você ou se lhe puxo as orelhas - ria, ria, ria... - Sair do hospital com este espírito galhofeiro, é realmente muito bom, fico feliz.
- O homem, ao contrário, espírito leviano, é um eterno jogador de xadrez: gosta mais dos meios que do fim e - quem sabe? - não serão os meios o verdadeiro fim? Não consiste a vida humana em certo movimento para um certo fim? E qual é esse fim? Esse fim, é óbvio, só pode ser uma fórmula, duas vezes dois são quatro, fórmula que já não é a vida - Berenice - mas o começo da morte.
- Não, Sérgio, dois e dois não são quatro, são cinco - ria de deixar lágrimas nos olhos - Você está de amargar, Sérgio.
- Vamos supor que o homem consagre toda a sua vida a procurar essa fórmula. Atravessa oceanos, pula no abismo, salta o muro do cemitério à meia-noite, expõe-se a todos os perigos, sacrifica a vida a esses estudos.
O motorista deixou de lado as suas diplomacias de profissional, ria demais, ria a bandeiras soltas.
- É seu marido, senhora? - virou a cabeça para trás.
- Meu namorado.
- Tem um humor muito engraçado. Ah, quem dera tivesse clientes com este humor nas corridas.
- Não é humor, motorista. Sérgio é um verdadeiro palhaço. Não viu nada ainda.
- Mas, asseguro-lhe, Berenice, o homem tem verddeiro pavor de conseguir encontrar a fórmula. Percebe perfeitamente, genialidade pura, que, quando a tiver des-coberto, não terá nada mais que procurar.
- Amor, o que você tem? Está me preocupando... Você está bem?
- Estou bem, querida. Os operários, quando terminam o trabalho recebem o dinheiro, vão ao botequim e, dali, à delegacia. Eis um trabalho para toda a semana.
- Do botequim para onde, Sérgio?
- Do botequim para a cadeia.
Se antes estava rindo com moderação, neste momento não conseguia parar de rir. O motorista também não. "Do botequim para a cadeia" Mas aonde irá o homem? Atrás da fórmula? Quê burla! Numa palavrita apenas, o homem é uma máquina ridícula, seu ambiente é o trocadilho. - o motorista deu uma freada brusca.
- Sérgio, pare com isto! Por favor... Suas idiotices quase fazem o motorista atropelar um pedestre.
- Concordo que duas vezes dois são quatro: é uma linda coisa, fascinante, mágica, maravilhosa, esplendorosa... Mas, no fundo, duas vezes dois são cinco: também não está mal...
O motorista estacionou o carro na porta da casa de Berenice.
- Senhor, aqui está o meu cartãozinho - estendera-me a mão - Quando precisar de corrida, pode chamar-me. Muito boa a sua presença. Estava com algumas preocupações, sumiram todas.
- Não queira, motorista... Sérgio é um palhaço. Muito obrigado.
Entramos em casa.



Manoel Ferreira Neto.
(30 de março de 2016)


terça-feira, 29 de março de 2016

**NÁUSEA DO VAZIO/VAZIO DA NÁUSEA - XIX PARTE** - Manoel Ferreira


- Amor, você está se sentindo bem? - perguntou-me Berenice. Estava acordando, voltando do desmaio.
- O que é isto? Onde eu estou, Beré?
- Tive tanto medo de perder você, Sérgio. Estávamos almoçando com meus pais, você simplesmente desmaiou. Caiu com o rosto no prato de comida. Fiquei louca. Papai e eu trouxemos você às pressas para o Hospital? Não faça isso mais comigo, benzinho. Ficou desacordado por dois dias no CTI.
Está sentada numa cadeira ao lado da cama do CTI. Passava a mão com muita ternura na minha testa, afagava-me os cabelos, olhava-me com uns olhinhos azuis tão tristes.
- Estou no Hospital? Dois dias desacordado?
- Sérgio, por favor, você não pode exasperar-se. Está ainda no CTI.
- E o que eu tenho?
- Princípio de AVC. Disse aos médicos que teve uma crise de vazio muito forte. Estava sozinho em sua casa. Correu o risco de ter realmente um AVC. Tinha de ter procurado um médico logo. Depois de quatro semanas desmaia.
- E quanto tempo vou ficar aqui?
- Depois de amanhã você sai do CTI. Temos um apartamento. Estou dormindo aqui no Hospital desde que foi internado. Aqui no CTI não posso ficar com você. Posso ficar no hospital, no apartamento.
- AVC...
- Os médicos dizem o que causou este princípio de AVC.
- Tensão nervosa. Agora estou entendendo a gravidade dos tormentos que estava sentindo por não querer assumir o seu amor por mim.
- Beré, meu amor... Tive muitos pesadelos e não sabia verbalizar. Essa tensão nervosa foi causada pelos pesadelos que não sabia explicar. Sonhava com trevas, pura treva.
- Não vamos conversar sobre isso. Precisa de muito repouso.
Berenice foi procurar o médico que não se encontrava no CTI. Disse à enfermeira que cuidasse de mim, enquanto ela achava o médico. Tinha voltado do desmaio.
Quando o amor brilha nos homens, tudo se realiza. No méttier dos artistas, em todos os níveis, diz-se: "Quando o amor brilha nos artistas, o nome está inscrito nas estrelas".
Erros, enganos, equívocos acontecem numa relação íntima. Ferir os sentimentos de alguém, magoar, ressentir, difícil haver o perdão. Havendo amor verdadeiro, perdoa, mas ao longo do tempo percebe-se ser sempre sombra a acompanhar os passos.
Sabia que Berenice estava sofrendo muito, uma dor inestimável. Amava-me e eu não correspondia a este amor. O que fazer? Queria enveredar-me pelo vazio a fora, conhecer-lhe profundamente. Mas amava você. Descobri que podia viver as duas coisas ao mesmo tempo. Não me perdoaria jamais se eu terminasse com Berenice. Iria sofrer muito. Seguiria o vazio e as letras. Eram a minha alma. É a minha alma.
Não se fica sabendo de histórias à toa. Alguma lição ser ministrada. Aí a oportunidade para saber discernir onde o amor está presente.
Casal se encontrou virtualmente, apaixonaram-me, mas por parte do homem havia muitos problemas estava com sérios problemas, amava o namorado, era verdadeiro, mas ela estava com problemas sérios no casamento. Por razão de seu estado de saúde, fora internado, passando setenta e cinco dias no CTI. Saindo, entrou em contato com uma amiga, conversasse com o namorado, estava com medo de aproximar, ser refutada por ele, o melhor era seguir a vida sem o namorado, nunca o esqueceria. Houve o encontro deles no bate-papo, conversaram um pouco sobre como fora a relação deles. Havia muito o que fazer naquele dia, iria fazer o almoço, no horário em que se encontravam ela voltaria on-line. "Voltaria..." que passou ano e meio. Estando ela on-line decidiu chamar. Chamada que durou horas de conversa. Perdoou. Retornaram a relação. Casaram-se depois de seis meses. Divorciou-se do marido.
Tivemos nossos problemas, Berenice e eu, mas nosso amor ultrapassou os limites das contingências. Seguindo juntos, um escritor renomado e uma mulher que o ama demais, amam-se apaixonadamente - cultura, intelecto não fazem a vida, orientam os caminhos, o que gira os cataventos da jornada é o coração, sentimentos, puros. Vivemos felizes, briguinhas, rabos azedos, insatisfação, o famoso "... soltar os cachorros em cima de coleira e tudo..." existe, são os têmperos, ingredientes para os nomes escritos nas estrelas não apaguem, e elas deixem de brilhar. E há exemplo na história literária de casal de níveis diferentes, um intelectual, um imortal escritor, universal, uma mulher simples, dona de casa viveram uma vida de muita felicidade, Machado de Assis e sua fiel esposa.
Pombinhos que se encontraram numa churrascaria no bairro Bexiga, apaixonaram-se.
Berenice levantou-se de sua mesa e foi até a minha.
- Posso me sentar com você?
Convidei-a a sentar-se.
- Gostei de você... Seu nome é?
- Sergio Palanti.
- Gostei de você, Sérgio. De hoje em diante considero-me sua namorada.
Fora muito direta. A conversa prolongou-se por algum tempo. Saímos de mãos dadas da churrascaria. Tomei um táxi e a levei em sua casa.



Manoel Ferreira Neto.
(30 de março de 2016)