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sexta-feira, 31 de março de 2017

**CAÇA AOS PARVOS** - PINTURA:Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


"Um elefante incomoda muito a gente.../Incomoda", "Dois elefantes incomodam muito a gente... Incomodam... Incomodam..." Segue-se ininterruptamente.
Imagino nesta manhã serena, clima agradável por haver chovido um pouco na madrugada, se fossemos acumulando os sapos secos atravessados na garganta, acintes que nos jogam na cara, palavras de não que nos sussurram ao pé do ouvido, atitudes que cometem contra a nossa sensibilidade, julgamentos, censuras, discriminações, quererem-nos como as pessoas são, ovelhinhas de rebanho... Nada dizemos, nada respondemos, ficamos em silêncio. Eis que chega o momento em que os sapos secos nos impedem a respiração. Quê destino inglório: morrer asfixiado por sapos secos!
Mas não. Nunca houve quem colocasse uma gia sequinha, sequinha na minha garganta, sapo muito menos. Sigo a risca a lei do "toma lá/dá cá", e o sapo seco que era para estar em mim passa a estar na garganta de meu ofensor. Escolho as palavras devidas, a tonalidade da voz a critério, e digo na lata a resposta. De tempos imemoriais, trouxe comigo o verbo defectivo da alma humana, tocar-lhe com engenhosidade faz esvaecer qualquer revelação de orgulho, vaidade E jamais terão palavras para me responder, mesmo que vasculhem o dicionário do Aurélio Buarque à cata delas.
Admira-me sobremodo isto de as pessoas só jogarem pedras nas árvores frutíferas. As pessoas que nada produzem, nada fazem recebem medalhas de honra ao mérito, aplausos, três tapinhas no ombro, beijos na face. Ainda não assisti a uma cena de dois comparsas se beijando na boca como o fazem os russos. Quem sabe ainda vá assistir, serei eu a aplaudi-los com as minhas finesses e diplomacias a critério e rigor.
Nas Letras também espera-se que o artífice delas escreva o que todos desejam ouvir, colocando todos os entulhos da sociedade nalgum canto bem escondido, no meio do mato, numa caverna sombria e escura, para que ninguém saiba o que rola, o que incomoda, incomoda, incomoda muito. Se o artífice das letras passa por cima deste princípio e dogma, tacham-no de irresponsável, de insolente, polêmico, parvo. Os homens são dignos, a sociedade é honrada, o escritor é parvo. Começa-se então a caça, caça aos parvos.
Recentemente, muito recentemente, as recentidades não mentem, publiquei num grupo uma de minhas delícias do riso, da gargalhada. Não me sobrou outra "cosita" senão retirarem-me do grupo, estava incomodando, incomodando, incomodando, incomodando muito. Busquei, através de meus supimpas recursos, informações de como andavam as coisas. Disseram-me que até o Governo Federal estava à cata dos parvos da política numa determinada cidadezinha do interior de um Estado. A coisa lá está preta, muito preta... Prefeitura, Câmara Municipal estão entupaigatadas de entulhos, tem-se até dificuldades de entrar na Prefeitura para pagar os impostos de Ano Novo, saindo-se, os sapatos estão mais que sujos, numa fedentina sem eiras e beiras. E como as parvoíces a cada passo aumentam, aumentam, os políticos estão depositando os entulhos nas terras de outro município bem próximo, o lixo está incomodando, incomodando, incomodando os animais.
Estava explicada a questão do grupo retirar-me da participação, mexi no ninho de vespas. Mas o que é mais engraçado nesta parvoíce toda é que a minha delícia do riso e da gargalhada fora escrita a exatamente cinco anos, nunca tinha ouvido o nome desta cidade, nem sabia se estava incluída no mapa brasileiro, nem imaginava que os políticos excederam os limites das parvoíces, entulhos e mais entulhos por todos os cantos e recantos do município, e não mais sendo possível fazê-lo, passaram a depositá-los nas terras do município vizinho. Se as carapuças serviram bem, não sou o responsável, não sou o culpado. Uma das características da "delícia do riso e da gargalhada" é que as coisas sirvam em todos, sem exceção, qualquer um tem que colocar a carapuça e desfilar pelas ruas e avenidas, pomposo e orgulhoso, sem o que não é mais "delícia" e sim "amargura".
Não sou caçador, muito menos de parvos. A bem da verdade suprema, jamais fui a uma caçada, jamais cacei passarinhos na infância. Nada de caça. Agora se fosse iniciar uma carreira de caçador, não o faria no que tange aos parvos, não me dizem respeito. Passaria a caçar pavões. Grandes personalidades da caça informaram-me nada haver de mais delicioso do que caçar pavões. Não há na história da natureza único pavão que seja parvo, mas na história da humanidade há parvos pavões, com uma característica supimpa, os pés não são feios, e nem os sapatos sujos, brilham a qualquer faiscazinha de sol.
Mas, como supra está bem caracterizado, não sou homem que fica com sapo seco na garganta, um dia, quem sabe um dia, visite este município, num tempo em que as parvoíces políticas hajam sido extirpadas até a consumação dos tempos, dedicando-me nas letras a caçar os pavões desta comunidade, uma temporadazinha de caça aos pavões, pois serei apenas turista, visitante. Vou agradar a todos, vão-me aplaudir por somente estar passando nos becos. Na minha despedida na rodoviária, estarão todos presentes, personalidades de todos os naipes, para me homenagearam, dizer-me adeus, e pela janela, na saída no ônibus, os acenos acompanhados de sorrisos de orelhas a orelhas.


(**RIO DE JANEIRO**, 31 DE MARÇO DE 2017)


**OBSÉQUIO DE RÉDEAS E FARDOS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!


Relinchando, as idéias ficam mais íntegras, livres, isto para não dizer mais finas, dignas para um discurso na tribuna da Câmara Municipal, como resultado de méritos um solene banquete com todos os parlamentares de vestes a rigor, muito apetite para o menu, sede para uísques, vinhos e o excelentíssimo aperitivo de primeiríssima qualidade.
Pode haver quem, com toda a empáfia, pergunte o porquê de ser relinchando que as idéias são íntegras e livres, o que relincha, o cavalo, não tem idéias, não é livre, tem um dono, é celado, montado, puxado pelo freio. Não sou cavalo para relinchar – pode ser que assim me considere, reconheça-me, mesmo assim tenho idéias, penso, sinto as coisas do mundo, vejo tudo o que rola solto no métier da política. Não seria que julgo a minha voz verdadeiro relincho, assim a estridência a identifica. Por que relincho?,pergunta-me alguém, ansioso por uma res-posta a critério. Como vereador, dizer que relincho é negligenciar meus valores, virtudes, é fazer menos de mim, chamar o povo de desmiolado, imbecil, alienado, por votar num homem que não fala, relincha, relinchando é que se considera importante. Se não isto, que intenções sarcásticas, cínicas e irônicas trago comigo? O que pretendo criticar com veemência, esperando a reverência de todos?
Na Roma antiga, um cavalo branco foi eleito senador do império, poderia ser a minha res-posta, mas não atingiria o porquê de só relinchando as idéias ficarem mais íntegras, livres, enfim meu tempo é outro, séculos e mais séculos já se passaram desde que Incitatus fora tornado senador do império romano, naqueles tempos de só despautérios e ridículos os mais diversos; hoje é bem diferente, vivemos outras situações e circunstâncias, não há mais quaisquer despautérios, corrupção, ideologias chinfrins, abuso de poder, interesses, a política hoje vive de virtudes e valores, só parlamentares de princípios idôneos, de idéias sublimes, projetos inestimáveis. Meu Deus, demoraram muitos séculos e milênios para isto acontecer! Digo-me, às vezes, que talvez seja imaginação fértil de minha cachola misturada com os meus fortes e presentes desejos de uma política séria, de políticos honrados, responsáveis. Político hoje é símbolo de integridade ética e moral. Ser ou não ser político, eis a questão, para lembrar um pouco Shakespeare, anda esquecido, pois que sê-lo é ser sublime, superior, absoluto, é ser aclamado, reverenciado, reconhecido por todos os cantos e recantos da cidade, homens dando tapinhas afetuosos e carinhosos no ombro, gastando lindas palavras de elogios e considerações, mulheres beijando as mãos, olhos brilhantes de sedução, de tesão, não há quem não queira dormir com eles, depois de todos os prazeres, ser apontada como quem é merecedora de todos os reconhecimentos e considerações, foi politicada, isto para a mulher é importante, importantíssimo, a Igreja não a canonizaria por haver dormido com um padre, o padre seria expulso dela; não sê-lo, é exatamente o contrário, é nada ser, é nem existir neste mundo, é ser apenas um corpo a se movimentar, fazer gestos, andar de carne e osso. Ser político é ser deus nestes tempos de hoje, Zeus on qualquer outro no passado eram símbolos e ícones de só despautério e canalhice. A política é o pôr do sol de nossos tempos modernos, os políticos são as estrelas do universo, alguns a Polar, outros a Vésper.
Os senhores estão me olhando de viés, entreolhando-se entre si, sérios, compenetrados, pensativos. Não acreditam que esteja eu dizendo isto, ouvindo isto, não por ser despautério, por ser uma crítica às avessas, mas por serem verdades as palavras, as minhas considerações, sonharam por longos anos que isto um dia viesse a acontecer, receberem elogios os mais sublimes e supremos de um parlamentar, com os aplausos e felicidades de toda a comunidade. É um momento de fato inusitado em toda a história da humanidade, especialmente de nossa comunidade, que tem apenas cento e poucos anos de existência. E os senhores sabem que não fosse a aceitação de nosso povo, de eles saberem serem verdade os princípios éticos e morais de todos nós, não estaria aqui nesta tribuna, dirigindo-me aos senhores, a todos aqui presentes. Não sou homem de dizer as coisas às avessas, apenas para arrancar risos e gargalhadas, tapinhas no ombro pelos meus talentos de cínico, sarcástico, irônico, por isto ficar na história como quem teve a coragem absoluta de descascar os pepinos com elogios e reconhecimentos. Não, não sou homem deste naipe. Só digo quando tenho razão, quando tudo comprova os meus juízos sempre muito exigentes. Em verdade, sinto-me sobremodo emocionado, feliz da vida, dá-me vontade de dar alguns saltinhos de êxtase, mas me concentro apenas nos relinchos, só assim posso realmente expressar as minhas alegrias por estar presenciando este fato inédito em nossa comunidade, em toda a nossa nação, a política digna, os políticos de princípios morais e éticos.
Estive hoje pensando, espremendo os miolos de modo até agressivo, que, apesar de as ciências haverem progredido bastante, os meios de comunicação desenvolvidos muito, superamos com nitidez os inúmeros problemas de toda ordem dos séculos passados, mudamos nossa visão-(de)-mundo, pontos de vista, opiniões, olhamos o futuro à luz das esperanças e fé contingentes, transcendentes, sonhos e utopias outros, estamos “trancafiados” no passado, e parece que nada nos libertará disto, ou seja, política é ícone de canalhice, políticos, de súcias da raça humana. Em se tratando de nossa comunidade, são sete os políticos safados e cretinos, e na consideração dos ideológicos e interesseiros, oportunistas, os grandes, merecendo até bustos de bronze espalhados pela cidade a fora, e sete é um número mágico, transcendente, as ciências ocultas e letras apagadas já a-nunciaram, re-velaram, identificaram seus sentidos, símbolos, metáforas, até metonímias, acredite quem quiser. Sete é sete, não se discute.
Os homens estão em verdade precisando de se livrar do passado, dos tempos de Roma, dos últimos cinqüenta anos de nossa política brasileira, acreditarem piamente que hoje a política é diferente, os políticos homens de honra, dignidade, caráter; diferença é modo de relinchar, em verdade no métier da política tudo é divino e sublime.
Esqueçamos todos o passado da política, vivamos os nossos tempos que são uma dádiva de Deus, talvez outro tempo não virá mais como este, outra era de tanta sublimidade jamais acontecerá. Podemos todos bater à porta de Deus sem qualquer medo de não ser aceite no céu, de sermos enviados diretamente ao inferno, por nossas corrupções e safadezas. Não só podemos bater, como será aberta, podemos entrar, nem haverá juízo final para nós, o céu é o nosso descanso eterno, assistindo lá de cima todos os elogios dos vivos. Não como outros viveram no passado com relação aos comentários dos vivos: “Morreu, virou santo”.
Agradeço-lhes veementemente os aplausos neste instante, digo que estou emocionado. Não esperava tanta aceitação, tanta atenção de todos os presentes, especialmente dos políticos, pensara que de alguma forma seria convidado a interromper o meu discurso por esmola demais o santo desconfia. Mas não. Todos sentem na carne e nos ossos a sinceridade de meus relinchos neste momento histórico de nossa modernidade política. Mas deixem-me dar prosseguimento aos meus relinchos.
Não seria só relinchando, soltando relinchos nestas ou naquelas circunstâncias, situações, para mostrar aos homens de quaisquer credos, raças, ideologias e interesses, partidos, para convencer e persuadir que os tempos são outros. Nos tempos de Roma, Incitatus relinchar nos discursos do Senado era acinte à dignidade humana, era re-velar os despautérios políticos, a canalhice dos políticos, a suciedade da raça, estirpe humanas, mas hoje relinchar em discursos na tribuna, mostrar os dentes, insinuar ou dar coices à mercê das boas e dignas intenções de enfatizar as diferenças de posturas, condutas, princípios de nossos tempos, mostrando a todos como é importante nossos políticos estarem engajados na felicidade da comunidade, de suas necessidades urgentes, do respeito à cidadania, aos seus desejos de outra realidade que não a vivida noutrora, é a supremacia dos valores e virtudes da política, dos políticos, de todos nós que estamos interessados mesmo em divulgar e tornar verdade e real os novos tempos.
Não sei se tenho mais alguma coisa a relinchar. Difícil, muito difícil, relinchadas profundas, pois que a novidade de nossa política acaba de acontecer, e só no tempo mesmo podemos presenciar e saber de outras coisas que deverão se a-nunciar para concretizar a realidade; neste início, só podemos agradecer ao tempo e aos esforços de todos os homens políticos ou não por, enfim, estarmos vivendo diferentemente de outrora. O Senado comemora os defuntos, a Câmara não. Talvez a Câmara não deseje lembrar o próximo fim dos seus dias. O Senado embalsamado pela vitaliciedade, pode entrar sem susto nos cemitérios. Não é a lei que o há de matar.
Senhores, agradeço-lhes cordial e espiritualmente a grande oportunidade de relinchar nesta tribuna neste momento tão importante de nossa história, momento que batemos a mão no peito com todo orgulho e felicidade, por hoje não apenas sermos considerados políticos de honra e dignidade, a política estar sendo vivida para o povo, para o bem de todos, para a honra de toda a comunidade. Com efeito, sinto-me feliz por estar sendo o primeiro a a-nunciar estes novos tempos, também por que de hoje em diante o nosso Olimpo estar mais do que garantido na Eternidade.
Relinchar, relinchei!... Resta-nos desejar que toda a humanidade haja ouvido os relinchos que saíram pela primeira vez em nossa modernidade numa tribuna de Câmara Municipal!


(**RIO DE JANEIRO**, 01 DE ABRIL DE 2017)


**SE A DITA DOS MILITARES ENDURECE...** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Nova pré-ocupação – velhas tenho-as aos montes, não sei se os anos que ainda tenho de vida me possibilitarão resolvê-las a contento, verei realizado o que sonho -, trivial, pueril, abate-se sobre mim, mais uma a que me entregarei com todas as volúpias e ímpetos.
Lembrei-me de repente que havia sido convidado para um jantar, após o lançamento de uma obra de cunho histórico, cujo tema era a “Ditadura Militar” – “Nunca ouvira dizer que a dita dos militares endurecia”, ironizando, disse ao historiador, autor da obra, caindo na gargalhada, minha índole cínica como sempre à flor da pele; não era pergunta para se responder em público, numa fila de banco, poderia afiançar-me que catuaba, ovos de codorna, Viagra não surtem efeito algum, a resposta mesma com todos os detalhes ser-me-ia dada noutra ocasião em sua casa, no escritório, na minha, no mesmo lugar, de porta fechada. Uma reunião de homens sérios, intelectuais de ponta e lâmina afiadíssimas, indivíduos engajados com a verdade.
Imaginei-me no meio de uma multidão comportada e discreta, onde cada um é dono de si próprio, onde cada um depena as frangas de suas idéias e utopias com os mais egrégios argumentos, dialéticas todas na ponta da língua, num piscar de olhos; do ouvinte, cai o queixo, esbugalham-se os olhos, que magnífica inteligência, não sendo exagero ou paradoxo, que sublime genialidade, mas na história continuam as arbitrariedades. Sendo obrigado a esconder cuidadosamente o estado do meu espírito de por baixo da luz das muitas lâmpadas.
Estava quase certo de conseguir, ser sério e discreto no meio das tantas celebridades do intelecto e cultura, dos gênios e deuses militares com suas empáfias de representantes da lei, donos do poder, ser comportado, não soltar uma in-vertida sarcástica, deixando todos incomodados e desajeitados, os bagos dos olhos saltando das órbitas de tanta raiva e ódio, loucos por me jogarem no olho da rua, impedindo a diplomacia, serem objeto de comentários os mais radicais, pois que a minha fala não fora outra senão o que se encontra bem escondidinho nos bastidores da ditadura militar; sentia-me quase desfalecendo ao pensar nos esforços de vontade que teria de desenvolver numa reunião cujos tema e assunto outros não seriam senão a “Ditadura Militar”, perfeito ícone de ironia, absoluto objeto de troças mil, tomando de início em consideração que o levante militar aconteceu em 1º de abril, Dia Internacional da Mentira, passando a ser nos livros de história em 31 de março – dizer “revolução” é ser imbecil, em verdade os militares tomaram o poder, queriam provar à nação brasileira que eram poderosos, eram os salvadores da pátria, defensores do povo, o comunismo era um acinte ao povo de bons princípios éticos e morais.
Por não sei que acidente, as palavras do Evangelho se me re-velaram de imediato: “Ai de quem escandalizar o próximo” – os intelectuais escandalizaram os militares, foram sumidos ou exilados, presos; alguém, aliás, certa vez dissera-me que se eu estivesse atuando, publicando o meu jornal na época da ditadura, seria sumido ou exilado, sou carne de pescoço, dura de mastigar – acabava de fazer irrupção na minha memória e, querendo esquecê-las, esforçando-me para esquecê-las, repetia-as incessantemente na minha mente.
Com efeito, era a minha manifestação de medo de estar presente no lançamento da obra histórica, no jantar; militares estariam presentes, só de imaginar que são reais, detêm o poder, existem, a todos os civis olham de banda, esperam qualquer deslize para o bote, só não o fazem com os bandidos, sujam as calças só de pensar neles; o espírito de troça se me re-vela, ou menor, “espírito trocador”, não tenho força para policiá-lo, isto porque o poder deles é aparente, no fundo são fracos, inúteis, atoleimados, ostentam poder para esconderem as mazelas psíquicas e emocionais.
Minha desgraça (pois era uma verdadeira desgraça) tomou então proporções grandiosas. Resolvi, apesar de minha fraqueza, fazer um ato enérgico e consultar um psicólogo, pois desconhecia os antídotos para a compulsão dos cinismos, ironias, sarcasmos na ponta da língua, à flor da pele, quando se diz respeito a estar no meio dos militares, e queria ir ao lançamento do livro de meu amigo, cujo tema era a ditadura militar, de espírito livre e des-impedido na sociedade onde o dever me chamava, devia cobrir o evento, escrever algumas linhas no jornal, parabenizando o historiador por sua cor-agem e determinação em jogar as cartas da “Ditadura Militar” sobre a mesa, sem piedade e dó, correndo riscos os mais sérios de ser perseguido.
Na porta do consultório da psicóloga, fui repentinamente assaltado por um pensamento que me fez parar alguns instantes e deu-me o que pensar. Acabava de olhar-me, no caminho, no espelho de uma vitrine de roupas prontas, e meu rosto tinha me espantado. A palidez, os lábios para dentro, os olhos enormes! Jamais vira a minha imagem re-fletida assim, até desconfiei de que alguém estava atrás de mim, era a dele que se refletia, a minha mesma não o estava. Virei-me, ninguém. Era a minha imagem. Vi-me transformado num monstro.
Do caixa, olhava-me um homem, creio ser o proprietário. Da imagem no espelho, observava-o, dizendo-me: “Vou deixar esse bom homem preocupado, pensei, e por tamanha bobagem”. Acrescente-se a isso o sentimento de ridículo que queria evitar, o receio de achar gente na loja, todos estarem a observar-me através da imagem no espelho. Mas minha repentina benevolência para com o lojista dominava todos os outros sentimentos. Imaginava aquele homem tanto sensível quanto eu naquele momento funesto, a caminho de um consultório de psicólogo, para saber o antídoto contra cinismo, ironia, sarcasmo, quando só imagino militares, quando tenho de estar no meio deles e, como também imaginava que seu ouvido e sua alma deviam, como os meus, vibrar ao menor ruído, resolvi aproximar do caixa, perguntar sobre um terno de linho branco, calça e paletó, se tinha o meu número, calça 40, caminha 4. Tinha de usar da máxima discrição, enfim continuavam em mim presente a palidez, os lábios para dentro, os olhos enormes, re-colhidos e a-colhidos na imagem do espelho, com um homem em que vou inspirar piedade, precisa com urgência de terno de linho branco para mudar a minha imagem. Também, a caminho do caixa, prometia-me abafar o som da minha voz, como o barulho dos meus passos, a voz do medo, da angústia, do espanto. Grave, profunda, gutural, parecendo muito com a dos velhos nazistas alemães, com os cinqüentões ditadores brasileiros. Dei meia volta, saí da loja às pressas, naquele momento passavam devidamente fardados, muito bem engomados, calças vincadas, sapatos marrons brilhando à luz do sol, dois militares, sérios, compenetrados, olharam-me de soslaio, cochicharam algo, continuando andando.
Entrei no consultório. A psicóloga estava sem paciente naquele momento. Atendeu-me. Todas aquelas determinações a que me propus na loja de roupas prontas, após ver a minha imagem re-fletida no espelho, pus em prática. O resultado foi oposto do que desejava obter. Resolvido a tranqüilizar a psicóloga, estava apavorando-a.Nada sabia daquela doença, só de imaginar militares, de ter de estar no meio deles num evento, intelectual ou apenas social, as troças se me revelam espontâneas, descasco as mazelas militares até na medula, nunca tinha ouvido falar nisso. Entretanto, olhava-me ela com uma curiosidade matizada de des-confiança. Imaginava ela que era eu um desvairado, um imbecil, um artista da mais alta índole. Talvez nem uma coisa nem outra, mas todas essas idéias absurdas atravessaram meu cérebro de ponta a ponta, in-versa e verticalmente.
Fui forçado a explicar-lhe (que cansaço, meu Deus! Nunca consegui entender tanta dificuldade de explicar as coisas!) o que era a ironia, o cinismo, o sarcasmo, o porquê de eu ser irônico, sarcástico, cínico com os militares, com tudo que diz respeito à lei, à repressão, aos limites dos direitos, ao ilimite dos deveres, à falta de liberdade, repetindo sempre que para mim o poder militar é um farsa, os militares como homens são fracos, inúteis, valor algum têm, não havia problema de ser detido por desacato à autoridade, sabia usar as palavras críticas, destilar os ácidos com percuciência, só estava pedindo um meio de amenizar os meus impulsos e ímpetos, estaria em breve num lançamento e jantar de amigo, um de meus maiores amigos, não desejava insatisfazer o amigo nem aos seus amigos e familiares com os meus ácidos críticos aos militares, a “Ditadura Militar Brasileira”, a famosa e célebre “DMB”, tendo a psicóloga dado uma risada estridente, talvez tenha associado a minha fala ao partido político às avessas, insistindo freqüentemente no sincero medo que tenho de ser preso, sumido ou exilado.
Por haver perguntado ao historiador se a dita dos militares endurece, como andam as coisas no país, já deviam estar sabendo desta pergunta cínica, fosse preso, diriam apenas que iriam me mostrar como a dita não endurece, tirariam as minhas bolas, eu saberia responder a alguém que me perguntasse o porquê de a minha dita não endurecer mais. Seria para mim muito triste não mais poder degustar as delícias e prazeres de uma transa, só com a língua os prazeres não são tantos, para serem completos precisava da dita e da língua bem pontiaguda.
Finalmente – entendam os caríssimos e digníssimos leitores, toda a humilhação contida para mim nestas palavras, a psicóloga simplesmente pediu que me retirasse de seu consultório.
À noite daquela dia em que a psicóloga pediu-me que retirasse de seu consultório, assisti ao evento em silêncio absoluto, arriscando percentagem, diria que noventa e oito por cento dos presentes eram militares, muito bem trajados, sérios e compenetrados, os dois por cento restantes era de intelectuais, historiadores, professores da faculdade, o povo mesmo não esteve presente, queriam distância dos militares, só de imaginarem como foi o tempo da Ditadura Militar sentiam o maior medo, tinha-se de ficar com a boca fechada por todo o tempo, qualquer palavra seria arriscada, podia-se ser preso, levar surra daqueles, ser dependurado no pau. Só prestei atenção às palavras da oratória do mestre-cerimônia e de todos os que tinham os mais egrégios motivos para parabenizar a responsabilidade dos métodos de pesquisa e avaliação do processo histórico. Ninguém suspeitou dos esforços sobre-humanos que tive de fazer para parecer-me com todo mundo, sério e compenetrado.
Mas nunca esquecerei as torturas de uma embriaguez ultra-política, atrapalhada pela cerimônia e contrariada por uma obrigação. Embora naturalmente inclinado a simpatizar com todos os sofrimentos causa imaginação fértil que me habita, não posso deixar de rir dos meus todos medos de estar presente no lançamento da obra, não fui ao jantar, não iria comer à vontade, isto é, livremente, sendo circundado por só militares. Sentei-me num botequim, só de civis, já tontos, embriagados, falando alto, pedi uma porção de pé de porco, uma cerveja, pinga, comi e bebi tranqüilo, estava com efeito no meu métier. Podia esperar uma noitada tranquila e sem pré-ocupação.
Um leve frescor já tinha se manifestado na minha mão direita, na ponta dos meus dedos; logo transformou-se em frio intenso como se estivesse com as duas mãos mergulhadas num balde de água gelada. A sensação aguda penetrava em mim mais como uma volúpia. Os sentimentos que tinha reprimido desde que recebi o convite do amigo para o lançamento de sua obra, com toda a fraca energia de que podia dispor para policiá-la, fizeram então irrupção, e entreguei-me ao frenesi de escrever a respeito. Era meia-noite e meia quando terminei. Chamei um táxi e fui para casa. Não seria burro de ir à pé, algum militar podia abordar-me no caminho, pedir-me o que havia escrito, viu-me escrevendo no botequim.


(**RIO DE JANEIRO**, 01 DE ABRIL DE 2017)


**SUPERLATIVOS INTERDICTOS DA LÍNGUA** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Caríssimos Senhores e Senhoras,


O superlativo das coisas deixa muito a desejar, há sempre o "issimo" no final do termo, que posso elucubrar tranquilo e serenamente significar o mais alto nível, o máximo, diga o que disserem os críticos sobre não respeitar a Língua, a sua atualidade, por que teria de fazê-lo, é com a minha língua que me comunico, frescurites de gramáticos não me dizem respeito, refiro-me a "supra-sumo", conforme a nova ortografia como é que se escreve, seria "suprassumo". Para mim, é supra-sumo, assim entendo e compreendo, assim sinto como isto de ser o grande, o que supera o outro num piscar de olhos em tudo, é ridículo.
Vós, quem estais nesta entrega de medalha de honra ao mérito, sendo eu quem a recebe pelo ensino da Língua Portuguesa, com a língua bem afiada, para poder criar a própria, do jeito que me convier. Já pensastes vós se eu quem criou um estilo de escrever as coisas diferentemente, usando ortografias já ultrapassadas há muito, se não conhecesse a Língua Oficial, se na prática con-sinto em falar como manda o figurino, fala perfeita: "Faz muito tempo que a forma "interdicto" caiu do galho, mas a uso eu por questões de musicalidade, ritmo e melodia da pronúncia", para tudo o que escrevesse, tivesse de abrir um parênteses para explicar a antiga e a nova ortografia, que coisa mais ridícula. Ensino a Língua como está estabelecida, falo-a, pois que tenho diante dos princípios tradicionalistas de "segurar a peteca", fazer jus ao titulo de professor de Língua, mas na escrita faço o que quero e quero o que faço com as palavras, por que teria de ser solícito com a gramática neste instante que é só meu, pedir desculpas ao crítico que porventura fizer qualquer menção a respeito?
Aí que entra o superlativo com que iniciei de ler o meu discurso por receber a medalha de Honra ao Mérito pelo meu ensino da Língua Portuguesa, o que responderia, começando com o superlativo transcendendo todos os limites: "Intelectualoidíssimo senhor, o que teria eu a contestar sobre o que caiu em desuso, o hífen, todos vós estão cobertos de razão, mas a gramática condenaria a divisão das sílabas erroneamente, mas como dissera amigo de minhas relações mui pessoais que as divisões que faço podem mudar os caminhos da Teoria da Literatura, passam a ser categorias e não divisões ortográficas oficiais, que devem ser ensinadas a rigor. Nada tenho a vos explicitar, explicar com o meu comportamento herege diante da Bíblia Gramatical. Pergunto-vos, não sem pejo, não sem escrúpulo, não sem senso, não sem-vergonha, acreditais piamente nos mandamentos que ela profere, então vós estais esquecido de que a Língua é criação, aos artistas da palavra fica a liberdade de escreverem como bem lhes convier. Vós não me ledes nem que o camelo passe no buraco de agulha de costura, mas há quem o faça e se deleita com o que está atrás dos neologismos e das transgressões. Agora mesmo que vos chamo de "Intelectualoidíssimo", o superlativo no seu nível máximo. Lembrando a todos vós aqui presentes nesta entrega da medalha que "intelectualóide" é a síntese de "intelectual" e "imbecilóide", sendo que, então, essa síntese que re-vela o nível de intelectualidade a pessoa pratica, a imbeciloidia do intelecto, só asnadas e asnices com aparência de sabedoria máxima". O nível vos faz jus: o re-presentante máximo da intelectualoidia, pois que a Lingua requer criatividade, e a gramática com as suas frescurites ceifa a sensibilidade das pessoas em criar a sua própria língua, sabendo a oficial, obviamente." Em princípio, sem o saber do sentido deste neologismo quem o ouvisse, restar-lhe-ia apenas explodir de tanto orgulho com palavra tão pomposa, não percebendo a ironia atrás do neologismo. O leitor que é perspicaz, sensível, dá uma risada logo à leitura do termo, está ridicularizando, satirizando posturas e condutas, cai na gargalha, enquanto o outro está bem inchado de tanto orgulho. Não é o caso de contar outro superlativo bem interessante diante dos fatos. Trata-se ele de "ignaríssimo", ignaro é ignorante, analfabeto, que alguém chamou o policial quando sofreu uma blitz, no instante de explicar o que fazia naquele local àquela hora da madrugada, o policial se sentiu envaidecido com o tratamento, e por isso mostrou-lhe por onde devia passar, indo embora. Fico aqui a imaginar qual fora a reação do policial, quando contasse aos colegas o acontecido, sabendo aí o significado do termo.
Digo aos meus estimados alunos que não escrevam suas cartinhas para a namorada com todas as regras e normas gramaticais, vão ser julgados prepotentes, digo-lhes que devem criar o próprio modo de se expressarem, dizerem a si mesmos, assim é que se conquista o outro, com a criatividade da linguagem, mas o outro lado da moeda também existe, pode-se enfiar alguém no abismo mais fundo que a imaginação é capaz de conceber que ele não percebe os ácidos críticos.
Senhores, agradeço-vos de coração tal manifestação de carinho, amizade, reconhecimento do corpo dicente e docente deste estabelecimento, dizendo-vos que me vou pela estrada de língua aprendendo a viver de quem sou.


Aérton Gonçalves Lacerda.


(**RIO DE JANEIRO**, 30 DE MARÇO DE 2017)


**CRÍTICO LITERÁRIO PAULO URSINE KRETTLI DEMONSTRA O BARROCO MODERNO NA SÁTIRA /**BERÇO ESPLENDIDO - CONTINGÊNCIAS DAS CORES**


a) Há que se ressaltar que literatura, teatro e artes plásticas do barroco moderno perscrutam simbologia e realidade em metonímias sarcásticas, como em Sátira BERÇO ESPLÊNDIDO - CONTINGÊNCIAS DAS CORES. É como caminhar no arco-íris sem se saber ao certo da tonalidade de suas cores, quais são e como elas se formam no emoldurar da chuva.
Diferentemente de Gregório de Matos Guerra, que satirizava pessoas e sociedade à época, Manoel Ferreira Neto satiriza o senso, o imensurável, o catastrófico, a combinação quase inconcebível do estar no mundo, demonstrando um desconforto tal, que requer o berço esplêndido, mesmo que não o tenha tido nas suas primeiras descobertas e inércias.
Seria uma crítica ao hino brasileiro e às cores de nossa bandeira? Ou seria apenas uma simetria do ser ante a abundância do inacreditável da natureza ou o do urbano homem que se ensombrece de cores ao cair da tarde? Menstrua-se a natureza e ela goza sem o mesmo gozo dantes. E, portanto, as cores entram-se em si mesmas e travam batalhas para descobrirem-se no pacto do universo, colo do paraíso.


Paulo Ursine Krettli


**BERÇO ESPLENDIDO - CONTINGÊNCIAS DAS CORES**
PINTURA: Graça Fontis
SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


EPÍGRAFE:
"... cheirinho agradável da imortalidade nos epitáfios de mausoléus." (Manoel Ferreira Neto)


Bons dias!...


Nada há de mais emocionante que estar deitado eternamente em berço esplendido, os prazeres são imensos, as alegrias são indescritíveis, as felicidades extasiam não apenas o ego infinito da alma, o id universal do espírito, o superego da sensibilidade, mas também a essência da vida, corpo, carne e ossos, veias e sangue.
É maravilhoso estar dormindo por sempre, sem sonhos, aquela serenidade, tranqüilidade, leveza, não se faz mister acordar, correr atrás de todos os prejuízos que se foram acumulando ao longo do tempo, garantir o pão de cada dia, sentir dores e sofrimentos, ter problemas pujantes, desejar realizar os sonhos mais profundos, pro-jetar o bem, eterno e sublime, viver e vivenciar todas as coisas de modo verdadeiro e real, jeitinho sincero e honrado, nada pensar, não ter razões sobre as coisas, não ter sensos a respeito do efêmero e do duradouro. Simplesmente estar deitado no berço nada há que se lhe compare, que se lhe assemelhe, nada há de tão divino e absoluto, nem Brás Cubas con-templou tantos resplendores e magnitudes de seu túmulo eterno e insofismável. Não há. Se houvesse, não teria qualquer sentido, qualquer luz ou significância, pois que não preencheria o espaço vazio que só o esplendido poderia estar nele, só o esplendor dos esplendores poderia habitar nele, e nada de pleno poderia ser imaginado nele, não revelaria os prazeres, as alegrias, a felicidade, seria unicamente uma esperança de as coisas serem bem diferentes, a lua iluminar o dia com o brilho branco de sua luz, as estrelas transparecerem o crepúsculo com a sua iluminação nítida, o sol iluminar a noite com os seus raios amareliçados faiscantes, a beleza ser o alimento do espírito, a verdade ser o vinho da alma e o néctar do espírito ser o divino a extasiá-la e resplandecê-la, ser a boa pinguinha da razão e dos bons e dignos princípios da res extensa e res cogitans.
Estar deitado por sempre em berço esplendido é a demonstração mais plena de que todas as coisas foram realizadas a contento, todos os desejos foram concretizados, todos os sonhos tornaram-se realidades, todas as quimeras subiram ao topo das alegrias e felicidades, nada há para se duvidar, nada foi deixado em suspenso, a ser desejado, nada mais é preciso ser feito, imaginado, pro-jetado, nada há para o futuro, nada houve no passado, o presente é só a calmaria do sono, tudo pleno, tudo perfeitíssimo ao som das cítaras e harpas a executarem os cânticos solenes e divinos do amor e da paz, ao som das guitarras e violões executando “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”, “estava à toa na vida, meu amor me chamou”, “pai, afasta de mim esse cálice, pai afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue”, “os amores na mente, as flores no chão/a certeza na frente, a história na mão”, ou à beira-mar ouvindo o canto das sereias nas noites de lua cheia e estrelas brilhantes, ou nos quartéis quando os raios fúlgidos brilham na cabeça dos militares que aprendem antigas lições. Só os sons são ouvidos em todos os cantos e recantos, pois ninguém dança ou arrasta os pés nas ruas calçadas ou asfaltadas, nos becos de buracos, nas alamedas de poeira, nos becos sem saída dos lixões, ninguém se di-verte ou extasia com as óperas do silêncio ou dos mortos, sinfonias do deserto ou dos cânions perdidos, ninguém faz amor nos românticos crepúsculos e madrugadas de inverno suave e sereno, nem escreve missivas de amor nas auroras de manhãs de inverno ou de verão, apenas curte o esplendor do berço, a magia do sono, a magnitude do eterno.
Nonadas roseanas desabrochando sendas silvestres. Quem me dera agora pudesse regar o jardim de minhas contingências com a água da fonte originária de meus volos e á-gonias das sorrelfas compactas dos idílios da vida plena. Todo espinho alimenta o des-[a]-brochar da rosa no alvorecer da flor, desbrochando do gozo no crepúsculo da cor, o perfume exala-se insensível por todas as dimensões das querências do efêmero isento das éresis do absoluto, purifica as ondas da luz e esplende os horizontes às arribas do belo estético na estesia da morte que abre os leques para a peren-itude do verbo às neblinas, neves, garoas da continuidade do Ser que se faz continuamente.
Nada há de mais emocionante que estar eternamente deitado em berço esplendido, iluminando a vida de outros horizontes e uni-versos, pelas ruas os foliões do silêncio de queixos caídos assistindo ao desfile suntuoso das medalhas e patentes, das seriedades e utopias da obediência e servidões, a marcha sublime e rítmica de um pé após o outro, os tambores ressoando a todos os cantos e re-cantos, na generalidade dos espaços, os olhos fixos à frente, con-templando os píncaros da glória e do louvor, os braços na cadência do vai-e-vem, a cabeça em estado ereto, sem movimento. Quê espetáculo emocionante! Quê teatro de sentimentos e emoções pósteras e póstumas! Quê película extasiante de volúpias e êxtases! Sonho não é. Em berço esplendido não se sonha, não se cria quimeras, não se re-cria fantasias, não se inventa ideologias e interesses, refestela-se nos braços do tempo que se vai a passos melodiosos em direção ao infinito de todos os horizontes, aos horizontes de todos os uni-versos, caminhando e cantando, seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não, fazendo das flores o mais forte refrão. Não se sonha, sente-se a eternidade do belo e da beleza, dos campos floridos de rosas, crisântemos, em grandes plantações o alimento para todos os verões e invernos, nas escolas, campos e construções, as lições da liberdade e da livre expressão, formigas e cigarras deliciam-se no repouso e descanso.
Deitado eternamente em berço esplendido o espírito é variável com os ventos, de leste a oeste, sibilos de ventos por entre as montanhas, mais coerente é o corpo, e mais discreto. E eis que, ante a infinita Criação, o próprio Deus pára, desconcertado e mudo, circunspecto e meditativo! Cessaram as esperanças do paraíso celestial, cessou a fé no amor que há de vir, na felicidade que des-a-{brocha} todas as flores da vida e do eterno, salve, salve idolatrados campos, idolatrados amores nos seios. Depois não vão dizer que Ele é gozador, adora brincadeiras, botou homens no mundo de barriga na miséria, nasceram brasileiros. No berço esplendido de todos os séculos e milênios, na continuidade do tempo e dos desejos, o belo e o feio, o bom e o mau, dor e prazer, tudo, alfim, são formas e não degraus do Ser, tudo são conteúdos e não escadas da Vida, tudo são ornamentos e arrebiques da Justiça e não tiaras do Nacionalismo.
Ah, quem me dera, ante o espetáculo do mundo, ante o esplendido sono do berço eterno, sem mais hesitações e sem maior fadiga, sem mais dúvidas e sem maior desconfiança, sem mais delongas e sem menos preguiça, o instantâneo olhar de um juízo ab-eterno outros refrões de “Ordem e Progresso” não lessem e con-templassem as variações da lua e das estrelas de todos os brilhos a iluminarem o azul do céu! Este momento de euforia, de êxtase, dormindo no berço da vida sem limites, sem princípio, meio, fim, é a flor da eternidade, é o cheirinho agradável da imortalidade nos epitáfios de mausoléus, nas últimas inscrições nas criptas do nome, data de nascimento e morte. E essa minha alegria inclui também minha tristeza – a nossa tristeza...Tu não sabias, meu companheiro de viagem neste berço esplendido ao som das cítaras e harpas, violões e guitarras? Todos os esplendores do berço vão para o infinito! Todas as magias do belo sono vão para os uni-versos, que talvez nem tenham ainda nascidos, ainda não acreditam nas flores vencendo o canhão.
Sigo, indiferente, o meu caminho, pensando em como o Diabo subestima os esplendores do berço eterno, as magias todas da eternidade e do eterno. Meu Deus, como são fúteis as promessas do Diabo! Para mim que, de todas as minhas andanças, no re-verso dos vinhos e dos pães, comi a hóstia sagrada, no in-verso das estrofes de amor fechei os olhos para não assistir à banda passar, cantando suas melodias de amor e felicidade, no avesso dos versos descansei a língua fora da boca para não dizer Deus lhe pague, recitar seus versos, declamar suas tristezas e angústias. Desejo de um dia ficar repousando no esplendido sono de um berço sob uma dessas cruzes de volta de estrada que parecem também estar viajando nas asas de uma águia por sobre as águas dos rios, mares e oceanos.
Quem me dera agora eu tivesse a viola para cantar os esplendores do eterno, as maravilhas do divino e absoluto, ora numa quadrilha, ora numa ciranda à flor de última pressão do sono que tem vontade de no meio do caminho a Balada da Estrela da Manhã unir palma com palma e alma contra alma, instinto ad-verso ao intelecto. Há no esplendor de um berço esplendido tanta coisa, tanta coisa que subiria depois como um balão azul ao infinito de todos os infinitos. Jamais haverá compreensão, entendimento creio será impossível, destas palavras porque elas não dormem o eterno sono, não têm berços em que repousarem, descansarem de seus sentidos, símbolos, signos e significâncias, seguem os rios, o canto dos pássaros na grimpa das árvores, no cume dos picos e vulcões. Venho com elas sacudir o que estava dormindo há tanto dentro de cada um de vós, ó homens tardios de liberdade, de amor e esperança, de fé e utopias, alimpar-vos de vossas máculas, e o frêmito que sentireis, então, nas almas transfiguradas pelo tempo, bramará versos belíssimos no fragor do assalto.
As coisas que não conseguem ser olvidadas continuam acontecendo, nas margens plácidas continua a bandeira balançando solitária à mercê de todos os ventos vindos de todas as direções. Sentimo-las, enquanto dormindo o sono esplendido no berço de toda a paz, alegria, calmaria, felicidade, fora do tempo, neste mundo do sempre onde as datas não datam, onde os festejos não marcam nem comemoram as glórias e louvores, sim comemoram as dores e sofrimentos, as ilusões e quimeras perdidas nas curvas sinuosas da história, nos aclives e declives das ideologias e interesses. Há bens alienáveis, há certos momentos que, ao contrário do brado retumbante, fazem parte da vida presente e não do passado de heróis e mitos. Abrem-se no sorriso mesmo quando, des-lembrado do hino divino de notas e melodias, estiverdes vós sorrindo a outros sonos em outros berços de esplendores e resplendores, magias e magnitudes do belo e do eterno.
Minha estrela não é a de Belém, minha bandeira não é azul, verde, branca: não aguardam o peregrino, não acolhem o maltrapilho, o faminto e o sedento; a minha estrela e a minha bandeira vão seguindo além, e quando tudo parece a esmo encontro muitas vezes a mim mesmo, con-templando as músicas de liras e cítaras. Sinto-me ainda mais vivo sobre as dores e sofrimentos dos desejos de liberdade, amor, paz, compassividade, solidariedade, sobre a face do mundo que é sempre a busca das ilusões perdidas sob os auspícios das torturas, desumanidades, dos poderes e corrupções, dos sonhos desfeitos sob a bandeira azul e branca, verde e amarela das hipocrisias e farsas, das promessas vãs. Enquanto a vida me devora, espreguiço-me, (entre)-durmo... O anjo da luz espera-me como alguém que vigia uma samambaia na varanda, balançando suas folhas com o vento suave vindo das montanhas, das serras próximas ou longínquas. Pé ante pé, do leito, aproxima-me um verso para a canção de despertar do sono eterno no berço esplendido de séculos e milênios. A voz da liberdade nas minhas veias corre, e algumas miríades do meu sonho devem andar por esse ar sereno...
Como é esplendorosa, magnífica, mágica uma asa em pleno vôo, uma vela em alto-mar... Por entre as malhas dos sistemas e doutrinas, o meu país flutuante não pode ser localizado no mapa, mora no branco, no azul, no verde e amarelo de minhas brancas páginas de papel. Na minha cabeça está o uni-verso tal como estava dentro da mão de Deus antes que seus dedos se abrissem e afagassem os meus cabelos à mercê dos ventos de todos os sonhos, utopias, quimeras e fantasias que iluminam os meus CAMINHOS DO CAMPO.


(**RIO DE JANEIRO**, 29 DE MARÇO DE 2017)


**HOMÚNCULOS CINISMOS EM REVÉS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Se inicio dizendo o melhor seria se vós vos dignásseis a consultar no dicionário, de preferência o Aurélio, a fim de vos certificar destes termos com que ilustro os textos, intitulando-os, elucidando as páginas deste livro, tenho quase a convicção absoluta de que não haverá único leitor que não diga o prepotente, orgulhoso que sou, até aceitável, mas não tenho o direito de julgar-vos menos, denegrir vossa imagem no concernente à riqueza de vocabulário e linguagem, chamo-vos tão unicamente de analfabetos e incultos. Não tenho este desejo, posso garantir-vos, contudo se aceitais esta sugestão de consulta no dicionário, vereis o quanto se torna mais fácil a compreensão e entendimento das minhas intenções e vontades de expressão, através de uma linguagem culta, clássica, eivada de cinismo, sarcasmo, ironia, chegando mesmo a assumir que me inspirei em Machado de Assis, no prefácio que escreve em sua obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: “Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio”.
Dúvidas não hajam de que eivada de cinismo, sarcasmo, ironia, também eivada de sonhos e quimeras, de desejos e vontades, de fantasias e utopias de nós os homens aprendermos a conhecer um pouco de nós próprios, conhecimento este que nos proporciona e lega possibilidades inda maiores de realizações e glórias, permite-nos que os caminhos do campo ao longo da caminhada se tornem continuamente floridos e rejuvenescidos, frescos e suaves, o que é deleite – creio até que elixir, se for considerar certas perspectivas - para o espírito e para a alma. Contudo, os sentimentos e emoções são, às vezes, paradoxais, beirando o absurdo e o insípido; as dores, claro, são por vezes atrozes e difíceis de tragar, um nó górdio se forma na garganta, o coração se sente opresso; as sensações se tornam confusas, e diante de tudo isto sente-se a impressão de que a vida é algo muito difícil de se viver, não há saídas para os problemas, conflitos, traumas, “o homem é uma paixão inútil”.
Porém, senhores, posso afiançar-vos que, embora tenha eu sentido dores sobremodo contundentes, tive também prazeres os mais deliciosos possíveis, procurei expressar num estilo verdadeiro o que se me surgia ao espírito, à alma, identificando a profundidade de sonhos e utopias.
Fica a alternativa se vós quiserdes de não consultar dicionário algum, enveredando-se na leitura através da inteligência e intuição que vos sois tão caras e úteis, não necessitando de nenhum esclarecimento do sentido das palavras, podendo analisar e entender melhor do que quem conhece os termos, um douto nos conhecimentos da alma e do espírito, creio que a empresa é tão comovedora quanto emocionante, dando-vos possibilidade de um conhecimento sem limites e fronteiras do que é isso, o homem. Quanto a mim, se fosse eu o leitor, a autoria seria de algum leitor, que, com arte e engenhosidade, criou a obra, não olharia no dicionário, em princípio, o sentido e significado destes termos, lendo livre e espontaneamente. Na segunda leitura, se me aprouvesse fazê-lo, é que me utilizaria de tais conhecimentos. Isto porque a primeira leitura é sempre espiritual, é a primeira incursão nas imagens e sentidos, desejos e vontades, intuição e percepção...
Se vós me permitis desvencilhar-me dos títulos, completando com outras idéias assaz importantes para uma elucidação dos conteúdos e mensagens, tenho a dizer-vos que neste início do século XXI tornou-se sobremodo difícil encontrar escritores que tenham perspicácia e habilidade com uma linguagem clássica, infelizmente só para uns poucos, e isto é muito triste, mas me preocupei muito em criar uma linguagem poética, linguagem esta que desperta os espíritos para a beleza, em especial despertando emoções e sentimentos os mais profundos, desejos e sonhos os mais íntimos, que sem dúvida contribuem sobremodo para a reflexão e meditação sobre o destino de nós os homens, destino este que criamos para nós com a intenção de irmos aproximando de nossa essência, fora da qual tudo se torna e transforma em um ponto de vista subjetivo e apaixonado.
Aproveitando a idéia do parágrafo acima, tenho inda a dizer-vos que neste inicio do século XXI tornou-se difícil encontrar leitores que se disponibilizem a ler uma obra em estilo clássico, com uma riqueza enorme de linguagem e vocabulário, pois têm a santa preguiça de não consultar dicionários, de espremer os miolos a fim de poder entender e compreender o que está sendo dito e expresso. Ler livros fáceis, com linguagem e estilo vulgares, tornou-se a febre, não são obras que exigem esforço e inteligência na análise. Não vos sintais negligenciados, pois que em meu parco ponto de vista isto não é de vossa responsabilidade, é o ensino que anda de mal a pior, os professores não incentivam para a leitura.
Se vós vos interessais por uma digressão, não o sei, mas enquanto fui tomar um café para fumar um cigarro, lembrou-me de que desde o início, quando ainda nem imaginava que tais textos iriam figurar num livro, tais termos causaram-me riso pela empáfia da pronúncia, pela embófia da audição. Fora uma experiência inusitada: termos difíceis suscitarem risos, talvez por não serem comuns, talvez pelo sentido que muitas vezes é de inferioridade, negligência, atitudes espúrias. Aliás, na infância, aquando, consultando um dicionário, deparei-me com a palavra “latrina”, que me tomou de riso por todo um dia. Assim é que eu, imbuído deste riso, inspirei-me em atitudes de não que todos vivemos, pensamos que são valores os mais eternos, os mais divinos, no entanto são o que há de mais deprimente em nossa condição de humanos, e se torna um dever e uma responsabilidade lutarmos com todas as forças para a superação deles, tornando-nos homens dignos de respeito e consideração. Claro, esta incursão nas veredas e alamedas de nossa alma causa-nos dores as mais atrozes, o melhor é então, mesmo sofrendo muito, continuarmos a caminhada, fingindo que não percebemos e intuímos coisa alguma, pois a mudança implica em muito mais dores e, quem sabe, um leve sentimento de que não se é possível uma reviravolta tão grande, não se é possível um momento de alegria e prazer.
Não vos tomo o tempo mais. Tomo a liberdade de finalizar com o final da introdução de Brás Cubas, aquando se dirige ao leitor: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.



(**RIO DE JANEIRO**, 31 DE MARÇO DE 2017)


**HÁ SEMPRE DESVIOS E AUSÊNCIAS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


"... por que não deixar os ventos da colina sibilarem, enquanto o lobo no pico uiva ao universo e a todos os horizontes..." (Manoel Ferreira Neto)


Disseram-me sou demasiado ingênuo, o que de antemão concordei, endossei, cachaprei as digitais no tangente a alguns níveis da vida, da sobrevivência e da posição social, isto dizendo respeito a como lidar e tornar realidade as atitudes e ações de modo a satisfazer, en-cantar alguém.
Jamais me fora dado estratégias para a obtenção destes louros e louvores que muitos sonham em alcançar. Por longo e inolvidável tempo pus-me investigar, avaliar tais estratégias, tendo-me sido empresa de grande fôlego, mas aprendi-as com distinção, não há noção do quanto por mim atingido fora, um tesouro inestimável.
E se esta ingenuidade, que a ponto e natureza me toma por inteiro, trago-a dentro em mim, por motivos e inspirações das quimeras, ser através destas últimas, vale enfatizar por ser possível, em princípio, pensar e intuir as inspirações em caráter primevo; são as quimeras, aliás, a partir delas, que começo a conceber o que é possível de ser realizado, antes mesmo de sonhos e utopias. O sentido e significado delas, se visto em nível do preconceito, discriminação, são mais pujantes que sonhos e utopias, estes são dimensões da realidade.
Pensando no sentido dicionarizado de “beócio”, que traz em si mesmo uma carga negativa, figurado, obviamente, apresentado por Aurélio Buarque de Hollanda: “Fig. Curto de inteligência; ignorante, boçal”, o que fundamenta serem as quimeras boçais. Se vistas de outro ângulo, sendo a origem das quimeras, o que é boçal passar pela via do irrealizável, alcançando o nível de origem, e nesta a semente do realizável e do possível de ser realizado.
Dizem sou ingênuo, não aprendi a explorar as capacidades e dons da vida no sentido de “ganhar dinheiro”. E não está ligado a “arte”, que desde toda a eternidade não dera a ninguém prestígio de grana.
Se é que seja mesmo ingênuo, não me é dado res-ponder a este questionamento, mas de algo estou, digamos, consciente, o sonho é de tornar o verbo, que, para mim, são as palavras, em carne. Creio seja esta a característica principal, embora, se o for, vejo isto ainda ingenuamente, não sei tudo o que se esconde atrás disto, eu que sei e conheço a natureza amar ocultar-se e revelar-se.
Quem sabe até, ao invés de “beócio”, o termo adequado fosse outro, “óbito de quimeras”, quando não são ingenuidades, mas, sim, a morte delas, e quando realmente começam as utopias e sonhos? Seria, então, o atestado de óbito, prescrito por um médico, a causa mortis das quimeras, o início dos sonhos e utopias, estes que são os do verbo amar.
Desejava falar um pouco desta ingenuidade a mim atribuída por outros, o que endosso com todas as letras, aproveitando poucochinho das palavras de ser quem fala sobre elas, noutro estilo e linguagem, que lega a elas o privilégio de se revelarem, não serem apenas representações, se é que não estou enganado quanto a esta profundidade, existindo outra que não tenho consciência, o tempo irá mostrá-la e identificá-la.
Mas não. Aproveito que as idéias não estão transparentes, não conheço o rumo que as letras estão seguindo, os caminhos do campo por onde andam, as estratégias e desvios necessários, para dizer não ser sobre o óbito a que me refiro, mas um testamento: a menos que não esteja em sã consciência, as faculdades do bom senso estão presentes e vivas, um morto não escreve o seu óbito senão na obra póstuma de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas. O póstumo é apenas uma metáfora: esta obra concretizara os dons do autor, tornando-o imortal e eterno. Aliás, algo que deve ser consertado: toda a sua obra é imortal e eterna. Não se é possível avaliar qual não seja obra-prima, todas são, umas dentro de algumas características, outras incluindo e superando, atingindo outras.
Sobre nada desejo falar. Gasto as palavras arbitrariamente, à toa, para usar um termo adequado à situação de não estar interessado em revelar coisa alguma, de tornar as palavras o verbo de algum sonho latente ou manifestado, despertando os homens para a sua busca de realização, de usufruírem do privilégio do reconhecimento e da imortalidade.
Aliás, eternidade, imortalidade, desde sempre são temas e temáticas desenvolvidas por toda a eternidade, adjetivos. Desejo apenas, uma tentativa, quem sabe vã, desde os princípios da língua portuguesa, de transformar o adjetivo “beócio” em um substantivo pujante, uma ponta de faca que destrinça a carne, tira o osso dela, mostre-lhe transparente e claro, apesar de algumas manchas de carne aqui e ali, enfim, a perfeição radical não existe, há sempre desvios e ausências.
Se vos digo com delicadeza de linguagem, finesse cordial, tome isto como uma fala sem quaisquer intenções escusas, a pureza do que penso e sinto, jamais o adjetivo "beócio" irá se transformar em substantivo, dir-me-á sou ingênuo, não havendo o que nem quem possa persuadir-vos não sê-lo, e por ser tão ingênuo o adjetivo que me cabe com perfeição é "beócio". Só vos digo com toda a simplicidade pouco isto desta transformação me diz respeito, estou-me nas tintas ser julgado e tachado "beócio" por ser ingênuo, porque desde tempos imemoriais em mim trago dentro que alguém ingênuo jamais pode ser beócio porque não é curto de inteligência, sua inteligência é muitíssimo avançada pois que exerce a falta, ausência, falha de senso com todo primor, se é que me possa fazer entendido. Cá venhamos, perdoai-me vós o cacófato, sendo eu de uma boçalidade sem quaisquer freios no dente e a corrida á toa, como posso imaginar a ingenuidade, a pureza que lhe habita, isto é uma dimensão transcendental, espiritual, boçal algum é capaz disso, e vós estais intuindo, percebendo, verbalizando, sentindo nos cafundós de vossa alma que tais palavras vos dirijo estão alicerçadas no que dentro em mim há, há centenas de ingenuidades nesta missiva que vos dirijo, por que não deixar os ventos da colina sibilarem, enquanto o lobo no pico uiva ao universo e a todos os horizontes?
Estive urubuservando e ulucubrando as vossas posturas e condutas, as suas falas ao se referir a mim, e chego à conclusão de haver outro motivo, razão, se assim vos convier, de tachar-me beócio, não é por ser ingênuo. Se tenho alguma idéia do que seja, o porquê de me tachardes beócio. Pensais não houvesse uma, teria a ousadia, pachorra de aventá-la. Esperava apenas que me fizesseis a pergunta. Sem delongas desnecessárias, só vos pergunto se tendes alguma noção de "neurose de transferência." Sugiro-vos que procureis o psicanalista Lacan para vos inteirar do sentido de "neurose de transferência". Se não, procurai informar-vos com bastante esmero e acuidade, podereis então saber e compreender as nossas diferenças incontestes.


(**RIO DE JANEIRO**, 31 DE MARÇO DE 2017)