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sexta-feira, 31 de março de 2017

**OBSÉQUIO DE RÉDEAS E FARDOS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!


Relinchando, as idéias ficam mais íntegras, livres, isto para não dizer mais finas, dignas para um discurso na tribuna da Câmara Municipal, como resultado de méritos um solene banquete com todos os parlamentares de vestes a rigor, muito apetite para o menu, sede para uísques, vinhos e o excelentíssimo aperitivo de primeiríssima qualidade.
Pode haver quem, com toda a empáfia, pergunte o porquê de ser relinchando que as idéias são íntegras e livres, o que relincha, o cavalo, não tem idéias, não é livre, tem um dono, é celado, montado, puxado pelo freio. Não sou cavalo para relinchar – pode ser que assim me considere, reconheça-me, mesmo assim tenho idéias, penso, sinto as coisas do mundo, vejo tudo o que rola solto no métier da política. Não seria que julgo a minha voz verdadeiro relincho, assim a estridência a identifica. Por que relincho?,pergunta-me alguém, ansioso por uma res-posta a critério. Como vereador, dizer que relincho é negligenciar meus valores, virtudes, é fazer menos de mim, chamar o povo de desmiolado, imbecil, alienado, por votar num homem que não fala, relincha, relinchando é que se considera importante. Se não isto, que intenções sarcásticas, cínicas e irônicas trago comigo? O que pretendo criticar com veemência, esperando a reverência de todos?
Na Roma antiga, um cavalo branco foi eleito senador do império, poderia ser a minha res-posta, mas não atingiria o porquê de só relinchando as idéias ficarem mais íntegras, livres, enfim meu tempo é outro, séculos e mais séculos já se passaram desde que Incitatus fora tornado senador do império romano, naqueles tempos de só despautérios e ridículos os mais diversos; hoje é bem diferente, vivemos outras situações e circunstâncias, não há mais quaisquer despautérios, corrupção, ideologias chinfrins, abuso de poder, interesses, a política hoje vive de virtudes e valores, só parlamentares de princípios idôneos, de idéias sublimes, projetos inestimáveis. Meu Deus, demoraram muitos séculos e milênios para isto acontecer! Digo-me, às vezes, que talvez seja imaginação fértil de minha cachola misturada com os meus fortes e presentes desejos de uma política séria, de políticos honrados, responsáveis. Político hoje é símbolo de integridade ética e moral. Ser ou não ser político, eis a questão, para lembrar um pouco Shakespeare, anda esquecido, pois que sê-lo é ser sublime, superior, absoluto, é ser aclamado, reverenciado, reconhecido por todos os cantos e recantos da cidade, homens dando tapinhas afetuosos e carinhosos no ombro, gastando lindas palavras de elogios e considerações, mulheres beijando as mãos, olhos brilhantes de sedução, de tesão, não há quem não queira dormir com eles, depois de todos os prazeres, ser apontada como quem é merecedora de todos os reconhecimentos e considerações, foi politicada, isto para a mulher é importante, importantíssimo, a Igreja não a canonizaria por haver dormido com um padre, o padre seria expulso dela; não sê-lo, é exatamente o contrário, é nada ser, é nem existir neste mundo, é ser apenas um corpo a se movimentar, fazer gestos, andar de carne e osso. Ser político é ser deus nestes tempos de hoje, Zeus on qualquer outro no passado eram símbolos e ícones de só despautério e canalhice. A política é o pôr do sol de nossos tempos modernos, os políticos são as estrelas do universo, alguns a Polar, outros a Vésper.
Os senhores estão me olhando de viés, entreolhando-se entre si, sérios, compenetrados, pensativos. Não acreditam que esteja eu dizendo isto, ouvindo isto, não por ser despautério, por ser uma crítica às avessas, mas por serem verdades as palavras, as minhas considerações, sonharam por longos anos que isto um dia viesse a acontecer, receberem elogios os mais sublimes e supremos de um parlamentar, com os aplausos e felicidades de toda a comunidade. É um momento de fato inusitado em toda a história da humanidade, especialmente de nossa comunidade, que tem apenas cento e poucos anos de existência. E os senhores sabem que não fosse a aceitação de nosso povo, de eles saberem serem verdade os princípios éticos e morais de todos nós, não estaria aqui nesta tribuna, dirigindo-me aos senhores, a todos aqui presentes. Não sou homem de dizer as coisas às avessas, apenas para arrancar risos e gargalhadas, tapinhas no ombro pelos meus talentos de cínico, sarcástico, irônico, por isto ficar na história como quem teve a coragem absoluta de descascar os pepinos com elogios e reconhecimentos. Não, não sou homem deste naipe. Só digo quando tenho razão, quando tudo comprova os meus juízos sempre muito exigentes. Em verdade, sinto-me sobremodo emocionado, feliz da vida, dá-me vontade de dar alguns saltinhos de êxtase, mas me concentro apenas nos relinchos, só assim posso realmente expressar as minhas alegrias por estar presenciando este fato inédito em nossa comunidade, em toda a nossa nação, a política digna, os políticos de princípios morais e éticos.
Estive hoje pensando, espremendo os miolos de modo até agressivo, que, apesar de as ciências haverem progredido bastante, os meios de comunicação desenvolvidos muito, superamos com nitidez os inúmeros problemas de toda ordem dos séculos passados, mudamos nossa visão-(de)-mundo, pontos de vista, opiniões, olhamos o futuro à luz das esperanças e fé contingentes, transcendentes, sonhos e utopias outros, estamos “trancafiados” no passado, e parece que nada nos libertará disto, ou seja, política é ícone de canalhice, políticos, de súcias da raça humana. Em se tratando de nossa comunidade, são sete os políticos safados e cretinos, e na consideração dos ideológicos e interesseiros, oportunistas, os grandes, merecendo até bustos de bronze espalhados pela cidade a fora, e sete é um número mágico, transcendente, as ciências ocultas e letras apagadas já a-nunciaram, re-velaram, identificaram seus sentidos, símbolos, metáforas, até metonímias, acredite quem quiser. Sete é sete, não se discute.
Os homens estão em verdade precisando de se livrar do passado, dos tempos de Roma, dos últimos cinqüenta anos de nossa política brasileira, acreditarem piamente que hoje a política é diferente, os políticos homens de honra, dignidade, caráter; diferença é modo de relinchar, em verdade no métier da política tudo é divino e sublime.
Esqueçamos todos o passado da política, vivamos os nossos tempos que são uma dádiva de Deus, talvez outro tempo não virá mais como este, outra era de tanta sublimidade jamais acontecerá. Podemos todos bater à porta de Deus sem qualquer medo de não ser aceite no céu, de sermos enviados diretamente ao inferno, por nossas corrupções e safadezas. Não só podemos bater, como será aberta, podemos entrar, nem haverá juízo final para nós, o céu é o nosso descanso eterno, assistindo lá de cima todos os elogios dos vivos. Não como outros viveram no passado com relação aos comentários dos vivos: “Morreu, virou santo”.
Agradeço-lhes veementemente os aplausos neste instante, digo que estou emocionado. Não esperava tanta aceitação, tanta atenção de todos os presentes, especialmente dos políticos, pensara que de alguma forma seria convidado a interromper o meu discurso por esmola demais o santo desconfia. Mas não. Todos sentem na carne e nos ossos a sinceridade de meus relinchos neste momento histórico de nossa modernidade política. Mas deixem-me dar prosseguimento aos meus relinchos.
Não seria só relinchando, soltando relinchos nestas ou naquelas circunstâncias, situações, para mostrar aos homens de quaisquer credos, raças, ideologias e interesses, partidos, para convencer e persuadir que os tempos são outros. Nos tempos de Roma, Incitatus relinchar nos discursos do Senado era acinte à dignidade humana, era re-velar os despautérios políticos, a canalhice dos políticos, a suciedade da raça, estirpe humanas, mas hoje relinchar em discursos na tribuna, mostrar os dentes, insinuar ou dar coices à mercê das boas e dignas intenções de enfatizar as diferenças de posturas, condutas, princípios de nossos tempos, mostrando a todos como é importante nossos políticos estarem engajados na felicidade da comunidade, de suas necessidades urgentes, do respeito à cidadania, aos seus desejos de outra realidade que não a vivida noutrora, é a supremacia dos valores e virtudes da política, dos políticos, de todos nós que estamos interessados mesmo em divulgar e tornar verdade e real os novos tempos.
Não sei se tenho mais alguma coisa a relinchar. Difícil, muito difícil, relinchadas profundas, pois que a novidade de nossa política acaba de acontecer, e só no tempo mesmo podemos presenciar e saber de outras coisas que deverão se a-nunciar para concretizar a realidade; neste início, só podemos agradecer ao tempo e aos esforços de todos os homens políticos ou não por, enfim, estarmos vivendo diferentemente de outrora. O Senado comemora os defuntos, a Câmara não. Talvez a Câmara não deseje lembrar o próximo fim dos seus dias. O Senado embalsamado pela vitaliciedade, pode entrar sem susto nos cemitérios. Não é a lei que o há de matar.
Senhores, agradeço-lhes cordial e espiritualmente a grande oportunidade de relinchar nesta tribuna neste momento tão importante de nossa história, momento que batemos a mão no peito com todo orgulho e felicidade, por hoje não apenas sermos considerados políticos de honra e dignidade, a política estar sendo vivida para o povo, para o bem de todos, para a honra de toda a comunidade. Com efeito, sinto-me feliz por estar sendo o primeiro a a-nunciar estes novos tempos, também por que de hoje em diante o nosso Olimpo estar mais do que garantido na Eternidade.
Relinchar, relinchei!... Resta-nos desejar que toda a humanidade haja ouvido os relinchos que saíram pela primeira vez em nossa modernidade numa tribuna de Câmara Municipal!


(**RIO DE JANEIRO**, 01 DE ABRIL DE 2017)


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