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sexta-feira, 24 de março de 2017

**FILOSOFIA DAS FOLHAS SECAS DE FIM DE OUTONO** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Ignaríssimo leitor, imaginei perguntar-vos com toda a diplomacia, cadinho de sentimentos recém-nascidos no coração, de ternura, carinho, amizade, se vós recebestes correspondências de amigos, parentes, namoradas, a que lestes com os olhos lacrimejantes de saudades, o coração pulsando de emoções, sensações(se é que haja sensações no coração) por eles sentidas verdadeiramente, mas não há quem neste mundo não as tenha recebido, portanto larguei a mão de fazê-lo. Como não podia deixar de perguntar-vos algo, não me perguntais a razão desta sangria desatada em obter de vós uma res-posta, decido mudar as perspectivas, dizendo, então, que,se guardastes tais correspondências, lendo-as vez por outra, recomporeis o pretérito, o vivido, o vivenciado, especialmente nos instantes de pura tristeza e vazio.
Penso que se alguém não guarda as correspondências da juventude, que tempos floridos de orquídeas dos sonhos, tudo são promessas de uma vida de felicidades e alegrias, prazeres e realizações, isto sem contarem as conquistas, sucessos, a carteira trans-bordando de notas novinhas em folha no bolso, nos tempos atuais sendo chamarisco de bandidos, não terá aquela oportunidade ímpar de conhecer a filosofia dos papéis pretéritos, quais são as folhas secas no final do outono, princípio do inverno, não terá o prazer de presenciar-se ao longe, à tarde, de chapeuzinho preto, aquele peculiar e tão individual de Charles Chaplin, a bailar ao som de uma gaita dylaniana, sob o brilho dos olhos de sol.
Perguntar-me-eis, todavia, o que é isto - filosofia das folhas secas de fim de outono. Que digo em resposta ao vosso questionamento? Tomando em conta a vossa ignariedade, já imaginava que seríeis vós a perguntar-me, desejar ansiosamente a res-posta.
Em verdade, em verdade, a noite passada delongou-se sobremodo, passando-a eu tomando café e fumando, deitado na rede da varanda, pensando, indagando, questionando sobre esta filosofia, in-vocando, e-vocando os preciosos auxílios de Nietzsche, madrugada sem estrelas e lua, para me eivar das palavras precisas. Por volta das quatro e meia, mariposa pousou-se sobre o braço da cadeira, sendo o instante da iluminação. Entre os olhos faiscando de gozo, sorriso escrachado, pronunciei em voz alta: "A filosofia das folhas secas de fim de outono é o momento de cantar as saudades", mas tomando em conta a expressão poética é a coisa mais triste da vida, saber que todas as coisas passaram, passaram os sonhos, passaram as esperanças, passaram as fantasias, passaram as ilusões, restaram as saudades de tudo.
Agradeço-vos, ignaríssimo leitor, a vossa atenção, desejando que coloque em prática de rasgar as vossas correspondências, incinerar os pedacitos de papéis, de modo a nada restar do pretérito, e assim podendo prosseguir a vossa caminhada no mundo de ilusões, fantasias, esperanças vãs, e assim conhecerás outra filosofia mais interessante ainda, a filosofia das "brancas nuvens".


(**RIO DE JANEIRO**, 24 DE MARÇO DE 2017)


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