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sexta-feira, 24 de março de 2017

**JEGUE ALADO** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: MANOEL Ferreira Neto


Embora o que se diz sobre a invenção do alfabeto grego, mui particular e intimamente considero-a muito mais moderna do que se julga, muito mais con-temporânea do que pensam os línguas de trapo.
Não me é dado saber se é devido a fértil criatividade que em mim trago dentro, mas naquelas horas do entardecer, sentado no banquinho de mármore do alpendre de minha residência, vem-me sempre ao espírito a dúvida não só de Homero soubesse ler, recitar e declamar as palavras, mas até de que no seu tempo se escrevesse. Dúvida metódica? Não sei. Só sei que esta dúvida é desmentida pela história de Belerofonte na Ilíada e, como tenho a infelicidade de ser um pouco obstinado em meus paradoxos - se precisar de alguém mais paradoxal que eu, com certeza, não sirvo por ser paradoxal além de todos os limites -, sentir-me-ia sobremodo atraído, se fosse menos ignorante, a estender minhas dúvidas até sobre essa história e de tachá-la de ter sido, sem muito exame, sem muitas delongas, inter-polada pelos compiladores de Homero.
Ouso afirmar - estou-me nas tintas, se me jogarem pedras - que toda a Odisséia é um conjunto de idiotices, imbecilidades, cretinices e de inépcias que uma ou duas letras teriam reduzido a fumo, enquanto que se pode tornar esse poema razoável e mesmo muito bem conduzido supondo-se que seus heróis tenham ignorado a escrita. Quer dizer então que nos tempos de Homero imperava a ignorância deslavada. Em terra de ignorante, quem sabe ler e escrever com excelência, é profeta. Vou-me embora para a terra de Homero, a hipocrisia contemporânea está a dar-me nos nervos.
Se a Ilíada tivesse sido escrita, seria muito menos cantada, os rapsodos menos procurados e menos multiplicados. Nenhum outro poeta foi tão cantado, decantado, tres-cantado, salvo Tasso em Veneza e, assim mesmo, só pelos gondoleiros, que não são grandes leitores.
Entardecido o entardecer, estrelas e lua brilhando com todas as magias e esplendores, as dúvidas de se Homero soubesse ler caem por terra, não me lembram mais a Ilíada, Homero, vem-me ao espírito outra dúvida, quiçá mais profunda, se houve algum escritor que tenha feito os leitores rirem tanto quanto Apuleio. As jeguices de Apuleio eram magníficas, sabia ele lidar com as palavras tão bem que eram elas a cometerem as jeguices mais estapafúrdias. No mundo contemporâneo, as palavras são muito sérias, seus sentidos e significados honrados e dignos, e na época de Apuleio cometiam asnadas, asnices inglórias, sentidos e significados dúbios, ambíguos. Só faltou a Apuleio dar asas às jeguices das palavras, criar um jegue alado com as palavras. Ter-se-ia sido interessante, pois nos nossos tempos contemporâneos os escritores seriam jegues alados, ou seja, se alguém pedisse para definir, conceitar o "escritor", daria logo a resposta na ponta da língua: "O escritor é um jegue alado"



(**RIO DE JANEIRO**, 24 DE MARÇO DE 2017)


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