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segunda-feira, 20 de março de 2017

**JAMAIS AO OCASO DE ESPÍRITOS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


"Nenhuma correção é demasiado pequena ou insignificante para que não se deva realizá-la" (Theodor Adorno)

"O homem, na arte, é um ser livre para pensar, sentir e agir. A arte é como se fosse algo perfeito, pleno, diante da realidade imperfeita." (Manoel Ferreira Neto)


Isto de alguém com ou sem razões descascar os meus pepinos todos, servindo-os à mesa em rodelas com sal, óleo e vinagre, para usar uma linguagem da culinária mais especializada e de bom gosto, uma linguagem que qualquer imbecil entende, recebendo até aplausos de todos que ouvem, alguns acenando as jóias e pedras preciosas, os simples batendo palmas eufóricas, por concordarem com todas as falas, sempre me irritou sobremodo. Nunca me preocupei em tirar satisfações por saber com convicção que este alguém não é suficientemente autêntico para confirmar as suas palavras, havendo até quem negue de pés juntos, os joelhos no solo ou nas pedras da rua, as mãos postas, ter sido ela quem tenha feito qualquer comentário, invocando o nome de Deus em vão, Ele é testemunha de que de sua boca não saiu uma única palavra.
Não tiro satisfações com ninguém, seria inútil. Digam o que disserem, têm direito à palavra, verdade ou não sou eu quem decide e endossa perante às situações e circunstâncias, diante das ações e atitudes. Mas em oportunidade propícia, sem escolher onde, quando, em presença de quem, a resposta é dada com todas as letras, vírgulas, pontos e vírgula, com pontos de exclamação, se assim for necessário. Não tenho qualquer medo de reações.
Diante da resposta dada, vejo o mundo inteiro cair sobre a minha cabeça; simplesmente atitude de alguém sem educação, sem o menor senso de respeito, de consideração, um homem sem sensibilidade, um indivíduo sem senso de espaço e limites. Em questão de segundos, toda a comunidade fica conhecendo as minhas atitudes, pensando e julgando ao seu bel-prazer, sem saber que antes tal pessoa quem recebeu a resposta comentara isto e aquilo, de modo arbitrário e gratuito. Fora ela quem dera início ao processo. Não só quem de nada sabe, mesmo quem conhece todo o comentário com todos os detalhes e pormenores, também ouvira da própria pessoa, com quem concordara, também fizera comentários a respeito aqui e ali, se insurge contra mim.
Agora, se sou eu a fazer algum comentário, o que é de fato difícil, pois que não faz parte de mim, de meu estilo e conduta, o que me interessa a vida alheia não sei, não só o mundo cai sobre minha cabeça, o céu e o inferno juntos, havendo até disputa de quem tem mais razão se o demônio ou se Deus. O comentário sobre o dito por mim com certeza fora uma interpretação, houve interesse em criar situações difíceis para mim, interesse em prejudicar-me, interesse em ridicularizar-me perante todos ; em sendo escritor, a melhor maneira de negligenciar a conduta é apresentando suas posturas bem diferentes das que ele costuma fincar os pés juntos, criticando-as, ou seja, a melhor maneira de menosprezar o escritor é ir contra as suas idéias e posições. As palavras não tinham qualquer sentido negativo, qualquer interesse de julgamento, qualquer intenção de serem arbitrárias e gratuitas. Entendem de acordo com a pobreza de espírito delas. Também não saio a explicar-me a Deus e ao demônio não haver sido intenção minha aventar as atitudes espúrias do indivíduo. Acredito, sei e conheço que a emenda quase que necessariamente prejudica o soneto. Neste caso, não há resposta a ser dada em hipótese alguma.
Desde que me entendo por um indivíduo, estive exposto a todos os níveis de polêmica por ser eu alguém quem brinca sobremaneira com as palavras, fazendo até parte de meus dons singulares e particulares, de alguém quem percebe e intui as coisas com pouco mais de perspicácia e destreza. Diante desta consciência, aprendi a dar respostas a quem merece, é o único de direito, recebê-las, sem qualquer pejo e escrúpulo, sem olhar onde estou. Se me encontro insatisfeito com alguém, digo-lhe o que penso e sinto frente a frente; antigamente, era até muitíssimo mais direto: “Tenho algo a dizer. Se concordar, beije-me na boca; caso contrário, saque o revólver e atire para matar”. Atualmente, só digo, mas é óbvio que me exponho a ser assassinado seja no momento, seja depois.
Em dizendo de “atualmente”, houve alguma mudança nos meus comportamentos. Não me senti satisfeito com algumas pessoas, simplesmente me afastei delas vez por todas, sem uma palavra, sem um esgar facial de insatisfação, sem um olhar de soslaio, preocupando-me até de não pronunciar seus nomes, sem mesmo pensar qual seria o nome dela. Sei muito bem tais pessoas às vezes perguntam a si mesmas o que teria acontecido para haver de mim total e absoluta indiferença, indiferença tal que são inexistentes se se encontram próximas a mim, se algum comentário sobre elas surge, não estando presentes, distancio-me tanto que nem ouço vozes próximas. Algumas, incomodadas com o distanciamento, sem compreenderem o que houvera, comentam nas esquinas, interiores, alcovas, ser eu um indivíduo prepotente, convencido, maníaco de superioridade, etc., etc. Sustentam e justificam suas atitudes. Aliás, trata-se de algo mais do que comum nos homens: agir como se nada houvesse acontecido, mesmo sabendo tudo o que aconteceu.
Há sim estabelecimentos comerciais que não mais freqüento, tendo sido cliente assíduo, mais especificamente, barzinhos onde antes comprava cigarros, bebia a minha cachaça. Insatisfeito com atitudes, não bebo água, prefiro caminhar mais um pouco e tomar a água saciando a sede noutro lugar, às vezes até prefiro ir embora para casa e tomar minha água em casa. E ninguém sabe qual tipo de insatisfação sentira eu. Jamais comentei nem mesmo em minha alcova, em companhia da esposa.
Há outra coisa que se sou autêntico em faze-lo constitui razões, motivos e comentários os mais variados possíveis. Cumprimento quem desejo, vejo quem me interessa ver, dou atenção a quem penso merece receber atenção, converso com quem tem condições de dialogar. Se não cumprimento, vejo, dou atenções, converso, sou homem indelicado, sem educação, sem princípios. Certa vez, entrei num lugar, vi e percebi bem nítida a presença da pessoa, mas nada disse. Perguntaram-me se não a havia visto. Respondi que sim, vi-a nitidamente, mas me esqueci de cumprimentar, de dizer alguma coisa. Ninguém apresentou qualquer reação. Não havia qualquer. Noutra ocasião, diante de pessoas que se julgam as mais importantes, as mais nobres, deuses diante dos homens, ousei apresentar o meu ponto de vista, dizendo que outros merecem oportunidades, pois têm valores muito mais profundos do que os que elas costumam apresentar a todos, e todos aceitarem como a verdade final. Alguém se levantou dizendo que as minhas palavras eram muito sérias, eram palavras muito duras, o que concordei eu, dizendo serem mesmo palavras duras, mas por nada estaria disposto a pedir desculpas ou compreensão de quem quer que fosse, não estava dizendo nenhum absurdo. Aliás, estes que se julgam os mais importantes, os mais dignos, aqueles que detém alguma espécie de conhecimento, acham que estão isentos de qualquer crítica, de qualquer comentário, o que for dito sobre eles é uma injustiça das maiores possíveis.
A primeira vez que tive segurança e coragem de dizer com todas as letras para não ser esquecido, para ser bem memorizado, acontecendo o contrário seria questionado e cobrado, que não sou eu quem deve me adaptar às pessoas e sim elas se adaptarem a mim, por ser eu um e as pessoas serem muitas, reconheci no olhar e expressão de todos ser eu um homem por inteiro rebelde, inconseqüente, alguém que não dá a mínima para as suas atitudes, um desequilibrado, um esquizofrênico, etc., etc. Desejei dizer que tenho uma individualidade, se me ponho a ouvir todas as opiniões, torno-me um objeto nas mãos de todos, torno-me um homem sem personalidade, destes que estão sujeitos à nuança dos ventos, para onde os ventos forem lá estão elas. E numa sociedade em que é de opinião e posição geral que todos devem estar de acordo com o que se pensa e se faz, tais palavras dão sim margens a todo e qualquer comentário, toda e qualquer discriminação, todo e qualquer preconceito. Ademais, se não sou natural da cidade, se cheguei a pouco tempo, não tenho direito de abrir a boca, tenho sim de bater palmas e aplaudir a quem quer que seja, concordar e elogiar todas as opiniões e atitudes. Valha-me Deus!...
Sejam como for a opinião de quem quer que seja, lendo esta confissão, são palavras eminentemente verdadeiras, e não estou disposto em hipótese alguma a mudar de postura e comportamento, a transformar os hábitos e atitudes... Mesmo que não as revele no quotidiano de todas as situações e circunstâncias, mesmo que me cuide em permanecer calado e em silêncio com o que penso e sinto, sei que vou revelar em palavras numa folha de papel até apresentando detalhes e pormenores ainda mais contundentes, usando de todo o cinismo e sarcasmo possíveis. Um dom da palavra deve ser vivido em todos os sentidos.
Mesmo que morra na indigência completa e absoluta, sem nada até para comer e beber continuo dizendo: “Não sou homem quem é cúmplice e álibi das atitudes e ações humanas. Respondo pelas minhas”. São inúteis quaisquer esforços para uma mudança de minha personalidade e caráter.
Quem é capaz de negar que é justamente isto que estou a dizer com todas estas palavras? Ninguém.


(**RIO DE JANEIRO**, 20 DE MARÇO DE 2017)


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