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quinta-feira, 23 de março de 2017

**ORQUESTRA DE SOBERBOS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!


Não quero nem saber quem pintou o urubu de preto! Talvez quisesse o resto da tinta, a com que o urubu fora pintado, uma espécie de testemunho, ao longo dos anos tornando-se história, mas não tenho interesse de tornar tinta preta testemunho, história. Não posso afirmar que seja verdade o que me disseram – não lera qualquer coisa a respeito -, isto é, o urubu nasce branco, torna-se preto ao longo do tempo. Acreditando nesta informação, de imediato o desejo seria de saber o porquê deste fenômeno, a razão de ele nascer branco, tornar-se preto. Teria de chegar às minhas próprias conclusões, ninguém saberia responder-me, nem a ciência com todo o seu progresso e desenvolvimento ainda não explicou isto, talvez por falta de verba para a pesquisa. Para não esquentar a cabeça com o questionamento, aliás insosso e inútil, em nada iria servir-me, dir-me-ia: “Para não sujar as suas belas e lindíssimas penas brancas nos lixeiros da humanidade”. Não fora pintado de preto. A respeito do urubu sei que é o lixeiro da humanidade, a cor preta, quiçá, seja um símbolo deste título a ele conferido, além de se alimentar de carniça; os homens de todos os tempos e dos que ainda hão de vir sabem disso, o urubu é o lixeiro da humanidade, aliás um título de grande nobreza, está no seu bico a responsabilidade com a limpeza.
Há-de se considerar que, se a cor preta do urubu é devido a haver sido pintado, com o tempo, sob a ação do sol, desbotaria, sob a ação da chuva, retornaria a ser da cor que fora, necessitando ser pintado outra vez, quem o pintara iria necessitar do resto da tinta para mais algumas pinceladas, sucessivamente gastaria vidros e mais vidros de tinta. A soleira do ateliê do pintor estaria sempre entupigaitada de urubus à espera de sua vez de ser re-pintado. Se a atitude do pintor, não tendo qualquer outra inspiração para nova peça, decidindo pintar o urubu, se tornasse cultura, se tornasse uma arte, a empresa de tintas iria num piscar de olhos enriquecer fabricando tinta preta para pintar urubus, o seu produto especial, haveria um sem-número de pintores de urubus com a cor preta, alguns urubus sendo peça de museus - dentro de gaiolas especiais, visitar os museus é que seriam os quinhentos mil réis, o odor seria o problema, quê odor, carniça pura -, devido à arte, à engenhosidade com a técnica, a genialidade com o estilo das pinceladas de tinta nas penas do urubu, conservando o branco da pele de por baixo delas, e os pintores de urubus eternos e imortais, louvados e glorificados como gênios da pintura de urubus, não teriam preços no mercado mundial, peças imortais das artes universais.
Se eu fosse pintor, não me entregaria a essa arte de pintar urubus, visto a pintura de preto dos urubus se tornar uma coisa bem comum, um lugar-comum nesta arte, todos pintam urubus, todos capricham nesta ou naquela pincelada para deixarem a marca da originalidade, todos aproveitando do modismo de pintar urubus para se tornarem imortais e eternos – o que os homens não são capazes de fazer para sentirem bem fundo o prazer e a felicidade da eternidade, desfrutarem os privilégios e tributos da humanidade por lhes haver concedido o título de eternos e imortais! -, e eu mais um no meio deles, mais um mesmo, pois não iria mostrar maiores dons artísticos, não iria lhes superar a técnica, minhas marcas originais não iriam transcender as pinceladas do talento e dos engenhos, haveriam verdadeiros gênios na pintura de urubus. A menos que eu em cada pena do urubu pintasse uma imagem de floresta, de rios, de abismos, de terra seca e trincada devido ao sol intenso, bichos mortos no campo, cachoeiras, panoramas, com cores bem diferentes, a tinta preta apenas como pano de fundo, mas os urubus perderiam a sua identidade negra, tornar-se-iam mais um objeto artesanal nos céus do mundo, um objeto artesanal. Fico a imaginar o céu repleto de urubus pintados, um verdadeiro espetáculo de cores e imagens, e os homens usando aparelhos os mais sofisticados para poderem ver as imagens nas penas, cada uma diferente, diferentes de urubu a urubu, dizendo a si mesmos isto é que é criatividade, durante o dia urubus de penas pintadas, à noite estrelas, a realidade do céu in totum diferente.
O que eu faria, se fosse pintor, e esquecido pelos homens, pelas artes e cultura, por o modismo de pintar urubus estar imperando? Pintaria bicos de pato para pregador de roupas. Aí sim estaria contribuindo para a beleza dos varais de roupas nos quintais ou nas áreas de serviço de apartamentos, hotéis. Não pintaria os bicos de pato com a cor preta, pintaria de várias cores, com imagens minúsculas. As donas de casa com gostos mais refinados, com maior sensibilidade, escolheriam os bicos com imagens mais bonitas, alegres, para enfeitarem os arames onde ficam suspensas as roupas pelos bicos de pato. Normalmente, apesar das diversas cores das roupas, umas alegres, outras tristes, umas modernas, outras tradicionais, outras démodés, outras completamente foras da moda, os varais apresentam o espetáculo do mesmo. Com os bicos de patos pintados com várias imagens seria um prazer imenso fazer um passeio pelas ruas da cidade com o objetivo exclusivo de contemplar os varais de roupa com bicos de pato. Os olhos desfrutariam satisfações inusitadas, seria uma beleza sem par, sem precedentes de se contemplar. A indústria de bicos de pato para pregadores de roupa teria um pequeno lucro a mais, as donas de casa iriam comprá-los a roldão, vaidosas iriam querer mostrar os varais a cada dia mais lindos e enfeitados, e eu receberia das empresas uma percentagem, ainda que pequena, de minha arte de pintar bicos de pato para pregadores de roupa. Não teria concorrentes. A concorrência haveria entre aqueles pintores de urubus com a cor preta. Volta e meia poderia até me servir de um bico de urubu e pintá-lo à categoria para figurar no meio dos bicos de patos, uma inovação, na arte cumpre inovar, renovar, criar, recriar, inventar.
Não sei se eu iria conseguir expor meus bicos de pato para pregadores de roupa nalgum museu, nalguma exposição em galerias, em shoppings, tornasse-me um pintor imortal devido à minha arte de pintar imagens nos bicos de pato, com a engenhosidade das pinceladas, com a criatividade, pois que seria uma pintura inusitada, muito nova para os tempos modernos, nenhum pintor de todos os tempos se entregou à arte de pintar bicos de pato para pregadores de roupa, os homens não estariam preparados para isto, não teriam sensibilidade aguçada para a contemplação desta arte, mas de uma coisa eu tenho absoluta certeza, as donas de casa iriam atribuir-me grandes valores, iriam reconhecer-me, iriam vangloriar-me, antes de mim os seus varais de roupa eram um espetáculo do mesmo, coisa que nem elas gostavam de olhar, e algumas até fizeram uma amurada no quintal para os transeuntes não ficarem olhando as roupas suspensas neles, no quintal, quando as roupas estavam lavadas e secando, retirando as roupas, passavam de cabeça baixa, apenas recolhiam as roupas e jogavam no quarto de roupas a passar; depois de mim, não, apanhando as roupas, olham, observam, contemplam, vislumbram as imagens nos bicos de pato, sentem prazeres, têm sonhos os mais profundos e variados, têm esperanças de novas realidades. Não os deixam no arame. Recolhem todos numa caixa e guardam com o maior carinho. Há quem, recebendo visitas de amigos, conhecidos, familiares, tem o maior prazer de mostrar os bicos de patos para pregadores de roupa pintados com imagens lindas, imagens que só poderiam ter sido criadas por mim, dizendo até: “Um grande pintor! Pintor de bicos de pato para pregadores de roupa! Isto é que é criatividade!”. A propaganda é a alma do negócio: as compradoras de bicos de pato para pregadores de roupa aumentariam a cada dia que passasse, a empresa e eu ganharíamos com isso.
As donas de casa me fariam imortais. Não chegaria a expor a minha arte em museus, em exposições. Talvez a mídia se aproveitasse disso, interessa-se em divulgar os meus bicos de patos através de seus meios, veiculá-los aos novos tempos, a nova arte, cresceria, desenvolveria, atingiria os auspícios da fama e do sucesso, orgulhosa de haver-me descoberto, lisonjeada de estar-lhe sendo creditada pelos homens valores inestimáveis. Mas isto não chegaria a acontecer, pois não me deixaria ser objeto da mídia, da imprensa, se estivesse interessado em fama e sucesso, chegaria a fazê-lo com as minhas clientes, as donas de casa, o que realmente me importava. Não precisaria de mídia para me fazer, não precisaria da imprensa, teria dons e talentos suficientes para me fazer sozinho, apenas com a criatividade. O que importaria, se fosse conhecido apenas em minha cidade? Nenhuma cidade outra teria nos seus varais bicos de pato pintados por mim. Tornar-me-ia imortal apenas num lugar, numa cidade. Para mim, seria a maior felicidade, a maior alegria, servir ao meu povo. Depois de minha morte, se os bicos de pato cruzassem as fronteiras, o sucesso e a fama seria de meu povo, de meus conterrâneos. Não conheço maior sucesso na vida senão este de servir ao meu povo. Está no Livro Sagrado: “Quem ajuda ao próximo, empresta a Deus”.
Mas eu não sou pintor. Não saberia como pintar urubus de preto, não saberia pintar bicos de pato para pregadores de roupa. Aliás, para dizer uma coisa que estive pensando, re-fletindo, meditando, desde que me viera a mente escrever algumas coisas sem qualquer sentido, algo sem qualquer valor, uma ninharia qualquer, visto não haver tido ínfima inspiração para coisas profundas, de alto valor artístico, em verdade estou pensando que a inspiração se esqueceu de mim, sentindo até prazeres e alegrias com estas palavras todas, os dedos estarem bailando nas teclas do computador, ao som das músicas que tocam, ritmos, melodias, arranjos, líricas, e os olhos seguindo os caracteres sendo impressos na página, estar desfrutando serenidade no íntimo, não quero nem saber quem pintou o urubu de preto, não estou interessado no resto da tinta, não quero nem saber se bico de pato serve para pregador de roupa, o que desejo mesmo, desejo profundo, desejo que, aliás, jamais senti presente em mim, mesmo à distância, daquelas anunciações que vêm e desaparecem num abrir e fechar de olhos, é pintar o sete com as palavras, com as idéias, com os sentimentos e emoções. Quer inspiração mais profunda que esta? Quer inspiração mais criativa que esta?
Pintar o sete não é apenas pegar da tinta, pincel, passar a tinta no sete, com todos os artifícios e arrebiques da arte da pintura, e o sete ficar lindo e maravilhoso. Isto até que eu saberia fazer com a maior facilidade, era só passar a tinta no símbolo do número, no tracinho que os antigos, apesar de não ser velho, também faço isso, passam na perna do sete, que, aliás, fica até sugestivo, aprimora a visão, digamos assim. Pintar o sete com as palavras, idéias, sentimentos, emoções, com as intenções escusas, com os interesses irônicos, cínicos, sarcásticos, é tarefa árdua, é prática das mais complicadas e complexas, exige muito mais que pinceladas, exige mais que imaginação, exige flexibilidade com as palavras, exige saber brincar com elas, exige dar-lhes outros sentidos que não os comuns, vulgares, tradicionais, exige destreza e perspicácia para colocar os sentimentos e emoções nelas, para engendrar as idéias nas nuanças de suas contradições e nonsenses. Não é todo dia que se é possível pintar o sete com as palavras, não é todo dia que estou com espírito de criança pestinha, levada, faz as maiores artes, apronta todas. Só mesmo de quando em vez se revela este espírito, se tenho esta inspiração de pintar o sete, devo mais é aproveitar disso ao máximo, pintar o sete, e no decorrer do exercício, cantar a pedra setenta que é uma das minhas especialidades, estando a garatujar símbolos e caracteres na página branca de papel.
Por que iria me interessar em guardar o resto da tinta com que o pintor pintara o urubu de preto, no momento em que não tinha qualquer digna inspiração para outro quadro no seu acervo artístico, ou se bico de pato serve para pregadores de roupa, se não servir, talvez com uma pintura neles, passam a servir e muito, se posso pintar o sete com as palavras, sentimentos, emoções e idéias, adquirindo resultados nunca dantes imaginados por mim, nem percebido que podia fazê-lo, podendo até dizer que nalguns minutos o fiz, mas dera um outro nome para esta arte de, sem inspiração, ir bailando os dedos nas teclas do computador, sem parar, num único fôlego, digamos assim, apenas com a agilidade e flexibilidade com as idéias e as palavras, com a engenhosidade de brincar com elas, torcer-lhes, contorcer-lhes, virar-lhes ao avesso, colocar-lhes de cabeça para baixo, in-verter-lhes, re-verter-lhes, até darem um produto final, até constituírem um objeto de arte. Pintar urubu de preto, bicos de pato para pregadores de roupa, digamos, apesar de não o ser, ser bem mais fácil, não exigir tantos esforços com o pincel e a tinta.
Não quero nem saber quem pintou o urubu de preto, se bico de pato serve para pregador de roupa, se pintando imagens no bico o pregador se tornará um objeto artesanal e enfeitará os varais de roupas a secar, quero mesmo é pintar o sete, quero mesmo é brincar com as palavras, com as idéias, até me sentir em absoluto bem, visto que, antes de me vir à mente isto de “não quero nem saber...”, sentia-me angustiado, entristecido, tenso, por não me surgir qualquer inspiração para mais umas garatujas na folha branca de papel, e como resultado de meus esforços e lutas com as palavras, poder dizer que escrevi um texto, que ele pode ser considerado uma obra de arte. O que faria de minha vida sem inspiração, como iria gastar os segundos e minutos de meus dias, sem a inspiração, sem criar, sem me sentir útil aos homens com as minhas palavras? Ser-me-ia a vida tédio inestimável. Pediria a Deus para antecipar a minha morte, não poderia mais esperar pelo dia marcado. Realizasse o meu desejo, era o último de minha vida. A minha vida são as palavras, são os sentidos que lhes dou, são os sonhos que construo com elas, são os desejos de mais vida ainda para continuar criando.
Mas a tinta com que o urubu fora pintado, com o estilo de linguagem que os homens usam, naquele momento em que não querem saber de nada senão realizar os seus sonhos, não querem saber de nada senão aproveitar suas vidas, deitar na rede e olhar para o infinito, para todos os horizontes e uni-versos distantes, veio-me ao auxílio, e estou podendo até o presente instante continuar a bailar os dedos nas teclas do computador, sem quaisquer dificuldades, sem quaisquer esforços, sem quaisquer lutas, alfim é uma ação eminentemente espontânea, deixando caracteres impressos na folha branca de papel. Inspiração? Não. Desespero de causa. Os bicos de patos também me serviram, pois que quem diz sobre a tinta do urubu, diz também sobre o bico de pato, para completar as idéias, para enfatizá-las: “Não quero nem saber quem pintou o urubu de preto, se bico de pato serve para pregador de roupas”.


(**RIO DE JANEIRO**, 23 DE MARÇO DE 2017)


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