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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

#AFORISMO 112/PRECE DO CREPÚSCULO DA EC-SISTÊNCIA, ALVORECER DA MORTE# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Salve-me dos medos do in-audito, inter-dito que me perpassam os re-cônditos dos sonhos!


Salve-me das tristezas, desolações que fluem às pencas neste instante, as primaveras passam indiferentes aos sentimentos e emoções, esvaecem-se, as flores ec-sistem no imaginário, perdido no tempo!


Salve-me do nada, do vazio que concebem o olhar disperso às antípodas do horizonte, panoramas de vales e bosques faltam-me à visão!


Salve-me da alegria sensaborona, das volúpias do eterno, da felicidade que me sussurram nos ouvidos o absoluto plen-ificado de ideais, esperanças, que me cochicham nos ouvidos a estética da liberdade logo ao alvorecer de amanhã!


Salve-me das luzes que iluminam as alamedas e lotes vagos, que plen-itude haverá em torno de mim, que torrente de amor me arrastará para baixo - para o mar?!


Salve-me do silêncio, da solidão, quero precipitar minhas palavras nos vales, desejo encontrar a minha velha e selvagem sabedoria, as ilhas bem-aventuradas onde vivem as ninfas, as musas!


Salve-me da perfeição de rugir com ternura, afeto, de ruminar com conhecimento e sapiências, de sentir o incólume prazer de procriar e evolver as imagens do tempo e do devir!


Salve-me da fé que redime pecados, culpas, pecadilhos, que assegura a felicidade imortal, a paz plena, o paraíso de só êxtases, clímax!


Salve-me do inverno de frio ad-stringente aos ossos, da primavera de perfumes agradáveis, das flores que des-abrocham ao alvorecer, do verão de sol escaldante, do outono de folhas caídas!


Salve-me dos idílios da pureza, das quimeras da inocência, das fantasias da ingenuidade, da sabedoria dos versos que cantam e declamam o espírito da verdade solene!


Salve-me das metafísicas que enovelam pretéritos das idéias, das psicanálises que conjugam traumas e fracassos, conflitos e frustrações, medos das imperfeições à luz de sonhos e utopias do "eu" absoluto!


Salve-me do pensamento que torna torto tudo o que é reto e faz girar o prático-inerte, o tempo abolido e as vertigens da mentira!


Salve-me das angústias, náuseas que prescrevem o Evangelho das con-tingências rumo ao além-sagrado!


Salve-me de mim, mim-mesmo, do eu-poético, da minha vontade criadora, do meu destino!


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE AGOSTO DE 2017)


#AFORISMO 111/CANÇÃO DISTANTE VELANDO O TEMPO# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto:


À Eliete Araujo Duarte e Antônio Nilzo Duarte com todo apreço e amizade.


Há um asilo para escritores indigentes e um hospital para maus poetas.


Há uma canção distante velando o tempo, tempo de solidão desértica da verdade, tempo de silêncio secular das utopias, tempo de ideais efêmeros, tempo de sentimentos e emoções do há-de ser.


Há uma noite que custa a passar, inda o alvorecer distante, mas está por se realizar, micos se divertindo no fio de alta tensão, pássaros cantando... pensamentos, idéias a-nunciam-se, esvaecem-se de imediato.


Há uma prosa silenciosa re-versando, in-versando palavras às sara-palhas dos ventos de leste, palavras desérticas de signos, símbolos, metáforas, a língua toca os lábios à busca de sabor de prefixos, sufixos, temas e radicais, a alma circunspecta, introspectiva vagueia por florestas, mares, bosques.


Há ipseidades, facticidades circunvagando idílios, sorrelfas, quimeras; há forclusions, manque-d´êtres circundando medos, inseguranças, náuseas.


Há um canto de melancolia, salmo de nostalgia artificiando pós regenciais de sonhos que preencham os lapsos de memórias, lembranças, recordações; inda me não fora dada força suficiente para o último ímpeto e audácia da cigarra, até à garganta me sobem o pulsar de meu coração quando a ouço cantar... Cítara de verbos milenares... cítara de sons primevos...


Há íntima nascente do espírito, ó famosos sábios, um bálsamo para as impetuosidades dos ventos que sopram nos auspícios da colina onde os lobos uivam na lua cheia.


Há uma vela correndo no mar a sabedoria selvagem que desperta todos os cantos dos que amam, falam a própria linguagem do amor enamorado pela liberdade de ser.


Há clérigos sentados nos degraus da igreja, após a missa matutina, contemplando os canteiros do jardim público, o bem e o mal são apenas sombras inter-postas e áqueas tribulações e nuvens passageiras.


Há fomes seculares, sedes milenares apocalipseando a consumação dos tempos, enfiando a cabeça na areia das coisas celestes.


Há boêmios e vagabundos passeando na praça central, ouvindo músicas nostálgicas, a fonte luminosa ligada, casais sentados nos bancos arrastando todas as coisas vindouras para o instante-limite de suas fantasias do eterno amor.


Há um ad-vérbio entre vírgulas perscrutando o espírito das gravidades temporais, às suas costas há uma eternidade.


Há um verso mudo nas longas ruas que levam para a frente as gélidas névoas.


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE AGOSTO DE 2017)


#AFORISMO 110/ ZÉFIROS VERBAIS, LINGUÍSTICOS DE SONHOS PRIMEVOS# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Dúvidas fragmentam o que silencia as vozes, o que musicaliza sentimentos e emoções, o que ritma as inspirações solitárias da verdade e do belo, o que melodia as intuições peregrinas da liberdade e do amor, o que acorda as percepções a-nunciadoras do pleno e das plen-itudes.


Aos longínquos campos de algodão... aos distantes campos de lírios... à sombra serena do ulmeiro... verbos regenciais de desejos da beleza do belo conjugam do tempo e do ser a metafísica dos sonhos que esplende a todos os uni-versos, a todas as "paisagens e riachos que iluminarão idéias com novos brilhos", metáforas con-cordam de verbais utopias os sibilos ad-vindos da passagem dos ventos entre as montanhas, o som das águas do rio na sua jornada na madrugada por caminhos sinuosos.


Aos remotos vales de orquídeas... aos afastados pampas de ovelhas... às lonjuras de terrenos de canaviais... à soleira da colina de oliveiras... in-fin-itivos que tematizam a solidão das esperanças, gerúndios que artificiam de linguísticas e semânticas as semiologias das palavras, particípios que nascem e re-nascem das lácias línguas dos pretéritos, águias e condores sobrevoam o deserto, e nalgum sítio do sertão cavaleiro conduz o gado a espaço aberto, sem cancelas, sem porteiras.


Devaneios... Desvarios... Manhã, pós chuvinha fina por toda a madrugada, tempo nublado, friozinho... Ao longe, a neblina envela o mar.


Sorrelfas do aquém-tempo elencam, alumbram venustas gnoses regenciais do vazio. Centelhas de primavera na floração orquidisíaca do amanhecer de simples ilusões do eterno habitando o âmago da liberdade de criar, re-criar as dimensões do Ser. Da boêmia e sabedoria o vento do silêncio, a maresia da solidão...


Aragem... brisa... Zéfiros verbais, linguísticos de sonhos primevos que serenavam sendas e veredas a serem trilhadas, e no crepúsculo a imagem lúcida, lúdica do tempo sentido profundo, élans de última inspiração.


Canções... cantos... baladas... cânticos...
Neblina... neve... garoa... orvalho...
Para que sítio a coruja voa nesta manhã pós chuvinha fina? Dormirá o sono de suas utopias da sabedoria nalgum vão da montanha, nalguma gruta, nalguma caverna? Voa... Voa... Voa...




(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE AGOSTO DE 2017)


domingo, 20 de agosto de 2017

#AFORISMO 109/NO TEMPO, O ESPLENDOR DA IMAGEM# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Epígrafe:


"O projeto e a eficiência revelam-se com a finalização da obra." (Graça Fontis)


Nostalgia do in-visível...
Sou sêmen. Semântica. Conceber no tempo o esplendor da imagem
Sin-estesia. Sin-cronia. Gerar nas travessias o resplendor da luz.
O diamante cortou o espelho do além. Centelhas de espectros.


Efêmeros raios de sol, numinosos brilhos de presente "Ser", luminâncias de pretéritos do “Tempo”, mistérios do im-perfeito con-templando o espírito do perfeito, enigmas do perfeito velando o verbo de ser do mais-que-perfeito, sibilos do tempo ritmando o ser, soul de melancolias, nostalgias, saudades, jazz de tristezas, solidões, murmúrios de sofrimentos e dores, deslizando suaves no crepúsculo de nostalgias... segredos do in-fin-itivo corroborando o núcleo dos verbos defectivos, anômalos, e as ipseidades rejubilam-se de proscrições e gozos.


Nostalgia do in-audito...
Peregrino de plagas celestiais.
Os astros rolam em numinosa procissão.
Há cantos de eternidade nos ermos distantes.
Há cânticos de esquecimento nos chapadões, vales.
Há réquiens para Matraga, para José no instante-limite da liberdade.


Luminosas esperanças de fin-itude outra perpassando o tempo de in-finitos desejos do Verbo "Ser" tecendo ilusões em cujos idílios nonadas re-fazem travessias, em cujas elegias pontes partidas re-criam espaços, em cujas odes nadas tecem solstícios, comungam mistérios e magias em laços de amor pelo que há-de vir de alegrias, dores, pelo que há-de ser de verdade.


Pelos pro-jectos por virem no tempo, pelas utopias por se a-nunciarem no vôo da águia, de outros caminhos e sendas em direção à plen-itude do in-finito, em cuja essência habita o uni-verso, em cujo cerne habita o além, em cujo eidos reside o eterno, trans-literalizado do sono profundo que sonha a verdade re-nascendo de estrofes o ritmo do silêncio que re-vela a luz a iluminar o entre-árvores do silvestre da floresta aberta às estrelas a guiarem o caminheiro do verbo "brilhar", do neologismo "brilhança" a orientarem o sendeiro da luz, a guiarem o peregrino do silêncio, “resplandecente”, outras gêneses, princípios outros da alma que con-templa o espírito da vida é coisa divina das terras de bem-virá à luz da solidão, levando alegria onde há paixão, levando prazer onde há o saber, conhecer e fazer, ao espírito do silêncio, luminando felicidades; onde há amor suprassumem vozes que murmuram ao peito o cântico de pássaros na aurora de novo dia saudando a natureza, jubilando a glória ipsis litteris do amor ao Ser-{da}-Vida, ipsis verbis da vida ao Ser-{do}-Amor de poetas na poiésis do verbo declamando a fé , [“When I find myself in times of troubles/Mother Mary comes to me/Whispering words of wisdom...”] na esperança do amor se tornar a felicidade, da amizade ser o segredo de ser-[de]-outro-eu, de boêmios na des-lucidez da alma e dos sensos, no des-senso das idéias e dos ideais, dedilhando nas cordas dos amores não correspondidos, dos fracassos dos sonhos não realizados, das quimeras molhadas no travesseiro dos medos, de escritores na estética da utopia sertaneja versificam palavras-esperança-e-fé a consciência-ética do Ser-Verbo-de-Esperança.


Só o Amor é a Esperança da Vida,
Só a Fé é o Sonho da Eternidade,
Só a Amizade é a Iluminação da Verdade,
Só a Liberdade é o In-fin-itivo do Tempo.


Oh, melancolia!... dos sítios distantes ou longínquos que não foram bastante con-templados às primeiras luzes do dia, raios do sol, trinados de pássaros, amados na hora passageira. Como amaria eu de lhes dar à distância o toque esquecido, o gesto negligenciado, a ação suplementar. Invento-os eu, minhas mãos desenham um semi-arco-íris, um barco à luz do céu por sobre as florestas, um nublado que se esvaece e que des-aparece como num fogo de imagens, chamas crepitando lenhas de perspectivas.


(**RIO DE JANEIRO**, 20 DE AGOSTO DE 2017)


sábado, 19 de agosto de 2017

#AFORISMO 108/PROSCRITO DO RIO SANTA MARIA# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Epígrafe:


"É na prática de bons atos que florescem grandes virtudes." (Graça Fontis)


O espírito humano, à imitação da planta que floresce do modo mais esplendoroso entre os não-conformistas e anticristos, aliás, onde sempre floresceu, na sombra, como a violeta, embora com outro odor, deve seguir uma curva que o devolva ao seu ponto de partida, ao seu lugar de origem. No início, falo deste estado maravilhoso em que se encontram os divinos proscritos, onde o espírito se encontra, às vezes, lançado como que por uma graça especial; digo que estes mesmos divinos proscritos anseiam incessantemente a reanimação de suas esperanças e a sua elevação ao infinito; mostram um gosto frenético e alucinado, muito embora em suas mentes e imaginações estas palavras suscitem quase o mesmo sentido, por todas as experiências prazerosas e sublimes, mesmo que perigosas, mesmo que em demasia ininteligíveis e portadoras de conseqüências as mais desastrosas; ao exaltarem suas personalidades, suscitam por um instante aos seus próprios olhos o paraíso de segunda mão, objeto de todos os desejos, orgias, e digo, enfim, que este espírito arrojado, trigueiro e levado, sem o saber, até o inferno, confirma assim a sua grandeza original.


Creio não ser necessário e nem conveniente transformar o espetáculo em um comércio que visa apenas o lucro e o conforto, vender a alma para pagar as carícias embriagantes e a amizade das parcas. Imagino um homem (um poeta, um filósofo cristão, um anticristo, colocado no árduo Olimpo da espiritualidade, à sua volta as Musas de Rafael ou de Mantegna, para consola-lo de seus longos e invernosos jejuns e preces assíduas, observam-no com seus mais doces olhares e úmidos lábios, os sorrisos mais iluminados. O divino Apolo, mestre em tudo saber, afaga e acaricia com seu arco as cordas mais vibrantes. Abaixo dele, ao pé da montanha, nas sarças e na lama, a multidão dos humanos, o bando dos apátridas, simula os esgares da alegria e do prazer e solta urros provocados pelas dentadas do veneno.


Entristecido com tamanho espetáculo de luzes e palavras, gestos e insinuações, digo a mim próprio: “Estes infortunados que não jejuaram, nem oraram e que recusaram a redenção pelo trabalho, enfim o trabalho enobrece o homem, garante que o seu epitáfio seja por todo sempre iluminado pela luz solar, buscam submeter-se aos escárnios e humilhações de toda sorte como alguém se submete a um câncer, a uma aids ou à morte, com aquele impávido fatalismo sem revolta, em virtude do qual os russos, por exemplo, ainda hoje têm vantagem sobre nós, os ocidentais, no trato com a vida.
Isto, como agora sou bem autêntico e ousado em afirmar, é digno de um grande trágico: o qual, como todo artista, somente então chega ao cume de sua grandeza, ao ver a si próprio e à sua arte como abaixo de si – ao rir de si mesmo.


Em face da velha senha mentirosa do ressentimento e da mágoa, a do privilégio da maioria, enfim é mais fácil um proscrito adquirir o seu leito de penas, diante da vontade de rejeição, preconceito, discriminação, de atraso e ocaso do homem, ecoou forte, nítida, simples e insistente como nunca dantes pensado e imaginado, a terrível e fascinante contra-senha do privilégio dos raros.


Eis, portanto, homens supostos, divinos proscritos, o espírito de minha escolha, chegado a esse grau de prazer e serenidade, onde sou levado a admirar-me a mim próprio. Toda contradição desaparece, toda polêmica se resolve com um aperto de mãos e três tapinhas nos ombros, como é sobremodo peculiar nos mineiros, todos os problemas filosóficos e teológicos tornam-se transparentes, ou pelo menos assim parecem. Tudo é motivo de prazer, de júbilo, de ostentação. Uma voz nele fala (infeliz! É a sua própria voz) e lhe diz: “Você agora tem o direito de se considerar superior à raça humana, a toda a humanidade; ninguém conhece ou poderia entender tudo o que você pensa e sente; seriam mesmo incapazes de apreciar a benevolência que lhe inspiram. Você é um rei que os passantes desconhecem, e que vive na solidão de sua convicção: mas que isto importa? Aliás, nada disso importa realmente. Você por acaso não possui este desprezo soberano que torna a alma tão humilde e boa, capaz de praticar as mais perfeitas misericórdias e compaixões?”
De quantas ações tolas e imbecis não está cheio o passado, que são verdadeiramente indignas deste rei do pensamento e que profanam sua dignidade real e ideal. Quantos homens encontraríamos no mundo tão hábeis e perspicazes para se julgarem, tão severos para se condenarem? Com a horrível lembrança absorta, dispersa, desta forma na contemplação de uma virtude ideal, de uma caridade ideal, de um gênio ideal, entrega-se candidamente á sua triunfante orgia espiritual.


Agora, da contemplação de seus sonhos e desejos e de seus projetos de virtudes, decidiu-se pela sua aptidão prática à virtude; a energia ao mesmo tempo vigorosa, esplendorosa, resplendorosa, apaixonante com a qual ele abraça este fantasma de virtude parece-lhe prova mais do que cabível e suficiente, peremptória da energia viril necessária para a realização de seu espetáculo, de seu ideal. Confunde ele, com toda a empáfia de sua personalidade, o sonho com a ação, com a autenticidade, e com sua imaginação aquecendo-se mais e mais diante do espetáculo encantador de sua própria natureza corrigida e idealizada, substituindo por esta imagem fascinante de si próprio, divino proscrito, o seu indivíduo real, tão pobre em vontade, tão rico em vaidade, termina por decretar sua apoteose nestes termos nítidos e simples que contêm para ele todo um mundo de abomináveis prazeres e contentamentos: “Sou agora o mais virtuoso dos homens”
Logo de imediato este furação de orgulho e empáfia se transforma em uma temperatura de êxtase tranqüilo, calmo, mudo, repousado, e a universalidade dos seres se apresenta colorida e como que iluminada por uma aurora ácida e sulfurosa.


Se uma ruminação selvagem, um grito rebelde, ardente, arrojar-se de seu peito com uma tal energia, um tal poder de projeção que, se as vontades, desejos, sonhos, e as crenças de um homem ébrio tivesse uma virtude eficaz, esta ruminação, este grito reviraria os anjos disseminados nos caminhos do céu: “Sou um Deus!” Qual é o filósofo francês que, para ridicularizar as modernas doutrinas alemãs, dizia: “Sou um deus que jantou mal?” Esta ironia, cinismo, sarcasmo não afligiria um espírito elevado ao nível de um proscrito, e ele responderia com todo o carinho e ternura que sua alma fosse capaz de expressar e revelar: “É possível que tenha jantado mal, rabada de boi com aipim não caíram bem no estômago, mas eu sou um Deus”.


(**RIO DE JANEIRO**, 20 DE AGOSTO DE 2017)


#AFORISMO 107/INOCÊNCIA DO BELO A OLHOS NUS# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Epígrafe:


"O intelecto adquire-se com a sabedoria através do tempo" (Graça Fontis)


O céu, de um azul profundo, está manchado aqui e ali por nuvens de um escuro acinzentado que penetra muito mais ao olhar e ao íntimo que o azul fundamental de um cobalto intenso; e por outras nuvens, ainda que menores, de um azul mais claro como a brancura de fraldinhas de criança, a brancura azulada das vias lácteas. No fundo azul cintilam estrelas claras, esverdeadas, amarelas, brancas, rosas guarnecidas de ouro e de riso, de diamantes e pedras preciosas ou talvez mais como as nossas pedras preciosas, opalas, esmeraldas, safiras.


As imagens sucedem-se a um ritmo extraordinário, fantástico, similares a um verso ou a um poema - refiro-me a poema, não a escroque de palavras como a modernidade tem produzido -, a distribuição de sons de modo que estes se repitam a intervalos regulares, ou a espaços sensíveis quanto à duração e à acentuação, rigor voluntário no sentido de ir unindo-as, sem deixar perder uma característica muito singular, a sua singeleza na sedução e na conquista, a simplicidade de formas não destoa de harmonias discretas e requintadas, a ingenuidade da beleza imprime nelas o esplendor do estilo, a inocência do belo a olhos nus realça o resplendor dos desejos e dos sonhos.


O que mais assusta nisto de contemplar todas as situações e circunstâncias da vida, recriá-las, tornando-as atitude e generosidade, amor e compaixão, é que tudo se cala diante das revelações, reduz a imensa massa de silêncio, que ouço sem cessar; contudo, dizer somente de "doces" e "chocolates" não fazem o estilo de alguém que busca e trabalha sua realidade no sentido de atingir a Vida, e não somente o sentido dela. Quem disse que a modernidade quer atingir a Vida? Nem o sentido ela deseja. Se houvesse o tão esplendoroso e digníssimo senso, muitos largariam a pena - nem sabem o que é uma palavra -, iriam capinar terrenos baldios.


A pura hipocrisia é uma boneca que se afaga todos os dias, sim, e ninguém pode negar esta sua dimensão, pois que assim perde a poesia de seguir uma alameda tranqüilo e sereno com suas atitudes, com seus pensamentos, idéias, com desejos e sonhos de poder compreender os enigmas abençoados, ajudando a compreender o sentido de todas as coisas, pois que assim deixa suspenso as milhares de vozes que lhe anunciam o que descobriu e, no entanto, sabe que ainda não mergulhou fundo nas alegrias e felicidades do mundo.
Ruminando ouro e riso, construo com as mãos, são elas o objeto do intelecto, a vida que desejo viver. Dir-se-ia que agora há em tudo ouro velho, bronze, cobre, e isto com o azul acinzentado, excessivamente harmonioso, com tons de reflexos.


Respiro ar puro a plenos pulmões e sinto-me feliz. Aqui vivo livre, não sou oprimido pelo desinteresse e preguiça e espero seja o meu último porto. Com efeito, o que corre são a preguiça e o desinteresse de as pessoas serem sinceras, autênticas, tem-se a impressão de que se está na arquibancada de um circo de quinta categoria; ao terminar o espetáculo, rumina-se ouro e riso. É a vida que escrevo de memória na própria imagem que delineio e burilo.


De que adiantam então as palavras, os sentidos, os significados? De nada adiantam. Com certeza. Servem para brincar - bem, para mim é para brincar, passar o tempo até daqui a pouco, quando já imaginar que não sobrou mais nada a registrar, quando houver adquirido a sabedoria de que as últimas possibilidades são do tempo e da eternidade.


Sinto-me sorrir com os cantos da boca. A alma olha as coisas de esguelha.
A única coisa que o relógio simboliza ou significa, enchendo, com sua presença, as horas, é a curiosa e insípida sensação de encher o dia e a noite com a presença das horas. Todo o alpendre estala de uma presença intensa, alguém mais ali, flagrante sinto-o, não vejo ninguém. Uma vaga passa, invisível e grande, ao balancear dos meus olhos pelo horizonte, sinto-me bem, experimento uma canção que me aparece nos ouvidos. De qualquer modo que sinta o inverno - agradável, porque é frio; esplendoroso, por ser sereno e suave, não havendo letras que não desejem ser expressas com alegria e júbilo - assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo. Coloque estes momentos nas mãos dos que se dizem poetas, sentem-se orgulhosos e lisonjeados, faltando a melancia no pescoço para aparecerem ainda melhor, para ver que "xangana" eles escrevem. Claro. As palavras se escondem no mais fundo do abismo para não serem objetos de galhofas de leitores.


Espírito de sacrifício? Abnegação levada ao extremo. Ou ingenuidade incurável daquele cuja escolha se fixa nas atitudes que julga as mais simples e verdadeiras. Inteligível e conveniente não é ruminar ouro e riso, mas o ruminante sejam o desejo e a vontade do ouro e do riso. Esta simplicidade apareça aos olhos de todos como o intrépido, como o paradoxo, de uma posição e decisão na vida.


É preciso desejar ser autêntico numa luta e que a maioria demonstra uma indiferença total; quando nos atrevemos a isso, é preciso sentir a força de sermos alguma coisa em nosso tempo, é preciso ser ativo, para ousarmos dizer se não agüentarmos; vou para onde outros foram, os que ousaram.
Não se fala senão nas horas em que não se quer perceber a presença dos homens e quando se se sente uma enorme distância da realidade. E ao imediato que se emite as palavras qualquer coisa adverte de que as janelas divinas se abrem algures, as portas infernais estão sempre fechadas.


Os homens são absurdamente avaros do silêncio, por isto de inconseqüência sem limite; entre eles não se calam diante do desconhecido. O instinto das verdades sobre-humanas previne de que é comprometedor calar-se diante de alguém a quem não se intenciona conhecer ou de quem não se gosta; as palavras passam entre os homens, mas o silêncio, se teve a oportunidade de se tornar dinâmico, não há como negar sua dimensão inconsciente, não se esvai, esvaece-se nunca, e a Verdade-vida, a única que inscreve seus passos e traços, é feita de silêncio.


Só mesmo homens que não desenvolveram a perspicácia de ler as palavras com cuidado, sem preconceitos e discriminações, não podem ver que a intenção é de mostrar que posso trabalhar uma frase em muitos textos, e em cada um deles ela terá um outro sentido e significado. Há que estas palavras, chamadas de Vida, nascem num instante inusitado, não se percebe a sua proximidade, e há-de ser bem atento para registrá-las como surgem.


(**RIO DE JANEIRO**, 19 DE AGOSTO DE 2017)


#AFORISMO 106/ONDE AS TEMPESTADES SE PRECIPITAM NO MAR# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Nada corroborando o sublime desejo de con-templação do arco-íris ao longo da montanha. Nonada exsudando grãos de areia na ampulheta sobre a colina onde raios de sol incidem misticamente. Lenta aranha rastejando ao luar, o próprio luar, eu e as lembranças distantes e próximas cochichando de coisas externas.
Vazio de perfeitas dimensões con-tingentes menoscabando sentimentos e emoções que esplendem as visões aos lotes vagos dos becos onde boêmios catam cavacos e vociferam impropérios contra os ressentimentos e mágoas. Náuseas noctívagas performando inter-ditos e in-auditos sob a re-velação da lua cheia, num silêncio mortal, quando também as cadelas tem medo de almas penadas. Contorcido, sufocado, convulso, com o rosto transtornado, negra e pesada cobra pende de minha boca.
Coração tem quem vê o abismo com petulância. Alma tem quem precipita no mar as tempestades.
Quem sabe tenha eu a faculdade de julgar os valores estéticos do abismo, segundo critérios subjetivos, sem levar em conta as normas preestabelecidas?! Por julgar que a tenha, é que vejo o abismo com petulância. Não me refiro à petulância, diante de testemunhas, diante de alguém que reconheça esta petulância, refiro-me sim à petulância de solitário, à petulância daquele que não ergue nenhuma efígie e a adora e venera, daquele que não tem deuses por espectadores, não tem Zeus como protagonista, não con-templa sua imagem re-fletida no espelho.
Creio, sim, a crença de quem contempla e espera alcançar uma graça, aos risos e ouros sentir enfim o que é isto a esperança, que, quando é chegado o instante de sua entrega aos homens, ela simplesmente põe em mãos outras tantas realidades e prazeres. Creio sim na imagem que se me surgiu no espírito. Por uma frincha das folhas de uma árvore, vi as montanhas descerem aos vales, os abismos subirem à superfície, algo assim como uma nova terra, uma nova realidade, novos sonhos e ideais, enfim, o viajante da ressurreição necessitava seguir a sua jornada, e num sonho desta noite senti onde as tempestades se precipitam, no mar, olhei-me ao espelho e sorri plenamente.


O que dentro trago em mim deve ser revelado, deve ser expresso. Por exemplo, pela minha parte, sinto um alívio sem precedentes estar cá em cima, olhando o mar, perscrutando a sua profundidade, buscando revelá-lo. Sem isto, o sentido da vida não teria o mínimo senso. O que dentro trago em mim deve fazer sorrir de prazer, de questionamentos, de novas possibilidades, novos encontros, novas amizades, aí sigo a viagem para onde as tempestades se precipitam no mar... no Mar de Janeiro.


A vida... Meu Deus, tantos caminhos nela, às vezes temos de passar por veredas, becos, alamedas, escuros todos, não podendo enxergar um palmo além do nariz adunco, não sabendo o que pode haver, onde novamente as luzes iluminem a cidade inteira; o mesmo no que concerne nossa vida intima, esquecemo-nos de que nos perdemos com os nossos dramas, onde está a esperança a que somos vocacionados, vocação dada gratuitamente por Deus, deixo de ser feliz, de viver em paz, de sentir amor e carinho, dedicação e entrega, em nome de coisas já passadas, de futilidades, de achaques e pitis.
Faz-se mister um conhecimento de quem somos e quem representamos no mundo, tornando-nos conscientes, homens em busca de nossa verdadeira vocação: A Paz, a Felicidade.


A sombra é uma dimensão do conhecimento.


Às vezes, se observarmos com perspicácia, percebemos que ela reflete exatamente a adversidade de nossas condutas, atitudes, ações. Ela mostra-nos que andamos em direção contrária às nossas necessidades mais fundamentais: a compaixão, a solidariedade. Colocando-nos diante dessa nossa sede de contemplação e conhecimento, estamos desejando sim que haja uma síntese do homem e de sua sombra.


O questionamento que nos é colocado é justamente a nossa responsabilidade com a vida e o sentido desta.


Devemos trazer as montanhas para os vales e os abismos para a superfície.


(**RIO DE JANEIRO**, 19 DE AGOSTO DE 2017)