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segunda-feira, 27 de março de 2017

**SÉTIMA PRE-FUNDA DO INFERNO** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


O homem nasce doido a sociedade cura.
Acusar-me-ão as línguas de sogra, especialmente as dos críticos literários encasquetados com a originalidade e autenticidade - dizendo-lhes eu com os verbos na ponta da lingua: "Os críticos vão; os escritores ficam" -, de parafrasear Jean-Jacques Rousseau na sua célere frase: "O homem nasce puro, a sociedade corrompe".
São duas épocas diferentes, a de Rousseau, a de nossa Modernidade, se é que lhe possa chamar assim, pois que os deuses do conhecimento e da intelectualidade a chamam de IDADE TRANS-MODERNA ou TRANS-MODERNIDADE. Hoje, homem algum nasce puro, já nasce corrupto, e seu lugarzinho especial na sétima pre-funda do inferno está reservado, ninguém roubará a sua cena, ninguém lhe tirará o que é de direito. Mas jogando as cartas sobre a mesa, sem coringa sequer, a verdade é que atualmente o homem nasce despirocado, des-conectado, louco de pedra, com os instintos de trans-gressão das leis, dogmas, preceitos, morais e éticas, princípios à flor da pele, mas, no passar do tempo, a sociedade lhe vai mostrando os pingos nos iis, para que sobreviva é preciso, em primeira instância, seguir o rebanho, rebanho de ovelhas alucinadas pelo poder, pelas glórias, para que viva faz-se mister aceitar e ad-mitir hipocrisias, farsas, falsidades, aparências, entregar-se ao dinheiro, aos bens materiais, pois que são a semente e o húmus da vida, sem eles nada é ou será. Curar a loucura, doidice com hipocrisias, farsas, falsidades, aparências que supremo valor este da Trans-modernidade.
E o doido, ensandecido com a morte, aquele medo horroroso de morrer doido e haver passado a vida em negras nuvens - se é que doido sabe o que é isto, a morte -, assina a papelada da lealdade e fidelidade, através do beijo molhado nas páginas, das digitais, não sabem ler ou escrever, sem ao menos haver atinado com tudo que a sociedade canta, decanta, declama, recita por todos os cantos e re-cantos. Um cadáver de louco é um belo pensamento para o verme e o verme é um pensamento horrível para o louco vivinho da silva. Os vermes, desde a essência que lhes habita os interstícios, âmagos e redutos sonham com um reino celeste sob a forma de um corpo bem gordo, os professores de psicanálise, psiquiatria procuram o deles, o reino celeste, remexendo as entranhas de Schopenhauer e enquanto houver roedores haverá também um paraíso de roedores.
O simples fato de se per-mitir, con-sentir sua loucura, haver nascido louco, é em si uma confissão. Todos tem o direito de escrever a própria biografia desde nascer doido até o seu conserto, até a sua cura, depois dos quarenta anos. E já que a paráfrase de Jean-Jacques Rousseau se mostra desde o início, parafraseemos outra coisa: "Não acredite nos loucos depois dos quarenta, estão perfeitamente consertados e curados", que foi, digamos assim, um lema dos anos 60: "Não acredite nos homens depois dos trinta anos". De fato, mesmo o mais louco está por vezes no caso de ter vivido algum segundo de plena sanidade mental, de ter visto de perto o que é isto de maria-vai-com-as-outras, os benefícios que traz, as glórias que recebe, coisas que para um pensador de escol pode parecer algo de precioso e digno de atenção. Confessar a própria cura da sandice despirocadamente louca é desde a eternidade ao infinito mais pretensioso, pois, isso supõe que o louco que confessa sua cura com as verdades da sociedade confere importância não somente ao processo que vai do nascer pirado até a insustentável leveza da normalidade, mas também ao que acreditou e acredita ser o seu conserto, a sua cura.
Há-de se indagar, questionar, perguntar se há dois seres exatamente iguais, o louco e o normal, e que a lei da di-versidade individual fundamenta toda a evolução do homem desde o seu nascimento psiquicamente des-virtuado até o ápice do filisteu instruído.
Mas qual é a idéia da sociedade que cura o louco: "Age como se não houvessem diferenças individuais."


(**RIO DE JANEIRO**, 27 DE MARÇO DE 2017)


**DE COMO A CORUJA NÃO CANTA A ÓPERA DO VAZIO NO MORRO DOS VENTOS UIVANTES** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Sarapalhas...
Apesar de surpreso, não pensava, não eram de meus pensamentos e idéias lembranças, re-cordações se revelassem no vazio como pude conferir na crise havida - quê crise, putz! achei mesmo que fosse sucumbir nos braços do vazio! -, nestes três dias após, estou lânguido, o gosto de cabo de guarda-chuva na boca não se efemeriza, não se dissolve, os nervos do corpo tensos, carne e ossos, sou assim feito, vivo de carne e ossos, nas coxas das pernas, atrás, sinto estremecimentos, a carne tremelica independente da vontade...
Tomando banho, passei a toalha na superfície lisa do espelho, tirando-lhe o vapor da água quente, olhar-me a imagem refletida. Passo atrás, vi-me desfacelado, a face se movimentava, caranguejo e seus tentáculos frente ao inimigo a atiçar-lhe, instigar-lhe com vareta de bambu, os bagos dos olhos à espreita dos movimentos da imagem, nas órbitas, um vácuo, aproximei-me para olhar dentro dele, talvez visse o cérebro pulsando, nada, um vácuo sem limites, fronteiras. Sentei-me no sanitário, fora de mim, olhando a água cair no chão.
Pudesse re-tornar, evitaria a crise de algum modo, mas fora inesperadamente, de supetão, quando percebi, a crise em mim. Bastou a "palavrita" pronunciada e tudo aconteceu. Não me lembra qual fora ela, talvez "subterrâneo", estivera a pensar no "subterrâneo da alma", onde todas as mazelas estão presentes, talvez "prefundas", ainda talvez "abismo". Não o sei. Não fora qualquer delas? Não será lembrá-la que me restituirá o senso, resgatarei a lucidez, algum verbo incógnito de mim.
Lembra-me... Assim que entardecera, estava sentado numa pracinha pública, olhando de esguelha a uns trinta passos um vira-lata dormindo debaixo do leque da fonte luminosa, casal de adolescentes se beijava sofregamente, chamando a atenção dos transeuntes. Tive uma sensação estranha: estava à beira de abismo, ventava muito, folhas secas de árvores flanavam no ar, pareceu-me dilúvio de ventos. Saí da beirada do abismo, refugiei-me numa gruta. A sensação fora tão forte e presente que me levantei do banco, apanhei o chapéu ao lado, coloquei na cabeça, saí andando de cabeça baixa; em mim, o nada de sorrelfas, o nada de idílios, até o nada de quimeras e fantasias. Amigo tocou-me o ombro, dizendo: "Viu alguma alma penada, meu querido? Está com uma cara daquelas!" Sorri, e respondi: "O calor está demais. Odeio o verão, odeio o calor." Despedimo-nos. E, andando, dirigindo-me à minha residência, resquícios, vestígios da sensação, acompanhados de tristeza, tristeza abissal, a razão não soube explicar.
Isto me lembra antes da crise da madrugada. Crise de vazio não envia bilhete, informando a sua presença em breve. Enquanto se está projetando os próximos passos para a realização de um desejo, o vazio acontece, tudo perde as suas estruturas, tudo se esvaece. Isto nada explica, nada justifica.
Ando sem rumo, sem destino, entrando e saindo de ruas, um calor sem limites, o suor escorre-me na face, pinga no chão. Tiro o chapéu, enxugo o suor com uma toalhinha que trago sempre no bolso da calça para enxugar o suor.
O que de mim fora? O que fui em mim? O que fora de mim? O que é de mim neste absurdo instante-limite? Deixo o mundo para entrar nas trevas. Haverá alguma saída, solução?
Perdido, entro na rua da casa de Berenice. Somos namorados faz três meses. Passarei o resto da tarde com ela. É domingo. Talvez me convide para assistir no Cine Aurora ao filme MORRO DOS VENTOS UIVANTES. Já tentei assistir a este filme umas três vezes pela Internet, mas não consegui. Muita angústia, desespero assolam-me. Faz uma semana que está sendo exibido e a fila para aquisição de ingressos é quilométrica. Não sabe ainda de minha crise, chegou de viagem de manhã. Fora passar o fim de semana na praia de Popeye.
Toco a campainha. Espero.



(**RIO DE JANEIRO**, 27 DE MARÇO DE 2017)


**RADÍCULAS IMPERTINENTES DO NADA** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Se algum homem que tem problema sério de bílis, e isto haja, sem dúvida, exercido uma acentuada influência nalgum distúrbio do carácter e da personalidade, desejar dizer o que quer que seja, esteja imbuído com todas as suas justificativas, explicações, argumentos e oratórias, de toda a sua verborréia de convencimentos e persuasões, esteja desde este momento livre para todas as considerações e comentários. Pensando este homem que apenas dizer suas contradições não irá de modo algum deixar as palavras conhecidas e reconhecidas, pode tomar de sua pena escrevendo o que pensa e sente, fundamentando suas idéias e pensamentos – assim, tudo está registrado e ficará por todo o sempre.
Há quem finque os pés no chão, dizendo que os problemas de fígado causam sérios distúrbios psíquicos e emocionais no homem. Em verdade, digo deste modo, usando o que ouço e algumas vezes li, mas não me preocupo com a veracidade da informação, aliás, tudo isto é algo que semelha uma pequena raiz. A impertinência destas radículas funda-se no desejo e vontade sentidos de encontrar uma idéia, um pensamento sublime, destinado a aliviar as crises melancólicas, nostálgicas, existenciais de nossa humanidade. Há quem afirme que o amor da glória temporal é a perdição das almas. Outros ainda afirmam que o amor da glória é a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem. Não o sei responder com categoria e empáfia. Não me preocupo. Se me preocupasse, com certeza, perderia a idéia original que é esta.
Nem por isto, por não haver preocupação com a veracidade da informação, quem quer que seja terá o direito e o dever de contradizer as palavras que agora pronuncio com todas as pompas e empáfias; não há o que não concordar, duvidar, terá num estilo simples e comedido que assumir a doçura que é a existência, existir é algo sobremodo doce, fazendo-me até sentir o paladar de uma cocada baiana, destas que são compradas em latas nas mercearias, acompanhada de um bom queijo mineiro – assim, não há paladar que seja mais agradável. Viver é algo muito doce.
Assim registrando, no início dizendo da bílis e logo de imediato sobre a doçura que é viver, é que estabeleço idéias contrárias: a bílis é amarga e a vida é doce. Não sei onde li, título e nome do autor, que um estilo que visa sobremodo a beleza é tecido através de idéias contrárias, o nada deles é o objetivo primordial da obra. Sem esta idéia, ser-me-ia de todo impossível qualquer criação, não apenas esta mas qualquer outra. É que deste momento em diante quero viver serenamente, metodicamente, ouvindo os soluços dos jograis nos salões de dança, os suspiros das damas nos chás vespertinos, a chuva que tamborila nas folhas da samambaia à soleira da porta, e o som estrídulo de uma faca que o açougueiro está afiando ao lado de minha residência.
A vida rejubila-se-me no peito, com uns ímpetos de ventania no topo da serra, esvanece-se-me a consciência, desço à imobilidade física e moral, e o corpo faz-se-me planta, e terra, e pedra, e coisa nenhuma.
È o que penso comigo algum tempo antes de estar numa reunião de atores que vão encenar uma peça de teatro, intitulada “Milagre no Inferno”, para que fui convidado a representar um Advogado de Defesa. Penso assim, imaginando um público que assiste à peça no palco, e os atores que representam para uma platéia, mostrando a triste condição de homens que estão diante de uma guerra, guerra esta que faz lembrar uma fala de Cassandra na peça de Eurípedes, As Troianas, “Todo homem sensato deve evitar a guerra”. É isso precisamente o que a peça demonstra: os Gregos destruíram Tróia mas não tiraram nenhum proveito da sua vitória porque a vingança dos deuses provocou a sua perda total.
Porque, enfim, não levo em mira nenhuma recompensa ou virtude em pronunciar com todas as letras prenhes de intenções e desejos mais ingênuos, isto de a existência ser algo doce, viver é de uma doçura sem limites, existir é algo sobremodo doce. Cedo-me a um impulso natural, ao temperamento, aos hábitos do ofício de procurar despertar num simples mortal, se o conseguir com a metade dele, por mais impossível que seja a idéia da metade de um homem, estarei a sentir-me mais realizado do que se pudesse abarcar os sentidos completos da idéia e do pensamento.
Acresce que a circunstância de estar, não aquém nem além, não do outro lado das arribas, do lado de cá dos confins, mas justamente no ponto de sentir o prazer de estar comendo um doce de leite com fatias de queijo, até babando de tanta alegria e contentamento. O mérito de estar degustando este alimento é positivamente nenhum. Simples isto de um doce de leite com fatias de queijo.
Fico sobremodo desconsolado com isto, pois por momentos tive a sensação de que poderia ir mais profundo na condição humana, dizendo desta doçura que é o existir, haver um mergulho na busca de compreensão e entendimento disto que é estar desfrutando alguns segredos e enigmas das criações que, desde o início da manhã desta semana, estive pensando em abordar e procurar assim dar um outro sentido às criações.
Chamo-me pródigo por estar pensando em trabalhar com o gosto das letras que pronuncio com empáfia e prepotência, lanço um cinismo diferente dos que até o momento estava acostumado, precisando de haver uma mudança mais sutil, inclusive o amadurecer e o crescer da idéia e das atitudes do mundo.


(**RIO DE JANEIRO**, 27 DE MARÇO DE 2017)


**DOIDO, LOUCO, VARRIDO, PSICOPATA, ESQUIZÓIDE** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Estou sentado na cama... É sim, estou sentado na cama... Gosto desenxabido na boca... O estômago embrulhando... Olho os dedos se movimentando nas letras, escrevo sem rumo e sem destino... O que me vai aparecendo na mente, letras, palavras, palavras, letras... Só tenho as palavras em que me segurar, são as minhas companheiras... A neblina cobrindo as coisas é densa...
Interrompi por um instante...Quando o estômago embrulha a pressão está baixa... Não é a pressão que baixou... Mal estar, Gosto de cabo de guarda-chuva na boca... Até quando vou continuar caindo neste buraco sem fundo... O abismo tem fundo desde que eu queira... O psiquiatra me disse faz anos que no instante da crise de vazio escrevesse, escrevesse... As palavras recuperam o mundo. A comunicação com as coisas é impossível porque elas não tem subjetividade, a comunicação com as pessoas é impossível porque elas tem subjetividade. Doido, louco, varrido, psicopata, esquizóide. Mesmo sem sentido escrevendo. Meu Deus as vistas estão escurecendo... Preciso, preciso, preciso... De que preciso... Preciso de luz existencial? Quiçá seja verdade! Creio haja remontado à "era medieval", onde a escuridão é plena, é absoluta, está-se por sempre trancado a sete chaves no breu insofismável.
No cantinho entre duas estantes, estilo clássico, agachado, emborcado com as mãos cobrindo a face, pensamentos, idéias, utopias sarapalhados, cógnitas in introspectivas indagações, perguntas de nada, perguntas vazias, entregue ao infinito, ao etéreo, ao efêmero, frágil, inseguro, houvesse vento levar-me-ia para longínquos espaços de confins... Gritos de socorro, á-gonias e medos, gemidos de ajuda, tremores e náuseas do vazio, esvaeceram-se, silenciaram-se, lua solidão, estrela solidão, nada de aquém, nada de éritos das pretéritas con-ting-ências, érisis do vazio perene, tabernáculo de étereas esperanças esvoaça no espaço poiético do celeste, tornando-me imortal entre os mortais, mas como pode o vazio reverenciar o silêncio do In-finito simbolicamente com o chapéu de puro feltro, quando o céu se abre, o poeta ponteia seus novos sonhos, viajando com loucos pensamentos?
Vesti-me: calça jeans, mês e meio de uso contínuo, camisa cinza, paletó preto. Precisava cobrir a nudez de horas e horas. Saí para tomar uma cerveja no Restaurante do Robson. Ouvindo músicas, saí de mim - se é que se pode acreditar haja modo de fazê-lo: nada sou, nem acredito mais seja o vazio, o vazio em mim, mergulhei muito mais fundo do que no vazio da alma; tudo são trevas, tudo são escuridões. Trancado eternamente nas trevas?
Afoito, desesperado, agoniado, retornei ao restaurante, a cerveja estava na metade do copo. Olhei de soslaio. Mendigo sujo, cabelos desgrenhados, esfregava um chinelo no outro, grunhia palavras ininteligíveis. Levantou-se. Gritava e pulava, gesticulava com os braços. Os clientes assistiam à cena. Joga o par de chinelos no meio da avenida. Grita e pula, grita e diz palavras ininteligíveis. Senta-se na calçada, coloca as mãos no rosto, chora compulsivamente. Penso com os botões do paletó que está sobre as minhas pernas: "O que é a loucura?!" O mendigo louco grita e pula na calçada do restaurante, eu vazio, nas trevas de mim, sentado, tomando uma cerveja. Qual seria a nossa diferença?
Quem sabe, quem dera amanhã acordar e encontrar as palavras certas para sentir o galope soberano das nonadas na travessia para as místicas paisagens do eterno nas asas leves e frágeis das verdades que se estendem e sarapalham-se ao longo do tempo, para os místicos solstícios do sublime!
Reverenciar a criatividade que concebe... Silêncio. Solidão de silêncios, utopias de estesias e êxtases, silêncios de solidão, viagem in-finitiva nos cordéis de sagaranas de trevas e escuridões por todos os cantos e re-cantos.
Feto... Agachado, emborcado em mim, ninguém a socorrer-me, ninguém a ajudar-me, entregue ao etéreo. Lua mistérios. Estrelas incógnitas de palavras que em mim pervagam, divagam, flanam livres, quiçá desejando volos de sensibilidade e subjetividade, não podendo ser registradas, serem lidas, à-toa de signos, metáforas... semânticas... Medievos os lumes de trevas, medievas angústias e tristezas, medievas trevas do nada.
Levanto-me como quem estonteado, segurando na parede, enxergo as coisas através de um véu de seda nublado, tudo multiplicando-se, tudo multifacelando-se, tudo multifacetando-se, dúbias visões de um quarto dormir com as venezianas abertas para o longinquo da noite da ausência da alma, do espírito. Sento-me numa cadeira de balanço - existia ela neste lugar desde que pronunciei a "palavrita", mergulhei profundo, náusea do vazio, vazio da náusea. Recosto-me, braços sobre os braços da cadeira, mãos caindo, sinto-as soltas no limite dos braços.
Palavras bailam, palavras dançam, independentes, livres. Lá fora, trovôes, relâmpagos, dilúvio de nadas com força inestimável caindo, pingando nos terrenos baldios.


(**RIO DE JANEIRO**, 27 DE MARÇO DE 2017)


**MODERNIDADE DO FRUTO PROIBIDO** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto



EPÍGRAFE:

"Os aristocratas têm como crença básica que o povo vulgar é mentiroso, dissimulado, simulado..." (Manoel Ferreira Neto)

O erudito também tem as doenças, achaques, pitis e defeitos de uma espécie não aristocrática. Quem não os tem – infelizmente!, vale isto ressaltar com exclamação -, não se mirou na superfície lisa do espelho, ad-mirando-se tanto que a sensação outra não fora senão que outro fora colocado nela, a imagem fora dis-torcida, de-pauperada; não teve cor-agem de encarar de frente o homem que é, tenha-se tornado, por absurdo que seja não vive neste mundo, nem nas nuvens, nem no infinito, nem nasceu ainda, está sonhando tornar-se carne e ossos, refestelando-se de por baixo de uma árvore qualquer do paraíso celestial, bem distante da “árvore do fruto proibido”. Doenças e defeitos são a carne da vida, achaques e pitis, ossos, são todos as rugas da maturidade, são as muxibas da velhice. Doenças e defeitos existirão, enquanto houver vida, enquanto houver mundo, enquanto houver homem, achaques e pitis existirão, enquanto houver sonhos e desejos não real-izados, enquanto houver vontades frustradas, enquanto houver invejas e despeitos. Queira ou não é a verdade insofismável e absoluta, maior ainda que a morte, esta não é a única que o homem não há duvidar, é o único paliativo verdadeiro e eterno dos defeitos e doenças, o único alívio para os sofrimentos da inveja e do despeito; com ela termina tudo, não sei se continuam além-túmulo, ninguém dela re-tornou para dizer ser verdade continuam, se além-túmulo tudo são virtudes e valores, prazeres e felicidades, êxtases e alegrias inomináveis.
O erudito, imbuído de inveja mesquinha, despeito medíocre, como é de sua natureza e condição, tem um olho de lince indescritível para detectar o lado fraco das naturezas cuja altura não consegue atingir, assim se justifica, assim encontra conforto, consolo, assim consegue prolongar a vida, assim morre por encontro im-previsto. É confiado, mas apenas como alguém que se deixa levar pela corrente, mas não fluir como uma corrente, como água que se deixa levar pelo rio, com margem e muita lentidão. Exatamente frente ao homem da grande corrente, ele permanece frio e fechado, fica duro e calculista, insensível e sorumbático. Seus olhos parecerão, então, um laço liso e aborrecido no qual já não ondula qualquer entusiasmo, qualquer sim-patia, por mais que a anti-patia e em-patia dêem-lhe adesão a outro futuro, diferente em todos os níveis da história humana e da humanidade.
O pior e mais perigoso de que é capaz um erudito, em que suas forças são e estão concentradas, provém do instinto de mediocridade, mesquinharia, inerente à sua espécie, laia, estirpe. É desse jesuitismo, fanatismo da mediocridade, mesquinharia, que trabalha instintivamente para o aniquilamento do homem vulgar, do aquilo, do populacho, povicho, e então quebrar, ou, noutra linguagem e estilo, termos, palavras ad-versas, dis-tender todo o arco tenso. Evidentemente, dis-tendê-lo com esmero, carinho, ternura, sem fazer doer, sem fazer sofrer, dis-tender com carinhosa compaixão, com terna solidariedade, esta é a verdadeira arte do jesuitismo, também do eruditismo mesquinho e medíocre, que sempre soube apresentar-se como seita do espírito, credo da alma, religião do samaritano divino e absoluto.
Vou fornecer de graça, aproveitando que dormi profundamente esta noite, levantei tranqüilo, sereno, dis-posto, minha concepção da modernidade, isto para não dizerem por aí nas esquinas e alcovas que não tive a hombridade de não falar das flores. Cada época possui em sua parte de força também uma parte pela qual algumas virtudes lhe são permitidas e outras lhe são vetadas. Ou possui as virtudes da vida crescente: então, por razões profundas, resiste com todas as suas forças às virtudes da vida declinante. Ou é ela própria vida declinante – tem então necessidade das virtudes do declínio e detesta tudo o que se justifica apenas pela plenitude, pela superabundância de forças. A moral aristocrática, a moral dos senhores, tem suas raízes numa acepção triunfante do eu – é sua auto-afirmação, auto-celebração da vida, tem necessidade de símbolos e práticas sublimes, mas apenas “porque seu coração transborda”.
O homem aristocrático separa de si os seres nos quais se manifestam sentimentos contrários dos estados de alma elevados – por mais que tenha espremido os miolos para entender esta aversão, asco, nojo que os aristocráticos têm das almas elevadas, faltam-me re-cursos para lhe sorrir afetuosamente. É orgulhoso, despreza-os. Desde já, saliente-se, sublinhe-se, italicize-se, que nesta espécie de moral, a antinomia “bom” e “mau” significa o mesmo que “nobre” e “desprezível”. Os aristocratas têm como crença básica que o povo vulgar é mentiroso, dissimulado, simulado, os políticos, de colarinho branco, divina oratória, são corruptos – ser político, exercer esta arte com dignidade e honra é ser corrupto, isto é, há-de sê-lo para ser autêntico -, os artistas de sensibilidade e visão são ameaças aos valores e virtudes do espírito. O homem aristocrático honra em si mesmo o poderoso, as capacidades supremas e sublimes, como também o que tem poder sobre si próprio, que sabe falar e calar-se, que, com prazer, é rigoroso e duro para consigo, e tem respeito por tudo que seja duro e empedrado.
Um grande futuro! Enquanto esta palavra me bate no ouvido, o sangue corre nas veias mais rápido, o coração pulsa mais veloz, os nervos retesam-se, a carne treme, os ossos trepidam, devolvo eu os olhos, ao longe, no horizonte misterioso e vago, no uni-verso enigmático e vazio, no infinito sorumbático e ensombrecido. Uma idéia expele outra, pensamento recusa outro, sonho refuta outro, uma vontade negligencia outra, um olho manda o outro à merda. Talvez naturalista, parnasiano, literato, engenheiro, economista, arqueólogo, banqueiro, político, ou até bispo – bispo que fosse por indicação do cônego da casa paroquial que não gosta, tem nojo, asco, coceira do vulgo, - uma vez que fosse um cargo, preeminência, grande reputação, título superior, posição do bem e do mal.
Na verdade, o homem moderno se vê ao mesmo tempo transformado, pois, em nosso mundo de hoje as coisas são tão necessariamente ligadas entre si que bastaria arrancar um prego para que todo o edifício balançasse e desmoronasse. O amor fraterno e a justiça reforçados num ponto se desenvolvem e se propagam segundo a lei de sua necessidade interna, sem jamais retornar à imobilidade de seu estado anterior de crisálida.


A minha alma, talvez, não é tão pura,
Como era pura nos primeiros dias;
Eu sei; tive choradas agonias
De que conservo alguma nódoa escura...


Em épocas longínquas, que a memória não consegue vislumbrar, e muito remotas da humanidade, havia uma espécie de remorso muito diferente do existente hoje. Atualmente, as pessoas só se sentem responsáveis por aquilo que querem e por aquilo que fazem, e a altivez deriva apenas daquilo que cada um traz consigo: os nossos juristas fazem partir tudo deste amor próprio individual, deste prazer consigo mesmo, como se a fonte do direito daí tivesse jorrado deste sempre. Entretanto, durante o mais longo período da humanidade, não houve nada tão terrível como sentir-se isolado. Estar só, sentir-se como um isolado, não obedecer nem mandar, significar um indivíduo, não era de modo algum prazer, mas punição; estava-se condenado a ser “indivíduo”.
Graças aos sonhos, somos mais ricos ou mais pobres...
Quem há duvidar o universo é um composto de maldade e invejas, Não há talento, por mais prodigioso, que não seja ferido, não seja objeto de escárnio, pela seta da calúnia e do desdém dos egoístas. Como fugir a esta triste situação? Participar mudança para os quintos dos infernos? Seria um paliativo? Seria uma solução? Seria, com efeito, a consolidação da lei do menor esforço. Só se pode fugir a isto de único modo. Que cada um começando a viver deve logo compenetrar-se de que nada há acima de si, e desta convicção própria nascerá a convicção alheia. Quem há de contestar o talento a um homem que inicia por senti-lo em si e diz que o tem.
Dirão que isso é mais pura vaidade; mas se compreenderem a minha natureza e a natureza dos outros deverão saber que isso que lá embaixo se chama vaidade não é entre nós outra coisa mais do que a verdadeira tensão do espírito, a consciência da nossa elevação moral.


(**RIO DE JANEIRO**, 24 DE MARÇO DE 2017)


domingo, 26 de março de 2017

**NENTES DE CATIBIRIBA** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Quem sabe seja uma verdade, a mais singular, íntima, particular, e não digo de uma verdade absoluta, nada há que me cause mais náusea, tédio, que isto de “verdade absoluta”, “uma verdade absoluta”!... Contudo, seja algo que mereça atenção maior, observação, contemplação, pode vir a transformar-me, transformar esta matéria-prima e bruta que sou; algo que contribua o máximo para me conscientizar do sentido da vida, o que representa, e assim possa atingir outras dimensões, veja as coisas com clareza, crie pensamentos positivos, tenha atitudes mais dignas; enfim, seja algo que indica os caminhos a serem seguidos.
Basta-me assumir o que me vai intimamente, e não estar a criar justificações, explicações para um estado de espírito que me tomou por inteiro, tocou-me profundamente, o que isto vai contribuir para me libertar dele? Nada. É lutar para conseguir superar, dar outro rumo às coisas, aos trilhos em que neles desenvolvo os passos, vou-me distanciando, a poeira vai ficando para trás, tudo vai ficando para trás, ao meu lado a minha sombra.
Sabeis vós, excelíssimos catibiribenses. que estive a elucubrar com todas as dimensões racionais que me habitam, residem nos recônditos de minha alma os nentes do hilário, risível, sem negligenciar poucochito sequer o sarcasmo, a respeito de altares que deveriam ser erigidos ao silêncio e à solidão. No silêncio, formam-se e concentram-se - não me fora possível encontrar outros verbos mais condizentes com a questão senão estes, mas ad-mito que são obtusos - as grandes idéias. Palavra é tempo, silêncio é eternidade. Imaginais aí com os vossos botões que o espírito só trabalha no silêncio e o mérito na solidão?
Imagino alguém que se senta ao banco de uma estação ferroviária, esperando a chegada do trem, aquando chegara não fazia uns dois minutos um havia partido. Sentou-se. Pôs-se a esperar por um outro. Outros não chegaram àquela estação. Esperou dias, meses, anos, de repente, levanta-se e sozinho segue os dormentes a caminho de seu destino, esqueceu-se até mesmo de sua maleta, contendo algumas peças de roupa limpa, sabonete, toalha, escova de dente, dentifrício... Esqueceu-a. Alguém gritou, dizendo estar esquecendo da maleta, não se virou para trás. Continuou a sua caminhada a caminho de seu destino.
Até me questiono, pergunto, se estou mesmo decidido a assumir o que me vai no íntimo, se estou desejando superar as dores todas que me perpassam, se quero amadurecer, crescer, sentir-me mais digno de quem sou. Há momentos em que não estou disposto a crescer, desejo permanecer no meu canto, encolhido, da parede. Satisfaz-me esta inércia. Não conseguiria isto de modo algum, inerte ilimitadamente. Até seria de perguntar a razão de algo tão imbecil, idiota, não quero crescer, amadurecer, chafurdo-me num canto, o resto nada mais interessa. Não seria capaz de modo algum.
Jamais consegui ficar dentro de uma sala de aula todo o tempo, ouvindo as explicações dos professores, as indagações dos alunos, dificuldades e facilidades, precisava sair, olhar para o pátio de diversões no “horário do recreio”, como assim era chamado. Irritava-me sobremodo a questão inconteste de os mestres catibiribenses só ensinarem a falar, tagarelar, algazarrear, nenhum ensinava a calar. Saía a todo instante. Se o professor dizia que não podia. Se pensava que não era por necessidade, fosse até ao banheiro comigo. Veria a necessidade. Permitia, um pé lá, outro na sala de aula, não vadiasse pelos corredores.
Não acredito haja alguém absolutamente indiferente às palavras, atitudes dos outros, posições, opiniões, até mesmo os fingidos e indiferentes sentem algumas situações, sofrem nos seus cantos, por mínima e imaginária que seja, talvez por causa sim do fingimento não puderam sentir que a situação não dizia respeito algum a ele, foram suas conclusões apressadas, seus traumas, seus conflitos, sua também paranóia, disto não se pode sair, não se pode negligenciar. Agora, aquando da situação, houve sim referências a ele, até um imbecil seria capaz de compreender, os fingidos e indiferentes sofrem ainda mais, talvez pela dúvida de estarem a dizer exatamente ao contrário, era encômio e não negligência, cinismo, sarcasmo, ironia.
Não há homem que seja indiferente aos olhares dos outros. Talvez esteja dizendo que não sou indiferente aos olhares dos outros, por ser sensível e perceptível, também por meus complexos de rejeição, mas disto tenho consciência, e se sou um homem consciente significa que a presença de uma possibilidade de mudança está em minhas mãos.
Olharam-me de soslaio, de esguelhas, sorrisos os mais esquisitos e estranhos, por haver sozinho conseguido o que realizei, não foi por política, por afagos à áspera irritação, por toalhas molhadas na testa, mas por haver lutado, com valores em mãos, valores que ninguém, ninguém mesmo, isto não tem jeito de ser negado, ninguém é capaz de tirar-me, morto, terei morrido com eles. Se lhes disse em palavras, se insinuei, se anunciei ser um homem consciente, ser um homem quem reconhece seus valores, e, se com estas palavras tiveram por bem a rejeição, disse-lhes sim que sou consciente, ainda digo mais, se me rejeitam, ainda assim tenho meus valores, inegáveis. Disse-o, ressaltando e sublinhando com arte e engenhosidade, o que consegui construir fi-lo com um instrumento que poucos são o que assumem de verdade, a luta, sou homem quem pode tomar um tombo enorme, mas isto não significa que ficarei prostrado ali, levanto e sigo a caminhada. A morte, sim, é o que me vence. Isto lá anda no sangue, e não somente na mente como uma falsa esperança, uma fuga, anda no sangue e me orgulho disto, levou-me a assumir esta matéria-prima e bruta que é a vida, cabe-me a transformação dela, que sou eu.
Não é mau este costume de escrever o que se pensa, o que se vive, o que se vê, isto tece com o coração, creio eu, ou fica sendo novo este símbolo, que só se faz bem se o desejo de amor só vive de entregas, e dizer isso mesmo quando não vejo nem penso em nada, mas isto é uma re-criação, mas acredito que não é mau, de modo algum, escrever o que vivo. Afaga-me à áspera irritação. Irrita-me por o desejo claro e límpido ser o de me sentir rejeitado, quando eles estavam sendo rejeitados por outros olhares, pois estava num local em que prestei e presto grandes contribuições, uma situação ridícula. Palco de teatro de segundo grau, aos olhares destes mesmos homens quem desejavam ridicularizar a minha presença, com atitudes de todo risíveis, os velhos e temíveis pitis, temíveis, pois que não há quem não tenha os seus, nem um perfeito imbecil está isento de seus pitis e achaques.
Consciente disto, deixei a situação rolar a todo vapor. Permaneci conversando com alguns, tendo deles o carinho, afeição, um grande agradecimento que jorrava de seus corações, através das atitudes, havendo até um pouco de exagero em tanta receptividade, não fiz outra coisa senão doar um pouco de mim. Desconheci por completo o circo que queria montar para mim, mas se esqueceram de que corre um sangue circense na veia, a comédia se fez presente. Não representei. Não era necessário. A representação ficou a cabo deles, eram os palhaços. De quem a cena, ahn?
Ridículo isto estar em casa de quem é respeitado, considerado, por atitudes e ações, estar a falar ao contrário. Vai-se com a intenção de ridicularizar, termina como personagem principal do ridículo. Há-de se relevar, pois que não têm consciência deste ridículo, o que afaga a áspera irritação.
Se me fosse dado representar não me custava coisa alguma, responderia à altura, e aí o circo estava armado, os palhaços representam no picadeiro a comédia humana, mas não era minha cena, não estava como um circense, estava como um homem quem enxerga o ridículo, transforma-o num silêncio próprio e íntimo. Dá certo gosto deitar ao papel coisas que querem sair da cabeça, por via da representação, da memória, da reflexão, da revelação. Dá certo prazer deitar ao papel os olhares de esguelha, de soslaio à comédia da condição humana, se me indagam a respeito deste cinismo, ironia, sarcasmo, digo simplesmente que não correspondo a circos montados em salões literários, não adianta estou de fora simplesmente. Ostentações não fazem parte de minhas condutas, a minha missão é escrever, é o que interessa. Nada mais. Ao resto respondo a Deus, nada mais verdadeiro que isto: “O resto Deus dá conta dele. Dei conta da minha vida”.
Irrita estas picuinhas, pitis, achaques de literatos em seus devidos e respeitados salões, pois que não é aqui ou ali, neste ou naquele tempo, o pior é que existe desde toda a eternidade e pelo jeito vai continuar ainda por uma longa outra eternidade. Fácil ser eterno, imortal, dar pitis em salões literários, não custa coisa alguma, é só começar de representar. Não resta outra alternativa senão rir destes achaques, pitis... Aí, sim, é muito fácil, custa apenas a decisão de ser indiferente às atitudes, desde que tenho valores em mãos que mostrem e revelem, tudo é simplesmente uma gargalhada sem princípio, meio e fim.
Não desejo acabar o dia de hoje, escrevendo sobre estas questões, se necessitei afagar a áspera irritação não sei responder de modo algum, tenho os olhos cansados, acaso distantes, contemplando as montanhas e serras, e não sei se esta era a intenção de atingir este nível de compreensão o que é isto de conquistar algo com esforço, com luta, com sonhos, conquistado com entregas, pensar em achaques e pitis em salões literários nada significa, pois que se trata de algo que se continuar assim ainda passará uma outra longa eternidade.
A reflexão é de todo verdadeira, por mais que se lhe possa dizer em contrário. Não afirmo que as coisas se passem exatamente assim, e que a afeição, o costume, o feitiço crescente, e por fim o templo, álibe e cúmplice de pitis e achaques, negarão o belo diamante a qualquer namorado trazido pela natureza e pela sociedade.
Antes é tudo fruto da intimidade, com seus dramas e conflitos, como a condição possível. Disto não tenho dúvida, mas começando de olhar esta intimidade intelectualmente, comunica-me esta intuição, acrescenta uma reflexão fina, um primor de ouro, e não tenho dúvida em a escrever aqui ao pé da cama, enquanto que com a porta fechada por dentro.



(**RIO DE JANEIRO**, 27 DE MARÇO DE 2017)


**CARACHAPUDA** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


O pensar a ec-sistência é a viagem mais abundante que se pode fazer, pois nessa, o Tempo nos concede sermos eternos.
Carachapuda!... Carachapuda!... Carachapuda!... Três vezes esta exclamação para enfatizar com engenho e arte a repetência, que causa ojeriza, asco, náusea, tão simplesmente para mostrar o re-verso, in-verso, o re-verso re-vertido do in-verso, mostrar arte.
Mui sinceramente, com muchas gracias, há o quê interrogar nesta frase de efeito, assim a conceituo e defino, in-salvas todas as opiniões, pontos de vista, se em verdade o Tempo nos concede sermos eternos, se nada há além disso, se não há outras cositas envolvidas nesta tão abundante viagem, e conforme o que habita a memória, certas lembranças e recordações de instantes vividos em que o pensar levou a este pensamento, a esta idéia, e dentro dela há o que se questionar acerca da ec-sistência, havendo gozo, climax, alegria, contentamento, felicidade, a memória tirou a foto dele, guardou-a nalgum cofre seu, para o momento em que fosse tornada palavra, ao longo do tempo em que este instante foi vivido, a memoria fotografado, até quando fora tornada palavras, o que dentro dela há de novo, de novidade, o que mais ela re-vela além do re-velado.
Tanto sentimento de esplendor, res-plendor, vanglórias e ad-jacências para absolutamente nada, as línguas de trapo e de sogras perdoem e desculpem este "para absolutamente nada", lugar-comum sem eiras-e-beiras, pois que não lhe habita, a frase de efeito, o mistério não é um muro onde a inteligência se esbarra, se dê de frente, mas as ondas do mar onde ele mergulha. Onde se acha o mistério do pensar a ec-sistência, o pensamento pensando o pensar a ec-sistência.
O autor dessa frase de efeito, "O pensar a ec-sistência é a viagem mais abundante que se pode fazer, pois nessa, o Tempo nos concede sermos eternos.", tem uma tendência compulsiva, explicitando seus exageros e paradoxos, para a beleza do belo, quer extasiar os leitores, levar-lhes às nuvens, olvidando-se deste mistério da ec-sistência pensada no pensamento de pensar. Dir-lhe-ia, como lhe estou dizendo de algum modo, sob a luz desta ou daquela linguagem e estilo contro-versos, o melhor seria se encontrasse outro afazer, aposentasse sua pena, pois que sem a consideração, avaliação, in-vestigação do pensar a ec-sistência, seus mistérios, enigmas, tudo o que diz nesta sátira é puro devaneio, idílio...
Lá vem o digníssimo Espírito Maligno dizer-me ipsis verbis, sendo franco, casmurro: "O que mesmo está escondido atrás desta crítica? Por que está ansioso por des-cobrir? Ou há outras cositas a serem avaliadas no que concerne aos sofrimentos e dores de algo vivido, vivenciado, deixado suas marcas, tendo contribuído bastante para amadurecimento e crescimento da visão-de-mundo, toda e qualquer lembrança é sobremodo dolorosa? O crítico também tem de assumir estas questões."
Se o crítico e o autor respondessem a estes questionamentos, até que, a título de misericórdia apenas, diria que chegará o tempo a tendência compulsiva para a beleza do belo será uma visão bem interessante, mas esta busca deste tempo não tem fim; assim como seria possível a Eternidade?
Não é o "causo" de viver, mais interiormente, os ensinamentos dos dogmas e enigmas, mistérios, inauditos, além da razão?


(**RIO DE JANEIRO**, 26 DE MARÇO DE 2017)