Total de visualizações de página

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

#AFORISMO 288/ARGIRITA NÃO TEM TREM# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


"Unauaí
Unauaí


ChronosKairosChronos
E os gregos já sabiam...


O antagonismo
Trazem dentro de si
Por isso não estão aí...
E estão aí"


Chorei toda a noite
Alma de sombras e brumas
Crepúsculos de desejos e vontades
Envelados de tristezas, melancolias,
O trem da glória segue os seus trilhos,
Passando pelas pontes, águas correndo
Seguindo a trajetória dos caminhos,
No alvorecer nublado,
A glória continua na linha férrea
Passeando vazia pelos dormentes,
Nas ruas ainda desertas, os boêmios
Levam a guitarra no ombro,
Dedilham nos sentimentos das nostalgias
Pre-cursoras das notas das utopias efêmeras
A melodia do andarilho sem amor, sem rumos,
Sem destino, sem projetos,
Gozando os prazeres da solidão, a alegria do silêncio
Da vida caminhando, olhando os horizontes além
Dos trovões da montanha, riscando o céu de raios estrídulos,
Desfrutando os êxtases da angústia
Da felicidade que não sentiu, do contentamento
Que deixou no vagão do trem para lugar algum,
Rindo do tempo que não marcou de horas
As lembranças e recordações de outroras dos sonhos impossíveis,
O "Bar das Ilusões" aberto para a chegada e partida dos boêmios da manhã
Café bem forte, o cigarro no canto da boca, olheiras, vozes roucas,
A glória continua saltitando pelos dormentes da linha férrea
- O trem continua sua viagem atravessando montanhas, prados -,
Quiça no crepúsculo do vazio e do nada
O condor pouse no domus da igreja da estrada,
Ritmos outros de solidões e silêncios sejam compostos
Na lírica de "Ao seu lado, esqueço-me de que fui sempre blues",
Sons outros de medos do ontem que embarca no vagão de amanhã
Para o Eldorado, Colorado dos enganos,
"Não estou assim tão enfurecido por cometer os enganos da vida",
Sejam compostos do hoje de nuvens escuras no céu
De todos os tempos de nada à busca do absoluto
Envolto no sudário de tristezas e nostalgias puras, solenes, sublimes...


"Viva Marcuse!
Agulhas de cronômetro,
No vácuo da esfera,
Dicotomizando,
Monotomizam.


Kakus,
Hartiss,
Pierre Derlon
Et caterva..."


O trem da glória
Continua seguindo a sua trajetória
Levando nos seus vagões os sonhadores do Amor,
Os idealizadores da paz,
Os mestres da guerra,
Solidão e silêncio caminhando lentamente pelos dormentes
Da linha férrea, acompanhando os vagões que dançam nas curvas de abismos...
Na manhã, os boêmios saem do "Bar das Ilusões",
Pós o café forte, cigarro no canto da boca, vozes roucas, olheira,
Levam no ombro a guitarra...


"Argirita, Argirita, Argirita,
Argirita, Argirita, Argirita,


Argirita não tem trem:
Mas o nome de Argirita,
Uma vez que se repita,
Parece o canto do trem.


Argirita é tão simples,
De tão simples é tão bela,
Lá no morro tem capela
E tem escritor também:
Argirita não tem trem."


(**RIO DE JANEIRO**, 18 DE OUTUBRO DE 2017)


#AFORISMO 287/KAIRÓS PARA CHRONOS# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


"Cada coisa é Unau
Cada coisa é Aí
Cada homem é Unau
Cada homem é Aí


O está no Esteve
O Está no Está
O Está no Estará
Chronos de onde veio?
Kairós de Chronos
Veio-vem-virá
Kairós para Chronos
Foi-vai-irá


Unauaí
Unauaí


TóriKádoTóri
E o bororo já sabia..."


Da palavra à consciência,
Da consciência à palavra,
A sinuosidade presente
O vento costura a barra do tempo
O tempo esgarça o vento.


Re-fazer as labutas,
Bungas-bungas,
In-tens-ificar os esforços
Em busca da plen-itude, sublime.
Verbos dos princípios,
Querências e versos
Do saber primeiro,
Verdadeiro sentimento de olhar
Com fé,
Esperança,
Para o esplendor e magia
Do conhecimento e sabedoria,
Da consciência e espiritualidade,
Imagens se a-nunciam
Na distância do tempo,
Átimos de segundos e minutos.


Instâncias e estâncias
Das pers e pectivas dos mistérios,
A ilusão de encontro da verdade,
A quimera de o sentido da vida se elevar
Aos auspícios do brilho e resplendor
Do in-compreensível
Dos verbos pré-{s}-entes,
Das palavras vagando
Por ruas, alamedas, becos,
Em busca de sentidos
Outros
Da fé,
Con-templando
Por quês e quês
Viáveis, plausíveis, possíveis
Das esperanças.


Em tempos verdadeiros
De travessias
De nonadas
Ao antes era o mistério,
Depois o desejo da luz,
Ao antes era o nada,
Depois a vontade
De tudo ser,
Ao antes era o verbo,
Depois o verbo
Se tornou carne,
Ao antes da bonança,
A tempestade,
Ao antes da tempestade,
A bonança,
Roda-viva de sentidos,
Pá-lavras,
Cata-ventos de metáforas,
Signos, símbolos
Na lingüística das raízes
Imanentes e trans-cendentes
Do ser e do verbo,
Do verbo e verso.


O que me foi,
A mim, foram bestas
Prostituídas,
Prostitutas bestificadas;
A mim foram bezerros de ouro
Venerados e re-verenciados;
Penas exaurindo
Mil primaveras,
Incomensuráveis invernos;
Tintas re-fazendo
As flores secas
Caindo livres
No solo,
Húmus de outras
Que embelezarão
A aurora do novo dia;
O que me foi,
A mim foram barcos
Naufragados;
Faias redemoinhando
Águas,
Fráguas des-cortinando,
Desvelando
0 des-brilho dos olhos,
O silêncio da língua,
Confusão, perdição
Na mente.


(**RIO DE JANEIRO**, 18 DE OUTUBRO DE 2017)


#AFORISMO 284/A POESIA ESTÁ GUARDADA NA ALMA DO POETA# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Trans-cend-ência e acontecimento, eis as duas dimensões do belo. Numa instância, produzindo em nós o choque da Revelação do Ser, a arte rompe o curso da vida banal, sufoca a falsa nostalgia do absoluto e des-cobre-nos o sentido religioso do finito. Noutra instância, a nossa ek-sistência, dirigida para a Verdade do Ser, experiencia a origem da história: a obra bela é sempre uma inovação, a tradução do acontecimento criador que nos confia ao Ser. Também se compreende que a linguagem poética seja o paradigma da linguagem artística, visto que ela é a linguagem originária do povo que reconduz o homem ao começo da sua história.


O belo é o Jogo da Verdade no jogo do mundo. A realização estética é uma criação, porque dá um sentido à terra, fazendo comungar o homem do acontecimento que é a irrupção da verdade. O artista também não domina o ato da criação artística; ele é sempre ultrapassado pela obra. A criação artística trans-cende o criador, vai além dele. Por esta razão, não é motivo de surpresa, quando poeta ou escritor diz não conhecer sua obra. Ao pôr a obra sob o signo da Verdade, recusa-se a concepção da arte pela arte ou a idéia duma obra que seria a expressão objetiva do gênio individual.


Respeitante ao nada e a arte do escritor, a escritora e poetisa, Ana Júlia Machado, conhecedora profunda da obra, "... verbaliza que estimar letras impõe abnegação, afinal, a literatura não auxilia para nada. De outro modo, nem tudo carece auxiliar para factos: há realidades que despendem finalidade, que duram somente para aformosear a existência, para apontar a susceptibilidade de quem não se satisfaz unicamente com aquilo que é verídico. A arte, em comum, e a literatura, em peculiar, são acções cuja dimensão habita nessa excelsa “ineficácia”. A literatura é usufruto, é submergir no deleite que os textos conseguem presentear. O deleite belo que as letras facultam convertem-nos mais concentrados àquilo que é intangível, converte–nos susceptíveis aos padecimentos do planeta.


Nas letras, achará distintos itens sobre o dom literário, e os componentes que a estabelecem, cláusulas que facultarão a qualquer ser, uma jornada para um cosmos onde só os enormes espíritos conseguem contemplar."


A obra de arte é uma produção da Verdade, por conseguinte, um des-velamento, ela é essencialmente poesia, no sentido amplo do termo. A linguagem, com efeito, tem o papel principal de libertar o Ser. Segue-se que toda a obra de arte é um caso de linguagem poética.


Duas reflexões guiam a obra de arte. No plano objetivo, a obra é diálogo entre o mundo e a terra e a aparição do Jogo da Verdade. Por conseguinte, não há regras estéticas que possam controlar ou dominar a livre expressão da beleza. Ou melhor, todas as técnicas artísticas só se justificam se são empregadas a traduzir o Jogo da Verdade. No plano subjetivo do artista, em seguida, a arte é mais a experiência de uma superação de si do que o lugar da projeção das possibilidades existenciais. Aquele que aprecia a obra bela não con-templa um espetáculo; ele está associado ao ato criador do artista e ao des-velamento histórico da verdade. Neste sentido, para nós, o crítico literário é aquele que se associa ao ato criador do poeta ou do escritor e des-vela o Jogo da Verdade, a plen-itude da Verdade.


A imagem ou a re-presentação não é o elemento essencial da obra, visto que ela é constantemente superada no Jogo do munto. O sentido da Verdade não se dissolve na geometria do desenho ou nas relações puramente formais entre as palavras.


Quando no alvorecer resplandecente a Natureza suspira, ouço os ventos que, silenciosos, despertam as vozes dos outros seres, soprando neles, de toda frincha soam altas vozes. Vozes sussurradas. Vozes cochichadas. Vozes murmuradas. Vozes altissonantes. Algazarra, barulheira.


Sentimentos outros en-viados aos horizontes pelas vias da paisagem do silvestre do campo, grama inda respingada do orvalho, neblina da madrugada, pássaros sobrevoando, trinando nas frinchas e galhos das árvores. Ao longe, águia voando serena, tranquila.


Con-sintamo-nos viajar na viagem do nada ao Vazio, con-templando a paisagem do horizonte, do uni-verso. Somos enviados ao In-finito. Deixar a viagem ser este envio por todas as vias da paisagem é a poesia dos viajantes.
O sentir poético é a mola propulsora para o poeta. Ele não se preocupa o fazer poético com a gramática do escrever, mas com o sentir na infinitude do universo, passeando sua alma nas imagens sagradas das paisagens terrenas, transcendendo o seu estado d´alma para o além do horizonte visto e sentido.


O discurso poético se encerra na paisagem:
A Neblina ora esconde, ora sopra ao “Eu poético” os caminhos nebulosos do NADA, rumo ao iNFINITO das Verdades e Incertezas do Ser; a paisagem silvestre traz o poeta à realidade do Ser e não-ser; o Vento canta a melodia que anuncia a passagem do Tempo, caminhando entre as montanhas...
A dança entre o Ver do poeta e o Sentir do “Eu poético”; entre o Ser e o Não-Ser; O Nada e o Tudo, O Finito e o Infinito; ... são os elementos em que resultam a poesia propriamente dita:
“O pensar que a-colhe a palavra, o sentir que a-colhe o in-finito - tentar redizer é poesia, pensamento originário. Relação originária entre a poesia e o pensamento, movimentando-se no Ser como dizer, o logos no sentido heraclitiano e fundamental do homem e a existência, entendida na forma de compreensão do Ser,”
O escritor descreve sobre a irremediável constatação de que Não há como existir poesia, a não ser que existam o poeta e a alma poética:
“ Assim o "eu poético" se a-nuncia, iniciando a viagem para o seu conhecimento que só acontece com o exercício da prática poética, o escrevinhar poesias em harmonia com o quotidiano das con-tingências.”
A poesia está guardada na alma do poeta e é dela (alma poética) que depende o suscitar do Belo!
O poeta é o instrumento essencial para fazer insurgir o “Eu poético” à revelação do verbo Ser.
Na busca pelo Belo poético tem de haver, então, a Katarse entre o poeta e o “Eu poético”:
“A realização estética é uma criação, porque dá um sentido à terra, fazendo comungar o homem do acontecimento que é a irrupção da verdade. O artista também não domina o ato da criação artística; ele é sempre ultrapassado pela obra”
É nessa comunhão que reside o Sagrado: O divino se manifesta no “Eu poético” e no poeta a transcender à lógica dos recursos lingüísticos dominados pelo poeta.
Daí, revela-se a Verdade! Caminhando no Nada, abstraindo o Tudo: A existência divina.


E, neste sentido da Caminhada no Nada, a artista-plástica(pintora) e poeta, Graça Fontis, reconhece a Verdade inerente à dialética da Katharsis entre o poeta e o "Eu Poético: "Onde o silêncio se faz voz numa reflexão passiva; assumindo o lugar do nada aquém do advir, transforma-se literalmente numa dialética suave à mercê do tempo que se arrasta preguiçosamente sobre mar, campos e melodias, devaneando, feito em asas sobrevoando o todo à procura de algo ainda que...um mistério dentro desse universo. ..corpo...alma...Ser?...", reflexão que acompanha o escritor na sua obra, habita-lhe a ansiedade do "silêncio puro" que revela a estética da criação.


(**RIO DE JANEIRO**, 18 DE OUTUBRO DE 2017)