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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

**O INSUBSISTENCIAR-SE ARGUCIOSO REENCONTRANDO-SE NA EDIFICAÇÃO DE NOVOS TEMPOS, PRENÚNCIO DE NOVAS ESPERANÇAS** - TÍTULO E PINTURA: Graça Fontis/PROSA POETICA: Manoel Ferreira Neto


Será morrer retornar à vida de antes da vida?
Não vos estou a implorar que me respondeis, isto me faria a felicidade, prazer. Rogo-vos um único instante, e vida plena, em que vida e morte, tempo e eternidade ajustem-se, sin-cronizem-se, sin-tonizem-se, harmonizem-se. Rogo-vos amor, que, sendo desejo, é fome de comunhão.
Enquanto a harmoniosa lira, a lira sagrada faz ressoar as sacras melodias que vão unir-se aos meus solenes arrebatamentos, digníssimos rebentos, compraz-me rejeitar as leis humanas que, in-versos e esperanças, re-versas e utopias, sejam a alma delirante e o espírito insensato.
Feliz o homem que procura longe dos homens as delícias da solidão e o verde das árvores que ornamentam algumas ruas e praças da cidade. Chamo feliz ao homem cuja vida é afagada, dia após dia, na sabedoria e inteligência.
A linguagem altiva não convém aos débeis. Evito a prolixidade: não há quem a suporte mais, até parece que impinjo todos a ouvi-la até não mais poderem. A minha voz deve afetar a ousadia e o desplante deve ler-se no meu rosto, ler-se-me nas entranhas: a fronte modesta, os olhos tranqüilos.
Prefiro, para me salvar, de uma reflexão profunda e de um olhar penetrante que nenhuma embriaguez possa turvar e mergulhe nos abismos, até negligenciando as súplicas de janeiro, estas que logo se esvaecem na poeira nítida e nula dos dias, estas que ditam a minha felicidade, a vida nova que se anuncia transparente aos olhos sensíveis de outras paisagens e cenários. Não me parece que bem necessito de uma idéia que me salve, que me eleve além desta atmosfera que se me revela a todo tempo, quer na alcova, quer nas tabernas sombrias de alguns becos, que me enleva no trapézio das dialécticas e contra-dicções os confins de ilusões. intuições do que há-de ser.
Ergo os olhos solícitos às estrelas que velam, lá em cima, e que protege os infelizes mortais que, dirigindo-se aos seus semelhantes, deles não obtêm a mínima graça que aos olhos sensíveis desperta os corações.
O Criador concedeu a todas as criaturas o sonho natural de Ser, o desejo de ouvir-se Ser, na mais sublime harmonia de Ser que existe em sin-tonia com a natureza particular de cada uma.
Há duas imagens sem jaça refletida no espelho, a verdade e a melhor medida de todas as faces. É seguir novos caminhos, jeito novo de caminhar, encontrando novas linguagens, novos estilos e performances; à semelhança de todos os criadores, enfastiei-me das línguas antigas, das línguas românticas que olvidam a con-tingência, fá-la devaneios da eternidade.
Em direção ao infinito, águas re-colhem de vida o húmus de recordações simples, gotículas de lembranças reveladas do orvalho regando a natureza, que preencheram os vazios esplendorosos do olhar ensimesmado e triste por cima dos acontecimentos inenarráveis, indescritíveis, ineludíveis. Rumo ao eterno, águas a-colhem dos prazeres a alegria de instantes, a paz de entregas e mortes, desejando a felicidade que afago no íntimo.
Resta-me erguer uma taça ao som de silêncios e vozes que percorrem o espírito, desejando o paladar da alegria. Música do fim, "Some of these days/You´ll miss me...", a alegria subtil desde o fundo do dia, o abismo do século, desde o silêncio do nascimento, um silêncio longo, feito de chuva de perto e ao longe, da cidade esquecida em solidões, do cerco à volta do espaço para além.
De onde me é tão familiar converter imagens em verdades originais das coisas, com a cristalina eternidade a envolver-me, e com a fria alegria, eterno riso divino, resfolegar em chamas, sentir ao redor rumor de vozes e risos, de compassos de dança, de resplendor de todos os olhos acesos. A verdade singela, pura, inocente, no entanto, tem sempre a aparência ambígua – um assobio ou um murmúrio de águas vivas, ruído de fonte ou de cascata.
A vida toda está aqui, na linha inexistente da separação que une, da união que se projeta. Um projeto de visa isola-se-me nítido na memória, por isso desencadeio o combate, sereno e destemido, à dureza solar da verdade nítida. Recupero a felicidade simples, fria de estar, alegria intensa e nula.
Daí, no deserto inóspito de mim ter eu a glória de perder-me em pensamentos felizes por as imagens haverem criado raízes. Quero viver, não sei viver, por isso, anônimo e encantado, escrevo para me pertencer, o que soube o perdi, o que senti já o foi.
O coração de um homem digno, de conduta ilibada, é uma tumba feliz onde cumpre a caminhada, onde vou desenvolvendo os passos em direção ao longínquo sem-tempo, onde cumpre o destino com êxtase e euforia.
Se de onde sinto os in-versos e esperanças de janeiro, desato a observar todas as coisas que me rodeiam, todas as nuanças e veredas, que, felizmente, me pude furtar à coragem e esperança, de novo a vibração guarda um sabor úmido a carne que não esquece, a humanidade que não finda, a compaixão que não se esvaece.
Há um silêncio profundo. Calmo... tudo calmo... silêncio fundo como um abismo. É noite, não custou muito a chegar como é da natureza das tardes de janeiro. Do lado de lá da janela, nem mesmo os pequenos vaga-lumes enfeitam estas noites. Nada de brilho. As forças da natureza: o vento parece não mais existir. Nem chove. Poderia ouvir a chuva caindo no telhado.
O que fazer? Esta é a pergunta de meu coração. Corrói-me a fome por dentro – quer a todo custo sair para fora, habitar o mundo, onde se anunciou ainda pequena, crescendo ao passar dos segundos e minutos, não lhe parece nada agradável continuar. Às vezes, tenho de segurar o ímpeto de não pensar na emoção e na expectativa quando deixar os dias passarem solenemente.
O silêncio sucumbe à resistência heróica dos murmúrios, lamentos. Quem dera pudesse ora responder a alguns questionamentos que foram sendo elaborados no espírito, questionamentos percucientes! Quem dera pudesse responder a algum discernimento entre o que antes estivera com tanto êxtase desejando expressar, a felicidade que me habitava, e o que ora estou com tanta decepção dizendo, os murmúrios, lamentos que me perpassam desde que não mais pude reter nas mãos feita concha a volúpia da felicidade, enovelaram-se em inversos e esperanças.
Nalgum janeiro outro, já distante desta realidade, livre, possa responder a todos os questionamentos, sentir presente o que hoje são apenas quimera, fantasia.
Ser o não-ser que sou, se for o caso, a angústia diante do absurdo. À medida que esta se dissipa também o malefício desvela o segredo de uma fascinação diante do sentido; fascinação relativa ao fato de uma natureza ser dada aparentemente, isto é, ser um modelo de inteligibilidade, sabedoria, contra o qual virão bater e dissolver-se todas as representações humanas de intenção e de finalidade.
Efetivamente, se é mentira ou verdade que a filosofia, literatura, tradição, o cânone sejam inicialmente medicina, meio dentre outros de se curar a angústia, também é verdade que a catarse possa ser concebida conforme duas grandes desordens de interpretações ou intenções: acalmar devolvendo o sentido, ou acalmar retirando-o completamente.
Viver só, como se pudesse viver não o vivido, mas o não vivido, o não escrito em consonância. Viver só, lembrando-me de que ainda não é hora de in-versos e esperanças, porque se os registro para não serem lidos, sem me arriscar à morte derradeira, para fazer-me na possibilidade, uma vez que tudo é possível, a começar da vida.



(**RIO DE JANEIRO**, 30 DE JANEIRO DE 2017)


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

**ESPÍRITO & ALMA PLANAM NUMA EXPEDIÇÃO MELÓDICA E FLUTUANTE FRONTEIRAS IMAGINÁVEIS À BUSCA DE LIBERTAÇÃO E PLENITUDE DE VERDADES** - TÍTULO E PINTURA: Graça Fontis/EPOPÉIA MINEIRA E CARIOCA: Manoel Ferreira Neto


No crepúsculo das imagens grávidas de outros amanhãs,
Desejar, na musicalidade do espírito, o itinerário do ser,
Na melodia da alma, a jornada das buscas da verdade, do pleno,
Ser o outro no ritmo de sofrimentos e dores,
Desesperanças e ausência de fé,
No enredo de situações e circunstâncias,
Construir a história de entregas e vontades,
Trilhar paisagens mineiras de imagens do pleno e sublime.



Em cima dos muros de Minas, veredas de enredos e ritmos,
Numinando, nos sonhos de plen-itude, a “imagem da emoção”,
Que brota na certeza de re-nascer caminhos de veros versos,
De re-novar veredas de efígies, sonetos absolutos do eterno,
Estrofes múltiplas de rimas interiores, veredas de musicalidade,
Cântico de pássaro trinado nas grimpas do flamboyant,
Canto de coruja esplendido por todos os sítios,
Ruas e estradas de contingências outras, esperanças de luzes,
Terrenos baldios e becos sem saída de ipseidades e facticidades,
Brilhando numa prosa-canção que se inspira
Nas gerais nascentes, “água pura”.
Germinam, nos interstícios da alma, uni-versos e sementes,
Nas fontes de águas límpidas e transparentes,
Perspectivas do belo e da beleza re-nascem esperanças de luzes,
Minas de gerais ímpetos de liberdade.



Na manhã de luzes e pré-núncios,
Saudar o místico momento da fresta
No horizonte imortal e divino da lua na noite calada,
Infinito do uni-verso numinado de “harmonia de cores”,
Sin-cronia de traços a pincelarem imagens geminadas,
Sin-fonia de imagens a resplandecerem
De beleza as sendas perdidas,
Harmonia de ângulos da visão, con-templados à luz do vir-a-ser,
Signos de esplendor e eterno nos liames do espírito,
Desde o sentir do sono, do êxtase desde o sonho ao sono,
Instante de sedução, brilho das estrelas e da lua,
“pedras sagradas”, cristais, diamantes e ouro
Que rimam palavras subtis com o éden de luzes e lilases,
Inspiradas na rede que balança nas gerais “utopias humanitárias”,
Humanismo do Ser.



“A sina de ser”, o destino de cont-ingenciar o quotidiano,
O elo de todas as coisas, flores são espetáculos da natureza,
Liberdades são cenas eivadas de ternura e carinho,
“instante de sedução”,
Querer brincar com estrelas, correr campos, velejar,
Beber a sede das ruas, queimar a luz do luar,
Lavrar o corpo no grito.



Signo de metáforas nascidas de vigília e palavras
A pincelarem imagens do imortal e divino
A preencherem os vazios da falta de ser,
“manque-d´être”, "mauvaise-foi",
Da ausência de alegria e prazeres,
Pedras sagradas, diamantes profanos
Que rimam palavras subtis, que ritmam dores
São sentimentos de luz inspirados
No brilho das estrelas e da lua mineiras.



Minas, a pá-lavra os prazeres de liberdade,
Os infinitos buscam magia de lendas, mitos, “causos”,
Mágicas verdades na trans-cendência da sensibilidade
A mineir-ice busca versos eternos de poetas,
Poetas-águias, poetas-condores, poetas-gaivotas
A mineir-idade tem sede de outras paisagens, panoramas,
Mergulha profundo nas nostalgias e melancolias do espírito,
Ofereça-as aos mineiros
Envaidecem-se, orgulham-se,
Vivem orgulhosamente a índole
O Grande Ser: Minas vislumbra e con-templa
As mágicas verdades e místicas divin-idades
De lenços brancos cheirando recordações
De ideais e utopias de Verdades,
Na pronúncia rouca da palavra
Que transcende os sentidos da simples contingência,
Da poeira mesquinha da realidade,
Da metafísica pomposa e solene das sedes de conhecimento,
Da ventania ontológica e antropológica do
Real apalhaçado de verdade
Da vida, do tempo e das maquiagens di-versas do instante
De medos, dúvidas, des-confianças.



Nas paredes de Minas, nostalgias e melancolias do espírito,
No corpo e espírito mineiros, ideais de liberdade, solidariedade,
A alma vislumbra e con-templa o uni-verso em movimento,
O tempo metamorfoseado em lenços brancos
Expira cheirando recordações, re-nasce exalando desejos
De magia, mitos, misticismos, causos,
Todo uni-verso, na pronúncia rouca da palavra,
Trilha paisagens mineiras.
“Existe uma tristeza imensa,
Nas ruas caladas de Minas...”
Gerais pensamentos trabalham no silêncio da grande noite,
Gerais ideais e projetos tecem com as linhas
Do "Devagar se chega lá" os sudários da etern-idade
Caminhos levam ao mesmo ponto e todo olhar mira
Com o mesmo encanto cada montanha,
Cada chapadão, cada pradaria,
Cada estrada de só poeira e buracos,
Em ec-sistir real mineiro em tal potência,
Em fábula, em conto-do-vigário, em mito, em misticismo,
Se transforma ao tentar em palavras esperanças e tesouros
Da história e da vida.
“Perto dos olhos,
Entre as montanhas...”
Emerjo entre os astros, doce e belo,
Irmanado ao absoluto dos instantes-limites,
Na dimensão trans-lúcida do halo divino de outros nós,
Com uma estrela branca-transparente aos pés e,
Ao lado, meia-lua acinzentada, a “esquina”
Entre as montanhas “do coração",
Trans-cendente na consonância e ressonância
À mercê e re-velia do tempo,
Originar perspectivas e estrofes de imagens e poesia,
Versos de sensações e sentimentos.



“O regato acorda cedo
As folhas descendo a ladeira”
Minas mina sonhos Gerais,
Nos tristes sorrisos de barrocas grades,
Galos e sinos misturados no ar.
Minas tem cheiro de melancolia e nostalgia,
Em Minas brotam as raízes da infinitude
Nas finitudes da liberdade e do tempo.



Esperanças trans-cendem algemas e correntes,
Pré-conceitos de raça e fé,
No silvestre das florestas,
Nas sendas perdidas das grotas, imensos abismos,
Chapadões, pastos,
Nas águas dos rios que se unem ao céu,
O destino é o infinito.



Minas metamorfoseada,
Aurora perdida nas montanhas niveladas,
Memórias cinzeladas em nuvens,
Minas, essa procura eterna, esse desejo imortal,
Essa terra perdida entre montes indizíveis, inauditos
Travessia real e cristalina...
A tarde tergi-versa-se pelas irregularidades
Das montanhas e colinas,
Extravia-se pelo céu sem nuvens no horizonte.
Espreito o frio do campo com a cara toda,
O sibilo vago de longe na tarde
Serena e suave,
Na alma, con-templo a maravilha, esplendor
Do mar aberto, pequenas e grandes ondas
Deslizando livres
A liberdade pres-ent-ifica-se nas águas
Desejos de liberdade e liberdade se comungam.



Sinto a angústia das Minas nas vozes dos povos oprimidos, no apito lúgubre das fábricas, nos vídeos das tevês, nas telas dos cinemas, na literatura de protesto, no teatro de arena, nas canções dos festivais, na implosão de todos os valores e virtudes, na inoperância das leis, nas homilias dos párocos, nas lições dos professores, na tristeza dos velhinhos sentados no banco da pracinha, no eterno “causo” de suas vidas e sonhos.
Quem sois vós, homens dentro de si? Quem sou? Fascinado, aqui fico longo tempo, ouvindo, deliciando-me com “as pedras sagradas” que “sustentam o pecado/da velha cidade”. Letras surgem e desaparecem na ansiedade da vigília, de poder estar a sós comigo mesmo, buscando, claro, numa esperança descrever esta jornada adentro ritmo, musicalidade, adentro versos e sons, adentro luzes que se acendem no íntimo, inspiradas na lírica mineira de um coração cheio de amor, ansioso pela entrega, na égloga carioca de amar livre de estar amando, comunhão de ideais e utopias, vidas-de-amor nas estradas das contingências, das conquistas e realizações... Avante!
Os olhos se movem em todas as direções, neste ambiente de uma espécie de cantina, a mente examina as pedrinhas redondas espalhadas em todas as direções da areia branca. Tudo é branco, as casas, a areia, o vinho, água de coco; até o ar, maresia, que se agita, é de uma substância clara e luminosa. Rostos maquiados lançam olhares solenes, enviados com antecedência, para a evidência de “fascínio e sedução”, para o amor que dilacera o coração, e “eu não sei porque tanta/Tristeza e paixão”, para o amor que abraça de paixão, carinho, as esperanças da etern-idade. Quiçá não imaginasse a tristeza conciliada à paixão. Sinto a paixão mais forte, mais presente, a paixão da vida, a paixão da liberdade, a paixão do amor...
Corcovado do silêncio!...



(**RIO DE JANEIRO**, 30 DE JANEIRO DE 2017)


domingo, 29 de janeiro de 2017

**FASCINANTE TRANSMIGRAÇÃO POEMATIZA COM PERCUCIÊNCIA SALVOCONDUTO DA LIBERTAÇÃO** - TÍTULO E PINTURA: GRAÇA Graça Fontis/POEMA: Manoel Ferreira Neto


Entre as montanhas
Grito silencioso,
silêncio de ideais,
silêncio de liberdades,
silêncio de justiça,
silêncio de solidariedade
silêncio de filosofias do Ser e Nada.




MINAS GERAIS




No interior das Minas,
Um pássaro em cada peito,
cânticos de amor, amizade na lira eterna
da história feita orgulho,
do tempo tecido de vaidade,
da cultura composta de esperanças
Suplicando espaço nos horizontes naturais do eterno...




MINAS GERAIS




De Minas, só mesmo o nome
Inscrito, re-escrito em negras pedras de sonhos
Sonhar absurdo perdido cristais e diamantes
Ah! Minas, elucubrada nas janelas
De casarotes, casinhas, casas simples e humildes,
Conjecturada nos portais
Dos casarões antigos, tradicionais, decadentes,
Sublimada em fonte de águas cristalinas, chafarizes.
Minas tem cheiro de outrora, de tempos primevos, de ontem
Perenizam de minas só as ilusões,
Perduram de minas só as carícias, ternuras, carinhos, toques
De grossas mãos escolhendo, selecionando pedras:
Melancólicos sorrisos de barrocos crepúsculos,
Galos, sinos entre-laçados no ar.




Minas é Clássica
Minas é Barroca
Minas é Neoclássica
Minas é Romântica
Minas é Realista
Minas é Simbólica
Minas é Expressionista
Minas é Impressionista
Seria que Minas seja Moderna?




MINAS GERAIS




Ah! Minas metamorfoseada,
Alvorecer perdido nas serras planificadas,
Entardecer escondido nas montanhas niveladas,
Memórias desenhadas em nuvens, céu de branco e azul,
Madrugadas esculturadas nos pretéritos do silêncio, solidão,
Escritas nas linhas longevas das revoltas, rebeldias
Re-flexos... A-flexos...




Minas! Alma enterrada em chamas de ideais e sonhos
Espírito soterrado em fogueira,
Digerido em cada fogão de lenha,
Liderado nos vestígios dos domus de igrejas,
Liberado nos resíduos das chamínés.
Minas, essa busca eterna, essa procura imortal,
Esta terra perdida em montes inexpressíveis, indizíveis.
Onde o homem trilha suas estradas empoeiradas,
Caminha e logo sente profundo, nos interstícios da alma
Que Minas sonhos minam Gerais
De Amor,
De Solidariedade
De Fraternidade
De Compaixão
De Luta e Desejo
Do eterno
Da eternidade
Da etern-itude
Do imortal
Da imortalidade
Do Belo, da Esperança, da Fé,
Da Beleza, do Sonho,




do VERBO SER...




Retorno-me. Tiro um pacotinho de fumo, abro-o, desfio o fumo com os dedos, enrolo a palha outra vez, e acendo com a chama do cinzeiro, mas o vento que entra apaga-a. Tento novamente, fazendo uma concha com a mão esquerda, virando-me de costas para a janela. Acendo. Entre os deuses antigos e os novos, há esta ou aquela rivalidade, há tal e qual pretensão, que os primeiros acentuam e caracterizam mais, revelando mais conhecimento, mais sabedoria, mais inteligência. A cultura é que não os faz suportáveis entre si, e todos acabam na doce e comum confissão de qualidades dos mestres do Olimpo. Ao cabo de alguns séculos e milênios, também os novos ocuparam suas devidas cátedras. Ou em fiança aos dons e talentos, ou endosso de letras, certo é que observo e contemplo às escondidas, para não vexar a ninguém. Circulo os olhos pelos novos, para mostrar a intimidade da esperança deposito nas águas banhando a areia da praia.




No silêncio das águas cristalinas,
Seguindo as sendas silvestres,
Na solidão dos caminhos do campo,
Trilhando de utopias a finitude da vida,
Palmilhando de devaneios a efemeridade do tempo,
Sarapalhando com a bengala do silêncio, muleta da solidão,
As intempéries furtivas do nonsense e sabedoria,
Sinto a profundeza com que em meu ser
A idéia da irremediável permanência
Da esperança aproxima a imagem do destino
Ao sonho do espírito do verbo e sublime,
Da fé comunga a perspectiva da sina e saga
Às utopias da alma e das conjugações do “Ser”
Absoluto e eterno.




Oh, Minas Gerais,
Eis-me aqui, Rio de Janeiro,
Versificando para você a quietude da alma,
Quando con-templa o in-finito...
Quando contempla as ondas do mar
Em direção à praia...
Versejando para você "... devagar é que se chega lá.",
Quando a eternidade é apenas um deleite no tempo.




A voz sufocada dos momentos de solidão,
Dos instantes desérticos da desolação,
Dos átimos de segundos oblíquos de abandono,
Como uma dor que me ameaçasse o coração,
É a imagem re-fletida na camada mais profunda
Dos caminhos misteriosos da palavra que a-nuncia
As sendas silvestres às margens de águas cristalinas,
As águas cristalinas passando livres à imagem
Das veredas campesinas
Mineirices de outrora: esvaeceram-se, re-nasceram-se outras
A voz despojada, altissonante, límpida e nítida
Carioquices de hoje.




Mergulho em todas as palavras, penetro-lhes os
Sentidos, ininteligíveis ou inconcebíveis,
Lívidos ou transparentes,
Inter-dito, dito, aquém-dito, além-dito
Vivo sentimentos outros, vivencio desejos outros,
Sinto querências outras dentro de única esperança
- Viver vida diferente -,
Ser diferente à luz de águas cristalinas
- meu olhar re-{s}-surge como um
Raio vindo misteriosamente do sub-terrâneo do espírito
Trans-forma perfeição
Em pétalas de versos,
Torna prosa a pureza da rosa,
O amor da companheira de alcova e estradas,
E torna égloga o cáctus da ausência ética,
Por gentileza, doe uma caixinha de fósforo
A um carioca num barzinho,
Nessa caixa de fósforo, um samba nascerá.




Oh, Minas Gerais,
Eis-me aqui, Rio de Janeiro,
Versificando para você a quietude da alma,
Quando con-templa o in-finito...
Quando contempla as ondas do mar
Em direção à praia...
Versejando para você "... devagar é que se chega lá.",
Quando a eternidade é apenas um deleite no tempo.




No limiar do agora
Que se tem perdido para sempre,
Que se perdeu no sempre do limiar
Que no sempre perdeu o limiar,
No "se" perder o limiar no sempre
Entre os liames do nada e do ser,
Levado pelo mais brando vento,
Pelo mais inaudível sibilo entre serras,
Respiro uma vida profunda,
Suspiro esperanças e fé íntimos,
Re-velo sentimentos delicados,
Exprimo emoções di-versas, in-versas e re-versas,
Por vezes avessas às manifestações do verbo,
Por vezes versáteis às prescrições da regência
Modelo-me com a facilidade de uma máscara de cera:
Tudo o que corresponde a signo interior, alegria ou tristeza,
Cólera,
Ou esse poderoso hausto de vida que parece,
Às vezes,
Inflamar-me a alma sensível
Como chama de puro entusiasmo,
Inocente êxtase,
Ingênuo prazer.




O segredo da fascinação, do amor pelas águas cristalinas,
Essa presença que vaga, que anda por entre o verbo e a carne,
Cuja aparência é a passagem das sendas silvestres
À cristalidade do ser e do sangue que percorre as veias
E que cintila ao mesmo tempo,
É a travessa das veredas sertanejas à luminosidade do existir e do ímpeto que percorre as utopias, e que alumiam o inolvidável da alma.




(**RIO DE JANEIRO**, 29 DE JANEIRO DE 2017)