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domingo, 22 de outubro de 2017

#AFORISMO 302/ENTRE O QUE SE FOI E O QUE HAVERÁ-DE SER# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Vacilo entre querer e não querer, entre ficar e arrumar as trouxas para escafeder-me sem deixar vestígios, sem deixar os passos nas pedras das ruas, o adeus insofismável na algibeira, “hasta la muerte” no alforje, no dia do apocalipse estaria presente para soltar os fogos de artifício, comemorando a alegria de assistir ao sepultamento de todos, o espaço vazio no mapa, jamais em todas as dimensões da alma, quem dera pudesse, não veria re-fletido no espelho a tristeza e a desolação na minha imagem, a boca fechada, em silêncio irrestrito e irreversível, há as suas vantagens, observo com mais percuciência as mazelas e hipocrisias individuais e da história, entre o que se foi e o que haverá de ser – na verdade, na verdade, não sei se foi mesmo, parece confundido com o que está sendo, o que haveria de ser é o que se foi, o que está sendo é uma ilusão do sonho que se anunciou instantes atrás, tudo parece entrelaçado com certas inconsciências, concebidas e nascidas dos instintos voltados para as justificativas e explicações fundadas e fundamentadas nos interesses espúrios, súcias ideologias, pergunto-me como o que há-de ser será possível, se o presente está amasiado ao passado, não tendo qualquer resposta, inda que inviável; pergunto-me ainda se haveria possibilidade de silenciar onze anos de minha vida, três me foram bem fáceis, mas era garoto de oito anos, apesar de quando em vez alguma perspectiva se me a-nuncia, cuido logo de devolvê-la ao catre; jamais poderão figurar em qualquer espaço, levo-lhes comigo para os sete palmos de terra, não havendo quem possa tecê-los de modo a representá-los, quem conhece esses três anos de minha vida não irá dar com a língua nos dentes, respeita-me o último pedido de não fazê-lo, tudo o que disserem serão criações, invenções, frutos da imaginação fértil; é na carne mesmo que trago esses anos -, o que penso e os sentimentos que me vão no íntimo, entre a verdade e a in-verdade – insegurança e medo, suponho, - que me diz: “O indivíduo, sob qualquer perspectiva e ângulo que se considerar e analisar, está sujeito a todas as mudanças, é uma lei a mais, uma necessidade a mais para tudo o que está por vir”. Pensando e sentindo isto profundamente, é que segui a minha jornada no mundo, realizo o que desejo, sinto-me feliz e alegre, saltitante. Se não me engano no momento, fora Fagundes Varela quem escrevera num poema: “Vim, vi e venci”, a aliteração mais famosa de nossas letras brasileiras.

Dizer-me: “Muda a minha vida” seria desejar a transformação de tudo, até mesmo uma transformação de banda, de esguelha, em última instância, para trás... Não nego facilmente, honra-me afirmar, apesar de sujeito a todos os enganos e erros, sujeito a todas as rejeições, perseguições e discriminações. Meus olhos se abrem sempre mais para os horizontes que necessitam e que sabem servir-se de tudo o que a santa sem-razão, a razão doentia rejeita, a alegria e o contentamento nesse caso são mais presentes e fortes, a felicidade mais verdadeira e real, o coração conhece bem percuciente o que é isto – o sangue que por ele passa e repassa a todo momento, sente-lhe o calor efervescente, vivo e pujante, o sangue quente, que sobe por nada até, é da minha origem e estirpe, não há como negar ou subestimar, aliás sinto-me orgulhoso dele, não levo desaforo para casa, se tiver de levar algum, com efeito, passo a viver nas ruas da cidade, carne e ossos lhe agradecem sensivelmente a vida e os fervores, que abrem os horizontes para todos os futuros do espírito e do ser.

Paro um instante, deixo-me balançando na cadeira à mercê da música que ouço, a perna direita se movimentando ao seu ritmo, o salto do sapato batendo no chão, The House of the Rising Sun, desde que a conheci, há longos anos, apaixonei-me, quando ainda não a entendia, amor após entendê-la, olhando, através da janela, a chuva que cai, os pingos que deslizam no vidro lentamente, o tempo nublado – mas tem chovido, hein, sô!, uma mineirice para brilhar sempre, quanto mais por surgir de supetão, sentidos inusitados e excêntricos, inéditos, afloram, transcendem o meramente contingencial -, esperando que no íntimo se re-vele um vento de renovação, se não possível, pelo menos olhar diferente as coisas e o próprio mundo, visão-{de}-mundo outra, a que me habita, em termos bem vulgares, está enchendo o raio do saco, está caindo aos pedaços de tão velha, não tenho vocação para velharias, épater le bourjois, para usar uma expressão francesa, inédita em quaisquer outras páginas, com significado e sentido que trans-cendem a razão, intelectualidade, até mesmo todas as dimensões do espírito, quisera conhecê-los com percuciência, isso não é de minha alçada, deixo a quem quiser fazê-lo, se lhe aprouver dizer-me, fico-lhe sobremodo agradecido. Não é verdade, contudo, que sou em absoluto inconsciente do sentido que atribuo a essa expressão, é histórica, nasceu em um período dificílimo da história francesa.

Há dias os sinos tocavam e repicavam os ares de um firmamento azul do dia como se fizesse pazes com o mundo, saíam pombos da pequena igreja, esvoaçando baixos, preenchendo os espaços da pracinha, pessoas paradas, observando, no peito ad-miração e felicidade por cena tão mágica e maravilhosa. São momentos de lembranças, são instantes em que a sensibilidade se apresenta sedenta e ávida de vôos profundos, aproveito o ensejo para tecer em palavras o que presenciei naquele dia em que o povo do lugarejo invadiu o templo como se fossem canibais de um mito; os pássaros cantavam suas músicas que no tempo e este integrava na perfeição de um espaço distante, a brisa da manhã era como o espelho dos reflexos humanos. Sonhei e naquele sonho supus as mais lindas histórias de um conto de fadas e como numa fábula resplandecia a paz que mais uma vez julgava intermediária dos próprios homens.

As criaturas... pequenas grandes criaturas que formam mito salva uma frase inerte e insensível aos ouvidos, memorizam uma expressão latina que suscita incólume verdade... à loucura... São elas o fulgor de uma estrela de um ponto que esconde e trans-parece lá bem distante, são o brilho atrás da lua que reflete para trás a sua luz branca e resplandecente, incidindo nos campos silvestres, nos chapadões solitários e íngremes, nas corcovas de serras e montanhas, onde as estrelas sinuam por outros trajetos e itinerários, não é negócio velarem os seus osssuários. As criaturas da noite são apaixonadas. Fazem anarquia. Uma farra que descobre sentimentos, que envela dores e sofrimentos, que omitem mágoas e ressentimentos. Que amam a madrugada, o latido dos cães. Que cantam com fervor cânticos os mais di-versos na esperança de a aurora nascer performando novos passos de dança, à luz do corpo, constituído de carne e ossos. Que somem sem deixar quaisquer vestígios.


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE OUTUBRO DE 2017)

#AFORISMO 303/ORQUÍDEAS DO VALE - PSICANÁLISE DO FOGO E DA SEDUÇÃO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Nuvens brancas
Sol de verão,
Passos comedidos
Ondas do mar...

Amor é verbo de ser que ilumina os sonhos
Resplendendo de felicidade os interstícios da alma
Amor é esperança que numina os recônditos
Dos desejos solenes do absoluto, re-presentado
Pelas alegrias do ser-para o eterno,
Metáfora da compl-etude,
Amor é sonho que a-lumbra os volos
Do prazer e clímax das contingências da dor
Amor é tempo do espírito que concebe
Sentimentos de entrega à alma dos sofrimentos.

Nuvens azuis
Raios numinosos no alvorecer...
Brisa...
Vento...

Amor é querência de harmonia entre
O nada e o eterno das sublim-itudes
Amor são con-tingências do efêmero
À busca da luz trans-cendente
Que trans-eleva as angústias do tempo
Amor são con-templações da vida
Na continuidade das dialéticas do ser e não-ser
Amor são ilusões, fantasias do verbo
Que se torna carne no encontro dos corpos
A entre-laçarem vontades do pleno e do divino.

Universo de azul celeste
Horizonte de espaço infinito...

Amor é angústia do tempo
No ser das nonadas dos instantes-limites
Na alma das travessias do vazio ao pleno
Das sin-cronias, sin-tonias do sublime
Amor é nostalgia do caos à luz do genesis
Às cintilâncias da morte
Amor é melancolia do cosmos
Às chamas da lareira à soleira do abismo
Que trans-concebe os raios da eternidade
Amor é saudade do crepúsculo de ocasos
Que trans-sublima a náusea da eternidade.

Estrelas cintilantes
Lua brilhante
Noite serena...

Amor é olhar o outro com o lince
Do respeito, da entrega à balada
Da vida vivenciada de desejâncias
Amor é con-templ-orar o ser do verbo
Outro do outro, consumando a carne
Da alma, o espírito da carne
Amor é vivenciar no vivenciário,
Vivencial do tempo e do ser,
As dores do nada e do efêmero...

Amor é poesia in-condicional
Que verbaliza a alma
No seu movimento de sonho e esperança
Da felicidade, prazer, do espírito do ser,
Das utopias da perfeição.

Poesia in-condicional é amor
Se mudar os jogos da mente,
Se jogar as cartas da verdade
Nos versos e estrofes do desejo e vontade
Da alegria, contentamento, felicidade.

Amor é poesia in-condicional
Que trans-eleva os desejos da beleza da entrega
Ao outro lado das emoções de sentir a plen-itude,
De viver a in-fin-itude de sentimentos e emoções,
Beijo, abraço, toques, carícias, afagos,
Mãos entre-laçadas.

Amor é poesia in-condicional
Que tece com os fios da eternidade e do infinito
As lâminas de luz que incidem no silêncio das estações
Da sedução, do lúdico, do verso-uno, da paráclise do ser,
Koinonia da entrega e cor-res-pondência.

Poesia in-condicional é amor
Amor aos lírios agrestes, estesia do espaço
Amor às palavras pronunciadas ao som
Da sensibilidade e emotividade do coração
Amor ao silêncio que recita o espírito
Eivado de dimensões da leveza do ser
Amor ao verso-uno dos corpos
Que se sintetizam aos sibilos dos desejos de êxtase.

Amor é poesia in-condicional
Que convida a re-colher na solidão o presente na sua presença
De re-fazimentos, renovações, inovações dos sentimentos
Que sonham o sonho de sonhar o divino da perfeição,
A contingência da verdade
Amor é poesia in-condicional
Que se re-colhe à natividade da raiz,
De re-tornar ao sem fundo e fundamento,
Ao abismo do ser.

Amor é poesia in-condicional
Que evoca o sumo da plen-itude.
Amor é poesia in-condicional
A de-ferência mais íntima da interioridade
De nós mesmos, dos outros ou de qualquer coisa.

Amor é poesia in-condicional
Que tem o ser de flor na própria florescência,
No vigor e natividade da floração.

Poesia in-condicional é amor
Amor, tudo está tão claro na mente
Antes de dormir, sonhe amanhã de outros
Instantes de nossas entregas, doações,
De mãos dadas passeando na orla do mar,
Atravessando as ruas, avenidas, alamedas,
Ouvindo músicas,
Sin-cronizados, sin-tonizados em nossos sentimentos
Mais profundos, mais verdades, mais reais,
Con-templando nos interstícios de nossos volos
Da felicidade os lírios agrestes
Que sin-estesiam a poesia do verbo amar.


(**RIO DE JANEIRO**, 22 DE OUTUBRO DE 2017)

Sonia Gonçalves ESCRITORA E POETISA COMENTA O AFORISMO 307 /**DO LADO DE CÁ DO ESPELHO**/


Que lindo Manu.... Lindo texto, de coração aberto nota-se. Todo mundo um dia se perde um pouco na vida uma vez ou outra, certamente seus pensamentos acompanham a fumaça do cigarro ou o balanço da rede em que observa o mundo pela lente dos seus pensamento e pelas ideias, onde transmuta essas tais maldades vis em coisas poéticas para nos contar nesses aforismos incríveis e criativos... Grata... amei.


Sonia Gonçalves


#AFORISMO 307/DO LADO DE CÁ DO ESPELHO#
GRAÇA FONTIS: PINTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Suportem todos a cruz e a existência no deserto, perdido na imensidão do espaço de areia, nenhum rumo, não destino, gritem contra as lágrimas bobas e compreenderão que o Criador, fazendo-os rebeldes, quis zombar de cada um de nós certamente.


Com desespero e essa blasfêmia, torno-me eu, quem quer seja, ainda mais infeliz, porque a natureza humana não tolera a blasfêmia e acaba sempre por tirar vingança dela. Assim, a inquietação, a perturbação, a desgraça, tal a partilha dos homens, após sofrimentos que suportam pela liberdade deles.


Suportemos a cruz e a existência no deserto, nutrindo-nos de gafanhotos e de raízes; decerto podemos orgulhar-nos dos filhos da liberdade, do livre amor, de seu sublime sacrifício em nosso nome. Palavras proféticas?!... Não. É o que sinto neste instante.
É bem fácil recostar-me à cadeira de balanço, fumando um cigarro, expelindo a fumaça levemente. O tempo contribui com a minha construção, que está indissoluvelmente ligada com a sensibilidade, frente ao ideal, transcendência e engenho, busca e entendimento de seu significado.


O riso, meu amigo, é nosso consentimento ao futuro, a todos os sonhos que construímos num segundo fugaz, mas que deixa em nós uma semente que irá brotar, se a regarmos. Por isso, assim creio eu, talvez para expressar um medo que num átimo perpassou minha alma e não pude retê-la na concha de mãos fechadas, é preciso aceitar certas verdades. Até mesmo admitir e aceitar que a perda da alegria é a perda de nossa vontade de estar na vida... É preciso buscar a unidade perdida. Trazer em comunhão, outra vez, o equilíbrio. O que aconteceu foi você ter aceite a idéia de que a vida é um ato de sacrifício, o sofrimento é o alicerce da redenção e da salvação. Tudo isto gerado por um tempo que criou mitos estereotipados na beleza física e no poder material. O espelho... e não é o olhar das pessoas cobrando que nos disfarcemos. Não aceite este jogo, nem se descuide, apenas viva do lado de cá do espelho...


(**RIO DE JANEIRO**, 22 DE OUTUBRO DE 2017)


#AFORISMO 307/DO LADO DE CÁ DO ESPELHO# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Suportem todos a cruz e a existência no deserto, perdido na imensidão do espaço de areia, nenhum rumo, não destino, gritem contra as lágrimas bobas e compreenderão que o Criador, fazendo-os rebeldes, quis zombar de cada um de nós certamente.


Com desespero e essa blasfêmia, torno-me eu, quem quer seja, ainda mais infeliz, porque a natureza humana não tolera a blasfêmia e acaba sempre por tirar vingança dela. Assim, a inquietação, a perturbação, a desgraça, tal a partilha dos homens, após sofrimentos que suportam pela liberdade deles.


Suportemos a cruz e a existência no deserto, nutrindo-nos de gafanhotos e de raízes; decerto podemos orgulhar-nos dos filhos da liberdade, do livre amor, de seu sublime sacrifício em nosso nome. Palavras proféticas?!... Não. É o que sinto neste instante.
É bem fácil recostar-me à cadeira de balanço, fumando um cigarro, expelindo a fumaça levemente. O tempo contribui com a minha construção, que está indissoluvelmente ligada com a sensibilidade, frente ao ideal, transcendência e engenho, busca e entendimento de seu significado.


O riso, meu amigo, é nosso consentimento ao futuro, a todos os sonhos que construímos num segundo fugaz, mas que deixa em nós uma semente que irá brotar, se a regarmos. Por isso, assim creio eu, talvez para expressar um medo que num átimo perpassou minha alma e não pude retê-la na concha de mãos fechadas, é preciso aceitar certas verdades. Até mesmo admitir e aceitar que a perda da alegria é a perda de nossa vontade de estar na vida... É preciso buscar a unidade perdida. Trazer em comunhão, outra vez, o equilíbrio. O que aconteceu foi você ter aceite a idéia de que a vida é um ato de sacrifício, o sofrimento é o alicerce da redenção e da salvação. Tudo isto gerado por um tempo que criou mitos estereotipados na beleza física e no poder material. O espelho... e não é o olhar das pessoas cobrando que nos disfarcemos. Não aceite este jogo, nem se descuide, apenas viva do lado de cá do espelho...


(**RIO DE JANEIRO**, 22 DE OUTUBRO DE 2017)


sábado, 21 de outubro de 2017

#AFORISMO 301/A VIDA FAZ TEIAS NOS VASTOS MURAIS# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: AFORISMO



Ali, à face da montanha, vejo sumir-se, nos pingos dágua, expressando de outro modo asco e náusea que me habitarão, enquanto for vivo, mesmo debaixo de sete palmos, mesmo por toda a eternidade até a consumação dos tempos, e serão sentidos por qualquer indivíduo, embora a sua sensibilidade seja apenas para sobreviver no mundo, a mentalidade bem menor que o salário do egregíssimo Prof. Raimundo, seguido também do egregíssimo Orlando Lero-Lero, o milagre da obra humana, a magia das esperanças de algo ser construído à luz da verdade e do amor. Na minha voz tranqüila, impérios ruíram, orgulhos e vaidades escusas desmoronaram, ostentações de moral e ética indevassáveis quedaram sem direito a único suspiro, até as letras, em princípio, uni-versais e eternas conheceram o nada e o vazio do nascimento da razão, uma luta de morte pré-cede todas as mudanças, no sil-êncio da ordem uni-versal rigor da razão cobre o tempo novo, a fé nova que nasceu, as velhas que se transformam, mudam de fisionomia, mudam as faces.

Todo dia, faça chuva ou faça sol, há o jogo de luz e sombra, jejum repleto de gula, o réptil subreptício com sua gosma de íntimo. Quem não sabe dos buracos negros nas profundezas do poeta? Quem não conhece os vazios e nadas nas pré-fundas do escritor? No observatório do coração alucinado, perdido nas costelas das constelações, nas costas das estrelas e da lua, de sonhos e atônitas realidades, o escritor, o poeta são galileus no breu das inquisições. Todo cair da tarde a toada de medo, de insegurança, poema ou prosa de merda, merda de prosa poética, o morrer que começa feito cócegas nos dedos.

Ouço, só, só no ser e verbos entre todas as ad-jacências do amor aos sonhos e utopias, quimeras e fantasias, o silêncio, silêncio afogado e úmido como um longo suor frio, na medula espinhal ou no joelho que separa a perna da anti-perna, silêncio branco e sepulcral. Quero amanhã lembrar-me que fui embora, larguei o passado à mercê do esquecimento do tempo, da indiferença e desprezo humanos. Jamais me esquecerei do olhar do ator John Wayne no filme Rastros de Ódio, o olhar perfeito do desprezo, só por ele merecia um Oscar inédito na história do cinema, o Oscar do Olhar verdadeiro e sincero, e nenhum ator senão John Wayne seria capaz de mostrar-lhe nas telas mundiais. A Academia não dera a mínima para este filme. É com esse olhar que olho a hipocrisia humana, a história de certo povo. Na face dos prédios alastram-se manchas de água, o rodar dos carros estruge no enlameado da rua feita de pedras, o meu bafo quente coalha nos vidros turvos – disse-o nalgum instante de minha vida, em circunstâncias e situações de que não me lembra, mas agora expilo a fumaça do cigarro à mercê do vento que se dirige ao leste do paraíso celestial, naquela época a diferença de sentido e sentimentos reside aqui, hoje o éden está muito íntimo, entrelaçado em mim, comungado a todas as dimensões de minhas re-versas razões e in-versa sensibilidade, avessa intelectualidade e intuições do cogito ergo sum, lembrando-me do filósofo Descartes, apesar de que não tenhamos quaisquer semelhanças nos interesses e objetivos, nas idéias desfaço-lhe as seguranças e certezas do que há-de vir, o por-vir tranqüilo e sereno, sem quaisquer dúvidas, a ciência pura e absoluta da vida, acompanhada da intuição, percepção, imaginação, inspiração, enquanto que o paraíso celestial ao leste está bem distante de mim, só mesmo na imaginação o concebo, e o desejo é de me aproximar dele, saber-lhe. E imerso assim em umidade, quase alcançando a lod-icidade, com os pés frios, esmaga-me um cansaço sem tempo, um abandono absoluto da vida e da morte.
Sempre um sepulcro sutil debaixo do edredom e cobertor, altas horas da madrugada, minutos antes do canto do galo, na arapuca de Morfeu os pesadelos de Sísifo, assim ou assado, em si mesmo petrificado – narsísifo en-si-{mesmado}. Vomito finalmente o mito repelente, o mito indecente e indecoroso, o mito refutável e descartável: ad-mito ser gente, con-sinto em ser humano, estar à mercê do tempo, estar sujeito a trans-formações, estar sujeito a ser o outro de mim, envolvido em todos os princípios e verdades do final.

Três horas da madrugada: reclamam as asas da alma espaço para voar além do corpo e do catre, além do bairro e da praça, além do chapadão e dos córregos, quer a alma excitada voar além da cidade, além das florestas silvestres, apesar dos morangos e pêssegos deliciosos e apetitosos, que tanto aprecio, além dos mares que se perdem no infinito, confundem-se com as nuvens brancas e azuis, deixam olhos extasiados e voluptuosos de prazer com a beleza e magia do uni-verso, universo que des-lumbra o barroco de sua apoteose, que a-lumbra o expressionismo dos sofrimentos e dores da alma, suas tragédias homéricas e ulisseanas. Pois que voe a desalmada, voe mais que águia, deixando o corpo em soluços, dissolvido sonrisal, alka-seltzer num copo de solidão. Sempre uma dose de angústia sobre o acrílico do medo no barzinho da periferia onde, amargo, me exilo, penso e sinto o que me convém, o que está de acordo com a minha alma e ser, as saudades indescritíveis e indizíveis de minha querida Pitibiriba se me anunciam todas, sou todo saudades, sinto-me sendo o outro de mim, e mando o resto para a “tonga-da-mironga-do-cabuletê” ou pentear macaco no pálido crepúsculo das montanhas...

Apesar de tudo quanto mais latir mais assustarei, deixarei os ouvidos sensíveis, até paranóicos, a alma em alvoroço com todas as dores e sofrimentos. Apesar de tudo quanto mais discriminado e perseguido mais o que latir irá ser inscrito nas laias e estirpes da história das hipocrisias e falsidades da raça humana. Apesar de tudo quanto mais perdido mais encontrarei as veredas por onde trilhar os passos em direção aos infinitos da eternidade e imortalidade. Apesar de tudo quanto mais traído mais resplandeço, mais a minha estrela brilha no espaço sideral – sensível e espiritualmente envio beijos a amiga muito querida, quem num cartãozinho dissera-me da minha estrela que brilha. Apesar de tudo quanto mais responsável e compromissado com os ideais de liberdade e sinceridade mais me sentirei disposto a seguir a jornada que a mim foi vocacionada desde toda a eternidade. Apesar de tudo quanto mais unido às buscas mais menos serei. Minha memória eriça a fúria das ondas e nas profundezas do coração, lá nas suas pré-fundas, uma velha bandeira de pirata.

O céu, forrado de estrelas, é um olho arregalado na penumbra do alpendre onde sombras se apalpam. Onde sombras se fazem de carne, cheiro de vida, de carne sendo mordida, de carne, luz encarnada. A lua, em quarto - minguante, é um seio de soslaio que uma língua procura.

Sigo a jornada dos obedientes, sabendo que no meio do mundo há quem empurre a pedra com dinamite nos olhos. Montado num jegue, saudando sertão a fora com os braços desenhados no ar. No canto, peças do cangaço que se paira, e paira o sertão nas sombras ócias da noite, nos vultos preguiçosos da madrugada. Cangaceiro é lua cheia no sertão, e vem a noite, vem a brisa; no sono, a recordação. Na verdade, na verdade, a lua não se interessa pela conversa baixa, cochicho, sussurro dos gatos, dos ratos e dos homens – uma fraude fatal a favor de fulano de tal e cicrano bis. As paredes de cores e cores e cores estão imitando o poeta dos versos livres/oprimidos, o escritor de prosa re-versa/inversa, o homem de silêncio/latido; estão imitando o filósofo das revelações e averiguações do porque da vida obscura, misteriosa e seus desencontros; estão imitando o apenas e o tudo/nada sem igual, sem raiz de um touco morto pelo progresso, pela indiferença, pela modernidade que enfim assumiu que morreu, caiu vez por todo no chão duro e trincado pelos raios do sol, seu esquife está sendo levado para o sepulcro no pálido crepúsculo da primavera, em verdade final dela.

Onze e meia da noite, pós aula no curso de doutorando, encontro-me na Peixaria de Salomão, comendo um peixe à passarinho, tomando um gim, ouvindo a algazarra dos clientes, o silêncio do lugar, terrenos baldios, lotes vagos, latidos de cães, grilos.

A vida, uma alegoria ou um pó que grita, que passa, explode e mofa? Hoje sinto a emoção verdadeira de uma entrega, e com tantos dissabores e enganos, uma entrega que se torna um fruto delicioso de sentir o seu gosto, pois reguei a semente até ver a árvore dando os seus frutos. Não digo que chegou o instante de chupar os frutos de minha árvore. É instante de ver os frutos amadurecerem e caírem da árvore – isto é muito bom, excelente, maravilhoso, mágico, pois que é a-núncio de que outros virão, ainda mais deliciosos. A árvore sente e repele, rejeita a nudez crua do boêmio não original, farsante da boêmia, vestiu a camisa, o corpo encolheu, diminuiu, tornou-se nada, de ouvidos elétricos.

Re-nascer é inevitável. Re-nascer como homem, ser humano é um privilégio, ser divino-contingente é uma dádiva. É o único estado que permite realizar o despertar de nossos pecados e culpas. O raio almíscar e gelatinoso de nada, esvoaçante nas dobras de uma cortina adocicada: um vôo, um alçar vôo no tudo, no nada, na imensidão de uma brisa serena e simples, em sua pequena asa esvoaçante. Uma bailarina passando no fundo azul e dilacerante de asas e gritos e sussurros, de uma leve brisa de nada e de silêncio. Um gemido na noite do nada e do absoluto. Uma pausa. O eco. O eterno profundo.

O que se ergue, desabrocha, floresce e dá frutos, sorrindo ao Sol e ao uni-verso é a semente que virou árvore. Mas somente pode triunfar porque o húmus, rico e fecundo, lhe deu generosamente os nutrientes, ingredientes. Triunfa a águia porque abre caminho para frente, triunfa o homem porque transforma suas dores em esperanças e utopias. A cada instante se muda não apenas o instante, não só o lugar do ponteiro do relógio, mas o que se crê nele, espera-se dele, deseja que ele realize, a vida passa entre viver e ser, entre re-versos pilares e horizontes. Quiçá a vida seja inglória, não sei se deveria pensar assim, pois que há instantes em que é pura glória, é puro resplandecer, outros há que não, é inglória, mas, com efeito, conhecê-la é inglório, a sede de conhecimento transcende o próprio conhecer. Se recordo o que conheci de mim, sentindo-me contente, prazeres e alegrias perpassando-me, outrem me vejo, e o conhecimento de antes, o passado é o presente que me habita a lembrança. Quem fui é alguém que amo, contudo somente em sonho. Feliz aquele a quem a luz do conhecimento se lhe a-nuncie, mas não todo. Que pesa o escrúpulo do pensamento na balança da vida?

Aluno, estando eu aqui na mesa comendo um ensopado de peixe, aproximou-se de mim, dizendo ser muito simples escrever numa mesa de restaurante, bar. Convidei-lhe a sentar-se, escrevesse o que desejasse, faria o mesmo. Depois de quinze minutos, tendo preenchido uma folha de agenda, ele escrevera apenas dois parágrafos. Disse-lhe haver ouvido de um professor, nas mesmas circunstâncias, comendo uma porção de carne com mandioca, tomando um branquinha, dissera-me ele: "O professor deve ter a engenhosidade e arte da escrita, quanto mais um catedrático de universidade. Chegará o seu instante de perceber isto. Necessário a entrega."

Estou só. Luzes acesas, sombras corporais. Paredes encortinadas, cantos semi-áridos. Janelas entreabertas, roupas, objetos e jornais. A vida faz teias nos vastos murais... Vai no meio em romaria, está no fim do verbo amar, é a razão de haver a ilha, aí de mim, eu morreria se parasse de remar essa barca redondilha. Ninguém o sabe, não porque não o permita, não o con-sinta, tudo faço para não me deixar ver nas percuciências de minha alma, simplesmente porque esta minha solidão é mais que particular, é a minha essência, é o meu ser. Silencio-me e finjo. Finjo sem fingimento, pois que assim sinto que não tergi-verso o que em mim habita, não tripudio com as verdades em que creio impiamente, não jogo a carta da proscrição, esperando ser absolvido do erro de querer ser perfeito, feliz – a cada coração o único bem de ele poder ser dele.


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE OUTUBRO DE 2017)

CRÍTICA LITERÁRIA POETISA E ESCRITORA ANA JÚLIA ANALISA O AFORISMO 300, ###DOGMA DAS CHAMAS DO INFERNO##, CAPÍTULO REFERENTE À OBRA "UTOPIAS DE FESMONE NAS JACÊNCIAS DO NADA"


Neste texto do escritor Manoel Ferreira Neto, contemplo o puro fanatismo das pessoas.


O facciosismo é uma doença infeciosa do intelecto


Tudo com suporte em proveitos do domínio, onde as divindades e as religiões servem de convincentes. Domínio e capital. O ser humano, se é que existe, fica na colocação desprivilegiada, da fila.


Os déspotas não são fanáticos. Fanáticos são os seus adeptos. Os patetas, que se vitimam para conservarem salva a impetuosidade do credo ou prática das religiões que decifram de modo rigoroso, as escrituras sagradas. Seja no poder de prepotências de Estado ou de grupos dispersos, onde a imbecilidade engendra desgraças.


O estamos a sofrer bem isso, essencialmente a Europa.


Os chefes ou líderes, no fundamentalismo”, operam como os comerciantes de estupefacientes. Comerceiam mas não utilizam. O hábito fica para os seduzidos. Nenhum dirigente fundamentalista se traja de bombas para estourar junto com suas vítimas. Isso, é empreitada dos néscios, resumidos à espécie de imundície racional. Bombista e torturador são estercos, que nem para estrume ajudam. As crenças…o inferno é na Terra…não acredito que exista inferno em outro lugar. Pior inferno que este que se vive?


O verbo não é só efeito do sistema primitivo. Ele possui a pujança do petardo ou a debilidade do limo. Há uma desinência rameira que corrompe a semasiologia dos nomes. É o “ismo”. Quando se agrupa a uma locução dificilmente lhe protege a nobreza oriunda. Veneno significativo. É a ocorrência do fundamentalismo.


Sem falar no fundamentalismo “moral”, da cretinice que transtorna o início da hipótese de inocuidade, ao transfigurar denúncia em sentença. Todo moralizador transporta recôndito da consciência um estroina repleto dos vícios que lhe causam cólera ou preconceito.


Não somos ainda a Humanidade. Somos o elo mediador entre os antepassados de onde aparecemos e a Humanidade que há- de vir. Somos pré-humanos. De terminologia transformada e humanidade insensível. Tribais da incultura, intelectualmente enfraquecidos.


Penso que este Papa, não se atreverá a verbalizar, que os dinheiros dos putrefactos será bem acometida no Éden Divino.


Mas, só sei que nada sei, e muitas vezes em quem acreditamos é que nos trai mais depressa….por isso, temos um bom inferno na Terra….


Este é daqueles escritos que dava pano para mangas…tanta coisa se podia referir…


Ana Júlia Machado


Em verdade, em verdade, Fesmone torna-se uma obra filosófica, e este é um dos capítulos dele. A primeira crítica, já o romance sendo composto, desta obra.
Cumprimento-a solenemente pela crítica que re-velou ipsis litteris e verbis a intenção do capítulo, a crítica ao Fundamentalismo. Sua análise é de uma percuciência inestimável, de excelência.
Um excerto que me admirou sobremodo de sua análise: "O verbo não é só efeito do sistema primitivo. Ele possui a pujança do petardo ou a debilidade do limo. Há uma desinência rameira que corrompe a semasiologia dos nomes. É o “ismo”. Quando se agrupa a uma locução dificilmente lhe protege a nobreza oriunda. Veneno significativo. É a ocorrência do fundamentalismo." Busquei sim revelar que o verbo do fundamentalismo é veneno significativo.
Caríssima Amiga e Crítica Literária, não há o que acrescentar à sua visão, percepção, intuição da intenção da obra, uma crítica da atualidade em todos os níveis. E Fesmone é professor-doutor do curso de Doutorando em Episteme da Poesia, Gaston Bachelard, sob os olhos de Nietzsche. São doutorandos em Nietzsche. Perfeita.
Nossos sinceros cumprimentos e louvor.


Manoel Ferreira Neto


#AFORISMO 300/DOGMA DAS CHAMAS DO INFERNO#
GRAÇA FONTIS: PINTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Pensar a eternidade no Paraíso Celestial é um sentimento de tranquilidade, serenidade sem precedentes. Por mais que ao longo dos anos da eternidade toda a beleza, maravilha se tornem entediantes, ver e viver o mesmo são o eidos do tédio. Tédio no Paraíso Celestial seria ótimo título para uma música, penso no Blues, ou para uma película cinematográfica sob a direção de Alan Parker, um espetáculo de besteirol no Teatro no Auditorium da Escola de Filosofia da Faculdade de São Nazaro.


Nada de azar.
Azar de nada.


Pensar a eternidade no Inferno aí os mil réis são outros. Além de ter de con-viver com todas as laias, raças, estirpes de almas penadas, corruptos, viperinos, caguinchos, assassinos, pedófilos, ditadores e tantos outros, arder nas chamas por todos os séculos dos séculos amém é doloroso. Se queimamos o dedo com fósforo já dói bastante, arder nas chamas do inferno é algo delirante. Imagino que as almas penadas uivem pelos milênios a fora de tanta dor.


Quando o Papa afirmou que no Inferno não há fogo - o secretário do Vaticano desmentiu a sua fala -, pensei com os meus botões que a angústia, desespero, agonia de morrer e ir arder nas chamas do inferno, conforme os pecados e pecadilhos, alfim estavam acabados.


Lembrei-me dos Corruptos.
"Então, se eu morrer por ter roubado do Estado, ficado bilionário, vou para o inferno?"
Alguém lhe respondendo: "Não se preocupe, Presidente, no inferno não há fogo."
- Quê ótimo! - responde o Presidente - No Brasil, não há presídio, cadeia para políticos. No inferno, não há fogo. A Justiça dos homens pouco importa, nada importa em verdade. Agora, a Justiça do demônio, Deus me livre.


Imagino que as razões do Vaticano por desmentir a fala do Papa tenham motivos às pencas. A repercussão do mundo inteiro causaria muitíssimos problemas. No Brasil, não haveria qualquer repercussão negativa; ao contrário, o Brasil beijaria os pés, as mãos, as faces, a testa do Papa, beijo babado de tanta alegria e felicidade. País de corruptos, assassinos, traficantes, pedófilos, país onde impera todas as falcatruas, o inferno é o rumo insofismável. Não havendo fogo no inferno, mesmo que continue isto de o castigo supremo do mal é o inferno, pode-se prosseguir continuamente a corrupção, assassínios, tráfico, pedofilia... O inferno garante: "A vida aqui não é de mil maravilhas e esplendores, mas é uma vida pacata, triste, ensimesmada, circunspecta, introspectiva."


Pensa a eternidade num jardim a perder de vista as belezas, maravilhas, no crepúsculo, à margem da lagoa, à noite o brilho da lua, das estrelas, quê espaço de mesmidade, por todo o sempre.


Resta agora o Papa dizer que as finanças dos corruptos será bem investida no Paraíso Celestial.


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE JULHO DE 2017)



Pensar a eternidade no Paraíso Celestial é um sentimento de tranquilidade, serenidade sem precedentes. Por mais que ao longo dos anos da eternidade toda a beleza, maravilha se tornem entediantes, ver e viver o mesmo são o eidos do tédio. Tédio no Paraíso Celestial seria ótimo título para uma música, penso no Blues, ou para uma película cinematográfica sob a direção de Alan Parker, um espetáculo de besteirol no Teatro no Auditorium da Escola de Filosofia da Faculdade de São Nazaro.

Nada de azar.
Azar de nada.

Pensar a eternidade no Inferno aí os mil réis são outros. Além de ter de con-viver com todas as laias, raças, estirpes de almas penadas, corruptos, viperinos, caguinchos, assassinos, pedófilos, ditadores e tantos outros, arder nas chamas por todos os séculos dos séculos amém é doloroso. Se queimamos o dedo com fósforo já dói bastante, arder nas chamas do inferno é algo delirante. Imagino que as almas penadas uivem pelos milênios a fora de tanta dor.

Quando o Papa afirmou que no Inferno não há fogo - o secretário do Vaticano desmentiu a sua fala -, pensei com os meus botões que a angústia, desespero, agonia de morrer e ir arder nas chamas do inferno, conforme os pecados e pecadilhos, alfim estavam acabados.

Lembrei-me dos Corruptos.
"Então, se eu morrer por ter roubado do Estado, ficado bilionário, vou para o inferno?"
Alguém lhe respondendo: "Não se preocupe, Presidente, no inferno não há fogo."
- Quê ótimo! - responde o Presidente - No Brasil, não há presídio, cadeia para políticos. No inferno, não há fogo. A Justiça dos homens pouco importa, nada importa em verdade. Agora, a Justiça do demônio, Deus me livre. 

Imagino que as razões do Vaticano por desmentir a fala do Papa tenham motivos às pencas. A repercussão do mundo inteiro causaria muitíssimos problemas. No Brasil, não haveria qualquer repercussão negativa; ao contrário, o Brasil beijaria os pés, as mãos, as faces, a testa do Papa, beijo babado de tanta alegria e felicidade. País de corruptos, assassinos, traficantes, pedófilos, país onde impera todas as falcatruas, o inferno é o rumo insofismável. Não havendo fogo no inferno, mesmo que continue isto de o castigo supremo do mal é o inferno, pode-se prosseguir continuamente a corrupção, assassínios, tráfico, pedofilia... O inferno garante: "A vida aqui não é de mil maravilhas e esplendores, mas é uma vida pacata, triste, ensimesmada, circunspecta, introspectiva."

Pensa a eternidade num jardim a perder de vista as belezas, maravilhas, no crepúsculo, à margem da lagoa, à noite o brilho da lua, das estrelas, quê espaço de mesmidade, por todo o sempre.

Resta agora o Papa dizer que as finanças dos corruptos será bem investida no Paraíso Celestial.


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE JULHO DE 2017)