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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

ARTISTA-PLÁSTICA E POETISA GRAÇA FONTIS COMENTA O TEXTO /**VÉU DE MISTÉRIOS E ENIGMAS**/


Realmente eis aí um véu de mistérios e enigmas...porém esse mesmo véu deixa claramente transparecer emoções, sentimentos e sensações aparentemente camufladas, mas também com a nítida intenção de revelar-se para que sejam compreendidas e aceitas mesmo com suas imperfeições e inquietudes frente a indecisões inerentes a esse ser que faz da solidão e do silêncio múltipla faceta dando vida a um outro quiçá o ajude a desvendar mistérios e indagações impregnados na alma atormentada!...Todavia segue em devaneios ao mais longínquo...a eternitude onde por fim só Deus que o brindou divinamente com intelecto perspicaz, sensível e sábio responda-lhe a mais...quem sabe um último questionamento:...Até onde irá a dimensão desses dilemas quanto à existência do ser humano ou da sua própria existência?..Prbns.Poeta por mais um magnífico texto!



Graça Fontis



Questionamento que não quer se calar, jamais irá se calar: Até onde irá a dimensão dos dilemas quanto à existência do ser humano? Eis o cerne do texto, o seu "eidos". O tempo dirá até onde, contanto que emoções, sentimentos e sensações revelem os mistérios e enigmas dos dilemas, mesmo com as imperfeições e inquietudes sejam compreendidos.



**VÉU DE MISTÉRIOS E ENIGMAS**



Porque venho com freqüência mergulhando no silêncio, conversando com alguém, dizendo de minhas emoções e sentimentos e sensações mais ardentes, a eternidade se faz com a fé e a esperança, enquanto cofio o bigode, amarelado pela nicotina, não me refiro aos muitos cabelos brancos por isto não ser do início da velhice, da senilidade, mas o que mais importa se a calvície e os cabelos brancos foram-me legados devido a tantas inquietudes e indecisões.
Ergo os olhos para mim com uma sabedoria compadecida. Posso sentir obscuramente uma presença, uma “pessoa”. Quando distingue os meus passos, alvoroça-se, murmura palavras com a voz rouca. Aproximando-me, ergue-se, levanta a cabeça, acaba por se deitar com os braços em cima do travesseiro, a cabeça enfiada neles, a respiração comedida.
Ampliando as emoções, olhos umedecidos tornam-se difusos, adquirindo nítidos sintomas de opúsculo, findadas as preces e os tributos, as odes e homenagens, renuncio às cátedras, aos cargos, às funções, e parto à procura de novos horizontes. Pretendo evitar constrangimentos maiores, preferindo ir desacompanhado à estação, porém todos apelos se tornam inúteis, querem acompanhar-me até a imagem do trem desaparecer no horizonte. A única nota destoante deste episódio é ver quem gosta de mim exibir semblante abatido, demonstrando aparência de saudades, quando é que estarei de volta, quando venho dizer do silêncio. Todavia, respeito os desígnios divinos, Deus na sua infinita sabedoria permitiu-me a graça, entregou-me em mãos os dons e os talentos, faço jus de incorporar-lhes, o silêncio se mostra inteligível e uma sabedoria.
Não tenho coragem de entender a morte ser o vazio, se antes não me sentir excitado a completar, a dizer que o vazio é a calma eterna. Tanta vez, inúmeras, em verdade, desde toda a eternidade, ouço alguém se referir a alguém íntimo, saudoso, que descanse em paz. Descansar com júbilo e esplendor é só possível com a calma eterna. São palavras que arranco de mim, enfio a mão no interior, encontrava-se em seu canto. A distância das palavras e dos sentimentos. Compreendo.
Por medo de enlaçar uma figura fugidia, acompanho o travo da ausência. Quem nasce é ainda nada. Mas quem morre é a infinitesimal aparição, é a plenitude, a pura necessidade de ser. Um só é perfeição, só se realiza até aos tímidos abanos de mãos mútuos, aparentando ares decepcionados com a distância, registram constrangimentos.Prouvesse as fontes ressoassem, acredito deixar-me-ia mergulhar em suas águas. Num evidente contraste com o ideal da limpidez, da translucidez, da trans-parência das formas desenhadas em nitidez e equilíbrio sobre o fundo da luminosa profundidade onde se desenvolvem os mais puros sentimentos, emoções. Ò ousadia simples de um mortal que se atreve a prosseguir viagem. Varro dos olhos o profundo sono e ponho-me de pé, o trem começa a partir... Que a férula se me não sustente nas mãos frágeis e singelas!...
Acredito, agora inteirado destas aflições pessoais, tenha aquilatado a dimensão do dilema. O certo é, o inconsciente não consegue libertar de suas teias sinuosas, libertar-se da insana idéia fixa de desejar a sua libertação, de se revelar em sua pureza, sem estratégias, sem atalhos, supunha, caso incorresse na ousadia de dizer alguma coisa muita íntima, verdadeira, seria obrigado a traduzi-lo ou mesmo elaborar as devidas digníssimas senhoras dúvidas, as devidas correções, relevações. Sendo assim, espero, tenha compreendido a razão de atitudes intempestivas.
Deveras arrependido, abjurando a estupidez cometida, repriso os apelos de escusas. Se é que se possa dizer tais palavras sejam de todo verdadeiras, se o toque sutil nelas não as tenha tornado mais luminosas às raízes da espiritualidade, além do cinismo nelas existentes, tenha aquilatado a dimensão do dilema. Homens se eternizam numa rotatividade de vida perfeita, nascem, crescem, renascem, e há reprises dos apelos de escusas, diante de uma ação ininteligível, tendo-se de se explicar, de se esclarecer, às vezes, tendo de reconhecerem não haver argumentos, o dilema continua em direção a todos os ventos rápidos e suaves, suficientes apenas para suprirem as necessidades básicas da natureza. O sol brilha todos os dias. As chuvas acontecem esparsas. Todas as árvores produzem frutos e folhas, as flores do ipê amarelo tapetando a rua de solo árido e poeira.
Qualquer demônio diferente, qualquer demônio fracassado numa missão específica só consegue se libertar da severa e verdadeira punição a lhe ser imposta, se porventura compense o fracasso multiplicando sua tarefa por inúmeras vezes. Difícil isto de não se compreender a presença de instantes de cinismos, ironias, galhofas, de não se entender que de imediato surge algo vindo de muito profundo, atabalhoa as idéias, os pensamentos, é quase necessário ir à busca de reuni-las a todas, correndo o risco de as ter perdido.
Tenha aquilatado a dimensão do dilema sugere um destes instantes, alguém muito íntimo a indagar se já experimentei os dilemas comigo próprio, e a petulância de colocar em mãos de quem se digne a isto, viver os próprios dilemas, a escolherem as letras com que irá tecer os seus valores, a sua capacidade de idealizar coisas e lhes dar proporções morais. Contudo, toque de sutilezas e perspicácias, quase não perceptível a olhos nus.
Como um sibilo de vento para além de entre as montanhas, as emoções vão alegres e felizes. O caminho passa fora da grade do portão. Antes de me tornar um homem esclarecido, as margens do rio já não eram margens do rio e as luzes que iluminavam as ruas e avenidas já não eram luzes que iluminavam as ruas e avenidas. Palavras um poucochinho agressivas, se não as entender como uma mensagem, algo a ser tornado uma verdade, mesmo que as controvérsias existam, se revelem fortes, dominadoras, opiniões em contrário, um sonho de multiplicar os desejos de uma expressão verdadeira, um estilo de vida, algo que revele orgulho: “... qualquer demônio fracassado numa missão específica só consegue se libertar da severa e verdadeira punição a lhe ser imposta, se porventura compense o fracasso multiplicando sua tarefa por inúmeras vezes”.
O olhar de esguelha ao cinismo, ironia, sarcasmo, mexendo e remexendo dentro, a necessidade é que revelem o véu de mistérios e enigmas, algo seja capaz de livrar das teias irônicas, sarcásticas, não há possibilidade de compreensão dos limites de suas nobrezas e de suas vulgaridades, de suas burguesias e viperinidades.
O canto considerado perfeito parecem ser vozes uníssonas nascidas de uma única garganta. Com efeito, o sublime coro de vozes se destaca como fonte sonora inesgotável, a atravessar paredes, frestas de janelas fechadas, de portas fechadas, a ascenderem, e de repente são os homens que o ouvem, buscam inspirações, como fonte sonora inesgotável, dotada de afinação admirável.
As súbitas pretensões, não sinto quaisquer impedimentos, recusas, renúncias de as incluir nos itinerários das estradas a serem cruzadas, se não andar, não sou é nada, surgem sob um certo nervosismo, originadas da visão da deliciosa amostra grátis das impossibilidades de as realizar, é-se necessário dons e talentos para qualquer empresa; originadas, repito com malícia e perspicácia, originadas da visão da deliciosa amostra, cujos trejeitos indicam a facilidade de atingirem a perfeição, nesta matéria de interpretações divinas. Indubitavelmente é a esperança que perpassa as dimensões humanas, esta que é o passaporte para a arte de viver, arte e vida se confundem, interessante é quando criam raízes. Diria até para enfatizar bem o que porventura esteja a revelar. Tem de as regar cotidianamente, tem que ser como a vida, dia a dia.
Os sentimentos vêem do fundo do coração, e só tenho, como guia, como mentora, a consciência.



Manoel Ferreira Neto.
(31 de agosto de 2016)


**VÉU DE MISTÉRIOS E ENIGMAS** - Manoel Ferreira


Porque venho com freqüência mergulhando no silêncio, conversando com alguém, dizendo de minhas emoções e sentimentos e sensações mais ardentes, a eternidade se faz com a fé e a esperança, enquanto cofio o bigode, amarelado pela nicotina, não me refiro aos muitos cabelos brancos por isto não ser do início da velhice, da senilidade, mas o que mais importa se a calvície e os cabelos brancos foram-me legados devido a tantas inquietudes e indecisões.
Ergo os olhos para mim com uma sabedoria compadecida. Posso sentir obscuramente uma presença, uma “pessoa”. Quando distingue os meus passos, alvoroça-se, murmura palavras com a voz rouca. Aproximando-me, ergue-se, levanta a cabeça, acaba por se deitar com os braços em cima do travesseiro, a cabeça enfiada neles, a respiração comedida.
Ampliando as emoções, olhos umedecidos tornam-se difusos, adquirindo nítidos sintomas de opúsculo, findadas as preces e os tributos, as odes e homenagens, renuncio às cátedras, aos cargos, às funções, e parto à procura de novos horizontes. Pretendo evitar constrangimentos maiores, preferindo ir desacompanhado à estação, porém todos apelos se tornam inúteis, querem acompanhar-me até a imagem do trem desaparecer no horizonte. A única nota destoante deste episódio é ver quem gosta de mim exibir semblante abatido, demonstrando aparência de saudades, quando é que estarei de volta, quando venho dizer do silêncio. Todavia, respeito os desígnios divinos, Deus na sua infinita sabedoria permitiu-me a graça, entregou-me em mãos os dons e os talentos, faço jus de incorporar-lhes, o silêncio se mostra inteligível e uma sabedoria.
Não tenho coragem de entender a morte ser o vazio, se antes não me sentir excitado a completar, a dizer que o vazio é a calma eterna. Tanta vez, inúmeras, em verdade, desde toda a eternidade, ouço alguém se referir a alguém íntimo, saudoso, que descanse em paz. Descansar com júbilo e esplendor é só possível com a calma eterna. São palavras que arranco de mim, enfio a mão no interior, encontrava-se em seu canto. A distância das palavras e dos sentimentos. Compreendo.
Por medo de enlaçar uma figura fugidia, acompanho o travo da ausência. Quem nasce é ainda nada. Mas quem morre é a infinitesimal aparição, é a plenitude, a pura necessidade de ser. Um só é perfeição, só se realiza até aos tímidos abanos de mãos mútuos, aparentando ares decepcionados com a distância, registram constrangimentos.Prouvesse as fontes ressoassem, acredito deixar-me-ia mergulhar em suas águas. Num evidente contraste com o ideal da limpidez, da translucidez, da trans-parência das formas desenhadas em nitidez e equilíbrio sobre o fundo da luminosa profundidade onde se desenvolvem os mais puros sentimentos, emoções. Ò ousadia simples de um mortal que se atreve a prosseguir viagem. Varro dos olhos o profundo sono e ponho-me de pé, o trem começa a partir... Que a férula se me não sustente nas mãos frágeis e singelas!...
Acredito, agora inteirado destas aflições pessoais, tenha aquilatado a dimensão do dilema. O certo é, o inconsciente não consegue libertar de suas teias sinuosas, libertar-se da insana idéia fixa de desejar a sua libertação, de se revelar em sua pureza, sem estratégias, sem atalhos, supunha, caso incorresse na ousadia de dizer alguma coisa muita íntima, verdadeira, seria obrigado a traduzi-lo ou mesmo elaborar as devidas digníssimas senhoras dúvidas, as devidas correções, relevações. Sendo assim, espero, tenha compreendido a razão de atitudes intempestivas.
Deveras arrependido, abjurando a estupidez cometida, repriso os apelos de escusas. Se é que se possa dizer tais palavras sejam de todo verdadeiras, se o toque sutil nelas não as tenha tornado mais luminosas às raízes da espiritualidade, além do cinismo nelas existentes, tenha aquilatado a dimensão do dilema. Homens se eternizam numa rotatividade de vida perfeita, nascem, crescem, renascem, e há reprises dos apelos de escusas, diante de uma ação ininteligível, tendo-se de se explicar, de se esclarecer, às vezes, tendo de reconhecerem não haver argumentos, o dilema continua em direção a todos os ventos rápidos e suaves, suficientes apenas para suprirem as necessidades básicas da natureza. O sol brilha todos os dias. As chuvas acontecem esparsas. Todas as árvores produzem frutos e folhas, as flores do ipê amarelo tapetando a rua de solo árido e poeira.
Qualquer demônio diferente, qualquer demônio fracassado numa missão específica só consegue se libertar da severa e verdadeira punição a lhe ser imposta, se porventura compense o fracasso multiplicando sua tarefa por inúmeras vezes. Difícil isto de não se compreender a presença de instantes de cinismos, ironias, galhofas, de não se entender que de imediato surge algo vindo de muito profundo, atabalhoa as idéias, os pensamentos, é quase necessário ir à busca de reuni-las a todas, correndo o risco de as ter perdido.
Tenha aquilatado a dimensão do dilema sugere um destes instantes, alguém muito íntimo a indagar se já experimentei os dilemas comigo próprio, e a petulância de colocar em mãos de quem se digne a isto, viver os próprios dilemas, a escolherem as letras com que irá tecer os seus valores, a sua capacidade de idealizar coisas e lhes dar proporções morais. Contudo, toque de sutilezas e perspicácias, quase não perceptível a olhos nus.
Como um sibilo de vento para além de entre as montanhas, as emoções vão alegres e felizes. O caminho passa fora da grade do portão. Antes de me tornar um homem esclarecido, as margens do rio já não eram margens do rio e as luzes que iluminavam as ruas e avenidas já não eram luzes que iluminavam as ruas e avenidas. Palavras um poucochinho agressivas, se não as entender como uma mensagem, algo a ser tornado uma verdade, mesmo que as controvérsias existam, se revelem fortes, dominadoras, opiniões em contrário, um sonho de multiplicar os desejos de uma expressão verdadeira, um estilo de vida, algo que revele orgulho: “... qualquer demônio fracassado numa missão específica só consegue se libertar da severa e verdadeira punição a lhe ser imposta, se porventura compense o fracasso multiplicando sua tarefa por inúmeras vezes”.
O olhar de esguelha ao cinismo, ironia, sarcasmo, mexendo e remexendo dentro, a necessidade é que revelem o véu de mistérios e enigmas, algo seja capaz de livrar das teias irônicas, sarcásticas, não há possibilidade de compreensão dos limites de suas nobrezas e de suas vulgaridades, de suas burguesias e viperinidades.
O canto considerado perfeito parecem ser vozes uníssonas nascidas de uma única garganta. Com efeito, o sublime coro de vozes se destaca como fonte sonora inesgotável, a atravessar paredes, frestas de janelas fechadas, de portas fechadas, a ascenderem, e de repente são os homens que o ouvem, buscam inspirações, como fonte sonora inesgotável, dotada de afinação admirável.
As súbitas pretensões, não sinto quaisquer impedimentos, recusas, renúncias de as incluir nos itinerários das estradas a serem cruzadas, se não andar, não sou é nada, surgem sob um certo nervosismo, originadas da visão da deliciosa amostra grátis das impossibilidades de as realizar, é-se necessário dons e talentos para qualquer empresa; originadas, repito com malícia e perspicácia, originadas da visão da deliciosa amostra, cujos trejeitos indicam a facilidade de atingirem a perfeição, nesta matéria de interpretações divinas. Indubitavelmente é a esperança que perpassa as dimensões humanas, esta que é o passaporte para a arte de viver, arte e vida se confundem, interessante é quando criam raízes. Diria até para enfatizar bem o que porventura esteja a revelar. Tem de as regar cotidianamente, tem que ser como a vida, dia a dia.
Os sentimentos vêem do fundo do coração, e só tenho, como guia, como mentora, a consciência.



Manoel Ferreira Neto.
(31 de agosto de 2016)


**CORCOVADO DE ILUSÕES CRISTALINAS** - TRIBUTO AOS CARIOCAS - Manoel Ferreira


Ilusões cristalinas perfazendo dimensões con-tingentes do que há-de trans-cender angústias e náuseas perpétuas do absoluto, trans-elevar tristezas e fracassos gerundiais do infinitivo que sarapalha sombras e luzes ao longo do deserto sem ad-jacências e oásis, sem peregrinos, sendeiros a atravessá-lo à mercê de bússola na corcova de um camelo.



Corcovado de ilusões cristalinas
Tranquilidade de espírito, segredo
De verbos o sudário a agasalhar as carências
Viver e existir agora significam as coisas
Acontecerem livremente, cuidar
Dos sonhos, esperanças
Tudo atrás ficou lendário: sem lenço, sem documento.



Fica mal com Deus quem não alça vôo nas asas do condor de esperanças, real-izando os clímaces voláteis do gozo da estirpe. Fica mal comigo quem não trans-eleva a fé no divino eterno aos auspícios da liberdade que exala suas nuanças de desejos de compl-etude com os termos acessórios do nada e efêmero, como o pássaro de fogo que choca os ovos das chamas perenes a aquecerem o inverno das espécies susceptíveis às caliências do "nunca antes de quais jamais", carências do "sempre antes de quaisquer pretéritos" perfeitos ou imperfeitos.Fica mal com a vida na sua vocação de ser o absoluto perfeito, inda que tardio o perfeito, inda que in-ec-sistentes as ruminâncias de ouro e risos a satirizarem com veemência e re-verência o surrealismo das laias côncavas e convexas das viperinidades da natureza humana, quando o perfeito desde a eternidade encontra-se refestelando-se às margens sinuosas do cócito inaudito de vozes que permeiam a noite de lua cheia e centenas de estrelas cadentes.



Calientes, cadentes,
Caliências, cadências
Cadências calientes,
Caliências cadentes.



Pelo meu caminho vou, vou como quem pisa com toda delicadeza e acuidade os ovos da "garnisé", grávidos de réquiens para as ipseidades do pretérito iluminando as trevas e sombras da terra do bem-virá. Vou como quem saltita nas brasas de lenhas da lareira, incandescendo a sola dos pés para sentir o prazer e volúpia das estradas na jornada sem limites, fronteiras, obstáculos, enfim sem o instante-limite do zero a prenunciar o "um" dos solilóquios e colóquios da aritmética dos "noves fora um". A linguagem é condenada pelos princípios, o estilo é indecente pelas lógicas, mas antes sendo do que dar com as mulas no mata-burro, com os jegues no abismo.
Ruminâncias de ouro e riso. Gritos antigos de arco-iris e lágrimas. Vociferâncias de coriscos e lábios eminentemente fechados, por vezes olhos frios e apagados de qualquer visão turva e nula do beco sem saída, ladeados de terrenos baldios, por vezes olhares calientes e faiscantes de todas as ab-solutas visões cristalinas e trans-parentes das othon alamedas, em cujos canteiros brilham palmeiras em cujas frinchas das alturas não cantam sabiás, que no longínquo e distante espaço ao longo desemboca no limite que inicia o tao do ser que, nas entre-linhas do vervo, solsticia os sujeitos da alma, nos inter-ditos dos temas e temáticas crep-usculam os crep-interstícios do vazio nas eter-minâncias ad-versas de re-versos e in-versos às caval-itidades do abismo sonhando o vazio, o vazio perscrutando a resenha do efêmero, o croqui do além, o efêmero evangelizando o anti-cristo das plen-itudes,



Plen-itudes faiscantes de todas
As ab-solutas visões cristalinas e trans-parentes.
Plen-itudes ruminantes de ouro e riso
Do vazio nas eter-minâncias ad-versas de re-versos e in-versos
Às caval-itidades do abismo sonhando o vazio.



O pretérito há de ser, será o que jamais existiu, existe ou existirá no tempo sorrélfico das ilusões, o sino da igreja badalando às duas e meia da tarde.
Fica mal com as memórias da contingência quem não re-colhe e a-colhe, acolhendo o re-colher, re-colhendo o a-colher o espírito, da alma que se arrasta nas linhas de luzes antes da cortina do palco catártico, proscênio dos idílios às óperas, sinfonias, tragédias opusculares do nonsense.



Manoel Ferreira Neto
(31 de agosto de 2016)


**RECANTO AFASTADO DA SABEDORIA** - Manoel Ferreira


Despojando de significado todas as coisas do mundo, o silêncio, os elfos, os gnomos, a idéia de uma águia sobrevoando as serras, a idéia de uma vela colocada do lado de fora da janela consolam-me prematuramente das dores merecidas e absolvem-me de tristezas e desilusões. Não possuo nenhuma das idéias que tivera a ingenuidade, a inocência de atribuir ao silêncio e solidão deste quarto onde me encontro, a minha arte do cinismo e do sarcasmo, da ironia e da galhofa, revela-se, com o tempo, tristemente monótona.
Mas apenas metade de minha inteligência consegue acreditar a alegria e exultação de, à noite, enfiar-me debaixo da coberta, do edredom. Se há algo que ansiara permanentemente em todos os anos fora por uma intimidade completa comigo, uma intimidade de compreensão e conhecimento. Se a compreensão e o entendimento afastam-se, resta um espaço vazio, e toda a luta e desejo profundos são de preencher este vazio, resta um espaço cheio de sombras. Se pudesse ser frio, de não dar a mínima para o espaço vazio com a ausência da compreensão e o entendimento, ao ponto de imaginar-me rindo tanto do vazio como das sombras, riria sem dúvida de me imaginar vivo. Não me afasto dos desejos mais percucientes de uma intimidade completa comigo, mexendo-se-me, remexendo-se-me, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento...
Com que alegria, com que exultação, enfio-me à noite debaixo da coberta, do cobertor, do edredom! O importuno rumor da vida, o importuno sussurro dos questionamentos muitos, dos desejos de sobrevoar os campos, os rios, os mares, seguindo os horizontes à frente, o importuno rumor da vida quotidiana, o seu dia a dia, sofre uma trégua e no silêncio noturno a minha imaginação, a minha criativa inteligência segue o seu curso à vontade.
Todos os homens têm, assim o creio desde há muito, desde tempos imemoriais, como tenho costume de dizer, aprecio muito esta imagem, todos os homens têm o direito de expandir suas opiniões e seus conceitos ao vento que sopra. Se, então, seguindo este pensamento, aliás, uma convicção que dentro trago em mim, deveria expandir, deveria permitir que com o soprar do vento de sombras a reflexão da vida seja algo que mude vez por todas a vida.
Observo de repente, como quem repara que é vocacionado à felicidade, como quem repara que é vocacionado ao seu conhecimento íntimo, como quem repara que vive e sonha a vida, sonha o sentido da vida, sonha a união da vida e do sentido da vida, o quarto está cheio de vozes que comigo dialogam, mas termina por ser um monólogo porque só se ouve a minha voz trespassada de tantas vozes. Nenhuma ânsia teria razão de ser.
Sombras se projetam por todos os cantos do quarto onde estou. Caminhando sempre e sem o saber ou querer, parece ainda assim que me demoro á beira de alguns rios. Sombras que são relíquias de outroras felizes. Um vento de sombras, a janela está aberta de fio a pavio, e o dia estivera ensimesmado devido à chuva que caiu por quase três dias continuamente, sopra as cinzas que foram sendo armazenadas no íntimo, cinzas sobre o que sou de vigília, sobre quem sou no sono. O espírito vagueia sem limites e sem fronteiras, sinto a profundidade das águas que seguem o trajeto rumo ao mar, à amplitude, e a profundeza do olhar que a acolhe e recolhe de um desejo, de uma vontade.
Aqui a paisagem tem os olhos rasos da fonte originária do rio de águas límpidas, olhos parados cheios de tédio inconcebível de ser quem sou, de revelar a profundidade de meu espírito, os sonhos e esperanças que me habitam a alma, o espírito. Cheio sim do tédio de ser qualquer coisa, de não me importar nem um pouco se não conseguir mais reconhecer-me, se decidir vez por todas tirar as máscaras com que fui envelando a minha realidade até não mais reconhece-la em lugar algum, mesmo no recanto afastado da sabedoria.
Afasto-me da janela, sentando-me à cadeira de sofá. Olho em todas as direções do quarto em que estou, em silêncio, esperando ver algo, não sei que algo é este que espero, mas espero. A grande lâmpada eléctrica sobre minha cabeça lança uma luz amarelada e intensa, fazendo-me parecer mais claro e pálido do que habitualmente, tirando até a cor dos olhos, de um castanho claro. A luz amarelada e intensa que me traz a grande lâmpada parece vir-me de dentro. Aqui me detenho e começo de pensar que há tempo que vivo instante cheio de um outro senti-la, instante de uma perfeição vazia, instante de um nada-sublime, tão adversos às certezas inversas da vida. Instantes caídos nessas verdades de verdades outras cheias de orgulho de ter inconcebíveis angústias.



Instante de perfeição vazia,
Perfeição de falhas,
Perfeição de desmembramentos,
Perfeição de atos falhos,
Olhar disperso na imensidão do mundo



Instante de um nada-sublime
Nada-sublime de re-versos ideais da beleza
Nada-sublime de in-versas razões do eterno
Nada-sublime de ad-versas idéias dialécticas
Recanto afastado da sabedoria.



Instantes caídos nessas verdades
De verdades outras cheias
De orgulho de ter inconcebíveis angústias,
De vaidades de haverem in-auditas náuseas,
De lisonjas de serem as cintilâncias das estrelas
Ad-versas às certezas in-versas da vida.
O sossego inquieto da fonte originária do rio de águas límpidas parece vir-me de dentro, sim é de dentro que me vem, encontro-me encostado ao parapeito da janela de minha residência, no terceiro andar, dando-me as mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo.
São horas de cinza de espírito, não tenho a ousadia, não sou um espírito aventureiro, pudera sê-lo, não me pergunto para que é isto que não é para coisa alguma, para nada, estaria apenas tentando preencher o vazio das horas com algo sem sentido, não há resposta, nem posso entender que, não tendo resposta, como uma pergunta fora criada, fora feita, fora pres-ent-ificada. Tenho-me esquecido do tempo, em verdade. Vivo um tempo que não sei decorrer, um espaço para que não há pensar, um decorrer fora do tempo, uma extensão que desconhece as emoções e sentimentos, conhece o saber como é suave saber que a espiritualidade, o conhecimento, a contemplação, na clepsidra deste imenso desejo, sonho, vontade do sublime, entregar a vida a esta busca, esperançoso de vir a sentir o gosto do sublime, gotas regulares de esperança, de fé, marcam horas irreais.
Lá fora, a noite tão longínqua! Sonho e de por trás da minha atenção sonha comigo alguém... E eu, que pela manhã da distância, da lonjura que vai o dia quase a esqueço, é ao lembrar-me dela que sinto em mim desejos os mais excêntricos, os mais inusitados de num recanto afastado da sabedoria o ritmo íntimo das vozes que ouço a dizer-me próximo à alma do alto silêncio; sinto em mim o espanto que as horas de desassossego, para além da linha externa das montanhas são hábitos de estilo, costume de formas, e para além dessa não há nada...
Os olhos não são escuros, mas claros, e é apenas a sombra das longas pestanas que os escurece. Penso poderia estar alhures. De mim já se afastou a última esperança. Acaso a natureza ou nobre alma agora um bálsamo não têm, que me traga bonança? Por vezes, não sinto limites no corpo. Con-templo ora o sorriso cínico e irônico, revelando rebeldia e meditação acerca de o cristianismo com-templar a morte e não a vida, dizendo-me da melancolia e nostalgia. Ponho em nível de suas sensações as extremidades algo longínquas das mais nobres emoções. Imagino estar algures.
Hesito, agora, em continuar a idéia que se me revelou na mente. Não há muito que, encostando-me ao parapeito da janela, após a estiada da chuva, olhando à distância a neblina, e agora, tudo se me afigura um sonho. O coração bate descompassado, não estou nem um pouco consciente da emoção que se me revelou a ponto de o coração bater descompassado, para isto, para o fazer bater descompassadamente, há-de ser algo emocionante, inusitado. Em princípio, ouço com um sorriso calmo e paciente, que raras vezes me abandona; mas, pouco a pouco, uma expressão de espanto e, em seguida, de medo transparecem e se fixa no meu olhar. O sorriso não desaparece de todo; mas, por momentos, parece vacilar.
Na neblina da montanha, chovera por quase três dias seguidos, pela manhã de hoje estava toda encoberta, já vislumbro e vejo as musas passarem dançando, e, em que depois, descansando quieto no equilíbrio da alma matinal de por baixo de alguma árvore, encostado ao seu tronco, dessas copas e ramagens me sejam lançadas coisas novas, inusitadas, excêntricas e claras, dádivas de espíritos livres que moram na montanha, no bosque e na solidão...



Manoel Ferreira Neto
(31 de agosto de 2016)


terça-feira, 30 de agosto de 2016

**SURDA AFLIÇÃO DAS ORIGENS** - Manoel Ferreira


Êxtases portáteis poderiam ser engarrafados, e não por pouco tempo os clímax de conveniências expostos em galerias, e a paz de espírito poderia ser remetida em galões pela diligência do correio. Expressando-me neste estilo, e se houver intrujice e galhofa, ficam a piedade e lástima,  a comiseração e a caridade, o leitor e ouvinte poderão pensar que estou brincando, experimentando o risível, sem deixar de figurar sutilmente a sátira e o sarcasmo, ironizando, e sinceramente é um dos poucos instantes em vida que me encontro bem instalado no mundo, ouvindo músicas, com o cigarro no canto esquerdo da boca, sem camisa, descalço, de shorts, à vontade, em derradeira instância, digitando no computador, cuidando de minha espiritualidade e redenção, de minha contingência e vasconços, alfim o mundo inteiro precisa saber que estou "de bem com a vida". O néctar dos deuses não é tão saboroso quanto isto de cuidar dos vasconços. Posso assegurar, entretanto, que ninguém brinca muito tempo quando estiver sem qualquer intenção ou interesse, aí há uma originalidade sem limites e fronteiras, o que é em demasia perigoso, não se sabe de onde sairão as oportunidades e favores. Saídos, o que poderá interferir no sentido de suas compulsões?
Tenho o costume de gracejar, fazer pilhéria, ironizar, de vez em quando em meio à minha própria consciência da miséria humana, mantendo um caráter grave e solene e, a menos que seja atingido por sentimentos mais poderosos, temo ser culpado da prática indecente até nestes anais de sofrimento e prazer. 
Não irei negar que algumas verdades são enviadas para o mundo a respeito de estado tão insolente, desumano, insolicitado, acerca da miséria humana, assim como o eruditos afirmaram repetidamente  que se me entrego inteiramente a eles provavelmente morrerei  com os olhos esbugalhados, a boca cheia de dentes, o que é particularmente desagradável para qualquer homem de hábitos singulares e regulares. Todas estas difíceis e intragáveis observações e afirmações de dores, culpas, remorsos, que preenchem os espaços vazios, e constituem singularmente a miséria, são realmente verdadeiras, isto queira ou não, pense em injustiça ou perseguição, sou obrigado a endossar, pendendo um pouco a cabeça para o lado esquerdo, semi-fechando os olhos, uma atitude tão trigueira de indiferença e pouco caso, sou obrigado a assumir que são verdadeiras, Não posso negá-las a menos que esteja sim ficando demente. A verdade sempre foi e será recomendável.
A verdade é que, mesmo vinho, até uma certa medida, e em determinados homens, geralmente tende a exaltar e sustentar o intelecto: eu mesmo, que nunca fui um grande bebedor de vinho, costumo achar que meia dúzia de copos de vinho afeta vantajosamente as minhas faculdades, deixa a consciência mais brilhante e intensa, a sensibilidade aguçada.  O vinho costuma levar um homem ao extremo do absurdo e da extravagância, e depois de um certo ponto, ele com certeza evapora e dispersa as energias intelectuais. Resumindo, um homem que está bêbado é, e sente que é, um indivíduo cuja condição apresenta a supremacia do simplesmente humano, freqüentemente a parte ridícula de sua natureza. Sente que está sob o domínio da parte mais divina de seu ser; isto é, as afeições estão em completa serenidade e acima de tudo brilha a luz do majestoso intelecto.
Procuro, naturalmente, a solidão e o silêncio, condições indispensáveis para meus transes, ou sonhos profundos, que são o coroamento e a consumação de tudo o que a consciência da miséria humana pode fazer pela passagem do tempo. Desde milênios imensuráveis, a miséria humana é terreno fértil para encontros divinos e trans-cendentais.
Eu, cuja miséria é meditar demais e observar muito pouco, e que estou praticamente caindo numa profunda melancolia por pensar em demasia nos sofrimentos humanos, conheço claramente as tendências de meus próprios pensamentos para fazer tudo o que seja possível para combatê-los.
Parece-me que pela primeira vez me coloco à distância das desventuras da vida; como se o tumulto, a febre e a luta fossem suspensos, um prêmio para as secretas chamas do coração, um relance de repouso, um descanso das ocupações humanas.  Aqui estão as esperanças que florescem no caminho da vida, reconciliadas com a paz que está nas sepulturas. Os movimentos da mente tão serenos quanto os do céu, e no lugar de todas as ansiedades uma calma e tranqüilidade reparadoras, uma moleza que não parece fruto da inércia, mas do equilíbrio entre os extremos e antagonismos; atividades infinitas, repousos infinitos.
A miséria e o sofrimento estão, por assim dizer, em estado latente. Raro poder contar com minhas faculdades mentais para escrever uma carta; uma resposta em poucas palavras é o máximo que posso executar, e assim mesmo só depois de a carta ficar semanas ou meses sobre minha mesa de trabalho. Você pode ver que todo o escrito se parece um pouco com uma resignação ininteligível com tudo o que diz respeito aos homens e a mim, sem dúvida, um gradil pintado de forma a dar uma impressão de relevo real e seguindo, naturalmente, a curva do teto. Todos os interstícios entre o estilo, caligrafia, estão recobertos de uma indignação e ressentimento com alguma coisa que não posso precisar, mas algo parecido como estar preso em uma elegante e belíssima gaiola para mim apenas. Devo acrescentar que a noite está muito bela, lindíssima, muito transparente, a lua muito viva, a ponto de, mesmo após ter apagado a luz, toda a decoração continua visível, não iluminada pelo olho de meu espírito, como você, ingênua e inocentemente poderia assim  induzir ou deduzir, concluir ou interpretar, como você, em última instância poderia crer, mas clareada por esta bela noite, cujos brilhos embaraçam-se a todo este bordado de ouro, espelhos e cores mosqueadas.
A noção do tempo ou, antes, a medida do tempo é abolida e a noite inteira é bem mensurável para mim apenas pela profusão de meus pensamentos. Ainda que, deste ponto de vista, tenha eu parecido muito longo em escrever-lhe, aliás sem intenção alguma de dizer algo que se possa levar em conta ou relevar pelo absurdo e indiferença de todas as coisas, tenho a impressão de que levei apenas alguns segundos ou então que não havia tomado lugar algum na eternidade.  A dor e a idéia do tempo esvanecem-se ou, se às vezes ousam produzir-se, são transformadas e transfiguradas pela sensação dominante e estão, assim, em relação à sua forma habitual, como a melancolia poética está para imaginação fértil e re-criadora.
Não havia, afirmo, qualquer intenção de escrever-lhe algo, informar-lhe de como estou a viver os meus dias, inteirar-lhe dos últimos acontecimentos. Sentei-me com o propósito de exercitar os dedos escrevendo algo endereçado a alguém, mas não imaginei que fosse tomar outro rumo, e assim estaria eu revelando o que muito intimamente tenho pensado e refletido acerca de um coração, terno, fatigado pela infelicidade e decepção, mas ainda pronto a seguir esta procissão da imaginação humana até sob seu último e mais esplêndido repositório, até a crença do indivíduo em sua própria divindade.

Manoel Ferreira Neto

(30 de agosto de 2016)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

**ESCREVER SEM VERBOS - O QUE É ISTO?** - Manoel Ferreira


Este sol dói-me os olhos. Acho-me em cima da ponte. Olho a água. Enfio a mão direita no bolso esquerdo da camisa, procurando cigarro. Tiro o maço vazio. Jogo na água. Passa por debaixo da ponte.
Por momento, vi-me encostado ao corrimão da ponte no Parque Municipal, tendo as mãos a amparar o queixo, vendo a água passar. Estava muito distante, pensando em não sei o quê. Perpassara-me a mente alguém haver dito que irá escrever sem verbos, estes são frutos das vaidades da raça e da estirpe; se lhe convier descer a pua, descascar os pepinos, no momento da inspiração, fá-lo-á com a língua dos adjetivos simples. Compreendi que escreve por ser um homem sem quaisquer verbos ou regências. Venhamos e convenhamos, se este digníssimo e conceituadíssimo indivíduo e homem, conseguisse regenciar seus sentimentos e emoções, sem os verbos, o que seria de sua ec-sistência à luz dos baldios da alma?
Tirei um cigarro do maço e joguei este na água. Senti o ricochet e logo após começou de ser levado pela água, passar debaixo da ponte. Não fui ao outro lado para ver o maço passar e sumir na distância. Apenas imaginei.
A minha palavra ainda não transpôs nenhum obstáculo, não ultrapassou nenhum limite, não transcendeu qualquer instante-já, não trans-grediu nenhum princípio, e o que digo não chega até aos homens, ficando apenas diante de mim, de meus olhos, de minha ânsia e esperança de isto compreender. É verdade que caminhei muito entre os homens, andei muito entre as coisas, porém não os alcancei.
No vazio, um corpo estranho. Dilata, quando o sol está amareliçado e brilhando, deixando pingar no chão as gotículas do amarelo, de sua tinta. Comprime, quando é sombra violácea ou chanfrada. Nos olhos envidraçados, envoltos no tênue e irreversível nada, envelados no duro e espesso fio do tempo extinto, a dor viva, "estribuchante", tremulante, exposta, espontânea e livre. A dor nos olhos. O vazio vai furando feridas, como um punhal. Mexe e remexe. A dor em todos os sítios, em sítio algum. O translúcido de ponta a ponta. A claridade até ao fim.
Estou suspenso no tênue fio do tempo. Meus olhos tergiversam-se. Sou-me inerente. Fixo as vistas num monte de papéis rasgados e amassados. Uma lágrima insiste em deslizar-se em meu rosto, mas nada permite este ato. Meu corpo jaz em cima desta ponte. Está inerte. Fixo-me no dedo mínimo. A princípio, consigo delinear a sua forma, o seu comprimento. Tudo escapa. Um mosquito voa, emitindo um som angustiante. Pudesse, iria acabar com sua vida, cortar-lhe em pedacinhos ínfimos. O máximo: suportar este barulhinho infernal.
Uma presença de nebulosas brumas. Um frio envolvente e espesso, transformando tudo, infiltrando-se no gosto agridoce e pastoso, iluminando uma presença que aparece ausente, nas suas circunstâncias de medo e pavor. Demônios cinzentos, adocicados. Um inferno frio, estupidamente gélido, vai até os ossos. Os antes foram excluídos e, no íntimo, uma presença forte, compacta, decisiva. Na absolutez e totalidade, uma sensação livre. A existência é absoluta. No prosseguimento, a luta constante dos absolutos. A morte é absoluta. O tempo a matar cada absoluto. O absoluto maior, aproximando-se.
Tudo em mim pesa. Nem mesmo um guindaste seria capaz de levantar-me a cinco centímetros do chão.
Caminho. Olho para trás a todo instante.
Acho-me sentado a uma mesa na calçada. Algumas pessoas bebem, enquanto conversam, dialogam, comunicam-se com espontaneidade. Outras estão caladas, comendo. “A comida antecipa a minha morte. Por que estou agradecendo?” Inicia o seu almoço. Uns rapazes cabeludos, cabelos grudados de sujeira e óleo, sandálias, calças desbotadas e remendadas, camisa larga ou colada na pele, barba grande, olhos brilhentos e reluziosos, mascam goma. Algumas mocinhas estão sentadas, conversando, enquanto bebem. Os cabelos em desalinho, sujos, rosto todo pintado, com os braços cheios de pulseiras. Vê-se algumas tatuagens. Vejo uma tartaruga tatuada no peito de uma. Está sem soutien. Uma está com as pernas cruzadas, sentada sobre os pés. Está sem calcinha. O vulto negro dos cabelos de seu sexo. Mascam chiclets. Uma está com os olhos fixos em mim. Estão parados.
Olho o Campari dentro do copo. É um líquido pegajoso, de um gosto a comprimir o paladar, fazendo a língua estralar; a dilatar a garganta, a fim de não se comprimir, impedindo o pulmão de continuar o seu trabalho diário, que vai dilatando tudo até chegar ao estômago. A boca fica por uns instantes com um gosto pegajoso e adocicado, e que vai sumindo aos poucos até ficar completamente seco. A saliva é eliminada. Pedacinhos de limão dentro: alguns no fundo mesmo, outros boiando junto com o gelo. O gelo vai-se dissolvendo, eliminando um pouco a pegajosidade do gosto e o denso líquido. Antes mesmo de o gelo derreter-se, o Campari vai sugando o seu azedume, o que permite ao Campari conservar um pouco o seu gosto pegajoso. O oxigênio e hidrogênio da água do gelo são sugados pelo azedume do limão. A água praticamente inexiste. Existem pingos que ficam na parede do copo, que vão embaciando o corpo por fora.
Fico encabulado com a pobreza das palavras. Azedume do limão. O azedume é algo dado (ou existe no paladar?) pelo paladar. O gosto é azedo. Não tenho dúvidas. Agora, antes de o limão ser levado à boca, o que há nele? Não sei. Gostaria de encontrar uma palavra para definir esta coisa. Limitaram-se a definir a coisa pelos sentidos. As palavras são pobres. Não penetram nas coisas. Talvez se virasse o termo “azedume” de cabeça para baixo, achasse o que há no limão.
Encubro o rosto com a mão esquerda, abaixando o rosto. Ainda não me recuperei. Os meus pensamentos roçagam na consciência. As palavras giram em redor de mim.
Olho furtivamente o local em que me encontro. A garota continua a fixar-me. Está a ponto de chegar perto de mim e dizer tudo o que está sentindo por mim. Não ousa dar o passo decisivo. Está com medo. O que os meus olhos causam... O que causo às pessoas...
Será que esses indivíduos não se sentem aborrecidos com a falta de uma roupa limpa, de um banho? Na fisionomia, um lodo. O verde musguento entre pela boca, pelos olhos, pelas narinas, pelos ouvidos, pelos poros, remexendo tudo o que há dentro. Fico num estado deplorável: a consciência quer sair. Luta por ficar no devido lugar. O corpo estremece. Um calafrio na espinha. O sexo frio incomoda a cueca, a calça.
O teto está bastante sujo. A tinta está por de baixo da espessa e densa sujeira. Está pintado de sujeira. Nas paredes, há propagandas de cigarros, algumas rasgadas, outras sujas; de pilhas, de aparelho barbeador, tabuletas de preços de bebidas e salgados, sucos e sanduíches. Entre uma propaganda e outra, o sujo da parede. Tirando todas, a parede fica completamente desequilibrada de sujo e limpeza. As mesas são de madeira, tendo por cima um forro escuro, com um cinzeiro, vidro de pimenta, catchup, paliteiro, encostados na parede ou no canto. É um botequim bastante pequeno, de uma densidade e tensão incomensuráveis. O teto parece querer descer sobre a cabeça. Há cheiro de todas as qualidades de comida, de bebida, de cigarros. Um sujeito até transparente de tanta magreza, fisionomia opalescente, olhos cinza-escuro no fundo das órbitas, lê uma revistinha em quadrinhos. Larga-a somente quando o trabalho cega. Todo o tempo fica sentado.
Tomo um gole de campari.
Ai... Ai.. Sinto uma dor incrível
Não estou conseguindo concentrar-me. Devo parar. Há algo a roçagar minha consciência.
A angústia... Nada a pode solucionar. Nada existe capaz de aniquilá-la. Antes de nascer, estava no infinito. Era nada. Vindo ao mundo, deparo-me com toda sorte de arbitrariedade, gratuidade. Sou um absurdo. Quero o meu espaço para realizar a experiência do vazio, realizada no infinito, enquanto era o vazio. Desejo realizar este vazio no mundo. Toda a sorte de impecilhos, de limites. Luto, contudo. Nada pode barrar a minha luta. Acredito que não é a mesma experiência, mas pode ser semelhante. A angústia cerca-me de todos os lados. Desejo de superação de minha condição. Vou-me superando aos poucos. A angústia não termina. Cansei de ouvir que a fé em Deus salva a angústia. Como? Não há possibilidade. A fé, kierkegaard mesmo explica, é um passo no escuro. A angústia continua. A existência é angústia. Nada no mundo pode aniquilá-la. Não acredito em Deus, com efeito. De que iria adiantar? De Nada. Devo assumir a minha angústia. Torná-la mais fácil para mim. Não tê-la, impossível. Seria aniquilar a própria existência. Agarro-me ao meu pensamento sobre o vazio. Ajuda-me. Mesmo sabendo que tudo não passa de uma fuga, sigo com meus pensamentos. Ninguém pode proibir-me de meus pensamentos. Se me realizo ou não no vazio, o problema é unicamente meu.
Há algo a roçagar a minha consciência. Trata-se do caso do Fred. Enquanto me dirigia para cá, pensei imensas vezes nele, mas procurava afastar a idéia. Que diabos quero explicar a mim? Que inferno pretendo elucidar? Que demônio intento conscientizar-me?
Fecho o livro. Olho ao redor. A Biblioteca está lotada.
Enquanto eu existir, a angústia será uma constante. Nada pode ajudar-me.
Fui o responsável pela morte da esperança. Matei-a com os meus pensamentos. Aniquilo e destruo tudo que se apresenta aos meus olhos. Quero ir ao profundo, ao núcleo principal. Vou sempre ao núcleo principal. Não me interessam as superfícies. Vou ao profundo à busca de algo possa aniquilar a minha angústia. Nada encontro. Tudo é simplesmente um mito. Nada.



Manoel Ferreira Neto.
(29 de agosto de 2016)