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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

**POEMA FINAL - IN "DIVÃ EXISTENCIAL" - 29 DE JUNHO A 03 DE JULHO DE 1989** - PINTURA: GRAÇA Graça Fontis/POEMA: Manoel Ferreira Neto


Post-Scriptum:



Escrevera este livro há 28 anos. Confesso que me surpreendi sobremodo tê-lo escrito ainda jovem, trinta e três anos, e na época nem tinha condições de entendê-lo e compreendê-lo. Nasceu, entreguei-o ao Paulo Ursine Krettli. Dia 03 de fevereiro próximo passado, encontrei-o, depois de 20 anos de afastamento. Não me lembrava mais dele.
Ao longo de um mês, após Paulo Ursine mo devolver, revisado, intitulado, DIVÃ EXISTENCIAL por ele, ainda com o Prefácio escrito por ele, empreendemos, minha companheira e esposa Graça Fontis, no projeto de lançá-lo virtualmente, sempre com novas caricaturas desenhadas por ela. Um encontro com a obra indescritível, emocionante, lembranças e re-cordações de outrora, as coisas vividas, não vividas, sonhadas, idealizadas. Era começado novo tempo, e nalguns momentos da releitura, senti presente e forte que esta obra era um tempo vivido e experienciado, inesquecível,outros horizontes, nestes excertos, senti "Até um dia, amigo... Letras à frente..." Também lembranças e memórias de estilo, linguagem. Um reencontro.
A comunhão do re-encontro com o grande amigo, companheiros das letras, o re-encontro com obra esquecida, a publicação virtual, a aceitação, curtição, comentários dos Amigos Virtuais, a presença carinhosa, terna, amiga, amorosa de minha companheira e esposa Graça fontis.
Só temos a dizer com este poema que encerra DIVÃ EXISTENCIAL, "Muchas graças a todos!". Ao Paulo Ursine: "Obrigado, viu, por sua lealdade..."
O amor que se revelará,
não sei quando...
vivências, experiências,
O amor.



Manoel Ferreira Neto



Às vezes penso em mim,
em todas as partes do meu “eu”,
esse meu “eu” que nem eu mesmo
compreendo em sua extensão de eu.
Ai pudesse eu ser
todas as partes juntas do meu “eu”,
todas concatenadas em várias partes de mim.
Sou o ônibus que rasga a avenida rumo a algum lugar,
sou o escritor que diz não de si, mas de outro
sempre em procura de si.
Não tem sentido falar de si. O melhor é falar
dos outros tentando mudar os outros...
Ideologia, utopia!
Sou as cenas vistas,
todas tendo um tempo marcado,
nunca entrando em pormenores psicológicos,
apenas mostrando uma interpretação,
entenda quem quiser...
Eixo sintagmático, paradigmático r.r.r.r.r.r.r.r.r.
Nunca sou “eu” realmente... O meu ”eu”
impede de ser
as ruas por onde ando, vendo edifícios,
arranha-céus,
homens, mulheres, pedestres, lésbicas,
homossexuais... Seres humanos!
Sou o cigarro que fumo, soltando fumaça,
perdendo-se no ar.
Não sou poeta,
nunca quisera;
o poeta diz coisas que, no momento,
não consigo dizer.
Apenas estou, aqui, tentando expressar
alguma coisa de mim mesmo,
do meu existencialismo.
O escritor conta estórias
tiradas não de si, mas da região escura de si mesmo,
e nunca sabe o que diz;
às vezes, se perde no enredo por si mesmo esboçado,
nunca seguido.
Ai de mim...
Tic ta tic tac tic tac tic tac
O relógio bate incessantemente.
Estou longe do barzinho da frente,
do estacionamento de trás,
da realidade de lado.
Estaciono nas linhas que, agora, traço.
Rumo ao infinito de toda existência
pré-estabelecida.
Normas, valores,
idade da razão, razão de ser apenas isso:
um homem.
Sensacionalismo... À minha frente,
a parede verde.
Meus olhos se perdem no verde da parede
à minha frente!
Não preciso de óculos para enxergar.
Meus óculos estão dentro de minha mente.
Alguém me prometeu pintar um quadro,
mostrando-me a fisionomia de mim
e os óculos dentro de minha mente.
Sou o elemento mediador dessas quatro paredes
ao meu redor.
A parede é... O quarto é... Tudo enfim é... Apenas
estou tentando ser
algo de mim mesmo nos dedos que datilografam
versos sem rima, sem ritmo, sem forma;
modernas são as linhas que traço
apenas para dizer que, neste momento,
estou compondo um poema,
um poema que não diz nada.
Não sou poeta,
nunca quisera!
O poeta sente as próprias linhas que traça,
o sentimento que vai por detrás dele,
em frente a ele,
ao lado dele.
Consegue, em poucas linhas, expressar
toda uma sensibilidade
que, talvez, ele mesmo desconheça.
Ontem estive pensando seriamente em tudo,
em todas as coisas;
assustei-me ao ver que a realidade não existe.
Existe, apenas, um corpo que vaga,
que paira no ar,
que entra por um vaso sanitário,
que perde o “eu” e vai atrás dele,
como se fosse um seu amigo de ontem,
de hoje, de sempre,
mas não deixa nenhum endereço para correspondência.
Volta para casa e se tranca de novo... Meses após,
é encontrado num caixote de lixo
pelos funcionários da limpeza pública.
Um outro corpo que vai, ao cemitério,
visitar a si mesmo
e entra em fase retrospectiva
e se acha de novo, frente a sua sepultura,
dizendo apenas adeus,
pois precisava cuidar de si mesmo.
Sai do cemitério sem olhar para trás,
sem mesmo se lembrar que uma parte de si
está morta... Estive pensando seriamente em tudo isso,
em todas as coisas.
Não vi motivo para entrar numa tabacaria
e comprar o fumo;
o tabaco e fumar meu cacimbo,
que ora se encontra dentro de meu guarda-roupa,
numa inércia como eu também estou.
Inerte frente a esta folha de papel
que, de segundo a segundo, cria novas palavras,
novas sentenças, novos versos que nada dizem,
dizem apenas para quem os vai ler
e sentir que o escritor-contista não nasceu para ser poeta.
Nunca quisera ser um poeta.
Amigo, amigo, solidão, desespero, angústia.
Fumaça... São apenas as fumaças que ficam no ar
e não dizem nada, pois não têm nada a dizer,
apenas somem no ar,
sei lá... Ai de mim,
ai de mim, o poeta que está muito convencido
com essas linhas e chega a dizer
que elas estão dizendo muito, ah, este não é poeta!
E não custa nada dizer um pouco em versos
que vão se perder no tempo, no espaço,
no escuro de si mesmos e nunca terá nada a não ser
o corpo que a carrega e que breve, muito breve,
já não andará pelas ruas,
não vendo as cenas de tempo marcado;
e espero mesmo que seja breve,
depois não existe mais nada,
nem mesmo o que foi ou tentou ser e não foi,
o amor que se revelará,
não sei quando...
vivências, experiências,
O amor.
Fumaça...



(**RIO DE JANEIRO**, 01 DE MARÇO DE 2017)


**LUCIDEZ - IN "DIVÃ EXISTENCIAL** - 29 DE JUNHO A 03 DE JULHO DE 1989** - PINTURA: Graça Fontis/POEMA: Manoel Ferreira Neto


A lucidez é tão branca,
branda, aberta
- um vento secando os lábios,
alargando a pele molhada.
O orvalho da manhã
- um longo clímax de timidez,
preguiça, indecisão.



Sinto uma rápida tristeza,
que a preocupação de inalar
a fumaça do cigarro faz-me esvanecer.



A intuição de um amor
existente no mais íntimo,
é uma verdade ininteligível.
E a consciência de um amor
no mais profundo do espírito,
é um real indescritível.



(**RIO DE JANEIRO - IN "DIVÃ EXISTENCIAL" - 29 DE JUNHO A 03 DE JULHO DE 1989**


**PRÉ-[S]-SENTIMENTO** - PINTURA: Graça Fontis/PROSA POÉTICA: Manoel Ferreira Neto


Agora começou a chover. Venta e faz frio. Meu corpo molhado treme e a tristeza é ainda maior. Nem percebi a tristeza chegando; quando vi, estava triste. Nunca manda um bilhete, um aviso de quando vai chegar. Caminho por ruas esburacadas e, por vezes, enfio o pé em poças d´água, com certeza contaminadas pelos dejectos que os transeuntes jogam. Minha alma está triste até à morte - a tristeza mergulha profundo no meu coração, consome-o. Meu eu agora é esquálido, magro, quase um nada e a tristeza não deixa de corroê-lo, daqui a átimos de segundos não mais existirá e como a tristeza é insaciável, em pouco tempo, tempinho de nada, tempinho à toa, á-toa, consumirá a si mesma, como as chamas ardentes do fogo sem nada onde se aderir; dar-se-á a metamorfose; serei uma águia, livre, leve, bom, e voarei para além desse chão lamacento, para além dessas nuvens escuras, e me fundirei, num amplexo de amor e carinho, com o azul infinito deste céu diáfano que meus olhos cegos já começam a ver.
Queria escrever versos gritados,
ferozes,
versos selvagens,
versos rebeldes,
versos revoltados,
versos que explodissem
em mil sons,
versos gargalhadas terríveis,
versos risos amareliçados
com aquela pontinha de cinismo,
ironia,
versos em voz rouca,
versos com o sabor de gelatina de limão,
versos realisticamente fantásticos,
versos que confundissem o coração
e ferissem a inteligência,
versos ecos em abismo e labirintos,
versos sibilos do vento no entre árvores do bosque,
versos sabor de compota de figo seco ou em calda,
versos mistérios de fundo de mar,
versos odor da maresia,
queria escrever vida em versos.
Não queria escrever versos de tristezas tristes, estes versos corróem as palavras, são ácidos. Vou garatujando letras nas linhas da página sob o feitiço da tristeza, daqui a pouco, quiçá, estarei livre, estarei alegre e contente, saltitante a bem da verdade. Não escreverei versos, escreverei prosa. Os mistérios da prosa insinuam-se, convocam. É e está. Nas cordas interiores vibram os dedos da mão. Versos vertem lágrimas pujantes, prosa revela brilhos no olhar, nesta me entrego.
Não estou triste e nem alegre agora. Estou. Não vou investigar o que estou, não vou obter resposta plausível. Deixo-me estar. Deixo-me estar sentado aqui na mesa do restaurante, olhando a chuvinha que cai lá fora. Deixo-me estar garatujando estas letras.
O vento incoerente prepara o caos das coisas. Murmúrios e estrondos estão lado a lado. O que me ensina? Ensina-me a ontologia do pressentimento. Enleva-me na pré-audição. Pedem-me que tenha consciência dos mais débeis indícios. Tudo é indício antes de ser fenômeno nesse cosmos de limites. Quanto mais débil é o indício, mas tem sentido, pois que indica uma origem.
Triste tristeza.
Tristeza triste.
Triste tristeza triste.
Brinco com as palavras. Estão elas abertas para mim, consentem plenamente que eu as registre nas linhas da página, mas eu, tomado desta triste tristeza triste não estou conseguindo mergulhar em mim.
Deixo-me. Deixo a triste tristeza triste. Recolho-me em mim.



(**RIO DE JANEIRO**, 28 DE FEVEREIRO DE 2017)


**NA RELVA DOS OÁSIS** - PINTURA: Graça Fontis/POEMA: Manoel Ferreira Neto


Quem sou,
o que sou?
Quiçá isto não
tenha
mínimo sentido,
menor valor.



Se sei quem sou
ou o que a criação
de quem sou
faz-me ser,
leva-me ao ser.
Terei respostas para quem sou? Se hoje sou o verbo de meu ser, amanhã serei o nada do verbo. Se no ad-vir de futuros for o verbo de uma promessa, ah promessas! De quê?
Talvez um dia eu venha a saber quem sou, o ser de mim se me revele trans-parente e límpido. O que a minha razão insolente, inquieta e ao mesmo tempo meiga e perspicaz sabe é que nada sei de mim. O que o meu intelecto irreverente, sagaz e ao mesmo tempo compreensivo conhece é que sei nada.



Sou o quê?
Não sei.
Não sei se sou.
Como os grandes valores do ser e do não ser são difíceis de situar! O silêncio, onde está sua raiz, é uma glória do não-ser ou uma dominação do ser? Ele é "profundo". Mas onde está a raiz de sua profundeza? No universo onde rezam suas preces as fontes que vão nascer, ou no coração de um homem que sofreu? Em que altura do ser devem aguçar-se os ouvidos que escutam? Ah, de que silêncios precisamos nos lembrar na vida que passa!
Sou separado, sou pai, sou divorciado, sou amante, sou amigo, sou namorado, sou filho, sou irmão, sou ex-professor, escritor, poeta, sou dócil e grosseiro, sou disperso, sou perspicaz. Sou tudo isto e nada sou. O ser é, alternativamente, condensação que se dispersa explodindo e dispersão que retorna até um centro. Um mundo imenso ainda me escuta, mas não existo mais, transformado somente e unicamente em um ruído, que vai rolar séculos ainda, mas destinado a apagar-se completamente, como se nunca houvesse existido, se nunca houvesse sido.
Na relva dos oásis
o silêncio do "sou",
de quem "sou",
me faz repousar,
dirige-me às águas do repouso,
no repouso me faz
repousar...



Ah, ah, no repouso me faz repousar. Meu ser... ele restaura e conduz-me nas sendas do amor, nas veredas dos sonhos.



(**RIO DE JANEIRO**, 28 DE FEVEREIRO DE 2017)