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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

**INÉDITO: A MORTE** PROSA: Manoel Ferreira Neto - Belo Horizonte/ agosto de 1982


POST-SCRIPTUM:



Faz-me crer, relendo este pequeno texto que escrevi há trinta e cinco anos, o que importava mais era ter naquele momento encontrado a sua querença, o seu destino, não ligar para a namorada. Isto era o que amava e amaria.
A entrega por inteiro a uma vida que só ele construiria, só ele realizaria, era de sua responsabilidade, compromisso a feitura de seus ideais, ideias, pensamentos. Este reencontro com o amigo mui querido Paulo Ursine Krettli, o retorno de um acervo de escritos deixados com ele, tem-me feito bem, oportunidade de in-vestigar os vestígios da liberdade tecida com as experiências e vivências, uma análise bem íntima sobre o que isto - uma vida para construir a Vida? A esperança, o sonho, a entrega são mister na caminhada, jornada, mas sempre respeitando o que trans-cende a Vida, buscando respostas inda que efêmeras, contraditórias, nonsenses, mas "existir-no-mundo" de mim próprio. Ad-mira-me ter escrito esta obra aos vinte e seis anos, referindo-me ao estilo e linguagem, ainda muito verde para imprimir no inter-dito "O que é isto - criar o destino?" E em trinta e cinco anos, aquando decidi fazer o destino com palavras, o que foi criado, inventado, re-criado, escrito está on-line, sem nada a dizer no tangente. Quê bom: valeram a pena os ventos e contra-tempos. Mas há muito inda para prosseguir. Aos noventa anos - "QUANDO EU TIVER COM NOVENTA ANOS" -, estarei relendo estas obras e criando outras até o derradeiro momento.



Manoel Ferreira Neto



Talvez já esteja morto e ainda não saiba. Importa saber, se estou ou não? Às vezes, acho que sim. Ponho-me a pensar. Muitas circunstâncias se colocam à frente. Questiono-me. Sou absorvido. Absorvo-me. Estou morto. Estou aborrecido. Outras vezes, penso que não há nenhum sentido saber se sou a minha morte ou a minha vida.
Faz tempo que estou com esta ficha telefônica em meu bolso. Pensei em discar o número, esperar alguém atender, dizer-me, ouvir o que ela tem a dizer. O que, em primeiro lugar, eu diria? Não importa saber. A minha única necessidade é dizer que me sei, mas não me demonstrei por medo de revelar os meus sentimentos. Estupidez minha. É claro: há necessidade de ela saber-me.
Sou a minha angústia. Morri de tanto amor. Sou a minha morte. Só ela mesma conseguiria devolver-me a vida. Como? Não previ que seria necessário saber-me, a fim de que conseguisse ficar do lado dela o tempo todo. Não vi nenhuma necessidade. O importante para mim era apenas o fato de amá-la. Com o amor conseguiria tê-la. Enganei-me. Nosso relacionamento só se realizaria a partir do momento que houvesse nossa interação, intersubjetividade. O que devo fazer neste momento?
A ficha continua em meu bolso. Não, não devo ligar! Tenho a ficha em minha mão. Olho para ela. Vejo-me conversando com ela. Ouço a sua primeira pergunta: “Como você está”? Sua voz é tão sublime! Ela revolucionou a minha vida. Será o amor uma revolução dentro de uma revolução a fim de outra evolução? Talvez seja, não sei. Sou apenas o amor. Evolução houve em minha vida.
Não a perdi ainda. Ela me deu um tempo para achar-me. É o de que ela necessita. Será que, no futuro, ainda estarei para ela? A vida é tão cheia de contradições! Talvez não esteja. O amor continuará.
A ficha continuará em minha mão. Não há sentido pensar no futuro. O que importa é o amor que sinto no momento. Faz-me bem.



(**RIO DE JANEIRO**, 09 DE FEVEREIRO DE 2017)


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