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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

**ESPÉCIE DE INCONSISTÊNCIA DAS COISAS** - PINTURA: Graça Fontis/CONTO: Manoel Ferreira Neto


"Em vão o homem através de planejamentos procura instaurar uma ordenação no globo terrestre, se não for possível ao apelo do caminho do campo" (Heidegger)



"Uma farsa enorme..."
"Enorme é um termo pouco para definir esta farsa".
"Um advérbio(?) que não tem sido. A farsa está sozinha".
"Sei disso..."
“Não tive nunca a preocupação de resgatar o que perdi com você. Não movi uma palavra para recuperar a confiança. Nem sei mesmo porque. Já removi céus e terras para recuperar o que perdi com as pessoas. Consegui, afinal".
"Tudo é uma farsa. Não sei porque após três anos você me procurar. Qual foi a sua intenção?".
"Nem mesmo sei. Foi uma coisa de espírito. Aconteceu. Realizei. Não consigo saber de nada. Talvez tivesse sido melhor deixar as coisas como estavam".
"Não se deve arrepender do que se faz...".
"Não me arrependi. Só acho que deveria ter esquecido de tudo o que houve. Não há mais o que pensar sobre".
"Não há. Nada houve. Não há nada. Haverá nada".
"É o que é. Desculpe o realismo. Não sei porque nunca preocupei em resgatar a sua confiança. Talvez seja isto: confiança perdida é confiança irrecuperável. Fiz com que perdessem a confiança em mim. Quis recuperá-la. Recuperei-a . Com você não. Nada houve. Não entendo o que aconteceu entre nós. Como dizer? E... Que peças entraram neste jogo? É a primeira vez estou sendo tão realista".
"Tudo farsas, farsas..."
"Não mais possibilidade de nada entre nós. Mas, sinceramente, vou sentir falta. De dialogar amenidades. É muito bom. Nem é possível uma boa amizade. Gostaria de saber o que nos trouxe até este ponto. Machucamo-nos muito. Nada irá nos responder".
"Não estou preocupada em saber..."
"A bem da verdade, estou. Apenas para não mais acontecer. Não é agradável uma situação como a nossa".
"É esquecer de tudo..."
"Esquecer é quase improvável. De algum modo, iremos lembrar um do outro. O que é: cada um seguir o seu próprio caminho. O melhor para ambos".
"Vamos nos encontrar na velhice. Não conheço nada tão insubstancial..."
"Já disse isto faz algum tempo. Quem irá garantir que vamos ficar velhos? Apesar de tudo pode ter sido o mais verdadeiro que vivemos e iremos viver. Ou o mais mentiroso".
"Mentiroso..."
"Talvez... Você perdeu a confiança em mim".
"Perdi. Tudo seria diferente se fosse do seu interesse recuperá-la. Mas não".
"É... Já lhe disse: não me preocupei. Enganei-me. Quis acreditar amava-me você. Amando-me, uma perda de confiança seria passageira. Nunca me amou. Nem mesmo eu a amei. Vivi uma farsa. Uma espécie de aventura".
"Esperava a sua maturidade. Chegasse, seguiria o seu rumo. Estava escrito".
"Não esperava nada. A maturidade chegou. Tomei decisões irei realizar. E você não está incluída nelas".
"Não sei porque fui admitir tudo isso. Deixei acontecer. Por isto, indago o porquê de me haver procurado após três anos".
"Nem mesmo eu sei... Soubesse, diria. Mas não sei. O que posso fazer? Nada".
"Sempre precisei de dados sensíveis a seu respeito".
"Nunca lhe dei estes dados sensíveis...
"Sei disso..."
"Nem lhe vou dar agora. Nunca me preocupei com estas coisas. Acredite: nunca lhe vou dar. Por que só no concernente a você? Por que não com as outras pessoas? Isso é muito estranho".
"Farsa..."
"Farsa. Um direito meu não acreditar em você".
"Direito seu. Não lhe tiro este direito. É todo seu. Tem mais é que reivindicar e viver seus direitos".
"Sabe que vivo os meus direitos..."
"E como sei disso!... O direito de esperar a velhice para nos encontrarmos. Já fui questionado por causa disto".
"Fico pensando neste almoço sexta-feira. Estou quase não indo".
"Não vai?"
"Não sei ainda. Mas não tem sentido algum".
"Quero fechar a relação com chave de ouro. Comemorar o seu aniversário"
"Para que "chave de ouro"? Nada houve entre nós. Por que querer consertar o que não tem conserto. O que não tem concerto nem nunca terá".
"O que está feito"
"Pois é..."
"Você quem sabe. Não vou forçar nada".
"Nada faço com pressão. Sabe disso".
"Seria melhor a resposta agora. Aí, não vou lá. Procuro outra coisa para fazer neste horário. Nem apareço por lá".
"Estou pensando..."
"Dê a resposta agora!..."
"Estou considerando a proposta"
"Considere, então. Voltando... Vou sentir falta de você".
"A gente só sente falta do que possui".
"Não a possuo. Nunca possuí. Com efeito. Mesmo assim, vou sentir falta. Gosto de ouvir sua voz. Gosto de dialogar com você. Faz-me bem de algum modo".
"Não lhe faço bem algum"
"Não concordo. Por mais nada haja entre nós, há qualquer coisa. Você me faz bem, de algum modo. Não é o mesmo bem os outros me fazem. Mas faz".
"É... Isto aí é com você".
"Só é... Respondo por mim"
"Uma farsa... Nada mais pode haver entre nós".
"Sei disso. Sexta-feira termina tudo".
"Estou considerando a proposta. Isto não tem sentido algum. O que isto significa? Nada".
"Quero deixar uma boa recordação minha. Pense bem: nunca almoçamos juntos. Só os corpos estavam distantes. Se bem me lembra, foi só no início da relação que homenageei o seu aniversário com um abraço".
"O desejo era de beijar-me. Enviou-me um bouquet de rosas com um lindo cartão. Já não nos falávamos".
"Nem me lembrava disto. É verdade. Fiquei com receio de devolver tudo. Aceitou".
"Nem mesmo sei o porquê..."
"Não importa mais..."
"Não importa..."
"Este ano estou empreendido neste almoço..."
"Estou considerando... De alguma forma, nós vivemos a história de Anny e Antoine de Roquentin".
"Não justifique... Não é de seu feitio. Lemos esta obra. Tudo bem. Mas nosso caso é outro. A questão é: machucamo-nos muito. É o que é. Amadurecemos. Não nos livramos das feridas. O fim só poderia ser este".
"Nosso caso foi nada..."
"Nada é uma palavra muito rica. Não foi um caso entre nós. Nada houve. Começo a duvidar se houve diálogo entre nós".
"Nem diálogo... Nada..."
"O que é isto? Sinceramente, não entendo".
"Você pode responder..."
"Eu não... Nada sei. Concordo: por que fui procurar você, após estes anos? Queria mostrar a mim o quê? Queria ver se a amava como pensava".
"Você nunca me amou".
"Não. Nunca a amei. Sempre soube disso. Você foi alguém em minha vida. Nem foi uma grande amiga. Foi alguém. Só isto".
"Sempre soube disso..."
"Não tem culpa. Sou eu o grande culpado. Fui eu o único quem a procurou todas as vezes. Só uma vez me procurou, por interferência de alguns conhecidos".
"Sim. Por causa deles...
"Sempre soube... Diga-me: vai ou não almoçar comigo?"
"Não sei. Não vou dar respostas agora".
"Tudo bem. Quando?..."
"Amanhã..."
"Tinha de sê-lo... Se não houvesse sido, já sabia de tudo".
"Então, até amanhã...
"Até..."



(**RIO DE JANEIRO**, 20 DE FEVEREIRO DE 2017)


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