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sábado, 11 de fevereiro de 2017

INÉDITO: MEIGUICES INSOLENTES DO INFERNO - TEXTO: Manoel Ferreira Neto (Belo Horizonte,06 de março de 1987)/PINTURA: Graça Fontis


“A psicanálise é, em essência, uma cura pelo amor”. – Freud



Procuro, por vezes, no passado, uma série de recordações, a fim de, com elas, criar-me, estabelecer uma história, mas encontro-me longínquo e minha existência insufla de memórias. Nas mínimas circunstâncias, quem ama lembra-se de seu amor, o significado e sentido, retém, entrega-se de corpo e alma, doa-se na sua realização. Surge-me que só vivo em um átimo de instante sempre inusitado. Emoções e sentimentos são outros. Como se sente no mundo, a autenticidade é a solidão. É o ser quem vai sentir e emocionar-se, vibrar-se até. Terá penetrado em seu íntimo, inteirado dele, sentido. Isso que denominam repousar-se é-me um impossível envergonhar, um limitado constrangimento.
Alcanço a profundidade, aprofundando mais e mais no que está surgindo em mim. Não consigo entender mais a palavra solidão. A presença efemeriza-se no tempo. Procuro a originalidade no âmago e essência. Impedem-me de encontrar uma despedida autêntica; original a tristeza e o desconsolo de tão incomensuráveis que são. O itinerário propício para encontrar a alma é afastá-la o mais possível de mim, não deixando a razão interferir. Ser inteiro em mim é não me ser. Existir só em mim é não ser mais alguém. Viajar unicamente a mim e afastar-me de mim. Representar-me em toda a essência e vitalidade.
Sinto um frio intenso no olhar. Não é só desfrutar a presença, o desejo de mim. Não é só de degustar as palavras a vontade minha. Não é só um anseio a sensibilidade pura. Habito-me e sou habitado. O desejo de mim me expulsa. Sou levado às antípodas do infinito, onde só a subjetividade aquém de mim, onde só a intuição é capaz de revelar-me. A mais linda revelação só se revela a mim como um escombro da paz. A mais bela lembrança só se manifesta assim como um vestígio da felicidade. Os olhos brilham intensamente. Vivem um amor, sentindo a sua presença. A mais exótica e estética lembrança só se apresenta a mim como um resquício de calma. Crio a mim para emular a minha ausência. Lembranças há, mas elas se referem à superfície. Sorrio na profundidade – um perfeito sorriso infantil: só me resta manter uma relação de realidade comigo. O menor pingo de orvalho da noite, lágrima, que seja, me umedecendo a fisionomia, já se me torna amável realidade. A mais estilística memória só se aflora como uma interrogação. Não me importo, sendo uma correspondência íntima. Nos meus sentidos e significado, de minha alma a presença não sinto. Por estar envolvido, por não aceitar o que está sendo revelado despercebido passa.
Não me afastando, não me envolvendo, conservando uma distância, estou, no mais profundo de mim, esclarecendo a alma, o que sinto, o que penso. Em me pensando, não me é possível sentir: não sinto quem sou. Em me sentindo, aflora-me: sou quem eu sou no que não sou e sou. Afloro este ser e ele se aflora por inteiro.
Torno-me uma linguagem aberta em que se me pode ler o âmago. O mais recôndito de mim enche-se, enfim, de paz, a qual a solidão exaspera e que o tempo afadiga. Sinto isso absolutamente. É querer sempre o mais autêntico, atingir um incomensurável nível de originalidade e singularidade. Sirvo-me da espera do belo futuro e o caminho, que a este conduz, jamais se me afigura interminável; por ele me desloco a passos largos. Afigura-se-me, então, sentir menos estranhamente o chão de terra e o que ele me adentra melhor. É um afluxo de fora. Sou o profundo em minha autenticidade. Estou a distanciar-me do que é supérfluo e superficial. É conservar os íntimos, os que me são queridos. Todos os meus sentidos abertos acolhem a presença. Tudo em mim a isso convida. Jamais alcançável haverá um abismo sem a presença dos sentidos abertos. A estes sentimentos as palavras não se prestam. Ou melhor: a estes sentimentos não se prestam as palavras. Aspiro a tudo com delícia. Procuro cansar os meus desejos em vão. São nobres os sentimentos, emoções, a alma, modificando um pouco os caminhos do homem e estas modificações tornar-se-ão metamorfoses. Cada um de meus pensamentos é um fervor. O íntimo entreabre-se um instante num aconchego da luz. É a nobreza do desejo do intenso alcance; o que o testemunho do mundo reflete na sua plenitude. Imaginar as lágrimas, a comoção, a alegria, e. no fundo. a conquista do espaço em meu interior.
Se eu soubesse o significado e o sentido do amor, nem seriam somente as lembranças e recordações, os instantes felizes e alegres, os momentos de inteira realização. Tudo é silencioso. Há uma volúpia no silêncio. Afigura-se-me haver um gosto suave no silêncio. Encho a boca de um gosto de mel e de deliciosa amargura. No âmago de mim, enorme e feliz, sinto-o por estar profundamente original em mim. Irei sentir a ausência de um abraço de despedida. Percorro os cômodos sem reabrir as janelas fechadas há muitos anos, nem ergo as cortinas. Perambulo pelos labirintos, abrindo as frestas, escancarando as portas. Um homem deve mesmo interessar-se por se realizar e assistir aos homens se realizarem-se. Não reivindico, passo a assumir os valores e princípios que a história constituiu.
Sou feliz por esquecer a hora. Afigura-se-me ser a subjetividade, a sensibilidade humana. Todos os caminhos levam-me a ela. Busco, em mim, o ritmo de árias antigas. Só me recorda o seu modo demasiado imperfeito. Afim de que não me entristeça, interrompo-me. Intenciono ser, isentar-me de mim, ir ficar no meu interior, ser ele, entregando-me inteiro. Nenhuma satisfação parece-me pertencer a mim mesmo. Sendo o único a gozá-la, faço-o tão somente por orgulho e picardia. O desejo de amor interpenetra a lembrança do labirinto, cujo estranho e patético rumor chega através do êxtase. As palavras, os modos, as atitudes, a voz dócil e meiga, o corpo são uma saudade plena e absoluta da vertigem do despertar. Compreendo, agora, o que está sendo de mim, por quais rios e mares estou a navegar. Correspondência anterior e interior: lembranças e recordações de acontecimentos. Aprecio mais os tesouros dos campos. Compreendo: eu me persuado de que maduro estou para uma forma nova. Para além de minha simples vontade, eu estou. As palavras, penduradas no tempo, vão desfiando novelas de linha, tecendo as letras de uma compreensão e entendimento. Cada instante é essencialmente insubstituível: faz-se mister concentrar-me unicamente. Quisera-me mais difuso. O amor espera-me a cada instante. As letras, suspensas no tempo, vão imprimindo, no espaço imaginário do papel, a linguística do instante. Há certa intensidade de clímax que o homem mal pode ultrapassar não sem umedecer os olhos. A palavra vaga sobre onda, que, hesitada e tumultuada, fica indecisa. Os sentidos dissipam-se, perdendo o ânimo; de volátil e inflamável, desmaiam, manifestando, por processo exterior, a descrição minuciosa e fiel de uma extravagância. Penso dolorosamente: poderia estar alhures. Por vezes, não sinto limites em meu espaço. Ponho, ao nível de suas sensações, as extremidades algo longínqua das mais nobres emoções. O porto, onde minha alma – enfim! - repousa, contempla o mar. Toda forma não assume senão, por ínfimos momentos, o mesmo ser. A lucidez das imagens traz-me este silêncio cheio de palavras. Este silêncio não se lhe afigura, em hipótese alguma, a um diálogo ou monólogo. É um silêncio ausente de silêncio. É uma ausência de silêncio, faltando e falhando no enigma do escuro, no segredo da claridade.
A busca de uma moral não me parece muito hábil, nem mesmo provável, enquanto não souber plenamente quem eu sou. Como homem no mundo, por se realizar, será o significado e sentido, será o presente. O sentimento de uma plena vida, provável, mas ainda não atingido, deixa-se, por vezes, entrever, liga-me o ensejo de vislumbrar e torna a voltar em meio a essas eternas represálias. Poder sentir-me seguro, usufruir de mim, realizar-me, como um ser novo, encontro-me, aqui, na superfície, sob um céu novo e no meio de coisas completamente renovadas. Não é que reclame do outro a sua inteira disposição para mim. Não é que reivindique de mim a plena espontaneidade do outro. Ou melhor: não é que reivindique de mim o pleno outro espontâneo. Nem mesmo não é que reivindique a plenitude espontânea do outro de mim. O instante é de uma solenidade demasiado ardente. O mistério da vida recomeça a rumorejar em cada entalhe das emoções. A nível da relação com o mundo, é realizar o desejo de assistir a intimidade desvencilhar-se de si mesma. Recomeça a ruminar, em cada entalhe da percepção, o enigma da viagem. É conceber o homem na sua mais autêntica inteireza. Afigura-se-me a inteireza ser aflorar o não-ser sendo, revelar o sendo ser, manifestar a evasão da alma na invasão do espírito. Parece-me a vida indistinta, que se atarda no sono inautêntico, intenciona adiar-se no adormecimento autêntico. Não me permito palavras lançadas. Dizer o que sinto, nem mesmo a terra nem os restos mortais, me irá separar: a individualidade está consumada. Rumo ao mundo, à humanidade, isso é uma felicidade incomensurável, uma estética imensa, e eu feliz por haver abraçado a plenitude. Há uma certa sensualidade num amplexo estético. Os olhos sentem os instantes de tristeza: servem-lhe profundamente na atitude de vislumbrar a entrevisão. A sensualidade grita-se com o suave como para dar melhor acolhida à nobreza de sentimentos. Encontro o sentido do amor e da amizade. Nenhuma forma de vida detém a totalidade mais tempo do que lhe é necessário para se dizer.
A ética nasce da síntese do instante da totalidade e da linguagem do efêmero. O menor instante da vida é mais longo do que a morte, e a recusa. A morte não é, senão, o acordo mútuo de outras vidas para que tudo sem cessar se reassume. A palavra retine na felicidade do instante. Proporciona colocar o eterno no efêmero. Adentra na sensualidade, afim de ir ao mais profundo, conciliando-se que de mais tenro há. O seu espaço em meu interior. Embora afastado, realiza minutos de inteira corporeidade. A imagem em que meu desejo se abismou. Deixo-me ser algo sem nome, uma sensibilidade no seu âmago. Comigo mesmo, penso ter sido a despedida mais original a que jamais outorguei a mim. Coloco em palavras os meus sentimentos, a intimidade de meu ato. Deixo-as irem consigo mesmas em toda a viagem. Fecho-me sobre águas calmas. Por onde passeia a minha busca, as ondas voluteiam imensas e suaves. Procuro um original do âmago e essência. Não me aproximo. Recordo-me em se me apresentando assim. Aparecimento da planície no vão do âmago de mim, o mais recôndito sítio da ilimitada promessa. Revelação de andanças. Consigo superar a dedicação de minha amizade, meu ser na intimidade do interior. O desejo incomensurável de sua realização: no fundo quer ser o único, as suas atenções voltam somente para o alimento do amor. Teme não conseguir conquistar-se, sentir-se sempre contente e em paz. Numa perpétua estupefação apaixonada, conquista a relação quotidiana e contínua com a impossibilidade possível. Encontro-me a oportunidade de uma sede a me esperar, uma sede particular diante de cada fonte. Almeja outras palavras para imprimir e marcar meus outros desejos.
Poder fundamentar os seus sentimentos, não cair, nas teias da imaginação, a distorção, a distância de quem está refletindo, meditando, reunindo todas as recordações e lembranças. Com a intenção exclusiva de uma harmonia, de um equilíbrio, a ausência de quem está procurando sentir o seu mais abismático. Minha intimidade alentece, assim como o processo do sol menos vertical se faz mais lerdo, mais passivo. A perplexidade de quem descobre ter sentido algo, e esta descoberta faz-lhe um susto, um bem incomensurável, mas que não pode responder por toda a sua veracidade.
Surpreendo a sombra e o silêncio sob a ambiguidade. Apresenta-se-me a olhos nus. Como a sensibilidade vai ao encontro da intimidade do outro como a intuição exterioriza-se no outro, como a emotividade penetra no outro, tenho a sensação, muitas vezes, de estar a nadar, a tal ponto em ar luminoso e quente me cobre e lentamente me ergue. Mostrar-me a todos, inteirar-lhes de minha individualidade, manifestar-me inteiro, reconhecer as minhas virtudes e valores. Perco-me numa desorganizada perseguição a coisas fugidias. Estivesse numa situação em que dissesse a mim, na superficialidade, ententer-me-ia, compreender-me-ia, justificar-me-ia, mas, na profundidade, lá no âmago, tudo é tão ineficaz e sem essência. Minha intimidade, desde que se fixe, não mais vive. São significados omissos na fisionomia, nos olhos, nos esgares faciais, motivos e razões escondidos no inconsciente. Estou atrás do ser. Transpareço a nível das palavras. Descubro-me por inteiro. Respondo a coisas que nem mesmo havia conhecimento delas. Conservo o hábito de uma ampla esperança a que se chamaria fé, caso fosse ajuramentada. Um perfeito êxtase em minha fisionomia. Pleno perfeito um ausentar-me de mim. Um diapasão completo sinto. De mim, em rumo à transcendência, uma evasão absoluta. A estrada em que me encontro é a minha estrada, sigo-a como cumpre fazê-lo. O sol deita-se e as nuvens azuis colorem os terraços brancos. Afigura-se-me haver distendido uma mola em meu interior. Parece-me, a princípio, haver sentido uma eclosão, por haver dito com o mais profundo de mim, manifestando-me bem para além do inteligível. Ouço, à superfície das águas, a eclosão dos sons, os sons da voz. Irá haver um abismo entre a minha subjetividade e as palavras. O rosto fica na sombra sob o ouro do diadema brilhante.
A distância vai se efemerizando lentamente. Aos saltos, realizo-me. O declive do prado favorece minhas enormes passadas. As minhas enormes passadas são favorecidas pelo declive do prado. Alcanço a água do rio resfolegando. Teço um longo discurso, mas não há palavras. Mergulho com grandes gargalhadas. Há, como nas obras célebres, o passo da simulação e o da reconciliação. Só ao longo da grande planície é-se possível um encontro com a essência.



BH,06/03/1987


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