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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

SONINHA SON POETISA E ESCRITORA COMENTA O POEMA /**INTEIRO**/


Nossa, que coisa mais linda, Manu! Claro que não pode se sentir diminuído em relação aos poetas, porque ainda que não queiras sempre será um, Manu.Seus versos são gritantes, seja na prosa ou na poesia, seu estilo é inconfundível; eu diria que, analisando vossa escrita, entendo o porque de sua preferência: você é muito livre, desprendido de regras e métricas, a prosa lhe permite um versar ausente de qualquer mordaça que por ventura uma poesia possa lhe impor, apesar de que se você acredita na poesia e ama fazer, ela nunca será presa, seja com métricas sem métricas o que importa?Fernando Pessoa escrevia com métricas e a poesia dele é show, já Drummond e Quintana livre feito um passarinho, então acho que é isso você não aceita nenhum tipo de "amarras" na sua arte...Mas pense bem! Veja essa poesia como fluiu em total liberdade e dentro do que você gosta, a norma bem culta e o vocabulário mais erudito. Parabéns por essa também, Manu, aguardo que mude de ideia...Bjos.



Sonia Gonçalves



Ando somando perguntas que não se calarão. A primeira é: de onde tiro inspiração para escrever tanto?, que você mesma, Soninha Son, pergunta a todo momento. Agora é esta: por que não gosto de escrever poesias?
Na Faculdade de Letras, você não tem noção das minhas dificuldades em interpretar, analisar, compreender e entender poemas. Comi o pão que o diabo amassou. Claro que, com a convivência com o meu amigo Paulo Ursine Krettli, melhorei poucochito as dificuldades. Ao longo dos anos, li bastante sobre Estética, Filosofia da Estética, Filosofia da Poesia, e fui me inteirando deste uni-verso.
Com antecedência, isto é, escrevi o texto POETA? NÃO POETA?, antes de publicar oficialmente o poema INTEIRO. Não tive intenção de polemizar, exclusivisticamente explicar esta questão. Mas quem ficou com nó na garganta fui eu próprio. Detesto, odeio quando não consigo explicar algo, e passei a tarde irritado, nervoso, procurando explicações, haverá sempre um ?.
Sou indivíduo livre, não aceito amarras, isso é vero. A prosa é flexível. Não coloco a questão em nível de rimas, métricas, que são amarras na poesia. A questão é: o uni-verso da poesia é sensível, é espiritual. Escreve-se com a sensibilidade, a espiritualidade. Enquanto que a prosa é racional, intelectual, e tais dimensões oferecem todas as manobras, tramóias, trambiques, jogos mentais, psíquicos... Sinto-me à vontade com a prosa, faço o que quero e quero o que faço com ela, com as palavras. Não consigo viver sem o corpo de meus pensamentos.
Sabe quando a sua cabeça está entupigaitada, não sobra lugarzito sequer para coisa alguma. Minha cabeça estava entupigaitada dos questionamentos de colegas, de professores, de poetas sobre isto de não gostar de escrever poemas. Resolvi então colocar a Prosa e a Poesia no Divã Existencial, e em cinco dias produzi cem poemas. Terminando, disse-me: "O que posso dizer agora sobre esta questão está na obra. Críticos, amigos, poetas, professores, leitores que se arrumem para entender". Entreguei ao Paulo Ursine.
Quem sabe algum dia diga a plenos pulmões: "Amo de paixão escrever poemas. Não vivo sem o corpo sensível, espiritual". Até então, não deixarei de escrever poemas, isso de modo algum. Há coisas que só a poesia pode revelar, não cabem mesmo na prosa. Pode-se reunir a prosa e a poesia para revelá-las, a prosa-poética, que sempre faço, tenho amor intenso pela prosa-poética. Mas deixa a desejar, pois que a poesia revelaria in totum, ipsis verbis e ipsis litteris as intenções.
Ora poemas, ora prosas, e vou eu pela estrada a fora com a pena em mão.



Manoel Ferreira Neto



**INTEIRO - IN "DIVÃ EXISTENCIAL - 29 DE JUNHO A 03 DE JULHO DE 1989**
PINTURA: Graça Fontis
POEMA: Manoel Ferreira Neto



Não negligencio os poetas;
ao contrário,
admiro-lhes a intuição, percepção,
amo a sensibilidade deles.



Não lanço polêmica alguma
aos poetas;
venero a facilidade deles
em perscrutar
os labirintos da alma.



Não menosprezo os poetas.
Gosto da melancolia
a perpassar
a contingência;
adoro a nostalgia
a percorrer
a corporeidade.



Não me sinto diminuído
escrevendo versos,
mas não sinto a presença do intelecto.



Não me sinto rechaçado,
trabalhando sensivelmente a forma,
mas procuro ininterrupto o sentido,
busco o significado.



Não me sinto rejeitado
delineando o estilo,
mas há uma enorme ausência
em mim
e desejo logo a prosa.



Não me sinto inferiorizado
burilando o conteúdo,
mas não encontro nunca
um modo de analisar o intimo.



Não me sinto fracassado
embelezando o significado,
mas não posso viver
sem o corpo de meus pensamentos.



Sofro incólume
com os versos
colocados no papel
por minha mão.



(**RIO DE JANEIRO**, 13 DE FEVEREIRO DE 2017)


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