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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

**PÓS-FACIO** - PINTURA: Graça Fontis/COMENTÁRIO NO LIVRO "GRITO ANTIGO", DE PAULO URSINE KRETTLI: Manoel Ferreira Neto


Vale ressaltar, sublinhar UM RIO DE ÁGUAS LÍMPIDAS, comentário meu no Livro GRITO ANTIGO, de Paulo Ursine Krettli, foi publicado por mim algumas vezes aqui no Face. Agora, no comentário dele, "Em meu livro, GRITO ANTIGO, tão citado e bem falado por Manoel Ferreira Neto, há esse poema meu, citado no prefácio, aliás, o primeiro de todos.
ADEUS", fora ele quem publicou.
Noutra consideração minha, já me referi as situações e circunstâncias em que fora escrito. Mas há algo a ser dito.
MEIGUICES INSOLENTES DO INFERNO, também enviado por ele, estava em sua mão, fora escrito depois deste comentário do livro. O primeiro texto poético que escrevi numa madrugada num quarto de pensão na Savassi, Santa Rita Durão com Pernambuco. Nada do que escrevera antes se assemelha, é-lhe similar, o início da prosa poética, que Paulo Ursine elogiou com euforia. O segundo texto poético, este comentário, que é, sem dúvida, uma crítica da linguagem e estilo, do eu poético "ursiniano". Estes dois textos são o início de minha vida na dimensão poética. Antes, foram escritos muitos contos, que ficaram em mão do professor ONOFRE DE FREITAS, nosso professor de Literatura Portuguesa. Onofre de Freitas já é falecido. Não sei como poderia re-adquirir estes contos, completar a minha obra que fora escrita desde o lançamento de CONT.ANDO, até 1985. Talvez não os readquira mais, mas Paulo Ursine confirma que escrevi muitos contos. Pretendo ir a Belo Horizonte ainda este ano, para o reencontro pessoal com o meu querido amigo poeta, escritor, acompanhado de minha Esposa e Companheira das Artes, Graça Fontis, vou tentar reencontrar a esposa ou os filhos de Onofre e pedir que procure no acervo dele estes contos. Estimo muito que reencontre.
Paulo Ursine Krettli, sabe como hoje analiso e interpreto o título deste comentário do seu livro? O rio de águas límpidas é metáfora, signo, símbolo de lealdade, fidelidade, amizade entre nós. No final deste comentário: "Sigo em direção ao pleno". O texto. Analisando e interpretando esta frase, digo: "Este pleno é o nosso reencontro, e a partir dele seguimos juntos". Juntos, eu, minha Esposa e companheira, ele, nos caminhos da Arte, da Amizade sincera, verdadeira.



AMIGO, Manoel Ferreira Neto, AGRADEÇO SUA SENSIBILIDADE AO COMENTAR MEU PRIMEIRO LIVRO DE POESIAS, GRITO ANTIGO, PUBLICADO EM 1989. " UM RIO DE ÁGUAS LÍMPIDAS" (PAULO URSINE KRETTLI



Sento-me à beira de um rio. A água desce suave e levemente. Para onde irá esta água? Corre infinitamente rumo ao mar, onde encontrará o seu azul, chocará com as docas; deixará, nalguns buraquinhos, águas. Quem, do lado de cá, olhar para o mar, lembrar-se-á deste rio, de sua água passando meiga e docilmente, deixando, no seu coração, a gênese de todo mistério e enigma, o amor. Verá o mar encontrando com o céu, o infinito azul do céu. Lembrar-se-á deste rio que se angustiou, desesperou-se nas suas noites claras e/ou infinitamente escuras, a tecer o seu único anseio logo ao chegar da manhã: deixar nos corações, de quem se propõe a sentar-se à sua beira, os eidos do entendimento e compreensão dos homens e do mundo, incluindo-se aí o amor e a profunda afeição por uma descoberta juntos. O rio segue a sua trajetória rumo ao mar, ao pleno, ao absoluto, ao infinito. Uma trajetória imensamente solitária: de noites claras, em que a angústia do tecer e coloca-lhe frente a frente com o brilho destilado e engolfado dos homens solitários e tristes, que flanam pelas ruas não menos solitárias e tristes; o asfalto dorme o seu sono irrequieto. As janelas abertas. A noite, áspera em sua superfície, mergulha no abismo de um “Grito Antigo”. Mas este rio nunca cessa a sua trajetória solitária. Alguns homens já se levantaram de sua beirada. Ao sentar-me, aqui, trouxe comigo a humanidade. Não tinha a intenção de nada lhe dizer. Tinha a intenção de mostrar-lhe este rio que corre em direção ao mar. Os que se levantaram, prosseguindo a sua caminhada, compreenderam todo o mistério da existência. O rio deixou, no âmago de seus corações, o amor. O rio segue de cabeça baixa e feliz, uma felicidade enorme no peito. Conseguiu a sua intenção. Muitos homens permaneceram um longo tempo à beira deste rio. Um tempo incomensurável.
Suas águas são límpidas e claras. Há pedrinhas brilhantes em seu fundo. Peixinhos perambulam e nadam na limpidez e claridade destas águas serenas. O estilo... Que belo estilo o e claridade destas águas serenas. O estilo... Que belo estilo o destas águas e são águas que não entrechocam e contradizem! Deslizam humanamente à retina de meus olhos castanhos sofridos. A humanidade, no peito, aflora espontaneamente. Sofreu, angustiou-se, desesperou-se. Nenhuma esperança para ela após as guerras. Futuro-presente-passado. O mundo engolfou-se em si mesmo. A humanidade, nua. Quer sentir, agora, o estilo destas águas límpidas, retirar de seu fundo o amor e a esperança, elementos fundamentais para o prosseguimento da sensibilidade, prosseguimento da existência. As mãos do rio são vazias. Estarão, para a eternidade, a segurar e apoiar as suas mãos frágeis, que, nalgum sítio, estarão mais limpas e não serão mais vazias. Os meus olhos piscam. Alguns dedos seguraram, mas as emoções foram imensas. Uma lágrima escorre em meu rosto. A lágrima do conteúdo consciente. A consciência aflora. Sofro. Um sofrimento de um sibilo de vento entre serras: a humanidade sofre. O homem é a síntese: indivíduo e humanidade. O indivíduo caminha solitário. A humanidade segue seus passos. Nalgum sítio estaremos todos juntos, após “Grito Antigo”. Diremos todos: sou eu. E ninguém mais se angustiará com a peremptória perquirição: “Quem Sou Eu?”. O céu será de todos. Na terra, nenhum exílio. Caminharemos rumo ao mar, ao pleno, ao absoluto.
E quem é este rio de águas límpidas? É Paulo Ursine Krettli. E o amor, quem é? É “Grito Antigo”. Um amor que atravessa a existência de um extremo ao outro. Uma consciência que a claridade destilada do mundo não esquecerá por toda a eternidade.
Levanto-me da beira deste rio de águas límpidas. Sigo em direção ao pleno.
MANOEL FERREIRA Manoel Ferreira Neto



(*RIO DE JANEIRO**, 17 DE FEVEREIRO DE 2017)


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