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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

INSIGNES RIQUEZAS DO VERBO - Manoel Ferreira



Há o que jamais pude compreender e entender e, aliás, não sei se será possível que  possa fazê-lo em tempos vindouros. Acredito que será muitíssimo difícil que nesta circunstância venha eu a modificar os meus pontos de vistas a respeito, as opiniões concernentes a este fato. Não digo que não o faça, digo que será difícil, mas quanto ao futuro nada posso responder ou afirmar categoricamente. O futuro só a Deus cabe saber.

Há alguns indivíduos que, diante de suas certezas, certezas de haver algo que não fariam ou não farão em hipótese alguma, têm o estilo mui singular de afirmar que se fizerem o algo que afirmaram nunca o fariam, podem ser internados numa Casa Verde, isto para enfatizar com o lugar onde Simão Bacamarte, de O Alienista, de Machado de Assis, internava todos aqueles que em sua concepção estavam loucos, podem ser internados num manicômio, pois estão loucos.

Há sim algumas coisas que nenhum indivíduo em sã consciência faria, pois que denigre as suas imagens, e isto, diante de suas culturas, costumes, hábitos, educação, moral. Em verdade, não fazem mesmo, o que sustenta e bem o caráter e personalidade destes indivíduos, tornando-lhes uma referência. Nem mesmo escondido, na surdina, como se costuma dizer, são capazes de praticar o ato, a atitude, a ação, que, para eles, são o testemunho de indivíduos sem valores e virtudes.

Há, como o disse desde o início, o que não pude compreender e entender, ainda não posso fazê-lo, embora haja uma enorme tentativa de o fazer. Não o posso. O que é tão difícil assim de ser compreendido e entendido por mim?

Há, em verdade, um enorme e eloqüente prazer, aquando tomo em mãos o livro de um autor que realmente sabe escrever, o seu estilo é límpido, há nele uma preocupação de beleza com a sua arte. Os olhos deliciam-se com aquela forma erudita, clássica, e isto torna a sua escrita algo de uma sonoridade sem precedentes. Aliás, torna-se uma leitura em que todos os elementos e dimensões são compreendidos e entendidos, a interpretação surge ao espírito num estilo espontâneo e livre. São autores que têm um dom de comunicar e expressar suas idéias e pensamentos em comunhão, suas intenções e desejos em uníssono.

Há a impossibilidade de compreensão e entendimento é de no mercado literário haver um desfile de mui dignos autores, desfrutando de prestígio e renome, que não sabem escrever num estilo agradável aos ouvidos, cometem erros crassos de toda ordem, não porque as circunstâncias assim o exigem, mas porque não conhecem o objeto específico de seus trabalhos. Se questionados, suas respostas são evasivas de todo, não havendo nem como argumentar. Se disser eu que estes insignes autores influenciam de modo absoluto os seus leitores a se expressarem como eles, não havendo o mínimo cuidado com a língua, não havendo o mínimo apreço com a expressão de seus sentimentos, emoções, idéias, pensamentos, haverá quem diga que isto não se encontra apenas nos livros, não são apenas os autores que influenciam, há toda a mídia que contribui para com que a nação inteira fale errado, não se interesse pelo conhecimento do objeto de expressão, de comunicação.

Há muitos escritores iniciantes que escrevem bem, estilo de causar inveja em Machado de Assis, quem, sem dúvida, é o maior escritor de nossa Literatura Brasileira, em termos de erudição, e esta mesma erudição legou-lhe este privilégio, embora haja muitos quem não apreciam este estilo, e têm a maior dificuldade de publicarem seus trabalhos, pois que as editores recusam estes trabalhos por serem eruditos, por serem clássicos; os leitores não se interessam por uma linguagem, estilo diferente, as obras ficarão encalhadas, os custos de publicação são altíssimos.

Não há nestas palavras o mínimo desejo ou intenção de denegrir a imagem destes insignes escritores, de negligenciar o trabalho de editoras, há aquelas que se interessam por escritores que têm o que dizer e sabem como fazê-lo. O que realmente desejo enfatizar é que os ilustres escritores iniciantes têm muito a contribuir com o interesse pela Língua Portuguesa, mudando o quadro nacional, educando os brasileiros a terem apreço e carinho pela expressão de suas vidas, desejos, sonhos. Por mim, não creio que seja possível haver expressão, se o indivíduo não conhecem o objeto específico desta expressão.

Há, então, a dificuldade de entendimento e compreensão de minha parte no concernente às editoras não investirem nestes ilustres escritores iniciantes, não lhes darem a oportunidade de publicarem seus trabalhos, suas obras. Tudo é o primeiro passo. Dado o primeiro passo, com responsabilidade, com apreço, e, numa linguagem empresarial, se os editores divulgam estes novos trabalhos, estão com efeito trabalhando para a inovação, a renovação das letras nacionais, e isto, sem dúvida, pesa e muito no conceito deles.

Sendo eu um escritor iniciante, tendo dificuldades de publicação de meus trabalhos, devido à linguagem e estilo eruditos, esta reflexão e meditação acerca de no mercado literário os importantes, com algumas exceções proeminentes, como por exemplo, Rubem Alves, Leonardo Boff e outros, serem justamente estes insignes escritores que não têm conhecimento algum do objeto de seus trabalhos, significarem unicamente um modo de chamar a atenção sobre mim, um desabafo por não conseguir ver meus trabalhos publicados. Infelizmente, isto pode ser interpretado deste modo.

O que há realmente neste escrito é uma preocupação com a educação de um povo, de uma nação, e a Literatura é realmente a responsável por isto, não só em termos de ideais, utopias, sonhos, mas também em termos de os indivíduos aprenderem a expressar suas idéias e pensamentos de modo límpido e nítido, e só a Língua Portuguesa pode com isto contribuir e muito. 

DES-ALGEMA DE NÓS - Manoel Ferreira


Se me disserem que “o branco é preto, em verdade...”, acredito, sem pestanejar, sem quaisquer dúvidas ou desconfianças,  não sei se passando a divulgar entre os homens da comunidade, incluindo as mulheres, são da raça humana; comigo mesmo, entretanto, assumo o branco ser preto, em verdade. Concluindo o dito, “... embora o preto não seja branco, em verdade”, isto porque nem sempre a inversão se torna verdadeira e plausível de entendimento. Diria a todos os ventos o que me convenceram, mostraram-me a face verdadeira, e comigo amaria o novo em mim, “o branco é preto, em verdade; embora o preto não seja branco, em verdade”. “Em verdade” seria apenas para enfatizar que acreditei piamente no que me disseram, e acreditei tanto que se tornou verdadeiro não apenas aos meus olhos, à minha racionalidade, à minha razão, mas ao meu espírito e alma.
Mostrando-me a partir de argumentos os mais racionais, com estratégias de linguagem e estilo, não em palestras ou entrevistas, mas no trocar de dedos de prosa, os mais plausíveis, inteligentes – oh, como a raça humana progrediu e se desenvolveu na mentalidade!... Sinto-me sobremodo orgulho de ser contemporâneo dela. Não acreditaria nisto de liberdade nesta comunidade, apesar de que é o berço de lutas e angústias pela liberdade, berço da arte e da música, berço dos ideais e utopias os mais profundos e geniais, em verdade... Isto só um imbecil, destes que apresentam o cartão em todas as suas conversas, íntimos, cúmplices, dizendo “sou um imbecil; não compreendo as coisas sérias”, não iria acreditar nesta História.
Por que não acredito ser esta comunidade livre, esta terra livre? Pergunta óbvia, analisando em todos os ângulos a inteligência e a sabedoria. Outra não seria de modo algum plausível, até desconfiando da inteligência, não havendo o cartão, mas a realidade óbvia diante dos olhos.
Não estou colocando isto em discussão, as idéias claras acompanhadas de intenções as mais sinceras e responsáveis, por não ser de minha alçada travar colóquios estilizados e cristalizados acerca da verdade e responsabilidade histórica de uma comunidade, não sendo nascido nela, não sendo o objeto de meus conhecimentos profundos. Aliás, muito pouco conheço, e, dizendo em verdade, tenho sérias dúvidas do que conheço.
Não me cabe discutir este assunto. Deverei, com certeza, pesquisar a fundo a História desta comunidade. De bom senso inclusive, antes de afirmar algo sério, comprometedor. Pouco tempo de residência e domicílio não permite a ninguém conhecer a fundo a cultura de um lugar.
Sim. Assumo esta realidade, reconheço nada saber da história, nem informações precisas devo conhecer. Questionaria: “Se posso dizer estar nas condições normais de sanidade, sem a identidade, como pode haver a liberdade? Passado é passado, a História não pára. Onde está a identidade de um povo que não conhece o seu presente?”.
Assunto muito complexo, a intenção não é, em verdade, discutir, causar polêmica, ser aclamado, rejeitado, odiado, a moeda só tem duas faces, não é verdade? Para causar polêmica  mister se faz conhecer a fundo as coisas, é preciso que as coisas sejam em demasia sérias, e a seriedade delas não a encontro em lugar algum, só vejo farsas e tramóias em todos os lugares, só conheço pessoas hipócritas e imbecis, nada conhecem de nada, e o que conhecem são o que ouviram deste ou daquele cujo interesse fora único, que ninguém conhecesse a verdade, em verdade.
Ando meditando profundamente no tangente à identidade, a partir da infância até agora com quase cinqüenta anos, o que construí, em que nível amadureci, desenvolvi, podendo dizer sou homem livre. As experiências e vivências trouxeram-me até aqui, há um curriculum vitae, conheço algumas coisas de mim, outras des-conheço, e só com este encontro do mistério é que me posso revelar.
Não seria isto que está em discussão, a minha vida, pouco me importando se o que é dito e escrito sobre a História desta comunidade é de direito e merecimento, se não é, se há inúmeras lendas, preconceitos, mitos, a verdade está ainda por ser dita, esclarecida, ocasionando a falta de identidade, de liberdade.
Sou quem não sou e não sou quem sou, quem sabe podendo traduzir estas palavras por “tudo o que trago em mim dentro é aparência”, assim não tendo mais respostas a dar a  ninguém, condenado a ouvir sempre estas palavras em quaisquer situações. O que estaria esperando? Devo, então, procurar modos de superar os problemas inúmeros ao invés de estar dizendo a comunidade ser ainda escrava, as algemas estão ainda mais presentes.

Numa moeda não há apenas duas faces, há inúmeras, quem sabe abrindo assim possibilidade de apresentar uma flexibilidade das palavras, deixando aos outros a interpretação, o que está realmente em discussão.        

CINZAS DO ÓCIO - Manoel Ferreira


Antes até que não seja por inteiro entendido, gostaria de apresentar o sentido em que me ocupo para falar a respeito das cinzas do ócio, conhecimento, inclusive, que irá proporcionar esclarecer  mistérios e enigmas que, porventura, estejam envelando, mas isto é apenas uma estratégia, um modo de tripudiar as inteligências, tudo está muito claro, muito específico.
Há momentos em que não se é possível apresentar argumentos que invalidem as desconfianças, as hipóteses, não são desconfianças, não são hipóteses, são as verdades mais nuas e cruas, algo assim muitíssimo interessante é que são os débeis que primeiro percebem e vêem, é a oportunidade que têm em mãos de mostrar não são débeis, não são dementes, são inteligentes, são perspicazes, são sábios, e não há quem consiga isto negar ou negligenciar, para todo o sempre será, mesmo que ninguém aceite ou endosse por delicadeza e gentileza
Se é verdade que se pode acreditar a fênix renasce das cinzas, pode-se também acreditar, sabendo como irei apresentar, que o sentido em que me inspiro é relevante, assaz importante para haver insinuado no espírito com louvores à sua beleza, e ter a alguém dito como é esplendoroso entregar ao fogo tamanhos encantos, e ainda lhe encarecer a constância e a coragem.
Encarecer a constância e a coragem de que ou de quem?! Se de imediato não revelo o que estou  entendendo por ócio, o sentido dicionarizado, o sentido que os ignaros e imbecis normalmente entendem, estando sim equivocados, mas o equívoco alimenta e protege as intenções mais perspicazes, é que estaria de um modo covarde e suspeito agindo, entregando o riso aos ouros, se assim posso dizer, referindo-me a perder a graça de durante toda a leitura quem lesse, quem ouvisse, quem não importa, estar a buscar o que entendo, estaria enganado quanto ao seu, o sentido que atribui à palavra “ócio”, estaria equivocado, mas isto seria assumir o equívoco, e este protege as intenções mais perspicazes, seria um cínico, seria um falso, seria um homem vil e estúpido. Obrigaria a este leitor/ouvinte a reler, se obra, pena, não houve a gravação na emissora de rádio; lendo a obra, não conseguiu ainda destrinçar, deslindar, não conseguiu ainda livrar-se do sentimento de que é a sua imagem ali refletida.
Tendo demonstrado nestas ainda poucas linhas do prazer e deleite que será chegar ao fim, começa-se e não vê terminar, um espetáculo de linguagem, de estilo, de forma, de conteúdo, de inteligência e perspicácias, sem deixar de lado  a sabedoria,com que o tema do ócio fora desenvolvido, um requinte de construção e numa linguagem até certo ponto suave e meiga, dócil e compassiva, sem esconder interesses espúrios, sem tripudiar e sem dissimular, algo assim muito translúcido.
Então, se apresentasse de imediato o sentido que estou entendendo aqui por esta preciosidade de intenções e desejos, de êxtases e volúpias, aquando estando a buscar compreender a condição humana, os sentimentos mais sutis nas vilezas e hipocrisias, ninguém iria desejar roer primeiro as suas carnes frias, refiro-me aos vermes. Tendo demonstrado a sensação do fogo por causa da linguagem e por vaidade, falo longamente, de modo a fazer-me amar um pouco a vida e chegando até a inspirar alguma benevolência por aquilo que me falta.
Linguagem até certo ponto suave e meiga, dócil e compassiva... Linguagem que queima as entranhas, as dores e sofrimentos atrozes, um medo sem limites e uma vontade enorme de ultrapassar os limites, revelar-se por inteiro, mas há algo que lhe falta para esta ultrapassagem, para este conhecimento de tão tamanha negligência, tão grande sentimento de culpa e responsabilidade, tanta vileza e mal-caratice. Afinal de que mesmo está dizendo? O que é tão horroroso assim? O que há de demência? Que atitude é esta, enfim, que torna qualquer homem um nada, até dele próprio é capaz de rir, um idiota completo e absoluto, um “bobo-da-corte” como se é costume dizer. Não revela, e quem sabe nem revelará, encherá sua lingüiça, mostrará seus argumentos de estilo e criação, e ninguém saberá. Fica a critério de cada um deslindar seus mistérios, suas dores mais ocultas, suas cicatrizes, seus pitis e achaques.
A alegria de um homem venturoso seria uma ofensa sem precedentes, aliás, a título de uma ironia aos senhores doutos quem de imediato intuem e percebem os pormenores mais sutis, inclusive lembrando de que até o presente instante não apresentei o que entendo por ociosidade, não sendo mesmo uma idiotice, mas figurará como a única frase de um único parágrafo ao final, como entendo que alguém, lendo, terá sua volúpia e êxtase de retornar ao início, relendo, e fará isto inúmeras vezes por causa dos deleites espirituais e sensíveis de seu espírito e de sua alma, entrega-se a contemplar os arbustos que, apoiando-se um no outro, fortalecem-se contra a tempestade.
Isto de acariciar a serpente até que ela haja engolido o coração não é atitude, não é desejo de alguém, além de estar sendo engolido, enquanto acaricia, ouviria os risos de quem assiste à cena, e isto seria intolerável de assumir, tem de assumir, ficará no mundo apenas a imagem do imbecil que estava sendo. Não acredito também noutra coisa, se haveria alguém quem tenha horror à própria existência e apega-se a ela. Não há quem algo neste nível assumiria assim de mão-beijada, como diz o vulgo e os doutos, nestes assuntos são mestres, doutores, com extrema facilidade, até mesmo desconfiando se houve algum equívoco outro.
Jamais falaria de minhas desgraças, dos sofrimentos de toda a minha vida, do que fui obrigado a passar com algumas pessoas, os traumas e conflitos que habitam a minha alma. Esta ridícula fraqueza de se abrir com as pessoas sobre coisas muito íntimas é quem sabe um dos pendores mais funestos: não creio haja algo tão tolo quanto carregar continuamente um fardo que sempre se quer lançar por terra. Expor-me no mercado literário, isto nunca. Se se revela possível agora dizer algo que exista nesta entrelinhas, se for verdadeiro, direi com todas as letras, inclusive sugerindo que a palavra seja separada em sílabas por hífens, assim fica bem explícito o tom e a densidade da voz com que é pronunciada, com que é escrita: “Ver-da-dei-ro”, como o fiz com alguém em uma correspondência, preocupando-me em escrachar com a ortografia, assim suscitaria que estivesse bêbado, na verdade escrevi bem confortável à mesa de minha residência: “Ca-na-lha”.
Cada palavra que pronuncio neste monólogo, para mim, quem está sentado à cadeira de sofá em sua alcova, domingo à tarde, algum resto de sanduíche de pão com queijo, chapado, um copo de suco de limão capeta, adoro, que sabor mais sutil e provocante; para quem porventura estivesse a ouvir-me, uma conversação que acumula prodígios sobre prodígios, a alma inteira coando na ponta da língua, atenções perspicazes da audição, fulgurantes os olhos que  contemplam as palavras, que as lêem, sem o suco de limão-capeta, quase ninguém suporta, conheço alguém que chupa como se estivesse chupando qualquer outra fruta, estrala a língua de tanto prazer. Há gostos para tudo. Sou eu quem chupa, estralo a língua de tanto prazer.
Referia-me a apresentar o sentido do termo “ócio”, não me tendo ainda dignado a fazê-lo, pois que está sendo construído nas entrelinhas das palavras, está se revelando em todo o seu êxtase e volúpia, desejando servir a ambos os lados, ter um reino no céu e outro no inferno, livre acesso de um para o outro, nestas ou naquelas circunstâncias e situações, mas suscitando muitos sofrimentos contidos na alma, o desejo de liberdade plena e absoluta, de sobrevoar com a imaginação todos os horizontes, todas as montanhas verticais que se erguem como muralhas, só sendo possível desce-las por perigosos precipios, mesmo assim é uma aventura esplendorosa, exigindo apenas perspicácia e destreza, qualquer deslize não sobrará nem a alma para registrar os fatos e acontecimentos.
Se está sendo elaborado desde o início, se este sentido já se encontra delineado e burilado, restando apenas que a última palavra seja falada, justificaria sim que o fizesse. Daí em diante, falado, seriam sim as interpretações, cada um chegando a este ou aquele ponto de vista, passando os anos, os séculos, os milênios, estas e aquelas interpretações, e sempre suscitando outras... Talvez tenha sido esta a intenção com este monólogo ou conversação, não sou quem isto decide, talvez tenha sido este o interesse em permanecer não dizendo o que entendo por este termo “ócio”, e com ele sendo capaz de suscitar nos íntimos muitos mistérios e segredos, e se ele se dispõe a averiguar será com quem se encontrará, o encontro será consigo, a imagem refletida no espelho é dele próprio.             
Se encarecido a constância e a coragem de que ou de quem? Seria sim necessário apresentar a que esteja porventura desejando suscitar, mas é a bem da verdade que a busca insaciável de conservar a tensão do mistério, a tensão dos encontros e desencontros, prendendo a atenção de quem ouve ou de quem lê até ao final. A constância e a coragem disto elaborar e burilar com arte e engenhosidade. Encarece a constância e a coragem tal atitude, tal perspicácia com a linguagem, com a destreza em colocar as palavras em seus devidos lugares, suscitando interpretações muitíssimo variadas, um mergulho profundo nas melancolias, nostalgias, nas idéias tristes e desconsoladoras. Torna-se alguém quem conhece os liames de sua sensibilidade, os interstícios da criação, da intuição, da percepção. Nos espíritos onde florescem as artes, os homens são devorados de mais inveja, de mais cuidados e inquietações do que experimentaria alguns outros de suas misérias e cinismos.
    Até havia me esquecido do sentido que atribuo ao termo “ócio”, interrompi-me por um instante, tomei o último gole de suco de limão-capeta. Surgiu-me que “ócio” significa:
  “trabalho mental ou ocupação suave, agradável”.  
      
 












DE MEMÓRIA NA PRÓPRIA IMAGEM - Manoel Ferreira


Disse-lhe que sim, que me não era possível esquecer de uma piada tão sugestiva, aliás, qualquer piada é uma demonstração de inteligência, não existem piadas ignaras, podem ser sem graça, não provocando tanto riso, mas com certeza pode-se interpretá-la através de um sem-número de prismas, de ângulos. Se algumas piadas, mesmo que muito engraçadas, não fazem rir, não é por causa dela, mas porque a pessoa não sabe contar. Sou eu este homem quem não sabe contar piadas, qualquer uma é sem graça, não faço rir ninguém.

Tive até a presença de espírito de lhe dizer que escreveria um artigo com a piada, seria preciso, claro, de muita perspicácia, criar situações, re-criar fatos e acontecimentos. Começaria o artigo dizendo que estávamos na cozinha, enquanto ele jantava, a televisão estava ligada. Não aceitara jantar com ele, pois que havia jantado antes de dirigir-me à sua casa. Aceitei um suco de guaraná que, aliás, estava uma delícia. A vontade fora de pedir mais um suco de guaraná, mas me contive. Tenho problema de pressão baixa. Se tomasse mais um copo, com certeza, poderia sentir mal. Ao contrário, pedi um gole de café. Estava com vontade de fumar.

Comentei com o amigo que já fizera a experiência de contar piadas em meus escritos, mas não cria que tivessem algum valor. Tenho ouvido muitas piadas. O diamantinense adora uma piada, e, com sinceridade, sabe usar de sua arte. Não há como não rir, mesmo que seja ela sem graça. A que acabara de contar havia chamado muito a minha atenção. Não saberia dizer o porquê. Chamara a atenção. Lênin sendo recusado de ficar no céu, no inferno.

 Talvez houvesse despertado tanto interesse em mim por eu ter uma ligação muito forte com a cultura russa, tendo lido toda a Literatura Russa do século XIX. O meu amor sem limites pelo escritor Dostoievski quem deixara em mim uma influência muito agradável: a de nada negar, a de nada idolatrar. Era a primeira vez que ouvia uma piada, envolvendo um russo. Envolvendo um Lênin.

Havia um pequeno problema. Cria que não causaria riso em ninguém escrevendo sobre esta piada. Não que não seria capaz de criar situações. É que ler um piada é muito diferente de contá-la.Se quem sabe fazê-lo com destreza e genialidade, faz até um imbecil ler, com certeza, se ele escrevesse, faria muito mais rir, até gargalhar até mais não poder. As letras seguem a genialidade em qualquer nível. Teria em mãos um sem-número delas. Não teria limites em sua arte de contar piadas na Literatura. Comigo é diferente. Não sei contar. Escrever muito menos. Contudo, iria tentar. Não diria que sairia algo digno de respeito, de consideração.   

Seria este o início do artigo, como, dito de passagem, está sendo, pois que achei interessante haver dito que assim iniciaria. Difícil, extremamente difícil para mim é, antes, de algo escrever, fazer planos, pensar e repensar como é que vou descrever esta ou aquela situação, este ou aquele acontecendo. Sento-me e escrevo. As vezes que tentei planejar, dei com os burros n´água. Então, comentar com alguém que irei iniciar desta ou daquela forma, é algo absolutamente novo, jamais o fiz, nem pensara que algum dia iria fazê-lo.

 Após haver indicado o início, pedi licença, estando sentado na poltrona, para abrir a porta da cozinha, fumaria um cigarro, enquanto conversávamos. Estava ele jantando. Comer com o cheiro de fumaça de cigarro é algo que algumas pessoas não toleram, não toleram fumaça de cigarro de forma alguma. Sou um fumante inveterado.

Conversávamos, enquanto eu pensava na piada que havia acabado de ouvir. Lênin, o russo, morrera. De imediato, fora ao céu. Bateu à porta, sendo atendido por São Pedro, quem lhe disse que seria muito difícil ficar no céu, tinha, antes, de conversar com Deus, quem poderia ou não aprovar ficar ele no céu. Esperasse um pouco. Deus, respondendo a São Pedro, reprovou mesmo a sua estada, não podia de forma alguma ficar no céu. Fosse ao inferno. Não disse que o lugar de Lênin era no inferno. Disse que fosse lá.

Sem o que dizer a São Pedro foi ao inferno. Começou o seu discurso com Mefistófeles, dizendo-lhe que fora ao céu, mas Deus não o quisera receber, sugeriu que fosse ao inferno. Mefistófeles ouvira o discurso de Lênin, sem emitir uma única palavra em contrário ou a favor, enquanto falava, mas, terminando, disse-lhe que não, não podia de modo algum ficar no inferno. Voltasse ao céu. Deus é muito generoso, humano, compassivo, misericordioso. Iria perdoar-lhe os pecados. Conversasse com humildade, simplicidade. Mostrasse arrependimento de suas culpas, remorsos, pecados. No inferno, é que não ficaria.


De volta ao céu, logo que chegou, tornara a bater à porta, sendo atendido por São Pedro. “Você de novo, Lênin?!...” Sim. Mefistófeles não o quis receber. Estava numa situação muito difícil. Deus não queria recebê-lo, Mefistófeles também não. Para onde iria, então? São Pedro fora até Deus, explicando que Lênin estava sem lugar para ficar. Deus logo decidiu ligar para Mefistófeles. Veria o que poderia fazer. Mefistófeles se negava de pés juntos a receber Lênin no inferno, mesmo que não tivesse outro lugar para ele. Deus então quis saber o motivo qual era. Respondera Mefistófeles: “Não quero concorrente aqui no inferno...”         

VERSOS, IN-VERNO E SOLIDÃO - Manoel Ferreira

 

Águas de palavra tênues,

Singelas, cantadas

Pelas vozes sussurradas,

Mostram aos indivíduos,

Que trazem na alma os sofrimentos

E dores dos caminho trilhado e percorrido,

Os sonetos ao som das liras,

Quando a semente reina ao longe,

Fecundando os campos do espírito.

 

Na memória dos crepúsculos e auroras

Ao longo da vida,

De sendas esquecidas

Do universal delírio,

Nos passos secos e duros na terra,

Em cujo solo nasceu e re-nasceu

O esplendor das flores,

Em inauditos versos e verbos que inspiram

Os angélicos sonhos

De quimeras, fantasias,

A melancolia, nostalgia de amplos

Livros

Em cujas páginas as letras

Desfiam os eternos júbilos, mortais orgulhos.

 

A terra patenteia lúgubre aspecto,

Indaga a alma inquieta,

Num perpétuo questionar

As encobertas dores, de tempos perdidos

Na violação do último sono eterno,

As trevas costeiam os muros,

E seguem a ausência.

Toco a lira divina,

A música alteia

Os tristes restos de ossos,

Espalha pela sala sagrada da história

A última nota,

Os sinais funestos de uma melodia simples.

 

Ergo minha alma

Que dorme nas trevas,

Nas brechas entre os galhos e folhas

De árvore solitária

No ermo do deserto,

Sangrando-me na luz a glória

Suprema dos rios gigantes da floresta

Que tingem assustadas águas.

 

Os olhos se perdem,

Lúcidos e extasiados,

No brilho sombrio da sombra

De árvore seca projetada no muro

Secular dos tempos.

 

Irreverência de verbos e versos

Em cujas entre-linhas

Des-lizam as vertentes de

Pronúncias coloridas de branco e verde;

Falta-me a insolência das inauditas palavras

Que, divididas, reúnem as côdeas

De pão sagrado e profano,

Saciando a fome milenar,

No bom sabor de vinho espiscopal;

Falta-me a epígrafe dos sonetos,

O epitáfio das sandices poéticas e prosaicas,

O epíteto dos sibilos de vento

No instante último do crepúsculo.

 

Falta-me a obediência

Aos solenes princípios

Que, das ruínas seculares,

Edificara o tempo de antanho

Às glórias de outrora,
Na soleira do uni-verso
Descansa as esperanças de arriba;

Falta-me a veemência aos deuses
De pedra,
Ás imagens de madeira,
Que, ao olhar sereno e descompromissado,
Desfilam as perspectivas
De outros crepúsculos à luz do sol ameno,
Em cujos descansam os idílios.

Nu, como a consciência,
Despido como a razão,
Abro-me aqui nestes frios rumores
Do crepúsculo.
Vós que correis, como eu, na vereda fatal,
Na senda originária da tragédia,
Em busca do mesmo ideal e do mesmo alvo!
Trajo de luto a folha
Em que deixo escrita a suprema saudade
Da anunciação, da aurora, quando me abre as portas
Desta vista as dores infinitas,
E quando acredito de modo ímpio e obtuso
A alma errante e perdia em faltal
Desterro embacia nalma
O espelho da ilusão. 



 



 

 

 

 

 

 


 

VELHA CIDADE SEPULTADA EM SOLIDÕES - Manoel Ferreira


O tempo invento-o. Onde posso inventar o tempo, dar-lhe outras feições e semblantes diferentes desse que fora inventado quando a memória não pode mais abarcar? Existiria outro? Não me é dado saber se existiria por estar ouvindo música e esta irá terminar daqui a alguns instantes, e tudo será nada, nada será desse momento, a não ser que de novo coloque a música para ser executada, o tempo será outro diferente desse, não o inventei, acontecerá independente de minha vontade. O interesse é inventar o tempo.
Invento-o no meu sangue que percorre o corpo através de suas veias desde os dedos dos pés até a cabeça. É um tempo absoluto, o fulgor da eternidade. Por que tanto interesse em inventar o tempo? O que me excita no sentido de fazê-lo? Não me é difícil sabê-lo: é só olhar esta cidade à noite, quando se percebe que tudo está sepultado em solidões, solidão nos becos, solidão no interior de todas as casas, solidão no corações de todos os humanos. A vida nessa noite de inverno entendo-a na iluminação do frio em que me sinto, sinto-a nas retinas, sinto-o no corpo inteiro, e não desejo o que quer seja para defendê-lo, ampará-lo. Entendo-a na iluminação em que me estou vivendo, um estrangeiro que, após a paixão inesperada, viu-se envolvido inteiro por ares inóspitos de tudo o que fora construído no passado, e nada hoje conservado, preservado, sentimentos e emoções trancafiados nos subterrâneos de outrora, a chave perdida para sempre. É possível por isso que a todo o meu passado eu o esteja coordenando sem saber, sem qualquer noção, eu o esteja re-criando sem saber, reinventando sem o desejar, como se fosse ele inimaginável fora de como o estou vivendo. Fora do frio, dessa noite de inverno, fora da iluminação dos postes públicos, das luzes das casas e dos prédios que ameaçam a todo momento ruírem e em questão de segundos tudo se tornar escombros de um tempo, e nada mais existir hoje, restando seguir alguma estrada à busca de um lugar onde tudo se anuncia, onde tudo é apenas anunciação, revelação. Tudo isto é verdade. Se tenho tanta necessidade de inventar algo, só posso pensar em dois possibilidades para explicar: primeiro, o tempo nunca existiu; existiu, mas fora vivido por todos os homens de um único modo e estilo, e a fixação fê-lo extinguir-se, nada mais existindo dele. É verdade, porque a solidão é tão estúpida, medíocre, mesquinha.
Tenho apenas para viver, e seria quase uma traição que eu faltasse ao seu encontro, contar-lhe, sentados num tronco de árvore, à porta, o que conseguira criar, inventar, o que conseguir realizar. Por isso, procuro-a nesses escombros todos de todas as ilusões, orgulhos, empáfias, procuro-a em toda a parte onde sei que me espera como uma palavra a dizer, um sentimento a expressar com seriedade e honestidade. O que se pode relembrar de Atenas Atéia não tem face nem nome, é a forma oca, vazia de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição. Num longe imaginado, passam os ventos em linha, os sibilos em seqüência, massas de neblina deslizam sobre as ruas, becos, alamedas, prédios abandonados, uma voz de espaço ressoa à minha atenção suspensa.
O que é certo e imediato – ao menos é o que consigo fantasiar nessa noite de inverno, sentado ao banquinho de pedra nessa praça, tão esquecida quanto qualquer outra existente, tão inexistente quanto as calçadas ao longo de toda Atenas Atéia -, o que me vem à boca e tem nome, o que é exato e imensurável, refugia-se na timidez da penumbra e do silêncio.  A voz que me fala transcende o passado e o futuro, vibra verticalmente desde as minhas raízes até aos limites do universo, aí onde a lembrança é só pura expectativa despojada do seu contorno, é só pura interrogação.
Neste instante absoluto, conheço a vertigem da infinitude, o halo mais distante da minha presença no mundo. Se houvesse alguém comigo aqui, conversando, estando a dizer-lhe isto mesmo, poderia perguntar-me com todo o direito e merecimento a razão de haver trocado o lugar de onde vim, onde tudo é ainda anunciação, revelação, tudo fulgurando em aparições, tudo podendo ser inventado e criado, por esta velha cidade sepultada em solidões, não saberia dizer, e daí em diante não expressaria uma única palavra mais, o nó górdio estaria estabelecido para sempre. A experiência de mim próprio, do inverossímil milagre do que sou, é extraordinariamente difícil, e de si mesma miraculosa. Habita-me um poder brutal de uma evidência fechada, de uma irredutível necessidade que me vem deste sentir-me um indivíduo, uma inteireza sem traço de união, um absoluto de presença que recusa a contingência.
Que tempo intenciono inventar, criar? Que novas idéias, sonhos, utopias quero contemplar? Para além das palavras, onde estará a palavra capaz de identificar-lhes, mostrar as chamas do presente que se anunciam frescas e suaves? Li em algum lugar  sobre a palavra que brota do silêncio, que cresce espontânea e livre. Quem sou? Posso res-ponder a questionamento, que tanto me exige a autenticidade em confessar as dores e sofrimentos – palavras de um poeta, de um sonhador, de um  prosador da busca do verbo amar, do sentimento verdadeiro antes de todas as palavras, de todas as expressões e linguagens, de todas as inteligências integradas no sonho de união de todos os desejos, mas antes é necessário e fundamental traduzir os sonhos, e talvez não o esteja traduzindo neste momento, contudo dando-lhe um toque de sensibilidade, e ninguém é capaz de reconhecer estes sentidos nas entrelinhas, insistindo em seus pontos de vista, interesses e ideologias.Velha cidade, não irei sepultar os sonhos e utopias trouxe em mim  na carne e no sangue, o que daria sentido à vida, não irei de modo algum, custe o que custar não torno esta vida minha solidão, sepultando-a em sua terra, coberta de pedras ou diamantes, e a iluminando a escuridão do cemitério, e nada mais pelas ruas, somente as suas pedras, poeiras, e tudo mais esquecido num sonho que construíram à custa da escravidão de muitos, e deixaram tornar-se nada, escombros de um conhecimento da liberdade, de onde nada mais nascerá para o gosto e o paladar de sonhadores, de artistas, de pessoas que desejam deixar suas marcas, traços...Atenas Atéia, não nasci de seu útero, não fora gerado por algum tempo, mas sinto na carne a presença de seus sonhos – é preciso, solo a que tanto amo por haver aprendido no quotidiano que impinge a todos, este de subir e descer... Nasci para o inverno e o silêncio, acompanhados do sonho do verbo amar, do silêncio, e da solidão (que, ora, coloco entre vírgulas não sendo preciso, e isto mostra o desconhecimento das regras que esclarecem o sentido de todos os sentimentos...). Não termino os sentimentos, deixando nas entrelinhas o que hoje sou, um viajante da ressurreição, e todas as terras são liames e junções de meu passado e de meu presente, pois estas letras jamais serão apagadas...
Atenas Atéia!....        

 

INSIGNES DIAMANTES PUROS Manoel


Confio do Tempo, que é, assim crio e artifício a imagem que se me acaba de a-nunciar, é um insigne alquimista. A sabedoria popular, dos homens, diz com propriedade o tempo cura todas as feridas, doenças, ameniza os sofrimentos e dores, resgata o moral perdido, e isto é verdade inconteste. A incontestabilidade desta verdade, para mim, trans-cende tudo isso, o tempo assina a vida do homem, no tempo a vida em sua profundidade é revelada em toda a sua plenitude, através das experiências, vivências. Dá-se-lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes puros e singelos para ornamentar coroas, tiaras; quando menos em cascalho. Jamais devolve o lodo que lhe fora dado.
Não são estas palavras de sabedorias, são de experiências e vivências minhas e de outros que sofreram na carne e na alma dores inestimáveis, foram vítimas de traumas, conflitos os mais variados, quase perdendo a fé e as esperanças, quase mesmo dando um fim na própria vida, mas com fé em Deus e no Tempo superaram suas dores, puderam sentir o que são alegrias e felicidades, puderam sorrir terna e meigamente para o mundo, puderam abraçar a vida com amor e felicidade. A vida lhes mostrou outros horizontes e uni-versos, e com eles habitando-lhes as mais abismáticas profundezas do ser conheceram a paz, o amor, a compaixão, viver é um tesouro inestimável.  Imagino o íntimo de um homem que conheceu sofrimentos atrozes e o Tempo lhe mostrou alegrias inomináveis, creio que as primeiras reações são as lágrimas pujantes, as orações de joelhos e mãos postas em agradecimento a Deus por lhe haver dado o Tempo, o húmus de todas as esperanças. A primeira reação minha, tendo percebido estar livre de anos de sofrimentos e dores, foi dizer-me: “Tempo de construir o que sempre sonhei”. Não vieram lágrimas nos olhos, anunciou-me lúcida e transparente uma fé avassaladora na vida e em Deus.
Assim é que, se um homem de Estado escrever suas memórias, tão sem escrúpulos, tão sem pejo, tão sem vergonha, e outras “cositas” mais neste âmbito, que não lhes falte nada, nem confidências pessoais, nem confissões íntimas, nem segredos profundos, segredos de governo, corrupções deslavadas, nem até amores, amores particularíssimos e inconfessáveis, rasgue todos os verbos, queime todos os substantivos, dilacere todos os adjetivos, esgane todos os pronomes de tratamento, ponha sua vida e da nação às claras e em jogo, verá com nitidez que escândalo indevassável levanta o livro. Dirão, e dirão com propriedade, que o autor é um cínico, um verdadeiro traste de gravata de cinco voltas, indigno dos homens que confiaram nele, puseram em suas mãos o direito e o dever de lhes representar e defender em todos os níveis, sociais, políticos, econômicos, e das mulheres que o amaram. Meu Deus, o que é isto! Clamor sincero e legítimo, mister ressaltar com aspas e itálico, porque o caráter público impõe muitos resguardos, omissões e mentiras, segredos, enfim a política é a célula mater, o DNA, dos interesses que ligam todos os homens, se único for afastado, nada será realizado, e, se o for, não será completamente, porque quem foi afastado será sempre uma pedra no sapato, e com ele virão centenas de outros. Os bons costumes, os saudáveis hábitos e manias, os divinos comportamentos e o próprio respeito às mulheres amadas constrangem ao silêncio. O senso verdadeiro diz ao homem de estado que não deve mesmo escrever livro cujo tema é a sua vida, mesmo que não seja para se defender de suas condutas espúrias, das acusações e denúncias injustas, enfim nenhum homem é canalha perfeito. É preferível carregar nas costas todas as censuras e condenações a mostrar a verdade que em si traz. É preferível não ser conhecido por ninguém no mundo, nada saibam dele. As conseqüências serão absolutas, a morte sempre os espreitarão. Só de colocarem a boca no trombone vários já foram assassinados. Não escreveram livros. Se houvessem feito isto, sou incapaz de imaginar como seriam suas vidas antes de serem assassinados. Quantos foram assassinados por revelarem coisas que não deveriam ser reveladas?
Deixai pingar, caríssimos leitores, os anos na cuba de um século. Cheio o século, passa o livro a documento histórico, psicológico, anedótico, motivo, razão, leitmotiv de mofas e chacotas dos homens, de toda a humanidade. Hão de lê-lo a frio, hão de lê-lo através de todos os cálculos da interpretação e análise, hão de lê-lo com lupas muito especiais, não apenas aquelas que aumentam as letras para os astigmáticos conseguirem ler, mas com as que re-velam as entre-linhas com primor; estudar-se-á nele a vida íntima de nosso tempo, costumes, idéias, ideologias, interesses, o modo e estilo de amar, a linguagem e forma de criticar e condenar, a de compor os ministérios e deitá-los abaixo, se as mulheres eram mais animosas que dissimuladas, como é que se faziam galanteios e eleições, com que oratória conseguiram ludibriar os eleitores e deles receberem os votos, se eram usados chapéus de coco, palha, bengalas, que veículos usam, se carroças, tilburis – imagino o general Geiser indo para o Palácio do Planalto depois de uma viagem a Roma de tílburi, que espetáculo esplendido não seria este! -, bíjugos, charretes ou carros de último modelo, se os relógios de pulso eram trazidos à direita ou à esquerda, se os homens os usavam à esquerda, as mulheres, à direita, vice-versa, para contrariarem a tradição, e punhados de “cositas” interessantes para a nossa história pública e íntima. Daí a esperança que me fica de não ser condenado em absoluto pela consciência dos que me lêem. E mesmo que seja, os leitores não me passem a mão na cabeça, me papariquem e façam de tudo para que a minha integridade seja respeitada, ainda me fica a esperança de algum dia alguém diga que os leitores estavam equivocados comigo, o Tempo, como já dissera no início, é um insigne almucábala.
E por que não? Sou homem livre, penso o que quero, sinto o que desejo, falo o que se me revela como verdade minha, não me importando ou dando a mínima para as opiniões, o que através de minha cultura, intelectualidade, sensibilidade, espiritualidades, mostra mesmo o que é a vida, sofrimentos e dores, sonhos e utopias. Fosse eu escrever minhas memórias – já pensei fazê-lo, mas desisti da empreitada  porque sei íntimos e amigos iriam censurar-me por haver dito coisas que não se dizem, mostrado verdades que colocam a minha dignidade em xeque -, nada seria omitido, não mentiria em quaisquer circunstâncias, como o tenho mostrado e demonstrado a cada momento de minha vida; não tenho medo ou vergonha de quem sou, mesmo que esteja colocando minha vida em risco. Penso mesmo que sou obrigado, é a minha função e responsabilidade ser verdadeiro.  Tomando em consideração o Tempo, depois de alguns anos de minha morte, os leitores que me lerem e interpretarem com os olhos de sua época, século, vão estudar a minha mais que extrema, paradoxal mesmo, habilidade com as letras, os jogos e subterfúgios de que me utilizei para fazer críticas ao meu povo, aos homens, às vezes às claras, às vezes às escondidas, não por medo de ser executado em praça pública com a presença de toda a comunidade, como exemplo e advertência, outro não fizesse isto, não denegrisse a imagem de um povo de condutas idôneas, lídima moral, mas por não ser historiador, e sim um literato; como eu pensava, se fui um estudante aplicado, disciplinado, respeitava os professores e obedecia a todas as suas vontades, ou se não fui aplicado, não tirava notas boas, precisei de aulas particulares de algumas disciplinas, sem em Português fui péssimo, se brigava com os colegas à porta do grupo, se os surrava ou se era surrado por eles; adolescente, se era paquerador, se era rebelde, se rasgava os verbos todos na cara das pessoas, se bebia muito, se tive traumas e conflitos atrozes, se fui rejeitado, discriminado, sofri preconceitos de todos os níveis, como fora toda a minha vida, e como cheguei a ser autêntico nas letras, estilo e linguagem inusitados e inéditos na minha terra. Depois vão estudar o meu pensamento, as minhas idéias, o que mesmo sonhava, quais eram as minhas utopias, em que acreditava, como idealizei o mundo. Descobrirão coisas que o meu tempo não teve nem noção, por isto não recebi os louvores e glórias que me eram de direito, por isto não fui compreendido. Todas as discussões, interpretações, análises atravessaram todos os séculos e milênios, e jamais chegarão a um consenso.

Em verdade, em verdade, não houve um só minuto em que estive sentado ao computador, ou nas mesas de bares, que não tenha pensado na eternidade, na imortalidade, queria-me atravessando os séculos e milênios de todos os tempos, queria minha obra sendo estudado por todas as gerações, e para isto era mister ser profundo, mergulhar fundo na minha vida, nas minhas idéias e pensamentos, sonhos e utopias, e ainda contava com os meus dons e talentos, com a iluminação divina, enfim me fora dada uma missão no mundo, e eu tinha de realizá-la com primor, embora jamais me fosse possível não sofrer, sentir dores atrozes,  sofrer, não ter respostas para nada, sempre dúvidas, sempre dúvidas. 

À LUZ DA EFEM-ER-IDADE - Manoel Ferreira



Se o tudo fosse o nada – o artigo “o”  identifica, de-fine o “tudo”, isto é, refiro-me às coisas contingentes em sua completude, o mesmo no concernente ao nada; não houvesse o artigo, o sentido seria noutro, não abarcaria o que desejo expressar; mesmo que permanecesse o artigo identificando “tudo”, retirando o de “nada”, não mostraria o que pretendo – o nada jamais seria o tudo, para sê-lo necessário transformá-lo através de trabalho, de sonhos que podem ser reais, tornarem-se realidades, o tempo de vida é muito curto para uma façanha deste porte. Como explicar o nada que nascemos, apesar dos dons, talentos, sensibilidade, capacidades espirituais, e transformamos em tudo ao longo da vida para sermos homens? Fabricamos uma côdea do pão de nossa sobrevivência, somos limitados apesar de tudo. O tudo são as graças que Deus nos doou gratuitamente, tais graças são para nos tornarmos homens. Nascemos nada, transformamos-lhe em tudo, com a morte nada e tudo se confundem, são únicos, uma unidade.
Há quem não valorize o que tem, o que conseguiu com anos de lutas, insistências, persistências, dores e sofrimentos, o que construiu com muitos esforços, angústias e desesperos; para eles, é nada, isto por ambição,  fome, sede, querem mais, muito mais, desejam superar os limites que lhes são de natureza e condição, vencer as carências e ausências de serem queridos e amados; bens materiais são efêmeros, só os espirituais, culturais e intelectuais são eternos, conferem a eternidade, sino, símbolo, metáfora de uma verdade. Se acontece de os perderem, conhecerão o nada,  o resto da vida não lhes seja possível resgatar um pontinho da côdea do pão com que antes lhes alimentou, com que tinham segurança para o amanhã, com que sabiam haver construído algo. Advêm o arrependimento, culpa, chorar leite derramado é cretinice.
 Estar dis-posto a isto é saber que a morte virá e muito pouco será real-izado. Se o nada fosse tudo – ou devesse dizer “fosse o tudo”? Jogo com os dois sentidos, aproveito o espírito brincalhão que se me anunciou agora -, o tudo nada seria, o tudo jamais teria existido. Há uma vantagem sem precedentes em o nada ser tudo, sejamos sinceros e olhemos à luz da efemeridade da vida; há uma vantagem sem precedentes em o nada ser tudo, ser o tudo, aliás, sendo inteligentes e de espírito que con-templa o real, a realidade, deveríamos só olhar as coisas por inter-médio desta luz. Não seria preciso lutar a unhas e dentes para algo construir, suar o corpo inteiro para se sentir útil na vida e aos homens, ser feliz, vivenciar as alegrias, receber de outrem reconhecimentos e glórias, que jamais acontece como deveria sê-lo, isto porque imperam a inveja – a inveja é como tomar veneno e esperar que o outro morra - , o despeito, o ciúme, é esperado que realizam coisas mais importantes do que o outro, superam os seus dons e talentos, e nunca acontece, mas após a morte vêm com toda a pompa, glórias e louvores são aos milhares, até mesmo considerar uma inteligência excelente, grandes feitos, um homem simples em gênio, ser lembrado por sempre; não haveria sentimento de angústia por os empreendimentos todos nada haverem resultado, luta e trabalho perdidos, para nada, sentimentos de fracasso e frustração por os sonhos haverem sido irreais, objetos de fugas, justificativas, medos e ilusões, apenas para ludibriar as incapacidades, incompetências di-versas, e mesmo para não ser aos olhos do outro um verdadeiro ser vegetativo. Sendo o nada o tudo, tudo, sonhos, desejos, vontades, o ser e o não-ser não existiriam, se existissem, seriam criações e criatividades de uma imaginação fértil, interessante observar que só os artistas em todas as dimensões  da arte são portadores de imaginação fértil, também os incompetentes,  incapazes, com uma diferença sutil, os artistas realizam seus sonhos e projetos com a fertilidade de suas imaginações, o incompetente e incapaz só a possui, mas dele nada sai. A imaginação fértil só serve mesmo para inveja, despeito, ciúme, multiplicar suas dores e sofrimentos.
Poder-se-ia viver tranqüilo, nada de esforços, lutas, desfrutar cada momentinho da vida, sem preocupações de qualquer ordem e nível, não coçar saco pela vida a fora, porque isto é vulgar, e também porque esta expressão “coçar saco” é própria de quem, ou não gosta de dar duro para conseguir seus objetivos, ou não gosta de trabalhar para sobreviver, ou já conseguiu tudo o que queria, ou se satisfaz com muito pouco, precisa chamar a atenção do outro, precisa mostrar-se para ser, não vislumbra qualquer outra coisa, pode coçar saco pelo resto do tempo que ainda lhe resta, como quem conseguiu a fama desejada pode deitar na cama, refestelar-se contando os segundos e minutos, olhando as nuvens brancas e azuis, os raios do sol castigando a terra, a chuva caindo fininha ou tempestade, as estrelas brilhantes no céu, dando-se ao luxo de as querer contar, a lua a iluminarem a escuridão da terra. Pode ficar pelas esquinas, bancos de praça, falando da vida dos outros, censurando-lhes as mazelas e pitis, arbitrariedades e gratuidades, fraquezas de caráter, condenando-lhes. Isto é próprio do tudo que inevitavelmente tem de ser construído, deve sê-lo, custando o que custar, o preço da vida.
A vida seria divina, se o nada fosse o tudo: não haveria dificuldades, obstáculos, limites, impossibilidades, janelas e portas estariam escancaradas para qualquer desejo, seria só estralar os dedos e as coisas desejadas estariam à mão, com direito a risos e saltitâncias de alegria e felicidades; não haveria tristezas, solidão, desconsolo, carências, medos, das dores e sofrimentos advindas deles estar-se-ia isento, não existiriam em verdade... Quê beleza a vida sem dores e sofrimentos! Não se morreria com o sentimento de fracasso e frustração por não sido possível sentir-se realizado; não se morreria com o sentimento de que não teve condições de vislumbrar o tudo, de con-templá-lo; morrer-se-ia de nada; tomando em consideração que o homem pratica o suicídio por sua vida não ter sentido, e o sentido está sem dúvida relacionado ao tudo, não haveria suicídios, uma grande vantagem, com efeito.   
Nada haveria, se o nada fosse tudo, fosse o tudo, creio até que os homens esbanjariam suas felicidades, alegrias, não seriam de momento, não aconteceriam só de vez em quanto nestas ou naquelas situações, estariam presentes sempre na vida. Nem mesmo se sentiriam entediados e enfastiados com o mesmo. A repetição das coisas que acabam culminando no mesmo é do tudo que precisa ser construído ao longo da vida.  
O espírito sempre quer e deseja conquistar outras realidades, sentir-se conhecendo a vida, descobrindo outras possibilidades, outros sonhos, quimeras e fantasias, está sempre com os olhos além do que está vivendo. Dizem filósofos, psicólogos, sabedorias seculares e milenares que o homem deve viver o seu momento presente, viver o presente é o mais importante da vida, nele o homem encontra salvação de suas realidades psíquicas, emocionais, contingentes, nele se liberta das suas correntes e algemas de caráter e personalidade, nele se espiritualiza, nele cresce e amadurece. Nalguns sentidos, estão todos com razão, o presente é a vida, o passado é a vida que se foi, que se transformou, e o futuro é a vida que poderá ser diferente se entregue nas mãos dos projetos e sonhos. Assim, não se pode tirar do homem a sua dimensão de outras realidades, da felicidade, da alegria, do amor incondicional, é o futuro que poderá libertá-lo das dores e sofrimentos, torná-lo homem-deus, pode tornar-lhe eterno com seus feitos, seus sonhos, utopias.

Se o homem fosse nada, a vida seria o tudo? Como poderia sê-lo: para haver vida, mister as criaturas de Deus. Não consigo imaginar o homem sem vida – todas as criaturas de Deus são vidas, as vidas lhes habitam -, sem vida é o cadáver do homem. A vida é tudo, o homem é nada, se não se entrega por inteiro à busca do tudo, absoluto, pleno. Nada é nada, nada é tudo. O que existe mesmo é a vida, é o nosso maior tesouro, a chave-mestra de tudo que somos, do que seremos. Em verdade, não deveríamos legar qualquer atenção a isto de “tudo” ou “nada”, preocuparmos unicamente com a vida, dar-lhe sentido, realizá-la, sentirmos felizes e realizados com ela, pois que é objeto de nossos desejos e vontades, é o verbo de nossa carne, com o que nos espiritualizamos ao longo do tempo de nossa existência. Em verdade, o tudo e o nada são as nossas algemas e correntes, são as nossas angústias, e não libertaremos deles jamais se não com-preendermos, entendermos, conscientizar-nos que é a vida que nos libertará deles, transformar-nos-á,  tornar-nos-á em homens verdadeiros. 

CREPÚSCULO DE IDÍLIOS E SORRELFAS - Manoel Ferreira




Sede luz

De esperança vivaz,
Ilusões floridas.
Amar é o crepúsculo,
Sonho, vida.
Amar é bonito,
É o instante,
O momento,
O pensamento,
De todo um sentimento
É o princípio e o fim.

Ideal de beber no estio
As lágrimas da aurora.
Nesta fome de amor,
De sublimidade,
Do etéreo e do efêmero,
Do diamante que risca o éter,
Corro à estrela,
Leio o que nela está escrito,
Sua mensagem, à brisa, ao mar, à flor.
Viverei por ser verdade a Vida,
Esperarei uma eternidade,
Tentarei ser feliz a cada momento,
Mesmo que o amor fique distante.
Quero ver a luz nas luzes das estrelas
E das palavras nela escritas;
Quero ver a luz nas entre-linhas das luzes do sentido
E significado da vida,
No além-linhas das luzes da
Contingência e transcendência.
Quero sentir na rosa da campina o cheiro esquecido do sono
E da vigília, aspirar o prazer secreto do porvir.
Na brisa, quero o doce alento, sem culto
Nem reverência.
Quero ouvir a voz na voz das ondas
Na roda-viva das melodias de sereias e
Corujas ao longe,
Nas praias esquecidas da terra.
Amo o sonho
Como se fosse minha poesia.
Amo o silêncio, a vida,
A saudade de entes queridos,
A lembrança, a esperança,
A certeza de ter a poesia.
Amo o sonho
Como se fosse em mim
Doce espaço para sentir a Vida.

Ao invés da luz,
Do aroma,
Ou do alento ou da voz,
Encontro a fonte de todo o ser
E fonte de toda verdade,
Verdade que vivo e experiencio
Ao longo dos dias de minha existência,
Verdade que há-de vir,
Resultado e conseqüências de outras
Que apenas delineei na alma e espírito.
Hei-de passar o tempo
À procura de uma flor,
Hei-de de me fazer feliz
Como se fosse raiz:
Dar frutos, ser sombra,
Colher a última folha
Que a primavera deixou;
Hei-de ser a arte,
Meu verso que afaga muitas vidas;
Hei-de ser vida,
Hei-de de ser ponto de partida.

Toda a ardente ebriedade
De meus reais pensamentos,
Verdadeiras idéias,
Férteis imaginações,
Tudo gozei nas noites de amor,
Nas noites de idílios e sorrelfas,
Nas letras de incólume vazio,
Nas palavras de efusivas esperanças.

Vaga nas linhas curvas,
Nas entre-linhas sinuosas,
De letras e frases curtas,
De pensamentos e idéias profundos,
Que não tenho medo de mostrar
Incertas palavras,
Inquietas letras, espalhando-se
Pelo papel esbranquiçado,
Liso,
Como um peito que deseja
Abrigo com o coração em êxtase,
Num só pulsar que relampeja,
E me traspassa os nervos de flor,
De pedra, de prazer... e amor.
Na límpida transparência das águas,
Nas asas cristalinas das emoções,
Às vezes que o amor
É apenas reflexo da dor
É um sentimento que esmaga o peito
Devorando o corpo e a carne
Como enchente num leito de rio
Tragando vagarosamente a vida,
Arrastando consigo o homem
À procura do mar
Que o infinito alcança.
Quero ter um mundo sem porteiras e fronteiras,
Sem muros, cercas, barreiras,
Sem ódios, vícios,
Dores e sofreimentos.
Onde todos plantem e colhem,
Onde todo faminto coma,
Na justiça, na paz e o amor.
Onde as aves tenham seus próprios ninhos,
Onde todos tenham carinho, amor, ternura,
Onde ninguém gema de dor,
Sofra com os problemas e conflitos.

O horizonte é meu infinito,
O mar, meu refúgio.
O crepúsculo é meu uni-verso.
O sol arde,
O vento sopra,
Velas se abrem
Num abraço à liberdade.
Imagino tudo,
Existo,
O amor me faz caminhar,
Ir em busca de mim mesmo,
E me encontrar com as sorrelfas
De meus idílios

Rompe a luz da tarde serena.
Em vão, encho de aroma
O ar da tarde;
Em vão,
Abro o seio úmido e fresco do sol
Nascente aos beijos amorosos;
Em vão, orno a fronte à meiga virgem;
Em vão, como o penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passo do seio amante ao seio amado.

Horas e instantes de pura fantasia,
Quimera, momentos de idílios,
Gestos, atitudes,
Palavras e ações
Que re-fletem amor e ternura.
Veredas do sertão longínquo,
Onde supus o meu ser, “restícios” de feto e flor.