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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Ana Júlia Machado ESCRITORA E POETISA COMENTA A SÁTIRA /**DO DISSERTAR CIRCUNSTANCIAL À ELUCIDAÇÃO DE INTERDITOS**/


Magnifico. Sátira com muita erudição...todos os pontos nos is no local certo. Que bem que meu amigo e escritor com suas metáforas tão bem chega onde quer. Alguns falam sem saber o que dizem...e até inventam uma doencita que dá jeito, para se desculpar. Melhor seria ver o que deveria de dizer...não inventar..adorei o desejar-lhe boas conquistas e aproveitando para lhe dar mais uma descasca....presídios pequenos para os presos...tendo que dormir no tecto devido à pequenez da mesma..mas que estaria em seu projeto construir um presídio maior...uma crítica muito bem elaborada. De quem possui erudição e que sem insultar...insulta. Parabéns, amigo.



Ana Júlia Machado



**DO DISSERTAR CIRCUNSTANCIAL À ELUCIDAÇÃO DE INTERDITOS**
TÍTULO E PINTURA: Graça Fontis
SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto



Caríssimos e distintivos senhores, eis que, pela primeva circunstância, percebeis olheiras, o rosto pálido, afigurando-se ter passado eu de três a quatro noites sem dormir, a insônia acometeu-me. Não é verdade, não tenho insônias, mas na noite passada não preguei os olhos um só instante, queimando neurônios, espremendo os miolos à busca de compreender e entender o despautério de uma "fala popular". Há as que são lídimas sabedorias, profundas, e a cada geração tornam-se abissais, a estirpe e laias humanas só tem a agradecer, sentirem-se beneficiadas e glorificadas com os seus ensinamentos, segui-las é certeza de que a vida tem valores inestimáveis. Outras, verdadeiras idiotias ou idiotices, como se vos aprouverdes.
Um...rum... cum... rum... Desculpai-me vós raspar a garganta, num instante tão nobre como este: cerimonial de tomada de posse do novo delegado de nosso município, estando presentes amigos, conhecidos, admiradores, a Polícia Militar com suas inúmeras patentes, agentes e funcionários civis, prefeito e outros, só não os presidiários, seriam necessárias várias Radiopatrulhas para a locomoção do Presídio até ao Salão Nobre desta Delegacia de Polícia Civil, e o contingente de radiopatrulhas encontra-se escasso, mas estou com problema de pigarro. As minhas sérias desculpas.
Assim que soubera Dr. André da Cunha fora virado Delegado, recebendo no seu gabinete o excelentíssimo Juiz Dr. Credólio Cruzilis, depois do cumprimento de mãos, o abraço, disse este ao Dr. André que ele deveria "passar a mão no toco de Brejaúba" pela indicação ao cargo, era merecedor, e tão jovem ainda, apenas três anos de graduado em Direito. Seria uma carreira apoteótica com toda a sua inteligência e dinamicidade. Dr. André, conforme me disseram, olhara um tanto surpreso para o nobre amigo, conhecendo a árvore. Pensara com o seu distintivo de delegado que o Juiz fora acometido de euforia sem algemas, estava entupigaitado de alegria e felicidade, quando perde toda a dimensão racional e jurídica, dizendo o que dá na teia. Nada disse em contra-resposta, abaixou a cabeça em sinal de diplomacia.
A árvore é uma palmeira de pequeno porte, que mede de três a oito metros de altura, e que tem o corpo coberto de espinhos muito finos e agudos. Passar a mão neste toco nada mais é que feri-la, cobri-la de sangue. Por que passar a mão nela por se haver tornado Delegado - no pensamento mesmo dera uma pausa, alfim tornar-se não é ser e ser não é tornar-se? O que Dr. Credólio Cruzilis quisera mesmo dizer com esta fala? Alguma indireta? Era conhecedor da árvore, mas o sentido da fala escapava-se-lhe. Era de sua característica sine qua non mandar recadinhos, mensagens com palavras atravessadas e truncadas. Procuraria inteirar-se do significado, se necessário, daria o troco à categoria e linhagem.
O mais interessante nisto tudo, digno de ser sublinhado, é que, à tardinha, saindo de seu escritório para se produzir para a cerimônia, que aconteceria hoje, dia após, mas faria uma viagem rápida a outro município da Comarca, não teria tempo: cortar os cabelos, aparar as sobrancelhas, o bigode que estava lembrando o de Nietzsche, fazer cutícula, passar esmalte branco nas unhas, ouvira um cliente dizendo esta fala a um amigo que lhe estava acompanhando. O médico do amigo pedira alguns exames para confirmar câncer na garganta. Exames feitos, o médico estava mais do que enganado. Dissera-lhe o amigo: "Devia passar a mão no toco de Brejaúba por não estar com câncer". Dr. Credólio Cruzilis assimilou bem a fala, usá-la-ia para cumprimentar Dr. André. Mais do que comum, comuníssimo certas pessoas que ouvem algumas falas e as usam na primeira oportunidade para mostrarem suma importância, sem saberem o que significam.
Se tenho miolo na cabeça, é para pensar, questionar, indagar. Não sairia pelas ruas de nosso município perguntando a Deus e a Mefistófeles o que poderia significar isto. Por volta das seis e meia da manhã, a nobre luzinha acendeu. "Passar a mão no toco de Brejaúba" nada mais nada menos significa que dar graças a Deus por algo acontecido, poder-se-ia ser pior. E o pior na carreira militar é ser agente carcerário. Delegado é um cargo nobre.
Dr. André Cunha, os meus sinceros cumprimentos, desejando-lhe todas as conquistas e glórias, aproveitando o ensejo para lhe perguntar como ficará a questão da cadeia pública estar entupigaitada de detentos, dizem as más línguas que há detento dormindo no teto da cela. Pelo que me consta, é de seu projeto construir um presídio enorme. Aliás, nosso município poderá logo, logo contribuir com o Amazonas, transferindo vários detentos de lá para cá.
A todos o meu muito obrigado pela oportunidade deste simples discurso.



(**RIO DE JANEIRO**, 10 DE JANEIRO DE 2017)


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