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quarta-feira, 22 de março de 2017

**OUTONO DE MIM** - PINTURA: Graça Fontis/PROSA: Manoel Ferreira Neto


Escrever...
As manhãs de outono são mais frescas. Quem sabe seja título interessante "Outono de Mim". O amor incondicional é pelo inverno: vira-me pelo avesso, sou pura sensibilidade. Sinto-me escrevendo, sinto aquela algazarra das palavras na alma, aquele olharzinho de ciúme entre elas: "Eu que deveria ser escrita primeiro. Não você", isto sem contar o fato de a iluminação ser apenas coadjuvante, não sei dizer o que vai além da iluminação, sinto-a, as idéias fluem leves; enquanto escrevo, assobio, canto. Alguma dimensão trans-cendental de mim. Clarice Lispector disse que as palavras são a quarta dimensão dela. Escrever no inverno é a minha quinta dimensão trans-cendental.
Assim que disse o titulo interessante seria "Outono de Mim" senti um arzinho de traição, trairia o inverno, ou melhor, o meu amor incondicional por ele. Decidi, então, tecer breve consideração sobre como me sinto escrevendo no inverno. A porta para entrar no "outono" seria esta consideração.
O tiro saiu pela culatra. A manhã fresca de início de outono esvaeceu-se, embora a frescura continue, fazendo-me sentir bem. Iria dizer da frescura. Esvaeceu-se. Em verdade, em verdade, fiquei sem estações climáticas, nem outono, nem inverno.
Deveria não ter considerado o amor incondicional pelo inverno, esquecido disso de "traição", escrito o Outono de Mim. Ou deixado a consideração sobre o inverno para o final, alfim o inverno vem depois do outono.
Agora é con-viver com este sentimento de não ter escrito sobre a frescura da manhã de outono, como estou a sentir-me. Fazer o quê se o inverno e o outono esvaeceram-se em mim?
Que loucura é esta? Surgiu-se-me que no próximo outono, ano que vem, portanto, estarei bem longe, noutras situações e circunstâncias, tudo isso será passado.
Tive uma idéia - não sei se supimpa! Terminar este escrito, depois de tomar um banho n´água fria. A água fria restabelece todas as energias sensíveis, emocionais, sentimentais, psíquicas.
Deem-me licença, leitor. Vou tomar o banho gelado matutino. Volto logo.
Manhã fresca de outono. Banho matutino gelado. Amo de paixão o inverno, mas odeio água gelada. Orientação médica: estou envelhecendo, a água quente exerce péssima influência na pele, as rugas aumentam. Faço este sacrifício em nome de minha pele lisinha. As vaidades custam muito caras. Este preço de tomar banho nágua fria estou pagando. Que outro preço não esteja pagando? Isso sem contar que nada há para evitar envelhecimento da pele. Faltam-me desodorante, pasta dentifrícia. "Muxibento" não - pelo amor de Deus! Dizem as "gatinhas" que estou muito enxuto pela minha idade, quero conservar isto; ser objeto de admiração das "gatas". Tudo vale nestes instantes da vida, até as futilidades, frivolidades. Conservar o corpo pelo menos; a alma... não tem mais lugar nela para tantos problemas em todos os níveis.
O inverno está próximo. Vou me sentir bem, maravilhosamente bem. O outono de mim é só esta frescura das manhãs, os banhos n´agua gelada. Vou-me prolongando, prosseguindo, até não sei quando. Virão o in-verno, a primavera, o verão, sucessivamente.


(**RIO DE JANEIRO**, 22 DE MARÇO DE 2017)


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