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quinta-feira, 23 de março de 2017

ESCRITORA E POETISA SONIA Sonia Gonçalves COMENTA A SÁTIRA /**NEM QUE O BODE SOLTE CHAMAS DE FOGO PELAS FUÇAS*/


Nossa!!! Boa noite Manu!!! Revoltando-se contra coisas clichês?Dizer que o destino é irreversível é loucura sim, contudo creio que acontecimentos, pessoas cruzam nossos destinos, mas cabe a nós conceder um lugar ou não para estas, e para tantas coisas temos nosso livre arbítrio para escolher inclusive para nos livrarmos dos carmas e dos infortúnios , temos sim o poder de escolha, graças a Deus, mesmo não podendo escolher morrer ou não podemos escolher morrer dignamente por ter sido do Bem, podemos reagir a mortes dos ente queridos com aceitação sobre aquilo que não podemos mudar, e lutar contra as mortes estúpidas que cruzam nossos destinos...Enfim, Manu, eu amei seu texto ainda que demonstre um certo "chega tô de saco cheio" rsrs Bem no popular... Bjos querido.Parabéns!

Sonia Gonçalves

**NEM QUE O BODE SOLTE CHAMAS DE FOGO PELAS FUÇAS**
PINTURA: Graça Fontis
SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto

Não matei cachorro a gritos nem pulgas a beliscões. Levar-me a isto faz-se mister algo que ultrapasse todos os limites, não quaisquer uns, mas os inimagináveis, inconcebíveis, irracionais. Corre em minhas veias sangue de barata? Nem tanto o céu nem tanto o inferno.
Palavras ao léu não me tocam, não me fazem cócegas no cógito, quando mais em se tratando de quem as pronunciou: pela escassez de seu vocabulário, pela pequenez de sua inteligência, gastou tempo inimaginável para encontrá-las em estado bruto, sem arrebiques, de modo que me fizesse re-fletir, meditar, fizesse-me re-troceder no tempo, analisando as coisas, vendo com clareza os olhos de sol que tem as tardes, sentindo no mais profundo das pre-fundas medo de no futuro as desgraças, in-fortúnios caíssem sobre mim, considerando aí o quanto arbitrário, gratuito, o quão errado estive no passado.
Tais palavras pronunciadas com o fervor da alma, qual um grito escondido há muito saindo a plenos pulmões, ensurdecendo até os habitantes da Cochinchina, mostraram-me apenas a pessoa não sabia nem a minha cara, muito menos conhecer-me superficialmente, para ela não existia, não estava no mundo, não era um fantasma. Não as diria, se me conhecesse, procuraria outras na sua caverna sem fundo.
Dizer-me que o meu destino estava marcado é um disparate, despautério. Estava ele marcando-o, era um deus pre-determinando os meus caminhos, não haveria quaisquer modos de re-vertê-los por mais fizesse, lutasse, estrebuchasse nas bocas de lobo do mundo, tornar-me-ia cinzas e nada iria mudar, para o inferno iria com o que escrevia na pedra de mármore para mim. Pronunciando: "Seu destino está marcado. Sem retorno...", estive quase a dizer-lhe em contra-partida: "Caríssimo, não existe isso de você marcar o meu destino, visto ser eu quem o faz, constrói, elabora..." Não o fiz, contudo. Fazê-lo, dariam panos para mangas, teria de me utilizar de todas as verborréias, elencá-las com esplendor e excelência, horas e horas seriam precisas, até que percebesse as coisas com lucidez. Palavras são muito difíceis de encontrá-las, e gastá-las à toa não faz qualquer sentido, não possuía ele condições de entender, compreender. Vive ele no tempo dos deuses, eles é que condenavam os homens. Tudo nele mostra ser retrógrado, démodé, nada irá mudar isto até o seu fim irreversível.
Alfim, tive uma idéia salvadora... Ah, trapézio das concepções abstrusas! A idéia salvadora trabalhou em mim. Era nada menos que fasciná-la, fasciná-la à revelia. Não medi as consequências. Re-corri-me ao espelho, mostrar-lhe a imagem de suas palavras re-fletida nele.
- Meu digníssimo, dissera-me que o meu destino está marcado, não há retorno. Não quer mais saber de quaisquer relações comigo. No futuro, desgraças e infortúnios podem cair sobre mim, irei precisar procurar-lhe, e isto não irá permitir nem que o bode solte chamas de fogo pelas fuças tal e qual Satanás. Você está marcando o seu destino a meu respeito, predeterminando os seus caminhos em relação a mim. Se refletir aí com os seus miolos, realizará com toda a pompa que já lhe mostrei com todas as letras sou quem não interessa mais a sua presença, e para ter mais ciência do que lhe estou a dizer: qualquer a-nunciação de sua sombra a qualquer distância virarei as costas, seguirei por outra alameda.
Ouvia-me, passando a sola do sapato na  grossa raiz do ipê amarelo. Terminando, virou-me as costas: "Espero que nem no além não nos encontremos."
- Amém... Amém... Amém...
Abri a porta do meu casebre, sentindo-me ter retirado uma tonelada de coisas nas costas com que andei por longos e longos anos. Livre... Livre... Livre...


(**RIO DE JANEIRO**, 23 DE MARÇO DE 2017)

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