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segunda-feira, 27 de março de 2017

*FILISTEU DISFARÇADO DE POETA** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!

Insistência é insistência. Ouve-se por vezes, não sendo indelicado, por finesse, por mero obséquio.
Havia tempo considerável, ano e meio, não me encontrava com Salomão Batista; encontrava-o quase sempre, diplomacias mútuas, eram nossas relações, aquele surrado "Como vai? E a família, tudo bem?" Encontrei-me com sua filha, Célia, a quem perguntei por seu pai, fazia tempo não o via. Não mais saía de casa, respondeu-me, estava muito doente, quase noventa anos, precisava de enfermeira para cuidar, câncer no intestino. A qualquer hora, faria uma visita, disse a Célia. Não havia a menor intenção em fazê-lo.
Há alguns anos, num encontro no Supermercado São Judas Tadeu, disse-me haver terminado de escrever um livro de poesias, iria publicar, oportunidade surgira. Olhei-o de soslaio, coisa que não percebeu, pensando comigo: "A única coisa que Salomão pode fazer, estando sentado à mesinha, é ver a mão desajeitada e os olhos perturbados diante das letras que escreve, mas escrever livro de poesia isto lhe é impossível." Teria imenso prazer fizesse eu o prefácio, conhecia bem de poesia. Disse-lhe não ter qualquer "pedrigree" - o termo fora esse mesmo; lembrou-me o cachorro, pedigree dele, para lhe dizer que não entendia bulhufas de latido poético - para escrever prefácio de livro, isso são com os críticos. Sugeri-lhe que procurasse Adão Costaverde, professor universitário, crítico literário, faria ótimo prefácio, prefaciara livro estrangeiro, de amigo francês. Não, não. Queria que fosse eu, não custaria nada, tinha apreço por meus méritos literários. Insistia, insistia. A resposta fora a mesma. Saímos juntos do supermercado, a mesma ladainha, matraca. Acabei aceitando o convite. No outro dia, enviou-me o livro por sua filha Fernanda. Li alguns poemas aleatoriamente. Chamar o livro de antologia poética era um acinte duplo, à antologia, à poesia. O que fazer? Para evitar mais insistência de Salomão, escrevi um comentário com "cara" de prefácio. Entreguei-o em mão. Lera com atenção - inclusive a esposa nos servira um lanche; deliciosas bolachinhas de maçã. Lendo em voz alta, tomando o lanche, sorriu. Os olhos brilharam. "Excelente, Sérgio. E me dissera não ter capacidade. Será convidado para o lançamento."
Dois meses e meio após, tomando uma cerveja no Botequim Fonte Luminosa, Tadeu Silvestre me perguntara o porquê de não haver comparecido ao lançamento do livre "Raízes", de Salomão Batista. Não fora convidado, respondi, aliás, nem soubera de lançamento algum. O lançamento acabava de acontecer. Tadeu estava com um exemplar autografado. Mostrou-me. A edição era de excelência. Folheei. O prefácio escrito por mim não fora publicado. Havia um comentário medíocre na orelha, para Ernane Boaventura nascia um grande poeta, um imortal entre os mortais - tudo em cima de uma rima mais que pobre, rimara o autor "águas" com "fráguas". Nossa, essa rima fora elevada ao topo de todos os Olimpos, só um grande poeta para realizá-la.
Nada comentei com Tadeu. A hipocrisia de Salomão era conhecida por mim, não esperava, contudo, chegasse a tanto: insistir, insistir na feitura do prefácio, sorrir com a leitura, olhos brilhando, e não publicar.
Não tocaria no assunto com ele, nalgum encontro em breve. Três dias após, encontramo-nos na padaria ao lado de sua residência. Nem mesmo dissera o livro fora publicado, lançado. Não esperava dele qualquer justificativa. Talvez por saber a resposta seria à categoria, não iria querer ouvi-la. Nunca me enviou o livro. Nunca comentou. André Luiz, escritor memorialista, presenteou-me com um exemplar. Recebi por nossa grande amizade. Não sabia ele da história do prefácio. Chegando à casa, ateei fogo no livro.
No barzinho Espaço Livre, Tadeu se aproximou, faz oito dias, perguntando-me se soubera da morte de Salomão.
- Hoje? - perguntei-lhe.
- Não, Sérgio. Mês passado.
- Não soube. Não ouvi qualquer comentário na rua.
- Muita gente no enterro. O Prefeito discursou, o Presidente da Academia discursou. Um grande poeta. Estava com noventa anos, muito doente.
- Em verdade, em verdade, houvesse sabido no dia do velório, não compareceria. Odeio o rebanho dele, a pura burguesia da hipocrisia deslavada. Não divido meu espaço com esta qualidade de pessoas. Mas teria feito uma visita às filhas, à esposa.
Percebi que Tadeu iria fazer comentário, mas se silenciou. Não havia segredo entre nossas relações: simplesmente diplomáticas. Respeito à velhice é valor inconteste.
Pensei seriamente numa visita a Edilene. Não custaria nada. Era minha amiga. Edilene não estava. Recebeu-me sua mãe. Quis mostrar-se sensível a minha visita, mas se mostrou atrapalhada, sem jeito, o marido não publicara o comentário por mim escrito. Descreveu os últimos dias de vida do marido. Estava inconformada, sessenta e cinco anos de casados. Deus sabe o que faz. Muito doente, a morte foi o melhor. O telefone fixo tocou. Fátima atendeu. Dez minutos depois, toquei no seu ombro. "Volto depois". Movimentou a cabeça em sinal de sim.
Abrindo a porta de saída, lembrou-me a orelha do livro, nascia um grande poeta, imortal entre os mortais. Não ouvi qualquer palavra nas ruas sobre a sua morte.
Imortal, as homenagens seriam inúmeras. Por mim, entendo a razão de não terem havido homenagens: Salomão Batista nunca soube se o seu desejo era ser poeta ou filisteu. Não estive no cemitério para comprovar, mas os discursos havidos se fundaram no "filisteu disfarçado", que era o seu Ser, a única coisa que conseguiu criar no mundo, o seu "eu filisteu."


(**RIO DE JANEIRO**, 28 DE MARÇO DE 2017)


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