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segunda-feira, 20 de março de 2017

**NARIZ DE SÁBIO** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Três causas diversas podem aconselhar o uso dos óculos. A primeira de todas é a debilidade do órgão visual, causa legítima, menos comum do que parece e mais vulgar do que devia ser. Vê-se hoje um garoto na terceira, quarta infância e já adornado com um par de óculos, não por gosto, senão por necessidade. A natureza conspira para estabelecer o reinado dos míopes.
Outra causa do uso destes auxílios da vista é a moda, o capricho ou, como diz Rodrigues Lobo, a galantaria. O ameno advogado exprime-se deste modo: “Assim é que até óculos, que se inventaram para remediar defeitos da natureza, vi eu já trazer a alguns por galantaria”. Efetivamente quem quiser passar por verdadeiro homem do tom deve trazer, não direi óculos fixos que é só próprio de sábios e estadistas, mas estas famosas lunetas-pênsis, que são úteis, cômodas e graciosas, dão bom aspecto, fascinam as mulheres, servem para os casos difíceis e duram muito.
Da terceira causa quem nos dá notícia é nem mais nem menos o gravíssimo Montesquieu. Diz ele: “Os óculos fazem ver demonstrativamente que o homem que os traz é consumado nas ciências, por modo que um nariz ornado com eles deve ser tido, sem contestação, por nariz de sábio”. Conclui-se disto que a natureza é uma causa secundária dos estragos da vista e que o desejo de parecer ou de brilhar produz o maior número dos casos em que é necessário a arte dos Reis.
Renunciar. Construir algo para a presença. Encontrar-se com algo envultado em negro, dizendo-lhe a liberdade não foi o suficiente para ser eterno. As fundamentações não o isentaram. O prever tudo. Por contar minuto por minuto os anos de desgraça que estão por vir. Longos, longos anos quotidianos, aborrecidos e sem esperança. Depois, o fim imundo e doloroso. Com sorriso coagulado nos cantos da boca – a alguém que está aborrecido, olha a eternidade. Penso o seu olhar melancólico, gestos sucessivos. Pensar auxilia a suportar tamanha mediocridade. Para que o Ser e não a morte? O tempo continuará. O que trouxe? Nada. Tempo interior aniquilado.
Preso entre duas altas cercas de arame farpado, cuja solitude comunica-lhe emoção.
Construiu algo? Talvez nada haja construído. Talvez haja, contudo cego e este fato não lhe permita perceber. O que foi a sua existência continua sendo paixão inútil. Os homens significam-se consigo. Significou-se no sentido de que uivou, sentado à janela, observando o tempo que prometia chover. Os outros se significam consigo, enquanto projetaram outro modo de prolongarem-se, prosseguirem-se. Não são nada diante da noite.
Não fosse haver aprofundado o subterrâneo, afastando qualquer Psicologia, com a intenção de algo encontrar, contribuísse com uma vestimenta qualquer, transformasse as condutas, poderia jamais ter sido “O Vazio”. A psique humana é idéia abstrata que se pulveriza tão logo pensada.
Consegui escapar da muralha do exílio. A morte a elimina. Outro é o entendimento de mim. Entender-me, que iniqüidade!... A cada passo, a ilusão, fantasia de haver encontrado. O efêmero dissolvendo tudo. A falta de sentido da liberdade...



(**RIO DE JANEIRO**, 20 DE MARÇO DE 2017)


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