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segunda-feira, 27 de março de 2017

**SÉTIMA PRE-FUNDA DO INFERNO** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


O homem nasce doido a sociedade cura.
Acusar-me-ão as línguas de sogra, especialmente as dos críticos literários encasquetados com a originalidade e autenticidade - dizendo-lhes eu com os verbos na ponta da lingua: "Os críticos vão; os escritores ficam" -, de parafrasear Jean-Jacques Rousseau na sua célere frase: "O homem nasce puro, a sociedade corrompe".
São duas épocas diferentes, a de Rousseau, a de nossa Modernidade, se é que lhe possa chamar assim, pois que os deuses do conhecimento e da intelectualidade a chamam de IDADE TRANS-MODERNA ou TRANS-MODERNIDADE. Hoje, homem algum nasce puro, já nasce corrupto, e seu lugarzinho especial na sétima pre-funda do inferno está reservado, ninguém roubará a sua cena, ninguém lhe tirará o que é de direito. Mas jogando as cartas sobre a mesa, sem coringa sequer, a verdade é que atualmente o homem nasce despirocado, des-conectado, louco de pedra, com os instintos de trans-gressão das leis, dogmas, preceitos, morais e éticas, princípios à flor da pele, mas, no passar do tempo, a sociedade lhe vai mostrando os pingos nos iis, para que sobreviva é preciso, em primeira instância, seguir o rebanho, rebanho de ovelhas alucinadas pelo poder, pelas glórias, para que viva faz-se mister aceitar e ad-mitir hipocrisias, farsas, falsidades, aparências, entregar-se ao dinheiro, aos bens materiais, pois que são a semente e o húmus da vida, sem eles nada é ou será. Curar a loucura, doidice com hipocrisias, farsas, falsidades, aparências que supremo valor este da Trans-modernidade.
E o doido, ensandecido com a morte, aquele medo horroroso de morrer doido e haver passado a vida em negras nuvens - se é que doido sabe o que é isto, a morte -, assina a papelada da lealdade e fidelidade, através do beijo molhado nas páginas, das digitais, não sabem ler ou escrever, sem ao menos haver atinado com tudo que a sociedade canta, decanta, declama, recita por todos os cantos e re-cantos. Um cadáver de louco é um belo pensamento para o verme e o verme é um pensamento horrível para o louco vivinho da silva. Os vermes, desde a essência que lhes habita os interstícios, âmagos e redutos sonham com um reino celeste sob a forma de um corpo bem gordo, os professores de psicanálise, psiquiatria procuram o deles, o reino celeste, remexendo as entranhas de Schopenhauer e enquanto houver roedores haverá também um paraíso de roedores.
O simples fato de se per-mitir, con-sentir sua loucura, haver nascido louco, é em si uma confissão. Todos tem o direito de escrever a própria biografia desde nascer doido até o seu conserto, até a sua cura, depois dos quarenta anos. E já que a paráfrase de Jean-Jacques Rousseau se mostra desde o início, parafraseemos outra coisa: "Não acredite nos loucos depois dos quarenta, estão perfeitamente consertados e curados", que foi, digamos assim, um lema dos anos 60: "Não acredite nos homens depois dos trinta anos". De fato, mesmo o mais louco está por vezes no caso de ter vivido algum segundo de plena sanidade mental, de ter visto de perto o que é isto de maria-vai-com-as-outras, os benefícios que traz, as glórias que recebe, coisas que para um pensador de escol pode parecer algo de precioso e digno de atenção. Confessar a própria cura da sandice despirocadamente louca é desde a eternidade ao infinito mais pretensioso, pois, isso supõe que o louco que confessa sua cura com as verdades da sociedade confere importância não somente ao processo que vai do nascer pirado até a insustentável leveza da normalidade, mas também ao que acreditou e acredita ser o seu conserto, a sua cura.
Há-de se indagar, questionar, perguntar se há dois seres exatamente iguais, o louco e o normal, e que a lei da di-versidade individual fundamenta toda a evolução do homem desde o seu nascimento psiquicamente des-virtuado até o ápice do filisteu instruído.
Mas qual é a idéia da sociedade que cura o louco: "Age como se não houvessem diferenças individuais."


(**RIO DE JANEIRO**, 27 DE MARÇO DE 2017)


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