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segunda-feira, 20 de março de 2017

**SUPREMA CONFIANÇA** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


A situação está periclitante... Ultrapassei todos os limites da preguiça, preguiça absoluta. Os olhos dirigidos para a telinha não querem ver imagens, os escritos, nada.
Acabei de ler uma carta e me recostei na cadeira para elucubrar com toda a destreza e perspicácia o conteúdo dela. A suprema confiança no destinatário, nem a mamãe confia tanto no filho quanto o remetente dessa missiva. Até me lembrei de quando a formiguinha agradeceu ao elefante a gentileza por tê-la atravessado o rio. "Obrigado, elefante..." e o elefante respondeu: "Obrigado nada... Desce a calcinha..."
Foi a gota d´água. Eis que a preguiça me assola inteiro. Iria tecer comentário especial a esta confiança do remetente, jamais d´antes imaginada alguém o fizesse neste mundo sem porteira. Imagino tal nível de confiança fora do mundo. Não tenho mais condições. O interessante na minha preguiça é pensar sem pensamento, Para pensar o pensamento é mister estar com todas as energias, estar na ativa, disponível a espremer e torcer os miolos.
Pensar... Re-costado à cadeira, a preguiça amolece carne e ossos, sinto-me mole, enlanguecido... assim, vou passar todo o dia agarrado nesta cadeira, sem mexer único membro. Quê suplício: com a missiva do remetente na cabeça! Ah, não... Pelas barbas do profeta: tudo menos isso.
Conheço mui bién o remetente desta missiva. Se alguém lhe disser: "Está vendo esta árvore de espinho? A cadeira do Olimpo está lá nas grimpas para você se sentar e girar à vontade. É subir..." Sem pestanejar começa a realizar a grande façanha. Sim, este remetente é capaz de tudo, tirar a calça e a cueca para o elefante, dar nó em pingos dágua.
Quer ele não apenas a fama, o sucesso virtual, quer a eternidade virtual, por sempre lembrado como o internauta mais importante, o pavão, todas as críticas, ensaios especializados sobre a sua personalidade, caráter. tornar-se o deus no universo virtual, o mais culto, o mais intelectual, o mais sábio de todos os éritos do pretérito histórico e, a partir dele, de todas as gerações a ad-virem.
Sem preguiça, para pensar todas as coisas, coço a fronte, enrugo o rosto, semi-fecho os olhos, mexo na cadeira, acendo um cigarro, dou tragos longos e profundos. É um trabalho de Sisífo. E com tanta preguiça que sinto o pensar sem pensamento está deslizando nas linhas da massa cefálica, escorrendo livremente. Quê lástima! Estou sem condições de me reerguer na cadeira, tudo inerte, tudo numa inépcia de causar comiserações as mais pré-fundas, quanto mais de escrever o comentário da missiva deste remetente. Deixo-me lânguido na cadeira, pintando o remetente subindo a árvore de espinho para se sentar na cadeira que o espera no topo, é a sua cadeira no Olimpo.
Sei que o destinatário é personalidade das mais consagradas, está exercendo incólume e insofismável importância no horizonte político, esta desmentindo as condutas e posturas de má-fé de outros com as suas funções e responsabilidades. Quer outra oportunidade para se tornar famoso, glorioso senão esta de enviar uma missiva à egrégia personalidade, parabenizando-o por suas atitudes e ações, por seus feitos e realizações, depositando nela toda a confiança possível e impossível. Descendo-lhe a calça e a cueca. Só publicar e a glória, o sucesso estão confirmados, mais do que endossados. Por toda a eternidade esta missiva estará nos anais da virtualidade.
É de se saber se a egrégia personalidade que está deixando os políticos com o espartilho nas mãos, o escorpião no golpe final, irá ler esta missiva e verbalizar que é sim re-velação de reconhecimento, consideração, agradecimento, e não apenas um oportunista querendo se tornar glorioso às suas custas. Se ele vai responder à missiva, num caso ou noutro. Mas a egrégia personalidade não é do Tempo do Zagaia, sabe distinguir o trigo do joio. Interessante, se rasgar os verbos do remetente, dizendo-lhe da imbecilidade e cretinice em querer ser glorioso. E publicar esta resposta ao remetente. Quem haverá que não vai cair na gargalhada, ter crise de riso, estrebuchar no chão de tanto gargalhar. "Tá pensando o quê?!... A distinta personalidade não é otária!..." Queria a glória... alcançou às re-versas: será tido e havido pela eternidade como o "bobo da corte".
Meu Deus! Quê preguiça desgraçada! Mesmo com ela no pensar consegui elaborar o esboço do meu comentário à missiva ao Juiz que está fazendo um rebu no universo político. Se está preguiça tiver um fim razoável, vou tentar escrever uma sátira-tributo ao remetente. Quiça, enfie-se pela telinha a fora e venha até mim com a idéia fixa de me esganar. Não tinha eu o direito de dizer abertamente, de modo satírico, as suas verdadeiras intenções, o seu oportunismo.
Saio do mundo da preguiça para entrar na história dos esganados por denunciar o oportunismo!


(**RIO DE JANEIRO**, 20 DE MARÇO DE 2017)

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