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quinta-feira, 30 de março de 2017

**BANANADA DE POLÍTICOS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!


Pensar, dedicar-se, entregar-se à satisfação da clientela é dever de todos os empresários, de quem vende qualquer coisa, que se prezem, desejam ganhar muito dinheiro, ser famosos, ter condições de comprar o que bem lhes aprouver, é a lei do sistema capitalista, implacável, vale dizer, e devem ser seguidos à risca todos os seus figurinos e manequins. Quem não o faz acaba fechando as portas, com inimigos até por correspondência, dívidas as mais difíceis de serem eliminadas, na miséria nua e crua, às portas das igrejas esperando que o fiel deposite moeda de um centavo, de bago em bago a galinha, frango, galo enchem o papo, Prolongam a existência – ou a vida? Os galináceos não existem, eles simplesmente vivem? Não sei res-ponder a questão tão delicada, precisaria consultar os sábios do templo de Delfos, estão meditando no topo do Everest. Clientes são clientes, não se discute qualquer outra coisa, e agradar-lhes é tarefa de deuses.
Proprietários de restaurantes, botequins devem se preocupar com os gostos finos e refinados de seus clientes, pratos os mais diversos e os mais deliciosos, não tanto com as bebidas, as mais procuradas são as marcas diferentes de cerveja – deve sempre estar geladinha, para amenizar o calor de porta de inferno como o de nosso município – nunca estive lá para sabê-lo, mas é o que dizem com veemência, não cabendo discussão -, isto é uma exigência inalienável dos clientes - e a apetitosa branquinha ou amarelinha, algum dia haverá a azul e a verde, para as celebridades de ponta, completando as cores da Bandeira Nacional, um ou outro gosta de vinho, uísque, campari, vodka, gim, underberg. Mas, em se tratando da comida, as exigências são inúmeras. Uns gostam dos pratos exóticos, outros gostam dos simples, uns gostam de churrasco, outros de feijoada, outros de costela com mandioca, outros de batatinha, tomate e pimentão, agradar a gregos e troianos é o mais difícil, por isto dizem que a culinária é a arte mais difícil de ser real-izada, e ainda ironizam: “Já pensou um prato feito por Van Gogh? Já pensou um prato feito por Sócrates? Já pensou um prato feito por Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos? Que eles fiquem com as suas artes específicas, não se metam a gourmets”. Se bem que os atores sabem com perfeição fazer pratos deliciosos, ganham de mil dos gourmets profissionais dos restaurantes de cinco estrelas. Certa vez, num encontro de amigos intelectuais e artistas das letras e do teatro, comi uma excelente salada de jurubeba, jiló, abóbora e pimentão, feita pelo artista de mais renome, alfim estava fazendo cinema, meu Deus, quase fui para o paraíso celestial curtir o prazer eterno.
E a sobremesa? Esta é a mais difícil, é o toque final do almoço, do jantar, deve levar o cliente aos auspícios do prazer e do gozo, para não dizer do clímax absoluto. Difícil. Para mim, não diz o menor respeito, não gosto de doces ou coisas do gênero, comigo são sal e tempero, as comidas simples são os meus pratos preferidos, os exóticos me enjoam com algumas garfadas. Por mês inteiro, em São Paulo, comi comida árabe, já estava matando camelo a vômitos. Que coisa desagradável? Os mesmos feijão, arroz, bife triviais não enjoam, não enfaram, o estômago reclama quando não os há sobre a mesa, quentinhos, arroz e feijão, bem acebolado o bife. Que delícia! Que entrem e saem anos estejam sobre a mesa da cozinha!
Mas estive mesmo pensando em oferecer aos meus leitores – fiz um pacto alimentício com a amiga Cida lá do Bistrô -, alfim são dignos merecedores, têm a paciência e a boa vontade de ler as minhas coisas, comentam com os amigos, tecem considerações elevadíssimas ao meu respeito, uma excelente sobremesa, daquelas que só trazem prazeres aos gostos refinados e sem finura alguma, daquelas que pedem mais, são comidas com gula, deixam o indivíduo sem poder levantar-se da cadeira, olhos esbugalhados, respiração contida. Estive pensando numa excelente “bananada”, nesta época de eleições, de tomadas de posse dos respectivos cargos. É um doce típico da culinária brasileira. Tem gente que gosta, tem gente que não gosta. Tem gente que come por diplomacia na casa dos amigos, tem gente sincera, não sem diplomacia, que rejeita e ainda faz cara ruim só de olhar para a compota. Mas a “bananada” que vou oferecer aos meus leitores será bem diferente, agradará a saduceus, fariseus e hebreus, filisteus. Não é de banana caturra, não é de banana nanica, não é de qualquer outra qualidade de banana. Não é daquela bem docinha que o povo gosta, aprecia, venera, não. Há quem sem banana no desjejum, depois do almoço, no lanche, leite com banana e açúcar, não conseguem comer, como o nosso povo que tem de ter a carne, sem ela não almoçam, não jantam, passarão o resto da vida em jejum. Há quem só brinca de madrugada se comer uma caturra, e depois dorme o sono dos querubins.
Perguntar-me-ão os leitores: “Mas que bananada é esta que não é feita de bananas? Para ser bananada tem de ser feita de banana. Não existe bananada de pêssego, de pêssego é pessegada, de manga é mangada, de pepino é pepinada. A minha imaginação fértil não está indo longe demais? Devo tomar cuidado com a sandice!”. Não, leitores, não incorreria numa presepada deste calibre, oferecer bananada de figo, aí se trata de despautério, é até lhes chamar de sonsos, não sabem discernir banana de figo. Aí não. São merecedores de carinho, ternura, gratidão sensível, espiritual, cordial. Depois das letras, uma excelente bananada ou banana com leite e açúcar ajuda a recompor os neurônios gastos, a inspirar a outras jornadas além da contingência e do espírito, além dos desejos e frustrações, além dos fracassos e mortes de tudo e de todos.
Esta bananada é feita por novos gourmets, especialistas mesmo, dizem ficar uma delícia, estala-se a língua de tanto prazer. E quem diria quem são? Nunca me passou pela cabeça este talento deles. De onde menos se espera é que a coisa se revela pura e cristalina. São os políticos. Depois do expediente vão para casa prepará-la, vestem à categoria, de toca, avental e tudo. A bananada é feita pelos políticos, digamos, “confusos”, “perdidos”, “alienados” que confundem sem qualquer pejo ou vergonha dinheiro seu com dinheiro do povo. Coisas da política. Pois é. Passem os séculos, entrem milênios, as coisas da política continuarão as mesmas, o império da mesmidade política é eterno, passem as democracias, passem as repúblicas, passem os conservadores, passem os liberais, passem as ditaduras, passem os comunismos e os reinados. A espécie de banana aqui é outra. Sabem daquela esplendorosa e magnífica banana que os fajutos oferecem ao povo toda vez que os políticos recebem seus salários? Sabem daquela banana que os políticos fajutos servem toda vez que viajam e fazem turismo com o dinheiro público, voltam do exterior entupigaitados de novidades estrangeiras, presentes para os amigos e correligionários, ornamentos e arrebiques para suas residências, roupas de grife para as esposas e secretárias de assuntos aleatórios? Sabem daquela banana que os políticos servem assim que terminam as eleições, foram eleitos, vão sentar-se na cadeira giratória, vão palitar os dentes, fumar charutos e fazer bolinhas com a fumaça, vão desfrutar os banquetes, vão motelizar as coisas dos instintos carnais? Sabem daqueles políticos que chamam artistas de vendedores de bananas? Artistas plásticos, escritores, músicos, artistas de cinema, inspiraram-se nas bananas. Carmem Miranda colocou bananas na cabeça. Os artistas são inferiores por causa da banana, tais políticos superiores por seu cargo político, por seus anéis, medalhões, patentes e cositas mais. Então. É essa espécie de banana que vai servir para fazer nossa bananada. A amiga Cida até me perguntou como é que nós vamos conseguir obter todas estas coisas para a nossa bananada; pergunta percuciente, o interesse é de servir aos clientes de todos os gostos e ideologias, até mesmo os alienados de freios e ferraduras.
Apesar de dizerem que a casca de banana possui muitas vitaminas, são excelentes para a preservação da boa e saudável saúde, não se usa a casca das bananas numa bananada. Recomendo aos leitores que prestem bastante atenção, muito cuidado mesmo, com o terreno onde estão pisando., com as pedras e buracos das calçadas em que os solados dos sapatos estão tocando. É que os políticos fajutos costumam deixar rastros, não olham para onde jogam as cascas, jogam à revelia, a deus-dará, a todos os ventos e sibilos, confundem as cascas com os acenos em carro aberto quando estão na campanha eleitoral, quando estão tentando angariar os votos de todos, sejam dos inimigos, íntimos, amigos, da família, de todas as adjacências da comunidade. Não desejo que os meus leitores, após provarem e degustarem o sabor divino e delicioso desta bananada, sentindo-se nas nuvens de tantos prazeres, dando nós em pingo dágua de tanta felicidade, tomem um escorregão daqueles em plena rua, tornando-se objeto de risos e galhofas dos transeuntes, e as palavritas sarcásticas: “Tomou um tombo na banana do vereador Y? Logo na dele! Isto é que é azar!” E jamais serão esquecidos, algum cronista no futuro servirá do tombo para se tornar famoso nesta difícil tarefa das letras e da apreciação pública – no futuro, não haverá sátiros! Paciência! Difícil as idéias populares encaixarem-se nas filosóficas.
Também devo ad-vertir os leitores que são apaixonados com bananada, comem até empaturrar-se, que comam com moderação, o doce é mesmo delicioso, mas tudo que passa dos limites tem suas conseqüências. Num jantar entre delegados, promotores, juízes, prefeitos, deputados, vereadores, alguém caprichou na sobremesa de bananada, depois de tomar algumas doses a mais da branquinha, doce com branquinha é perigoso, nunca se sabe o que pode acontecer, coisa boa jamais será. Resolveu casar com a bela, inteligente, sensível, culta e intelectual mulher que o acompanhava. Ao acordar no dia seguinte, descobriu que tinha trocado alianças e juras eternas de amor com um trubufu de dar medo, botar o capeta para correr, sem olhar para trás, sem lembrar-se do passado, os fantasmas retornarem às respectivas tumbas. E não é que a autoridade queria colocar a culpa na bananada e nos aperitivos? Ora, a culpa era somente dele que não deveria ter misturado metanol com doce, isto é até suicídio, queria morrer e jamais ser lembrado nem pela vida. Tem gente que está misturando tudo em nome da política, misturando alhos com bugalhos, trigo com joio... Depois vai querer colocar a culpa em quê? No destino? No eleitor? Na vida? Na onda de azar que baixou nele? No mar de desgraças em que se mergulhou? Nas ondas de tragédias que encobriram a sua realidade? Quem escolheu o par foi ele, ora essa... Depois não vai dizer que casou com mulher feia, que nem tem coragem de sair com ela, levá-la aos eventos sociais, políticos, às festinhas, no Palácio do Planalto para pedir verbas ao Presidente e à sua equipe, para os feitos sociais, na hora do bem-bom o velho e surrado travesseiro serve para cobrir a cara... Pois é... São os tais casos... Se o ditado diz: “Diga com quem anda que lhe direi quem é”, devo dizer nestas circunstâncias: “Diga quantas compotas de bananada comeu, quantas doses de aperitivo tomou, com quem foi que estava, direi o resultado da eleição”.
Leitores, a minha recomendação é das mais prudentes possíveis. Adoro costelinha de porco com jiló, quiabo, maxixe, cenourinha amarela, haverá algum dia a verde, a azul, a branca, pepino de casca verde escura, quase preta, mas sempre tomo o maior cuidado, só como o que posso, e só bebo três doses da branquinha para acompanhar. Mistureba jamais deu em boa coisa. Isso, na bebida é um perigo. O indivíduo desanda a falar o que não deve, a julgar os homens e os indivíduos por suas ações, atitudes, ideologias, sonhos e utopias, chamar autoridade de canalha, canalha de autoridade, imbecil de intelectual, intelectual de imbecil, cristãos de ateus, ateus de cristãos, e a fazer o que só vai lhe trazer arrependimentos mais tarde, fora os tombos que tomarão até chegar a casa.
Mas num caso deste, quando a coisa é muito gostosa, não mediu o tamanho do estômago, era comer e beber até mais não poder, há uma solução das mais divinas, é “pá-e-bife”, tudo se escafede num abrir e fechar de olhos. São os famosos chás de boldo e um sonrisal para tomar no dia seguinte, de preferência em desjejum, quando abre os olhos e descobre que o dia amanheceu, todos os sonhos e utopias serão outros bem diferentes. Dependendo da companhia a ressaca é braba pra “bedel”! Tem político aí que está com dor de cabeça e pagando conta até hoje, vai acabar no vermelho absoluto, pagará até mesmo quando não mais existir qualquer moleculazinha de cinza em sua cova, e inventando outros impostos e tributos para resolver a miséria, ter um tostão para comprar única banana nanica para tripudiar a fome.
Vocês, caríssimos leitores, que, por só lerem este texto, estão salivando com a delícia da bananada de políticos, estão mesmo com desejos de comê-la, degustá-la, apreciá-la, a amiga Cida lá do Bistrô tem o dever de comunicar que esta guloseima só será servida durante esta semana, com um desconto especial para quem levar este texto com a minha assinatura real acima da digitada. Será servida somente esta semana porque, caso contrário, as outras sobremesas cairão do galho, o mesmo num restaurante também fecha as portas.
Desejo-lhes, a todos os leitores, e mesmo os que não me lêem, e estão presentes no Bistrô para a bananada de políticos, “bon apetit”, mas comam com moderação, e não vão misturar doce com aperitivo, são duas coisas bem contrárias, e com efeito não fazem bem ao estômago refinado de vocês.


(**RIO DE JANEIRO**, 30 DE MARÇO DE 2017)


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