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segunda-feira, 20 de março de 2017

**O CARDÁPIO E O CEGO** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Se é que se pode acreditar as únicas esperanças são aquelas que se esvaíram, perderam-se, sei como hei-de chamar a esta qualquer coisa vazia e desumana que, hoje, habita em mim. A solidão olha-me de soslaio. Um estranho retorna ao amor. O infinito os olhos procuram e entendem por visionar, mas a distância se perde, efemeriza-se. O sol, com dificuldade, filtra entre a folhagem. Os pássaros da terra e as aves da serra nessa folhagem se abrigam, vencem os ventos e as grandes chuvas.
De todas estas evocações do pretérito que tenho vivido na grande efusão dos primeiros dias nasce-me um imenso bem-estar, uns redobramentos que reuni em desejos enormes de intimidade. Agora, tenho inúmeras responsabilidades, sou o defunto de Incitatus da Fazenda dos Bois: aqui começa a eternidade, em vida, eram os desejos, assim o creio ainda que falecido por toda a eternidade. Inicia-se a eternidade; impõem-se-me obrigações de construir estrebarias.
Além do esquife e da terra, há um coro de pardais na árvore que dá sombra ao meu túmulo, um flamboyant, e não pára um minuto sequer, e tudo vai adquirindo esplendor e glória no infinito, procurando registrar o que acontece e desaparece num passo de mágica e de horror.
Tristeza, melancolia esvaeceram-se. São olhos em nenhures. Não quero cantar as eternas melodias suaves e singelas. É reconfortante ouvir as vozes, as notas de beleza e simplicidade. Observo e vejo através da beleza. O silêncio, apesar das ondas e dos pássaros, é próprio desse campo tão próximo às serras. A alma devia ser forte como os seus braços e grande como as suas mãos.
O ceguinho chegou ao restaurante – todos já o conheciam, andava livremente pelas ruas seguindo a sua bengala, as ruas da cidade eram estreitas, os motoristas andavam dentro da velocidade permitida, trinta quilômetros; não tinha ele qualquer dificuldade ou medo -, pedindo um cardápio em braile. O garçom, desculpando-se, disse que não tinha. O cego então pediu uma colher suja da cozinha.
O garçom achou estranho, mas pegou a colher usada e deu ao ceguinho, que lambe a colher e comenta:
- Hum... Camarão, com arroz à grega, pode me trazer esse prato mesmo!
No dia seguinte, a mesma coisa:
- Hummm, estrogonofe de frango... pode trazer esse prato mesmo.
A mulher que estava no caixa prestou atenção aos seus movimentos, comentando, era como se estivesse vendo as suas mãos, mesmo não olhando para elas, tinham os movimentos tão livres quanto aos que enxergam.
Passou-se uma semana, sempre a mesma coisa, o cego pedia a colher e dizia o prato. O garçom, querendo subestimar o ceguinho, resolveu aprontar. Quando o ceguinho pediu a colher, o garçom chegou pra cozinheira, que, aliás, era sua esposa, e disse:
- Margarete, estou a fim de aprontar uma boa para o cliente. Pega essa colher e passa na menina!
A mulher atendeu ao pedido, e o garçom levou a colher para o ceguinho. Este colocou a colher na boca, pensou um pouco e falou:
- Hum! Rapaz, não vai me dizer que a Margarete está trabalhando aqui!
Com as mãos pode-se transformar as coisas com facilidade. A partir do momento que a mulher com a mão passou a colher naquilo, a mão do ceguinho levou a colher à boca e descobriu que a Margarete estava trabalhando lá. Uma mão lava a outra, ambas lavam tudo.
Gostaria de lançar um olhar ao silêncio, este silêncio irreverente que se faz neste instante, cuja porta vejo eternamente aberta, de fio a pavio, e ainda mais a um silêncio atrás deste que se faz neste momento. Ui! Que decoração rica, que espelhos e porcelanas!...


(**RIO DE JANEIRO**, 20 DE MARÇO DE 2017)


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