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terça-feira, 21 de março de 2017

**NOITE DE NATAL** - PINTURA: Graça Fontis/PROSA POÉTICA: Manoel Ferreira Neto


Às minhas saudosas mães, Maria das Dores, Maria Amélia, Maria Laurentina e Maria da Conceição com amor e carinho.


É noite de Natal!


As chuvas, até ontem à tarde, por seis dias consecutivos, sem um instante de estiagem, foram fininhas, mas hoje o tempo está firme, depois do meio dia veio o sol, ainda que ameno. O céu límpido e diáfano estrelou-se como para enfeitar, embelezar, ornamentar a noite do Natal do Senhor Nosso Jesus Cristo.
As quatro Marias, prodigalizando mesuras e cumprimentos aos conhecidos, dirigiram-se às cerimônias da Vigília Natalina. Andam lentamente uma ao lado da outra, conversando sobre natais passados. Maria das Dores aos setenta e cinco anos ainda tem uma bonequinha de palha que ganhou do Dr. Policarpo, amigo da família, quando tinha sete anos.
É Natal e é lua cheia.
Um clarão de prata envolve a natureza de mística auréola, meus olhos brilham intensos com tamanha beleza e esplendor, meu coração pulsa forte no peito de alegria e felicidade, pensamentos e sentimentos se confundem em mim, às vezes são lembranças, às vezes são sonhos que me perpassam o íntimo, penso no nascimento de Cristo na estrebaria, a felicidade de Maria e José, penso no mundo desde então. Toda a Terra respira uma atmosfera de brilho e sonho, esperança e fé, sob o firmamento ornado de diamantes. O ar filtra os feixes de luz promanada de horizontes di-versos, uni-versos múltiplos, e com intensidade cambiante, formando focos tremeluzentes nos ângulos e perspectivas de inter-secção. É como se toda a atmosfera fosse teia de estrelinhas brilhantes ou bolas de cristal. Sons maviosos procedem de todos os quadrantes, viajando com a brisa, levando-a a todos os homens, sentem sua presença no corpo, felicitam-se. As folhagens, encrespadas pela água, farfalham acompanhamentos orquestrais, enquanto re-fletem opalescências divinas.
As quatro velhinhas acabam de voltar da Missa do Galo no Santuário de São Geraldo e dirigem-se em conjunto à cozinha no fundo da casa, que abre para um canteiro de lírios brancos e rosas amarelas e vermelhas, e donde se pode mirar com transparência a lua cheia e as estrelas. Con-templ-orando a paisagem do quintal sob a noite como quem con-templa um presépio ao vivo, este está feito com todo carinho e dedicação, amor e ternura na sala de visitas. O espetáculo impõe-se, dilatando-se-lhes as pupilas, vê-se a parte alta da cidade, de pessoas simples, humildes, tementes a Deus, cujas esperanças são de amor e verdade, de paz e vida mesma, com as várias fileiras de luzes escalando o morro, e milhares de janelinhas a jorrarem claridade sobre a noite e a contrastar o tom alaranjado com o prateado do luar. Murmúrios de transeuntes e cânticos festivos chegam da rua e das casas vizinhas.


“Noite feliz!
Nasceu Jesus!
Noite feliz!
Nasceu o Amor!”


Na sala decorada com flores, o presépio, guizos e bolas coloridas, mesa grande, quadrada, preparada com imenso amor e talento pelas quatro Marias, aguardam elas o irmão, cunhada suas três filhas, Amanda, Armene, Araci. As quatro velhinhas, sempre em ação uníssona, dão os últimos retoques, até mesmo tira um baralho novinho em folha e coloca-o sob o móvel da radiola, depois da ceia o irmão José, sua esposa Isabel, e filhas vão querer jogar buraco, e as quatro velhinhas assistindo ao jogo, nunca jogaram cartas, a mãe não permitia. Maria das Dores cantarola, com voz de meio soprano:


“Povo ajoelha!
É fim do cativeiro!
Natal! Natal!
Cristo nasceu! (improvisa)
Eis nosso Redentor!
Natal! Natal!”


Há uma ansiedade de mães aguardando um filho de longo e demorado regresso. Ouvem passos. É dele? Não é dele não. “Até hoje, não conhecem seus passos?”, pergunta Maria Amélia, dando um sorriso, “Ele anda puxando a perna direita, a sola do sapato faz barulho no chão”. Ele só vai chegar ás duas e meia da manhã. Um intervalo de silêncio. Uma sombra de tristeza ou decepção envolve quatro faces enrugadas, olhos lá no fundo das órbitas, alfinetando quatro corações cansados. Novo ruído e novamente passos. Mas, como dantes, o vulto se esconde na porta de entrada da sala de visitas, e os passos se misturam com os cânticos vindos no ar das casas vizinhas. A espera já ultrapassa os limites de qualquer possibilidade de atraso para ser uma certeza de que algo deve ter acontecido. Maria da Conceição sugere ligar para o celular de Nívea; Maria Laurentina sugere esperar um poucochinho mais. Uma sensação de angústia e abandono apodera-se daquelas bondosas criaturas, a alegria e felicidade delas é Titinho, é considerado e amado por elas como filho, que mirando a solitária mesa posta, com os enfeites e iguarias, suspiram a um só tempo: “Noite Feliz!”. A cada qual correspondeu o mesmo gesto espontâneo com que uma pérola adamantina foi esmagada no canto dos olhos.
Repentinamente, um toque de campainha. Titinho tinha o hábito de tocá-la três vezes para dizer que estava chegando da casa de seus amiguinhos, quando estudava, quando brincava. José Maria e Izabel, olham-se, também eles e as filhas esperavam Titinho. Izabel ainda mais que o marido tinha por Titinho muita ternura e carinho. Desde que a mãe mudou-se com ele para Belo Horizonte, sempre que ia à casa das cunhadas, depois de cumprimentá-las, perguntava por notícias de Titinho, sentia falta dele, se ele estava bem. Acodem as quatro velhinhas, em bloco, a abrir a porta.
- Titinho veio passar o Natal conosco! – disse Maria Laurentina a todos, apanhando na árvore de Natal uma caixinha com uma caneta Parker 51.
- Meu filhinho não esquece de mim – disse Maria das Dores; uma antologia de poemas de Cecília Meirelles era o seu presente.
- Quero ver a piada que ele vai contar – disse Maria da Conceição; o presente era uma agenda para ele escrever com a caneta Parker 51.
- Meu filhinho querido! - disse Maria Amélia; o presente era uma pasta escolar para carregar seus materiais, livros.
Apresentava-se ali, diante das quatro velhinhas, um menino de cor negra, de aproximadamente doze anos, vestindo uma calça preta, muito bem vincada, camisa branca, gravatinha preta e branca, e falou:
- Feliz Natal às minhas amadas e queridas mamães – entregou-lhes um estojo de facas, colheres e garfos de prata, uma panela de pressão, uma frigideira, uma forma de bolo. Cumprimentou José Maria, Izabel, Amanda, Armene, Araci, abraçando-lhes a todos, desejando-lhes feliz Natal. Nívea fez o mesmo.
Maria das Dores o afagou no peito, beijou-lhe a testa, dizendo: “Meu filho, Maria Santíssima e o Menino Jesus sempre o abençoam, você seja sempre muito feliz em sua vida”.
A mãe sentou-se à mesa. Titinho sentou-se no lugar de honra, à cabeceira da mesa.
A sala ficou na penumbra, aclarada apenas pelas velas que bruxuleavam, três a três, nos dois candelabros de prata sobre a mesa. As quatro velhinhas se rivalizavam em servir alegres, contentes, felizes, com maternal carinho e amor, o pequeno conviva. Um vinho suave e rubro borbulhava dentro das taças, as mais ricas peças desarquivadas dos baús, para a condignidade de José Maria, Izabel, Amanda, Armene, Araci e Nívea. O menino, com naturalidade e desembaraço, sua sensibilidade assim permitia, tomou nas mãozinhas negras o belo cálice transparente, em cujo cristal o reflexo das velas fragmentaram-se em miríades de estrelinhas, sorriu, ergueu o cálice à altura dos olhos como quem consagrava... e demorou naquele gesto como quem flutuava no ar. Sua veste inundou-se de luz e um halo de ouro envolveu-lhe todo o pequeno espectro. O seu rosto, assim nimbado, transfigurou-se à luminosidade frouxa das velas como quem orava, como quem con-templ-orava o Amor Vivo e Eterno. As quatro Marias, extasiadas, Maria das Dores estava no sétimo céu de seus êxtases e felicidades, ergueram, também, automaticamente, as suas taças, murmurando o nome de Jesus.
Suavemente um coro de vozes, descendo do alto, entoou entre bimbalhar de sinos e acordes de harpas:


“Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”


“Bem-aventurados os Simples, porque eles possuirão os Céus”.


(**RIO DE JANEIRO**, 17 DE MARÇO DE 2017)


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