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sábado, 18 de março de 2017

**SIMETRIAS** - PINTURA: Graça Fontis/PROSA POÉTICA: Manoel Ferreira Neto


Estou tão amplo, tão pleno.
Sou coerente:
meu cântico de vida e verbos é profundo.
Há melodia de amor
e eu nada posso senão nascer,
des-{cobrir} o que é nascer
e estar dis-ponível para a Vida
em todas as suas dimensões.


Tudo atrás do ser,
tudo atrás do pensamento e idéias,
tudo atrás das intuições,
percepções,
inspirações.
Se tudo isso ec-siste,
então, eu sou, sou-me.


Viver a vida é mais um recordar-se dela do que um viver direto, reto. A vida oblíqua é íntima. Parece uma convalescença macia de algo que, no entanto, poderia haver sido ininteligível. Convalescença de um prazer... de um prazer frívolo? Não sei o que diga: creio de modo ímpio, e não me questionem os doutos dessa impiedade, quero apenas enfatizar o modo, mas o termo melhor é frígido, comunga mais com a idéia que venho desenvolvendo para expressar a minha ausência de talento para escrever a vida. Só para iniciados, a quem ainda a pena não revelou seus limites, vive nas nuvens do orgulho e da lisonja, das saltitâncias do sucesso e dos rebolados da fama, a vida se torna fragilmente verdadeira. Será que não sei mais do que estou falando, o que digo, perdi-me nos veios dos sentidos, agora é escrever sem metas e diretrizes, sem propósitos e campos do caminho, deixar a pena deslizar na linha sem eiras e beiras, ler quando terminar e intuir o que provavelmente intuí, o que provavelmente quis significar. Quê hipocrisia deslavada acabo de registrar! Terminado o escrito, jamais releio, a jornada das letras continua o itinerário. Tudo se me escapou sem eu sentir. Escapou-me a razão que direciona os interesses e razões, as intenções e propósitos. Escapou-me a sensibilidade que mostra os sentimentos que me habitam do vivido e do desejado viver. No rosto in-concreto do sonho, na face i-(r)-real da utopia, varando o espaço da mente, sento-me na quina de um pensamento destemido, ousado, noutra palavra mais condizente, valente. Aniquilo a transitória, mas poderosa matéria, e detenho-me pena! Não é a mesma coisa sincera, séria, descrever com sangue os sentimentos que escrevo com tinta, a alma que delineio com a acuidade da caligrafia, o espírito que ins-piro além do bem e do mal, além das intempestivas considerações do quotidiano e de suas sinuosidades da verdade e da in-verdade.


A lâmpada vive iluminando
os caminhos de espinhos a quem passar
nas noites escuras a se penetrar
Quando ec-sistir o sin-istro acompanhamento.
Faltou-me a inspiração, faltou-me a intuição, faltou-me a percepção para delinear o estilo e linguagem, para burilar as idéias latentes e manifestas. Sei sim, sei do que estou falando: a pena, a partir do instante em que registra, a palavra esboçada pela alma, sentida pelo espírito, sofrimentos e dores, problemas e conflitos, não deixam certezas, deixam questionamentos os mais profundos e perspicazes, responder-lhes dura toda a eternidade e algumas miríades de séculos e milênios além – mas com muito cuidado porque senão por um triz nada sei mais. Alimento-me delicadamente, finesse jamais havida na história dos princípios e exceções, do cotidiano trivial e tomo café na cozinha, ao lado de minha doce-companheira-e-esposa, de meu amor-singular-e-único, de quem se entregou inteira para a minha felicidade, real-ização de meus sonhos e utopias, e eu, amando-a e agradecendo-a, teço essas linhas em sua homenagem, uma saudação de meu ser no limiar da aurora que parece suave e tranquila porque chovera a cântaros por toda a madrugada, porque é doce e sensível ouvir a chuva caindo, os pingos dágua deslizarem no vidro da janela, e os meus olhos deslizarem neles numa eterna nostalgia e melancolia, numa imortal ambiguidade entre a realidade e os sonhos do ser, entre as quimeras, ilusões, fantasias e os verbos do encontro e des-encontro.


Na simetria humana, há de se diferenciar,
procurando várias formas de amar para se criar;
só fica o desejo sedento de acariciar
e essas duas extremidades por fim se encontrarem,
mas torna-se utópico o desejo de se acharem.


A simetria atual virou linhas sinuosas,
onde em cada curvatura, cuidado se segura...


Estou aflito, os olhos piscam continuamente, sem intervalo. Mudei o cinzeiro de lugar, da esquerda para a direita, nos últimos instantes, várias vezes, acendi outro cigarro na guimba do outro. Sou capaz de dizer “agora, é o fim”. Mais uma tentativa fracassada de escrever a vida, de torná-la o absoluto do tempo. Mesmo para os descrentes, há o instante do desespero que é divino: se tanto amor dentro de mim recebi, se tantas letras pude traçar nestes tempos felizes e realizados ao lado de minha doce-companheira-e-esposa, e ainda continuo inquieto, é porque preciso re-velar mais e mais este amor.


A voz cai no abismo
de teu silêncio,
as palavras elevam-se no deserto
de tuas necessidades de viver
o ser dos sonhos
e dos desejos.


Tu me lês,
em silêncio.
Nesse ilimitado campo de trevas,
o desejo de luzes ainda mais forte
para que a claridade
seja esplendorosa
aos nossos olhos,
então não apenas desdobrar
as asas e voar,
mas ser a Vida.


Vamos rasgar fronteiras,
atravessar rios e oceanos,
entrar nas amplidões,
nas multiplicidades um do outro,
e desfazer a solidão
de duas procuras,
de duas buscas,
de duas vontades e desejos.


"Bramo de prazer e de desejos!" Que importa se o verbo "Bramir" seja defectivo, é na boêmia da noite, horas de solidão e silêncio, perscrutando a cintilância de estrelas, brilho da lua, nos vestígios de carência de amor desmedido que re-faço caminhos, sendas e veredas, porque há em mim um impulso de forças vivas em via de se libertar da casca. Esta necessidade e pendor para o verdadeiro, esta sede do real, do certo...


(**RIO DE JANEIRO**, 18 DE MARÇO DE 2017)


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