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sexta-feira, 17 de março de 2017

**PÓS-NÚPCIAS, HORIZONTES A CONQUISTAR** - PINTURA: Graça Fontis/PROSA: Manoel Ferreira Neto


Para as despesas da vaidade, bastam-me os sonhos, que são inquietos, convidativos, e só convidativos. Podemos, sim, compará-los com um candelabro à porta de um casebre em que não exista alguém. Se houver alguém, os sonhos serão inúteis, fúteis.
Sonhamos, então, que estávamos numa taberna, tomando vinho, aquando se aproxima de nós alguém, dizendo que Machado de Assis era um perfeito imbecil, ignaro. Disse-o por haver percebido que estávamos lendo, enquanto tomávamos o vinho. Respondemos-lhe que seria, teria sido, um perfeito imbecil, ignaro, se houvesse intitulado o livro “Victor”, ao invés de O Alienista. Não era este o seu nome?! A menos que a placa dependurada à porta não tivesse nada a ver consigo. Estava escrito “Taberna do Victor”. Saiu de perto de nossa mesa, pisando duro, não tivera qualquer resposta.
O candelabro à porta da taberna fazia parar toda a gente, tal era a lindeza das cores, parava, olhava, decidia por tomar um bom vinho. Mas a sensibilidade, a espiritualidade não existiam no interior da taberna. Terminando o vinho, com um marca-páginas, fechei o livro, disse boa-noite, fomo-nos embora.
Não percebemos qualquer relação com o que estamos a dizer, confessar, ainda que a confissão inteira não esteja sendo feita, deixamos o sabor de um mistério, enquanto registro, mas a consciência de que mesmo se trata perpassa-nos por inteiro, havendo medos por aqui e ali, mas sabendo, de antemão e revezes, haver calma e tranqüilidade, enfim, estamos a livrar-nos de algo que não mais tem qualquer finalidade, utilidade, apesar de um único termo ser suficiente para definir, embora isto, não precisamos mais de sua presença. Desde sempre, assim acreditamos, fora sendo construído, até inconsciente, o que iria preencher o espaço, quando se tornasse vazio, e sabemos o que será colocado no lugar – se é que já não o fora, mas a presença de medos não nos esteja possibilitando perceber, sabe-la.
Aquando Terpsícore dançava a canção do silêncio, referindo-nos à peça que assistimos, a canção que o silêncio entoava no seu interior, tergiversamos o olhar para o público, desejamos perceber em suas fisionomias os sentimentos, prazeres, emoções, êxtases, que habitavam seus íntimos, nada percebendo, quem sabe estivessem apenas analisando a representação dos atores, e o que havia em suas entrelinhas, o questionamento de nossas dores mais íntimas, os sonhos e ideais que se encontram perdidos, esquecidos. O mais impressionante é que havia um grupo de adolescentes conversando, sem prestar a mínima atenção ao espetáculo.
Sorrimos, dizendo-nos que o medo e a fuga são sentinelas das idéias, dos sonhos, das utopias. Assim, é que ouvimos a canção do silêncio, inspirado nestas sentinelas da estesia e esperança.
Não acreditamos que as dores, os sofrimentos a que presenciamos no íntimo, olhando através do vidro do carro em que retornávamos a nossa residência, sejam mais verdadeiros que a canção do silêncio que nos habitou o mais profundo de nós, aliás, cremos, foram eles que nos conscientizaram ser verdadeira a canção que ouvíamos, que ainda ouvimos neste dia, quase uma hora da tarde.
É verdade que estamos a registrar as nossas situações, circunstâncias, faz dois meses, não sabemos ainda quando por fim decidiremos haver chegado ao término, por intencionarmos continuar até ao tempo em que tudo estará claro e evidente. Talvez não se torne público, confessamos que o medo incólume é que se torne e não sabemos a extensão das conseqüências, sejam prejudiciais, sejam benéficas, o que isto importa, nada, assim o cremos; há como isto evitar, enfim, não deixa de ser comprometedor. Pode até ser que não tenha importância alguma para as pessoas. Enfim, nunca fora importante aos seus olhos.
Acontecera de ao registrarmos “quase uma hora da tarde” tivemos a curiosidade de olhar as horas, após algum tempo de registrado, era também uma da tarde. Não sabemos o porquê de isto registrar, mas acreditamos alguma necessidade ter havido; continuava dirigindo o carro na rodovia, ouvindo músicas, uma vida de trocas, entregas, de respeito e amor, projectos comungados; enfim, não tivemos domínio algum do que estava sendo dito e revelado, anunciado nas entrelinhas. Quem sabe tenha a sua incólume necessidade, contribua para o entendimento e compreensão, ainda que sensível, sensorial.
Há dez dias que nada escrevemos, e isto, confessamos, preocupou-nos um pouco, embora tenhamos pensado que a continuidade não estava sendo, em hipótese alguma, benéfica, estávamos a tocar nas mesmas teclas, não percebendo, obviamente, e o fato de alguns dias sem o fazer, iria ajudar bastante, iria modificar e transformar algo na interioridade. Estávamos a vivenciar outras experiências, acompanhadas de sensações e sentimentos diferentes, e, retornando, isto iria sim identificar novos horizontes e perspectivas por onde contemplar a vida.



(**RIO DE JANEIRO**, 17 DE MARÇO DE 2017)


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