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segunda-feira, 20 de março de 2017

**IT´S NO SACRIFICE...** - PINTURA: Graça Fontis/PROSA: Manoel Ferreira Neto


Voz...
Voz sensível...
Voz ritmica...
Voz melodiosa...
Voz de amor...
Voz de esperanças e sonhos profundos...
Sentado no banco da pracinha, sozinho, todos já se foram, logo cedo tem de trabalhar. Onze e meia da noite. Chega-me esta voz. Toca-me a alma. Toca-me o sensível. Toca-me o coração. Toca-me a alma. Toca-me por inteiro. Este momento será inesquecível, sempre a lembrar desta pracinha, sozinho, esta voz que me chega.
Imagino-me deitado na areia da praia, carente, necessitado de carinho, afeição, amor. Vem uma onda e as águas cobrem-me todo. É essa voz. Pensara, antes de a mim chegar, iria guardar na lembrança este momento como o mais sofrido e doloroso da vida, carente, com medo, inseguro, confuso, angustiado, deprimido, não vendo perspectiva de me libertar. Prolongar-me-ia deste modo até a morte. No entanto, chega-me esta voz, mergulha-se em mim, toca-me os recônditos da solidão, com o seu tom carinhoso, afetuoso, amável, dizendo-me: "Sinta a vida. Não é nenhum sacrifício. As notas de todas as suas benesses ritmadas e melodiadas mostram-lhe outros horizontes. Agora, está-lhe parecendo não haver mais saída, não mais solução. Sentindo a vida, sentirá que a vida está à sua espera. São dois mundos separados: o mundo das contingências e a dimensão sensível e trans-cendente da vida. Não é nenhum sacrifício em amar a vida..." Ouço a voz sussurrar-me, murmurar-me no ouvido. Ouço sim com carinho. Havia tanto tempo que não ouvia uma voz, só vozerios. Voz que despertou em mim esperanças, sonhos, tocando-me tão profundamente.
Lembra-me estar sentado num restaurante, sozinho, era o último cliente. Duas e meia da manhã. Olhava a noite, olhava a avenida. Pensava em minha namorada no Rio de Janeiro. Esta voz. Esta mesma música tocando. Tantas foram as sensações, sentimentos, emoções que me são difíceis elencá-las e descrevê-las. Sei que voltei para casa, sentindo-me leve, dormi sono muito profundo. Não mais a ouvi por alguns longos dias.
Na pracinha, ultrapassados todos os limites da carência, as pessoas terem ido embora, ficando sozinho, a música toca na fonte luminosa, ouço-a. Então quando o cantor canta: "It´s no sacrifice...", "Não é nenhum sacrifício...", angústias, tristezas, medos, depressão alçam voos, aquela sensação de liberdade, o coração do sonhador pulsando.
Ouvi-a. Deixei a voz mergulhar, mergulhar, mergulhar, deixar-se em mim, a música em mim. Memorizei. Retornando a casa, a música e a voz no meu ser, era a voz e a música.
"It´s no sacrifice..."



(**RIO DE JANEIRO**, 20 DE MARÇO DE 2017)


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