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terça-feira, 21 de março de 2017

**LONGOS E IN-VERNOSOS JEJUNS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


O espírito humano, à imitação da planta que floresce do modo mais esplendoroso entre os não-conformistas, não-alienistas, não-alienados e anticristos, alíás, onde sempre floresceu, na sombra, como a violeta, embora com outro odor, deve seguir uma curva que o devolva ao seu ponto de partida, um aclive que o leve ao seu lugar de origem ou declive que identifique o seu habitat eterno – de origens escalafobéticas e risíveis (que coisa, não?! E dizer que estamos em plena era da civilidade e modernidade!) estamos os homens de todos os séculos com certeza entediados. Valha-nos Deus!... Já nem ousamos mais questionar essa realidade, perguntarmos entre ansiosos e esperançosos quando é que o tédio terá seu fim, pois que já nascemos conscientes de que isto nunca será concretizado.
Não deveria eu estar-vos falando de alegrias, felicidades, contentamentos, esperanças e fé, e estou agindo exatamente de modo contrário, falo que a vida não vale um tostão furado, estamos iludidos quanto a realização de nossos sonhos e quimeras, estamos todos condenados ao fracasso universal. Quereis criar ainda o mundo diante do qual qualquer um de vós possais ajoelhar-se; é esta a vossa derradeira esperança e a vossa última embriaguez. Os simples, todavia, o povo, são idênticos ao rio por onde desliza um barquinho e, no barquinho vão, imponentes e mascaradas, as apreciações dos valores.
No início, falo deste estado maravilhoso em que se encontram os divinos proscritos, onde o espírito se encontra, às vezes, lançado como que por uma graça especial; digo que estes mesmos divinos proscritos anseiam incessantemente à reanimação de suas esperanças e à sua elevação ao infinito; mostram um gosto frenético e alucinado, muito embora em suas mentes e imaginações estas palavras suscitem quase o mesmo sentido, a mesma lengalenga sem sensos, posturas, idiotices sem limites e fronteiras, por todas as experiências prazerosas e sublimes, mesmo que perigosas, mesmo que em demasia ininteligíveis e portadoras de conseqüências as mais desastrosas; ao exaltarem suas personalidades, o caráter lídimo e puríssimo de condutas, suscitam por um instante aos seus próprios olhos o paraíso de segunda mão, objeto de todos os desejos, orgias, e digo, enfim, que este espírito arrojado trigueiro e elevado, sem o saber, até o inferno, confirma assim a sua grandeza original, o seu poder magistral.
Perguntais-me, quem sabe bestificados, quem sabe estupidificados, por não terdes ainda percebido – quem sabe devido ao tecimento das idéias e pensamentos através de linguagem e estilo eruditos e clássicos, mui bem trabalhados – qual seria o meu único defeito. Fazeis-me rir, senhores. Qual é o homem neste mundo que seja repleto, cheio até às raízes dos cabelos, de defeitos, erros, enganos? Todos os homens estamos mais do que entupigaitados deles. Contudo, digno a responder-vos com franqueza e honestidade. O meu único defeito é ser piegas; venero os esqueletos, já porque o são, já porque o não sou. Não sei me explico. Tiro o chapéu às caveiras. Estive mesmo me perguntando se os cadáveres que são enterrados em gavetas, se encontraremos suas caveiras integras. Com efeito, em sepulturas normais, os ossos se espalham pela terra até serem consumidos por elas.
Durante longas noites, em vossos estábulos, dormindo à luz das estrelas, presos à carroça, no chão de terra dura, no capim fresco e viçoso, contemplais alguma aranha astuta espreitando, que predica a astúcia às próprias aranhas, ensinando: “É bom tecer sob as cruzes”.
Do jeito que as coisas vão, serei sim crucificado, e, nessa época sem fé, tornar-me-ei Deus, mais importante que o próprio e seu Filho. Não foi o Beatle John Lennon quem declarou: “Somos mais populares que Jesus Cristo!”, o que levou centenas de pessoas a queimarem seus discos. Na época de Cristo, Ele era o mais popular, nos anos ´60, eram os Beatles. A dessemelhança era verdadeira: Cristo era Deus, os Beatles não eram Deus, tornaram-se homens-deuses com a arte, talentos e dons que lhes habitavam o espírito.
Era ele o meu ídolo, era apenas não, continua sendo – então, quando ele canta com toda alma e espírito Happy Christmas não consigo conter-me, deixo as lágrimas quentes descerem-me a face, também Stand by me, interpretada por ele, ambas me sensibilizam bastante. Aquando de seu assassinato, confesso-vos que andei perdido e confuso pelas ruas da cidade, não me conformava com este seu desfecho. E até hoje me pergunto: “Como um homem desse pode ser assassinado?”. Fora o primeiro ídolo que perdi, e não me conformo com isso, o que ajuda a amenizar é quando passo o dia inteiro, sábado ou domingo, ouvindo as suas canções. Há quando penso e sinto que se houvesse vivido na época de Cristo, não iria conseguir sobreviver com a sua crucifixão, não viveria sem a presença d´Ele. Não conheço ninguém que haja pensado que talvez tenha sido esta a razão de Judas haver se suicidado.
Creio não ser necessário e nem conveniente transformar o espetáculo em um comércio que visa apenas o lucro e o conforto, fama e sucesso, imortalidade e eternidade, vender a alma para pagar as carícias embriagantes e a amizade das parcas. Imagino um homem (poeta, filósofo, cristão), um anticristo, colocado no árduo Olimpo da espiritualidade, à sua volta as Musas de Rafael ou de |Mantegna, para consolá-lo de seus longos e in-vernosos jejuns e preces assíduas, observam-no com seus mais doces olhares e úmidos lábios, os sorrisos mais iluminados. O divino Apolo, mestre em tudo saber, afaga e acaricia com seu arco as cordas mais vibrantes, ritmos mais alucinantes, tons mais endiabrados e infernais. Abaixo dele, ao pé da montanha, nas sarças e na lama, a multidão dos humanos, o bando dos apátridas, simula os esgares da alegria e do prazer e solta urros provocados pelas dentadas do veneno.
Não é a minha alma que aqui está em causa; o que pode interessar-vos saber que meus pais tinham um dissabor em suas vidas, com efeito faleceram com ele, jamais poderiam esquecer dele, o filho era em demasia emotivo, chorava por nada, até por patetismo, e, sendo chamado a atenção, logo as lágrimas deixavam de descer o rosto, e no lugar delas um semblante de alguém arrependido e cheio de remorsos por esta atitude sem justificativa, chorar por nada, e em conseqüência o arzinho cínico se revelava. Não cheguei a tomar surra homérica devido aos cinismos, mas as orelhas ficaram vermelhas inúmeras vezes, de nada adiantou, aumentou ainda mais, talvez por um gesto rebelde. Estive indeciso se deveria ornamentar minha fala com esta explicação, ajudaria a mergulhar mais nas palavras que pronuncio a todo instante. Está feito, sinto-me mais à vontade.
Creio que de outro modo, noutras palavras, conseguiria expressar-me melhor: a defesa é natural, cada qual para o que nasce, os homens nasceram para se emaranharem nas garras da razão, outros para se livrarem das moscas nada melhor que num sacolejo.
Devendo acrescentar que depois dos puxões de orelhas, no meu canto a cabeça enchia-se de pensamentos e idéias as mais estapafúrdias, como se estivesse pedindo desculpas a todos, atrapalhei-lhes os momentos de prazer, alegria, almoço ou festinha de aniversário, e só porque o marido dissera não saber mais o que fazia, se comprava uma bicicleta ou se pedia o divórcio, fazendo-me emocionar às lágrimas quentes e efusivas.
Entristecido com tamanho espetáculo de luzes e palavras, gestos e insinuações, digo a mim próprio: “Estes infortunados que não jejuaram, nem oraram e que recusaram a redenção pelo trabalho, enfim o trabalho enobrece o homem, garante que os seus epitáfios sejam por todo sempre iluminado pela luz solar, com direito às recordações e lembranças dos longos discursos de autoridades e personalidades ao pé da cova, buscam submeter-se aos escárnios e humilhações de toda sorte como alguém se submete a um câncer, a uma AIDS ou à morte, com aquele impávido fatalismo sem revolta, em virtude do qual os russos, por exemplo, ainda hoje têm vantagem sobre nós, os ocidentais, no trato com a vida”.
Isto, como agora sou bem autêntico e ousado em afirmar, é digno de um grande trágico: o qual, como todo artista, somente então chega ao cume de sua grandeza, ao ver a si próprio e à sua arte como abaixo de si – ao rir de si mesmo.
Em face da velha senha mentirosa do ressentimento e da mágoa, a do privilégio da maioria, enfim é mais fácil um proscrito adquirir o seu leito de penas – penas sem tinta servem apenas para simular e dissimular a imortalidade medíocre e mesquinha, abanar o tédio insofismável da vanglória imbecil e idiota, sem méritos, honras, louvores, enfim; e no Panthéon, serão motivos de troça de Machado de Assis, Lúcio Cardoso, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos: “Ainda bem que não estamos mais no mundo, as coisas de lá se tornaram mesmo brincadeira, “escritores sem letras”, que absurdo!” -, diante da vontade de rejeição, preconceito, discriminação, de atraso e ocaso do homem, ecoou forte, nítida, simples e insistente como nunca dantes pensado e imaginado, a terrível e fascinante contra-senha do privilégio dos raros.
O que interessa não é tanto impor uma nova ordem como afirmar uma vontade como princípio de autonomia. Dizer que não àquilo que nos submete é dizer que sim ao poder de recusá-lo. As relações de vida estabelecem-se apenas entre dominar e o ser dominado; e à força do que nos esmaga nós respondemos assim com o gesto de esmagar. Se ao efeito que vem de cima não podemos responder com a eficácia que vá de baixo, respondemos ao menos com o que pode imitá-la até onde imitar nos é possível. Assim res-pondo a uma consideração feita a mim com todas as letras, “se não conseguia ser o Deus, tenha a dignidade de imitá-Lo”. Atua por atuar diverge enquanto atuante, mas não enquanto se executa ação. O destino atua e é eficaz; que a nossa resposta esteja ao menos no executar a ação. Que importa que o nosso orgulho seja impotente?
Eis, portanto, homens supostos, divinos proscritos, o espírito de minha escolha, chegado a esse grau de prazer e serenidade, onde sou levado a admirar-me a mim próprio. Senhores, que civilidade e modernidade são estas que, no sentido de continuar vivendo, sobrevivendo, tenha de admirar-se a si próprio, por nada mais haver para ser admirado. Isto é triste, senhores! Toda contradição desaparece, toda polêmica se resolve com um aperto de mãos e três tapinhas nos ombros, como é sobremodo peculiar nos mineiros, todos os problemas filosóficos e teológicos tornam-se transparentes, ou pelo menos assim parece. Tudo é motivo de prazer, de júbilo, de ostentação. Tudo são razões de ostentar as importâncias, enfim são os únicos que grandes contribuições realizaram em nome da cultura (quem não acreditar é só se informar das medalhas de honra ao mérito recebidas, embora quem as concedeu tenha dito: “Aos cães, as medalhas”, pensando merecerem de verdade, latir sabem com toda a força dos pulmões e dos instintos, mas não espantam nem os mosquitos. Uma voz nele fala (infeliz! É a sua própria voz) e lhe diz: “Você agora tem o direito de se considerar superior à raça humana, a toda a humanidade; ninguém conhece ou poderia entender tudo o que você pensa e sente; seriam mesmo incapazes de apreciar a benevolência que lhe inspiram. Você é um rei que os passantes desconhecem, e que vive na solidão de sua convicção: mas que importa isso? Aliás, nada disso importa realmente. Você por acaso não possui este desprezo soberano que torna a alma tão humilde e boa, capaz de praticar as mais perfeitas misericórdias?”. “Sai pra lá, Satanás. Tais prazeres são dos verdadeiros, honestos, suas penas destilam à soleira das almas brancas de papel os ácidos à luz de pepinos descascados. Isso não é para nós, os que são imortais. Deus, meu livre!”, responde o outro torcendo os lábios e impostando a voz.
De quantas ações tolas e imbecis não está cheio o passo, que são verdadeiramente indignas deste rei do pensamento e que profanam sua dignidade real e ideal. Quantos homens encontraríamos no mundo tão hábeis e perspicazes para se julgarem, tão severos para se condenarem? Todas as épocas bradaram umas contra as outras em vossos espíritos; e os sonhos e os brados de todas as épocas eram mais reais do que a vossa insônia. Com a horrível lembrança absorta, dispersa, desta forma na contemplação de uma virtude ideal, de uma caridade ideal, de um gênio ideal, entrega-se candidamente à sua triunfante orgia espiritual. Por que os homens dizem: “Somos totalmente realistas, não temos crenças nem superstições”; assim enchem o papo, sem sequer ter papo. Não é isto que sempre ouvimos em todas as esquinas e pracinhas de nossa comunidade: “aqui, as pessoas só têm gogó”? De fato, quando uma fé é mais útil, mais convincente, quando produz mais efeito que a hipocrisia consciente, mais instinto, a hipocrisia se torna logo inocente; primeiro princípio para compreender os grandes imortais, pena que seja imortalidade oportunística. Desde que sentira forte e presente em mim estas palavras, o que é não se torna e o que se torna não é”, é que pude compreender algumas estutícies humanas. Hajais de buscar compreensão para estas palavras que aqui registro para me ajudar a tecer o discurso de modo real e verdadeiro. Não sou capaz de lembrar-me neste instante quem afirmara que os homens póstumos jamais seremos compreendidos, aí é que está a nossa autoridade, o que endosso com todas as letras e sílabas existentes na Língua Portuguesa.
Agora, da contemplação de seus sonhos e desejos e de seus projetos de virtudes, decidiu-se pela sua aptidão prática à virtude; a energia ao mesmo tempo vigorosa, esplendorosa, resplendorosa, apaixonante com a qual ele abraça este fantasma de virtude parece-lhe prova mais do que cabível e suficiente, peremptória da energia viril necessária para a realização de seu espetáculo, de seu ideal. Confunde ele, com toda empáfia de sua personalidade, o sonho com a ação, com a autenticidade, e com sua imaginação aquecendo-se mais e mais diante do espetáculo encantador de sua própria natureza corrigida e idealizada, substituindo por esta imagem fascinante de si próprio, divino proscrito, o seu indivíduo real, tão pobre em vontade, tão rico em vaidade, termina por decretar sua apoteose nestes termos nítidos e simples que contêm para ele todo um mundo de abomináveis prazeres e contentamentos: “Sou agora o mais virtuoso dos homens”.
Logo de imediato este furacão de orgulho e empáfia se transforma em uma temperatura de êxtase tranqüilo, calmo, mudo, repousado, e a universalidade dos seres se apresenta colorida e como que iluminada por uma aurora ácida e sulfurosa.
Ó corpos vários, diversificados unificados no apelo vário dos instantes de mim, corpos frágeis, delicados, de cristal, ondeada chama débil como um devaneio, intrínseca vivacidade filamento ápide afiado gume, subtilização da carne ao esvaimento do espírito, ondeada cobra fina e que se toca com a polpa dos dedos se toca na pressão funda e linear no arranque, a linha dos dentes, na ausência quase de uma realidade corpórea transfinita, imaterial quase, irisada, longilínea, e se teme a violência, retraído a mim como se mais ninguém, eu só, transcendido a um refinamento extremo e duro, o prazer como um choro porque estremece na fibra última da sensibilidade, aí onde nasce tudo o que é sensível, prazer tão fino e fundo que é como se implícito a tudo o que se passa à superfície e o condiciona e o chama...
Se uma ruminação selvagem, um grito rebelde, ardente, arrojar-se de seu peito com tal energia, um tal poder de projeção que, se as vontades, desejos, sonhos, e as crenças de um homem ébrio, tivesse uma virtude eficaz, esta ruminação, este grito revirariam os anjos disseminados nos caminhos do céu: “Sou um Deus”. Qual é o filósofo francês que, para ridicularizar as modernas doutrinas alemãs, dizia: “Sou um deus que jantou mal”? Esta ironia, cinismo, sarcasmo não afligiria um espírito elevado ao nível de um proscrito, e ele responderia com todo o carinho e ternura que sua alma fosse capaz de expressar e revelar: “È possível que tenha jantado mal, a costelinha de porco com maxixe não caiu bem no estômago, mas eu sou um Deus”.


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE MARÇO DE 2017)


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