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sexta-feira, 17 de março de 2017

NADA NO VÁCUO (?) - PINTURA: Graça Fontis/CRÔNICA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!


Sinto dizer que me não é dado saber com que espírito levantei nesta manhã de sexta-feira, muito sol, ventinho marítimo agradável, se de absoluta troça ou apenas de brincadeira com as palavras, uma oportunidade de amenizar as tensões, preocupações, responsabilidades quotidianas, é brincar, então, com elas, são as minhas amiguinhas de estripulias. Estava sim necessitando de brincar, nunca o fiz em criança.
A pergunta, em qualquer ângulo que a faça, revirando os olhos para a esguelha necessária, esguelha de prospectivas, esguelha de re-vezes, quase lhes quebrando os nervos óticos, in-vertendo as retinas, mesmo que no da genialidade, quando o mais imbecil se torna o mais sábio, a humanidade se sente agradecida, muitas coisas mudarão pelos séculos e milênios, é a mais estapafúrdia que se possa imaginar, não se tem notícia, desde os primórdios da humanidade de alguém tê-la feito, espremido os miolíssimos para a res-ponder, morrido de tanta loucura e desvario, se o nada habita o vácuo, está dentro dele. O vácuo é vácuo, conforme informação do “pai dos burros”, zona atmosférica afetada por correntes descentes, nada nele habita ou existe na sua essência.
Se algo houvesse nele, deixaria de ser vácuo, seria o algo nele existente, ou seria um vácuo diferente, vácuo e o algo, e se o retirasse, deixaria de ser um, deixaria de ser o outro, nada mais existiria. Contudo, discordo em absoluto o vácuo ser puro, se o nada não habitasse o vácuo, não seria ele, a idéia dele seria um disparate sem limites e contornos. Não discordo apenas porque hoje levantei com um espírito diferente, bem diferente do comum que vivencio no meu quotidiano; discordo mesmo de o vácuo ser puro, nada é puro neste mundo. Para mim, provido e dotado de genialidade inconteste, isto é que se chama pernosticidade deslavada, o vácuo jamais foi puro, o nada habitando-lhe é que mostrou ao homem a sua existência, tornou-lhe eterno e imortal, objeto de todas as elucubrações científicas, os cientistas puderam pro-jetar suas importâncias e orgulhos, conheceram o sucesso em vida, imortalizaram-se no vácuo, eternizaram-se no nada do vácuo – quer imortalidade, eternidade mais esplêndida e magnífica do que esta? Particularmente, eu conheço outras bem mais interessantes, mas os cientistas discordam de mim in totum. Digo isto porque não sou cientista, não conheço as glórias que a ciência proporciona aos homens. A imortalidade que conheço é outro, desfruto as suas glórias e dádivas, não me imortalizaria no vácuo das letras ou no nada das letras vácuas, isto é impossível.
Para avacalhar ainda mais, vou mais nesta pergunta que, com efeito, vai re-volucionar a nossa modernidade, fato é que anda com um pé na cova e outro no mundo, está caindo os pedaços, não tem coragem suficiente para a viagem eterna, creio que o medo do juízo final é a razão de não morrer, ouvir dizer que não poderá desfrutar a paz do céu porque no mundo só causou estragos, prejuízos, deverá ir para o inferno.
No nada habita o vácuo? Nem com todas as brincadeiras de linguagem, habilidades e flexibilidades de estilo, enfiando neles o desvario de minha mente, é pergunta que se res-ponda com facilidade, isto porque nenhum miolo espremido será capaz de abarcar a sua profundidade – da pergunta, vale ressaltar, porque o nada jamais foi profundo, na minha cachola de desvairado e gênio é bem superficial -, só se o tirar da cabeça, desmiolá-la, no seu lugar colocar o nada e o vácuo que lhe habita – se for num discurso verbal, a argumentação que no nada o vácuo está presente, a língua quedada de tanto cansaço, enfim as palavras saem aos borbotões, os raciocínios seguem a velocidade da luz, deixando muito a ser dito, explicado, elucidado; se for por escrito, a mão ficará dormente de tanto desenhar as letras no papel, cargas e mais cargas de tinta serão insuficiente, o vácuo no nada é pano para manga. Isto se tanto o nada e o vácuo não se escafederem da cabeça, deixando-a vazia, um espaço sem nada no interior dela, o que seria em demasia interessante, digno de admiração, se é o cérebro que responde pelas idéias, pensamentos do homem, ele é que comanda a razão, o intelecto, o homem desprovido deles, quem sabe não haveria tantos despautérios, a felicidade seria conseguida por todos, cabeça vazia não seria tenda do diabo, mas templo de Deus.
No nada, o vácuo não está presente. O vácuo no nada eliminaria a idéia, conceito e definição do nada. E como ninguém é capaz de pensar, sentir, elucubrar algo sem conceito e definição, ele necessário que existam para que sejam considerados reais, caso contrário, é fruto de imaginação fértil. Não é imaginação fértil o nada? O vácuo já não é imaginação, ele existe mesmo, bem dizem que não existem nuvens, isto é ilusão de ótica, tudo no espaço é um vácuo sem limites e contornos; particularmente, não saberia informar com percuciência, jamais subi no espaço para isto comprovar, senão nalguns instantes, isto porque sou homem disperso, não tenho mesmo os pés no chão, não sei se dissesse são os ócios do ofício ou ossos do ofício, o primeiro é improvável pois as letras dão muito trabalho, não é coisa fácil desenhá-las na folha branca de papel.
O nó cego se faz presente em mim todo. Não é que o nada me tenha tomado, não é que o vácuo me tenha possuído.


(**RIO DE JANEIRO**, 17 DE MARÇO DE 2017)


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