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quarta-feira, 29 de março de 2017

DELÍCIA DE MISÉRIA E FLAGELOS - PINTURA; Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!


Cara feia é fome.
A fome, sob qualquer “pers-pect-iva” do olhar, é uma des-graça. Não há quem não expresse na cara mesma a sua feiúra, e põe feiúra nisto. A fome simples, aquela que não faz longos dias que o estômago não vê nem a imagem de uma côdea de pão ou um bago de feijão, não revela tanta feiúra, é uma feiúra de nível mediano, mas quando já se perdeu as contas dos dias que nada se come, o estômago já está muito distante das costas, a feiúra é indescritível, inominável, Mefistófeles e seus asseclas, acompanhados das almas penadas, correm léguas, é mais que assustadora, junto com ela vem a careta de um palmo de língua. Fome é fome, se se for explicá-la nos conformes da realidade e do real, ela aumenta ainda mais, mais que o cordão dos bajuladores.
Muito embora olhar o que é feio seja uma das coisas mais desagradáveis, conforme a sensibilidade e o senso de belo e beleza a angústia surge que é uma beleza, correndo-se o risco de se tornar crônica, só não o sendo o Barroco que é o feio belo, é arte, sensibilidade, senso e instintos ressentem, não é algo que resulte em danos emocionais e psíquicos, não desatina. A cara por mais feia que se mostre não vai fazer tremer ou tremelicar, os ossos dançarem ao ritmo e melodia do silêncio, não arranca pedaços como fazem os cães com os seus caninos afiados, é apenas uma cara feia, os motivos podem fazê-la mais feia ainda, de qualquer modo é cara feia.
Por vezes, queira ou não, sou homem tão comum e simples quanto quaisquer outros, faço cara feia diante de certas situações, olhando-a com esmero no espelho, trato de desfazê-la num piscar de olhos, fico com vergonha de mostrá-la publicamente, a feiúra que é natural e da condição ninguém mais dá atenção, passa batido, mas a língua se move tanto que entra em desatino, entra na musicalidade da matraca, língua tagarela faz mais efeito que cara feia, esta o é em silêncio, sinta-se e adivinhe-se o que diz, o que expressa, a língua tagarela ressoa a plenos pulmões, ouve-se-lhe a léguas e milhas de distância de modo claro e transparente, o “i” sem acento já descasca pepinos ou manjocas. Não seria o caso de dizer: “Língua tagarela, para mim, é sede”, no meu caso que faço cara feia para a minha própria contemplação? A cara feia com o tempo passa, outras cositas quotidianas surgem, é esquecida ou relevada, mas a língua tagarela fica nos anais da história, nada há que consiga trazê-la a sete chaves. Se me dissessem língua tagarela ser sede, retrucaria com toda humildade que me é peculiar em todos os momentos; “Se quiser posso saciar sua sede com uma dose caprichada de saliva”, resposta esta nascida à luz de que nenhuma língua tagarela sem limites sobrevive se não houver saliva na boca, e como a minha tagarela mesmo faz-se necessária muita saliva para mantê-la em forma. São as tais respostas atravessadas, não havendo no mundo criatura de Deus que não torça o nariz, não ponha a língua fora da boca, não ofegue, a cara não fique feia, terrível, horrorosa, horrorível. Ninguém nunca mo dissera, isso não retruquei, só agora hipoteticamente concebi isso, seria resposta sem contra-resposta, mataria a fome da cara feia com um apetitoso sapo seco, engolido para sempre, o silêncio absoluto por eterno.
Arrependo-me por não ter tido em mãos uma câmara fotográfica para filmar as centenas de caras feias a que assisti diante de muitas situações, caras feias para todos os gostos e apetites. Agora mesmo nestas garatujas aprazer-me-ia descrever, relatar, uma delas para exemplificar, juntamente com o que ocasionou. Não o fiz. Fora a vontade de Deus, a imagem de sua criação e criaturas ficaria por sempre denegrida e escarnecida.
Contudo, em poucas linhas, posso dizer algo que me acontecera. Numa noite, de lua cheia e estrelas brilhantes, fomos minha esposa e eu comer uma porção num restaurante, melhor, um botequim metido a restaurante de classe e índole. Pedimos carne seca com mandioca. A carne estava dura, salgada, a mandioca até que razoável. Na hora de pagar a nota, dissera eu ao proprietário que a carne estava muito dura, salgada, só a mandioca contava a história. Fizera cara feia, dizendo-me que eram os meus dentes que não funcionavam, estavam mais que vencidos na lenda da mastigação e trituração. Cara feia fizera, e cara feia mesmo, até as narinas se contorceram e diminuíram. O que fiz diante de sua afirmação? Retirei a dentadura inferior e lhe dissera que se certificasse de que os dentes estavam vencidos, fazendo hora extra. O botequim com aparência de restaurante de cinco estrelas estava entupigaitado de gente.
A fome da humanidade é secular, milenar. Fome de justiça, paz, solidariedade, fome de amor, compreensão, compassividade, fome de amizade, carinho, ternura. Não são necessários olhos de lince para ver a nu e cru a cara feia da humanidade, mais que assustadora, mais que amedrontadora, e a cada dia que passa cresce, cresce, o aconselhável mesmo é andar de cabeça baixa, não olhar para ninguém, para evitar viver correndo pela vida, quanto mais se corre mais se vê cara feia, e como não se é possível sair do mundo, esconder-se noutro lugar ou viver, conviver com outra humanidade não faminta secular e milenarmente, é sempre estar picando a mula, que é até uma espécie de defesa, a fome secular, milenar é transmissível, pior que qualquer doença transmissível, cara feia e careta são as conseqüências inevitáveis.
Caras feias não são, ou não revelam, só a fome, a natureza é simplesmente caprichosa, ao mesmo tempo que privilegia os homens com Angelina Jolie ou Giselle Bündchen, as mulheres com Robert Redford ou Humberto Martins, põe no mundo cada tribufu daqueles. Caras feias são manifestadas diante das situações, a mais feia que conheço é a de velório, o medo da morte, e são cada careta que as pessoas fazem nas poucas horas de velação, fossem filmá-las, daria um filme de terror daqueles, com direito a concorrer com vários Oscars, melhor ator/atriz, melhor figurino, melhor cenário... A raiva, o ódio também revelam caras feias. Não se pode esquecer as de ciúme, inveja, despeito, que são bem interessantes, interessantíssimas até, os olhos brilham e a saliva escorre queixo abaixo, a respiração ofegante. Creio que destas caras feias todas nasceu isto de dizerem “cara feia, para mim, é fome”.
Quem liga para cara feia? Não diz qualquer coisa, nada comunica, não põe mesa, nem mesmo o forro, não causa nenhum medo, mesmo se se lhe encontra na rua à meia noite, próxima ao cemitério, às três horas da madrugada, horário de recreio das almas penadas, podem passear pelo mundo à vontade, retornando até às seis horas, quando o dia começa a clarear. Ligar para cara feia é pior que ligar para o que o povo diz – morre-se varrido da silva, se se der atenção à língua popular, sente-se a delícia da miséria e flagelos, se se der atenção para as caras feias.
Qualquer cara feia, seja devido a estas ou àquelas situações ou circunstâncias, que pintam no pedaço, para me utilizar de uma linguagem e estilo vulgares, logo se ouve a plenos pulmões: “cara feia, para mim, é fome”. Particularmente, jamais lhe dei a mínima atenção, mesmo sendo o responsável por ela, isto porque não vai consertar a minha atitude ou ação, gratuidade ou arbitrariedade, o passado não tem conserto, pode concertá-lo ao ritmo do jazz ou blues, arranjados à luz das mofas e sarcasmos, como Bob Dylan o fizera na música Desolation Row, arranjara as faces e lhes dera outros nomes, o máximo que pode fazer é puxar-me as orelhas ou dar piparotes no meu nariz adunco para não mais incorrer nos mesmos erros. Também se não for de meu interesse recauchutar o meu caráter e personalidade, deixar as minhas condutas espúrias para trás, não seria cara feia que isto iria mudar, ao contrário pode ser um baita incentivo e impulso para continuar, não desejo apenas ver cara feia, isto é tiquinho para mim, quero ver caras monstruosas e caretas de mais de um palmo.
Seria que os homens em uníssono me fizessem cara feia, se eu dissesse com todas as pompas, daquelas pompas que revelam a verdade é inconteste, não há o que argumentar contra, que a alma curvelana tem galerias e corredores dentro de si, esconderijos, masmorras? O curvelano conhece bem os caminhos sinuosos para o caos, abismo, crateras, buracos; conhece as veredas tortuosas das invejas, ciúmes, despeitos, para a justificativa e explicação insossa de suas incapacidades e incompetências de realizar suas próprias vidas; conhece as trilhas das hipocrisias, farsas, aparências, falsidades para conseguirem com perfeição e absolutidade os seus interesses, satisfazerem as suas vaidades singulares e sui generis, nada há neste mundo sem cancelas que sejam tão eficientes quanto estas digníssimas dimensões da natureza humana. O curvelano já se acostumou tanto com estas cositas, já lhes rendeu todos os tributos e graças pelos bens materiais adquiridos que não deixa de debulhar um terço à noite, antes de se entregar ao sono justo, de manhã, antes de se levantar da cama, pedindo a Deus e ao diabo que não lhes deixe faltá-las, precisam delas mais que a luz do sol ou o brilho das estrelas e lua para a sobrevivência. Igualmente como toda coisa ama o seu símbolo, também o curvelano ama as nuvens, para andar de cabeça para baixo, olhando os transeuntes fazendo o “footing” pela cidade, durante o dia, nas pracinhas à noite, e tudo o que é pouco claro, crepuscular, úmido e toldado. O incerto, o inacabado, o que se transforma, o que está em crescimento, qualquer que seja a sua índole, tudo isso o curvelano sente como “profundo”.
O curvelano arrasta o peso da sua alma, por vezes pedindo e clamando que os ajude nesta árdua tarefa, que é chegar ao calvário e ser digno de todos os méritos e virtudes, já lhes falta fôlego para continuar. Arrasta o peso de todas as suas vivências, experiências. Tem dificuldade para digerir os seus acontecimentos, nunca consegue “arrumá-los” a critério e rigor, deixa-os ao léu, Deus e Mefistófeles cuidem para não se perderem na poeira das estradas longas e cheias de curvas, isto para não dizer da poeira que suja os sapatos e a roupa inteira, e nem água sanitária é capaz de torná-las brancas. A profundidade curvelana não passa freqüentemente de uma “digestão”, difícil e arrastada. Semelhante aos doentes crônicos, todos os dispépticos têm uma tendência para o comodismo, assim o curvelano gosta da “franqueza” e da “probidade”. Quão cômodo não é ser-se franco e probo! Talvez seja hoje o traje mais perigoso e mais feliz que o curvelano sabe usar, esse ar familiar, afável, esse pôr as cartas na mesa da honestidade curvelana. Sem dúvida que é a sua arte mefistofélica propriamente dita, com ela pode “chegar ainda longe”, todos os caminhos, trilhas e veredas estarão abertos para ele, as realizações todas serão com efeito inomináveis e indescritíveis! O curvelano deixa-se ir, olha com os olhos curvelanos leais, vazios – e imediatamente o estrangeiro o confunde com o seu roupão! Noutros termos: seja a “profundidade curvelana” o que se quiser – cá muito entre nós, leitores, acaso não nos permitimos rirmo-nos dela? Agimos bem continuando a honrar também para o futuro a sua aparência e bom nome e em não vendermos ao desbarato a nossa velha fama de povo da profundidade. É inteligente para um povo fazer-se profundo, desajeitado, bondoso, honesto, pouco esperto. Poderia ser até profundo!
Ninguém irá fazer-me cara feia, ombrear-se comigo nas ruas e virar a cara de lado, mudar de calçada, atravessar a avenida correndo, sujeito a ser acidentado por um vereador que fala ao celular com a sua secretária de assuntos aleatórios, sussurrar pelas esquinas todas as vezes que passar, elencar todos os digníssimos adjetivos que elevam o caráter súcia, por haver dito isto, haver rasgado o verbo. Não, de modo algum, ninguém iria fazer isso comigo. Ao contrário, não haverá quem não vá me assediar, pedir-me autógrafo, tocar-me a mão, agradecer-me com os olhos brilhando, faiscando, alegres e saltitantes, o coração batendo acelerado, por lhes definir e conceituar com tanto conhecimento e sabedoria, ninguém ainda o tinha feito, será um povo reconhecido e aplaudido por todos os séculos dos séculos amém, estava faltando alguém que tecesse considerações tão profundas, quem mostrasse a índole, raça, estirpe, laia de nosso povo curvelano, ninguém mais irá se esquecer de nós. Até haverá quem irá sugerir não apenas uma medalha de honra ao mérito, isto é pouco, a sugestão será de meu busto de bronze na praça principal da cidade, assim escrito numa plaqueta: “O único que nos honrou com as suas considerações e reconhecimentos”.
Haverá alguém fazendo cara feia, dizendo a plenos pulmões “cara feia, para mim, é fome”, se disser que os confins da alma humana, toda sua extensão, até ao presente atingida, das experiências e vivências da alma humana, os cumes, as profundezas e as distâncias dessas experiências, a história inteirinha da alma até aos nossos dias e as suas possibilidades ainda por explorar, essa é a reserva de caça destinada ao psicólogo nato e amigo da “caça gorda”? Todavia, quantas vezes, matando cachorro a grito, diz para consigo: “Ai de mim, que estou só! Tão só e com esta floresta imensa e virgem!” Deseja então para si algumas centenas de auxiliares de caça e argutos cães de caça que poderiam pôr na pista da alma humana, para aí perseguir a sua presa. Pura inutilidade. Ele verifica sempre de novo intensamente, com amarga decepção, frustração e fracasso, quanto é difícil encontrar auxiliares e cães para tudo o que justamente aguça a sua curiosidade.
Não, não haverá quem me faça cara feia, ponha palmos e palmos de língua para fora, por assim dizer. O que haverá mesmo são aqueles olhares circunspectos, aquele arzinho de questionamento, aqueles que perguntam ansiosos o que está havendo, o que estou desejando dizer com tudo isso, o que estou insinuando através de palavras tão contundentes. Nada entenderam, nada compreenderam. Sendo assim – não “assim sendo”, que é um erro de senso e também gramatical, nos conformes da “última flor do Lácio”, pois que iria comprometer-lhes até aos últimos fios de cabelo que lhes sobraram na cabeça, que, inclusive, dera guarida a um boné para proteger os miolos dos raios fortes do sol -, há-de se considerar que digo asnices, estão a faltar-me alguns parafusos na cachola, afrouxaram-se ou se perderam na árdua tarefa de compreender e entender as coisas do mundo e as hipocrisias humanas, endoideci de vez, e neste caso não há que se fazer cara feia, sim cara de piedade, comiseração, sou homem digno de dó, pena, sou homem necessitado de orações as mais contundentes para Deus ter compaixão de mim.
Não haverá quem me critique, quem descasque os meus pepinos ou manjocas, pois que nada mais, nada menos estou fazendo senão reconhecer as idoneidades e dignidades de nossa índole de um povo de profundas pré-fundidades, os curvelanos devem ser reconhecidos e considerados por toda a humanidade, não apenas agora, que estamos ainda na idade da pedra lascada, mas no futuro, quando forem apenas cristais. Fosse noutros tempos, só a imaginação, dentro de mim mesmo, nas minhas entranhas não reveladas e virgens de todo, única palavra destas iria dar origem a todas as caras feias, teria eu de pedir asilo na Caverna de Zaratustra, de onde só saem aqueles que adquiriram outros conhecimentos e sabedorias que enobrecem não apenas os instintos, mas os sensos que estão nos pro-jetos de Deus, caso não quisesse ser queimado em praça publica, decapitado pela guilhotina, enforcado na calada da noite. Antigamente não existiam palavras sábias, hoje existem.


(**RIO DE JANEIRO**, 29 DE MARÇO DE 2017)


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