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segunda-feira, 20 de março de 2017

**ZINGARAH E A LENDA DE LÁGRIMAS DOS INSANOS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Zingarah foi nascida logo no início de Lágrimas dos Insanos, pequeno arraial com exatamente cem pessoas, morrendo alguém no mesmo dia nascendo outro para não haver a famosa queda da população até à sua extinção. Um dos coronéis mandava aplicar injeções nas pessoas para aumentar a sexualidade, algumas que comprara numa farmácia em Curvelo, Drogaria Santana Correia. Escolhia a dedo quem iria tomar, de imediato umas vinte pessoas de modo a não haver quem não preenchesse o espaço do outro. Em princípio, mas o índice de natalidade aumentou sem limites.
Fora largada pela família nas ruas, crescera mendigando os trocados para saciar a fome. O que ganhava era para comer, não bebia, não usava drogas, e por isso as pessoas tinham a compaixão de lhe dar o prato-feito que comia, sentada no meio-fio, cabeça baixa, todos que passavam oferecia-lhes educadamente. Achavam interessante a atitude de Zingarah.
Na juventude, tomando o seu banho nas águas miraculosas do Rio das Pulgas, nua, sendo alvo de olhares de garotos escondidos atrás das moitas, mas ninguém lhe fazia qualquer mal. Todos a respeitavam, todos sentiam compaixões as mais diversas por ela, preocupavam-se em dar-lhe as roupas das filhas.
Estando nua, entrando nas águas do Rio das Pulgas, surgiu o Coronel Amador Serqueira, famoso por perseguir os jovens delinqüentes, os roceiros da cana, os que contrariavam a sua moral, melhor ainda, moralismo do tempo do onça, mas isto acontecera no início da civilização lacrimense dos insanos, portanto no tempo do onça.
Alguns moleques trataram de sair à francesa por medo de serem chicoteados por olharem Zingarah nua. Um senhor que urinava no tronco de um abacateiro, conhecendo a fama do coronel, temeu que lhe surrasse até à morte por estar olhando e se masturbando, um acinte à dignidade da carne. Parou o seu marchador e com a chibata na mão direita olhou-a com carinho, dizendo-lhe:
- Vista-se, Zingarah. Você agora vai morar no meu barracão e para comer e beber irá reunir meus bodes no pasto e levar para o curral. Vai ter roupas limpas e não vai precisar ser olhada atrás das moitas. Cuide de seu corpo angelical.
À tarde, sempre no mesmo horário, quatro e meia da tarde, Zingarah a pé, cantando a música italiana Silêncio, começava a reunir os bodes, com uma vara na mão, levando-os para o curral. Dava gosto vê-la cantar porque sabia recriar a música de modo a torná-la ainda mais linda do que já é. Não se lhe via triste, amargurada, angustiada, sempre alegre e todos que viviam no arraial de Lágrimas dos Insanos tinham uma afeição por ela.
Relincha-se como se vive e vive-se como se relincha. Aí é que está o segredo, a grande jornada ásnica; admito soberanamente é o reflexo disso, quando não se é possível apresentar relinchos que isso possa contradizer, que imprime outras adjacências à questão.
Contradições, paradoxos, fantasias, quimeras, empáfias..., e tudo mais que é lícito acrescentar nesta linha de elaboração dos instintos, etc., etc., não se deve negar, mesmo que nada consiga de-monstrar a intelectualidade que insisto e persisto em fazer ser reconhecida. Por que não? Porque se é de considerar que a minha natureza ásnica desde toda a eternidade se relincha desdobrada; posso relinchar com categoria: natureza ásnica e humana. A humana se fundamenta em quê? A humana, relincharia eu, Incitatus da Fazenda dos Bois, se fundamenta nisto – sem qualquer oposição, mesmo que perca todos os cabelos do rabo, ah, como já caíram: fundamenta-se no jogo do amor e do ódio, ou seja, no jogo do real e da interpretação dos momentos de minha vida. A ásnica, no jogo dos coices e dos relinchos, dos instintos e da cachola instintiva.
Os vícios equilibram-se muita vez – isto é conhecido não só dos antigos em terras lacrimenses dos insanos, mas até a nova geração caminha nestas trilhas. Outras vezes neutralizam-se ou vence um a outro. Há pecados que derrubam pecados, ou, pelo menos, quebram-lhes as pernas.
Embora certos detalhes importantes, é mister esclarecer que Zingarah, aquando o Coronel mandou-a vestir-se, daquele momento em diante moraria no seu barracão na fazenda, pronunciara palavras que consagraram as nossas terras lacrimenses dos insanos:
- Este Rio das Pulgas é por todo o sempre abençoado por meu corpo de virgem, a senda mais desejada do mundo.
Então, o Rio das Pulgas não está ligado somente aos pecadillhos e pecados que se revelam na coceira, as origens do adultério público e notório de nossas terras lacrimenses dos insanos. As águas deste Rio das Pulgas são bálsamos para as esperanças da humanidade de se tornar livre, de amar as diferenças e adversidades, e desejar o verbo das almas gêmeas.
Relinchos proféticos? Sou apenas o messias dos instintos que despertam a vida de entregas.
E não sou? Que inferno esquisito e nevrálgico, relincharia eu para ser preciso! Creio que só deixarei de lado as asniborréias quando assumir por inteiro a intelectualidade que me habita, embora seja um equus asinus. Aí sim, deixarei de lado este estilo suspensivo, dubitativo, paradoxal.
Zingarah passara a viver na Fazenda dos Eucaliptos – isto por haver muitos plantados em suas terras -, servindo ao Coronel apenas nos afazeres da cozinha, difícil repetir um prato, tinha muita criatividade, gostando muito dela por seu cuidado e esmero com suas coisas. Era a única. Com os outros, o homem não tinha o menor respeito ou consideração.
Era livre, passeava pela fazenda, tomava banho nas águas do Rio das Pulgas, encantava os visitantes do município como a mulher que mostrara aos lacrimenses dos insanos o destino de todas as criaturas de Deus é a felicidade e o amor que se entrega a alguém, o Coronel a amou.
Zingarah se tornara mulher, tivera suas pequenas felicidades e muitas tristezas. Ah, meu Deus, doai-me o talento de investigar as entranhas do corpo e assim poder justificar-me de modo sensível as picuinhas da vulgaridade.
Guido Neves não soube explicar o que sucedera aos dezenove anos. Fora tomar banho nas águas do Rio das Pulgas. Estava com insônia, dormia depois de um banho tranqüila e profundamente. Um remédio eficiente para insones, expor as intimidades na lua cheia.
Surgiu um homem tendo em mão um anzol. Zingarah pedira que ele se virasse, o tempo de vestir sua camisola. Henrique Otário Mendes obedeceu. Zingarah vestiu-se, indo embora. O objetivo daquele era pescar, mesmo sem único peixe, assim vence a insônia. Simplesmente fisgara duzentos e cinqüenta e oito peixes de tamanho médio, o que lhe rendeu uma boa soma em dinheiro para os açougues e peixarias. Assim, descreve o autor sobre Zingarah, a lenda de Zingarah em nossa comunidade lacrimense dos insanos.
Por dois meses, Henrique Otário Mendes estivera pescando. Interessante, conversando com a vara de anzol, sua pesca é excelente. Contava a mesma história, nos dias de lua cheia a pesca é boa, uns trezentos peixes. Mas Zingarah vai antes tomar o seu banho noturno no Rio das Pulgas. Sei que poderia haver alguém muitíssimo curioso por aprofundar no espírito e no instinto de Incitatus da Fazenda dos Bois, para saber o sentido de pesca no Rio das Pulgas. Quem sabe não tenha sentido algum? Só se poderia pescar pulgas nestas águas, as pulgas agora se metamorfosearam em peixes? Bem, há as inteligências para os absurdos, creio nem Deus faria esta transformação, qual o sentido disso? Nenhum.
Saíra Zingarah numa noite de poucas estrelas e a lua minguante. A última notícia era de ter cantado uma canção lindíssima cujo tema eram as águas serenas do Rio das Pulgas. Nunca mais fora vista. O coronel ainda tem esperanças que a mulher retorne, mesmo que em forma de sereia. Jamais. Quem sabe siga o seu rumo nas águas, num mergulho eterno. Fato é que nos tempos atuais as meninas adolescentes vêm tomar banho, esperando que o corpinho se modele, sonhando com a carreira de modelo, com os homens de boca aberta, os maridos mais do que realizados, não precisando mais traí-las com outras. Modela, sim, mas não fica igual ao de Zingarah, cada corpinho se modela naturalmente. Nada de carne, é prejudicial ao estilo sensual, as gordurinhas localizadas.
Não é de tão elevado nível esta lenda de Zingarah – deve-se considerar que ouvira a lenda da parte de Guido Neves, sabe ele toda a lenda, mas tem algumas dúvidas de alguns pormenores e detalhes, não sabe bem o que acontecera aos seus dezenove anos com relação ao banho que proporcionara a grande pesca. Talvez seja criação do povo, embora o autor não toque neste assunto de modo a convencer e persuadir sobre isto. Há informações desencontradas.
A lenda das pulgas que originara o nome do rio é muito mais rica em pormenores e detalhes, no tecimento das idéias e pensamentos, nas intenções de relinchos e relinchos de mil e uma intenções que não são possíveis de realização, mesmo na minha cachola ásnica, são os segredos da natureza. Mas esta lenda é conhecida por todos, alguns inventam, recriam, fazem chacotas, mas os documentos históricos são devidamente comprovados. A inabilidade de descrever uma lenda não é minha, mas as informações que andam desencontradas, perdidas, sendo necessários incentivos de pesquisas para trazê-la à superfície e desfrutarmos os seus prazeres e doçuras.
Esta lenda explica a origem dos adultérios, a cura das coceiras, incrível que andam sumidas, é só aparecerem que vêem tomar o banho miraculoso. É só as moçoilas começarem a transformar o corpo que as águas modelam, as relações com os namorados são eivadas de calor humano e doação.


(**RIO DE JANEIRO**, 20 DE MARÇO DE 2017)


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