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terça-feira, 21 de março de 2017

**A ÁGUA E O GATO ESCALDADO** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!


Caríssimos amigos, se vós puderdes res-ponder-me com todas as experiências, vivências, conhecimentos que adquiristes ao longo de vossas honradas e dignas ec-sistências, sabendo eu serem inúmeros e profundos, a uma questão, em princípio e en passant parecer simples e uma ironia, melhor dizendo, minhas intenções sejam de mofa e sarcasmo, não o sendo, óbvio e efetivamente, mas se trata de algo assaz complexo e contundente, que me tem atormentado desde tempos imemoriais, que me tem infernizado os dias e as noites, impedindo-me de picar a mula no mundo em busca de meus ideais, de realizar as minhas necessidades urgentes, compromissos e responsabilidades, de fazer as coisas perfeitas e absolutas, como cumpre fazê-lo sempre, de encontrar a felicidade e alegria de que tanto careço, sentir a beleza e esplendor da vida.
No fim da escada, indo fechar a porta do segundo andar, parei alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as idéias dispersas, reaver-me, alfim, no meio de tantas sensações profundas e contrários, até a mente caía na gargalhada de tanta estapafúrdia.
Antes mesmo de vos apresentar a pergunta, que espero sensivelmente possais responder-me, e com esta mula picada aos pedacitos siga o meu destino, siga os meus pro-jetos e objetivos, siga as veredas de minhas realizações, tenho quase certeza de que ireis dizer, olhando-me de esguelha, sorriso nos lábios, pupilas dilatadas e brilhando, tratar-se de um limite, os homens somos limitados. Nem sempre a inteligência, sensibilidade são capazes de dar as respostas que precisamos, são bem primárias e ordinárias para isto, e eu enfiei na cachola seriam elas que me abririam as porteiras e cancelas do mundo, passando por elas com aquele ar de quem tinha a chave de todas as coisas, de quem era privilegiado, de quem fora agraciado com todas as luzes divinas, seriam elas que me mostrariam os caminhos a serem trilhados, seriam elas que me desvendariam os mistérios do mundo, um vencedor na era dos fracassos e fracassados. Dei com os burros nágua, burros nágua não dão um passo, mesmo que puxados por búfalos ou elefantes tratados com ração de primeira, comprada em loja chique da cooperativa dos produtores rurais.
Tendes razão, caríssimos amigos, afirmando isto. Não pensava eu que tivésseis tantos conhecimentos de minha vida, situações, circunstâncias, problemas, neuroses, conflitos, de minhas imperfeições, em suma, está sendo com elas todas que estou prolongando a minha ec-sistência. Con-versar com pessoas deste calibre, naipe, estirpe, ajuda e muito na exposição das idéias e pensamentos, revelação dos sentimentos, a-nunciação do ser que me habita profundo a intimidade, não se faz mister gastar todas as lábias possíveis e impossíveis, espremer os miolos à busca da expressão verdadeira. Surge-me de modo espontâneo e livre que vós andastes nos meus sapatos por toda a minha vida, sinceramente não senti qualquer incômodo nos pés, a não ser o odor desagradável, mas trato dele com pó anti-séptico, de preferência o surrado GRANADO; vós encontrastes algum cantinho bem escondido para esconder, que eu não percebesse de modo algum.
Acreditei, cri, confiei que a inteligência e sensibilidade – fui agraciado com elas desde os projetos de Deus de minha ec-sistência no mundo, em verdade iluminadíssimo – iriam indicar-me as estradas por onde andar, seguir em frente, alegre e saltitante, nalguns momentos rindo, gargalhando, rebolando; iriam mostrar-me, nas dúvidas das bifurcações - são muitas, sem contar as sinuosidades -, que rumo tomar, escolhendo a travessia verdadeira, mochila nas costas em direção aos horizontes perdidos. Nalguns momentos fui obrigado, sob contestações do espírito e coração, a recorrer-me à razão, não à in-versa, mas à tradicional, e aí é que os meus burros todos afundaram e afogaram sem tempo de único suspiro e um olhar direto às nuvens brancas e azuis do céu. Por este motivo, assim o creio, mandei a razão tradicional ir catar favas, plantar coquinhos no asfalto de alguma rodovia, e para não ficar desrazoado, descambei para a in-versa que me tem trazido alguns resultados supimpas, alguns benefícios. Contudo, não dera inda a res-posta desta pergunta, talvez por não havê-la olhado às avessas.
Fiz esta pergunta ao mundo, aos deuses latinos e gregos, às mitologias e lendas, aos folk-lores e crendices, às pré-fundas e superfícies, à vida e à morte, ao inferno e ao céu, às estrelas e à lua, ao sol e às trevas, aos imbecis e inteligentes, aos intelectuais e analfabetos, aos racionais e tapados, revirei os abismos, florestas, colinas e montes, e nada, nada e ninguém foram capazes de me res-ponder como eu realmente esperava, com sabedoria e espiritualidade, deram res-postas estranhas e esquisitas. Há quem diga que quem faz as perguntas já tem as respostas de por baixo das manguinhas, nunca acreditei nisso, fosse assim, seria mister apenas um mergulho na intimidade.
Alguns olharam-me como quem não tinha idéia da extensão de minha pergunta, respondê-la a critério iria envolver-lhes num balaio de gato daqueles, prezavam a vida, queriam viver por muitos anos, de preferência até caírem os pedaços ao longo dos caminhos, tinham família. Disseram-me apenas: “Sinto não responder-lhe, mas esta não posso, de modo algum. Chegará o tempo em que ela irá ficar bem clara e transparente para você. Terá de esperar. Não sabemos se muito ou pouco. Nestes tempos, não adianta ficar perguntando às pessoas, não irão satisfazer suas necessidades de conhecimento”. Referiram-se aos tempos em que estavam: observava que perguntas capciosas ninguém se dignava a responder, faziam silêncio absoluto, alguns até pediam para mudar de assunto; só respondiam a perguntas simples, perguntas de escol, digamos assim, que não percebiam qualquer risco. Franzi a testa, diminui os olhos, naquela atitude de quem não está entendendo nada. Não estava mesmo. Relacionavam a pergunta com o quê, em que estavam pensando, como ela fora analisada e interpretada. Insisti para me dizerem o que estavam pensando, como estavam interpretando tal questionamento, mas não consegui arrancar-lhes a coisa. Senti que tinham muito medo.
Outros me olhavam de modo esquisito, como se eu estivesse tirando sarro de suas caras, estava lhes gozando, estava brincando com eles. Julgaram-me cínico, irônico, sarcástico – disto nunca tive quaisquer dúvidas, mas não estava sendo, a pergunta estava mesmo me atormentando, precisava da resposta. Atrás dessa característica, era perfeitamente legível tratar eu de um idiota, um imbecil. E ainda mais: estava fazendo drama com uma pergunta idiota, cretina. Como alguém em seus devidos sensos, provido de sensibilidade e inteligência, de razão, poderia se angustiar, entristecer, desesperar-se por saber a resposta? Não tinha eu nada de ator, não estaria representando, era mesmo um idiota.
O não res-ponder pareceu-me uma estratégia, seguindo aquilo de dizerem que para uma pergunta imbecil só uma resposta de imbecilidade maior seria cabível, e ninguém estava desejando ser considerado e reconhecido como um imbecil, isto é muito vergonha e denigre bastante a imagem da pessoa. O silêncio evita o rótulo de imbecil, cretino e idiota.
Então, quando de algum modo, com outras palavras, perguntava ao professor, a repressão era de imediato, chamavam-me a atenção mesmo, às vezes agressivamente, o que provocava risinhos de meus colegas, para eles estava eu sendo idiota, só fazia perguntas cretinas. Ninguém respondia às minhas perguntas, até me impediam de fazê-las. Até que uma professora chamou-me em particular após a aula, dizendo-me que compreendia bem a minha pergunta, não me responderia, poderia ser despedida da escola, mas algum dia iria saber o que estava procurando. Pediu-me de modo terno e carinhoso que não fizesse mais a pergunta, não poderia nem imaginar em que balaio de gatos estava eu me metendo. Encontrando-a na rua, chamou-me para tomar um cafezinho numa lanchonete ao lado da Prefeitura e da Câmara Municipal dos Vereadores, explicou-me a extensão de minha pergunta. Assustei-me. Nem de longe estava pensando naquelas coisas, pensava sim noutras bem diferentes. Mesmo que não estivesse pensando, era assim que todos entendiam. Fora uma resposta que recebi de modo verdadeiro. Cheguei a concordar com a professora com os riscos que estava correndo, mas eu não descansaria, enquanto a resposta que eu esperava ter não caísse nas minhas mãos. Sugeriu-me, então, que todas as perguntas que se me a-nunciassem em sala de aula, registrasse-a, após a aula responder-me-ia com todas as suas alegrias e felicidades, eram perguntas muito inteligentes, orgulhava-se de mim, mas os alunos não tinha as devidas capacidades de assimilar as respostas, eram muito profundas. Cuidasse de mim, estava sendo considerado por todos como um tolo de estirpe e raça. Isto é prejudicial, acaba que reprimindo a sensibilidade. No futuro, iria precisar de minha inteligência no seu estado de pureza, ainda não podia entender isso, mas o tempo mostraria.
Mas que pergunta é esta? Sei que estais curiosos por conhecê-la? Estou enchendo muita lingüiça, deveria ser direto e reto. A menos que até eu esteja com medo de dizê-la, apesar de que os tempos são outros, mas no inconsciente aqueles tempos não são apagados, por sempre estarão presentes. Não é medo, posso afiançar-vos. Preciso antes de fazê-la mergulhar profundo em mim, mostrar o meu estado de alma e de espírito ao longo de tantos anos, é até um modo de amenizar as muitas tensões que me habitam.
Quanto ao passado eu o sinto passado, quando aquilo que aconteceu se separou de mim não é fácil medir a distância que me separa. Porque a distância que separa se não mede em tempo de calendário mas pelo espaço que se abriu dentro de nós; o que mede essa distância é o grau da transfiguração, é a distância do seu aceno... Assim quantos fatos bem antigos estão ainda bem presentes, enterrados na carne, como se acontecidos ontem. Embora os homens se esqueçam muito facilmente das coisas, há coisas que não são esquecidas. E daqueles tempos que também vivi, e se me lembra bem, não esteja um pouco equivocado, data a minha pergunta, estava eu com os meus oito anos, quando surgiu e jamais desapareceu, mas não pensava que tivesse alguma relação. Esses tempos jamais serão esquecidos. Não só por nós os brasileiros, mas por toda a humanidade que infelizmente os viveu na carne e nos ossos.
Os tempos são outros. Contudo, a resposta não a tenho. Então, decidi vos perguntar, a vós que são meus amigos íntimos e pessoais, e não iríeis deixar de responder-me, sentem-se até felizes e alegres por fazê-lo, tirar-me um peso da alma que me acompanha há quarenta e seis anos. Não é mais preciso de ter medo, não há mais perigo, ninguém estará correndo risco de ser sumido, desaparecido, exilado, morrer e ficar insepulto.
Estou procurando um modo simples de fazê-la, sem nenhum ingrediente de ornamento e arrebique, para que vós possais com toda segurança e sapiência responder-me, sentindo-vos até orgulhosos, não apenas por satisfazer as minhas necessidades, proporcionar-me outras diretrizes e rumos em minha ec-sistência, mas por serdes inteligências primorosas, por vossas inteligências serem sem precedentes na história da humanidade, por serdes tão inteligentes, podendo até dizer sem exagero ou paradoxo serdes gênios, porque se trata de um questionamento muito profundo, profundíssimo. Do modo como sempre a fiz, com todas as palavras nos seus devidos lugares, dentro dos códigos da beleza estética, nada há de profundo nela, é realmente vulgar, há nela um nível sem extensão de cretinice e ridículo. Mas não estou encontrando este modo outro de a fazer, está-me sendo dificílimo, eis porque, na vossa linguagem e estilo, estou a encher lingüiça.
Aliás, comentando isso com alguém de minhas relações pessoais, dissera-me o melhor seria se fizesse a pergunta em seu estado original, como todos a fazem, como eu sempre a fizera. Qualquer modificação que eu fizer irá prejudicar bastante o que nela há a ser considerado, reconhecido, o que nela há de profundidade filosófica. Quando esta pessoa de minhas relações dissera de profundidade filosófica fiquei mesmo estarrecido, jamais imaginara que isto nela houvesse. Perguntei-lhe se acaso não estivesse tirando sarro de minha cara. Nunca o faria, não sou merecedor desta atitude, ao contrário mereço respeito.
Sendo assim, não me resta alternativa senão rasgar o verbo sem dó nem piedade, deixando que o gato sofra todas as conseqüências que esta pergunta suscita em suas entrelinhas, alfim fora ele o responsável por se deixar escaldar.
A pergunta é: “Por que gato escaldado tem medo de água fria?”


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE MARÇO DE 2017)


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