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quarta-feira, 29 de março de 2017

**QUEM NÃO TEM CÃES, RESTA-LHE CAÇAR COM OS DIVINOS JEGUES** - PINTURA: Graça Fontis/RAPSÓDIA SATÍRICA: Manoel Ferreira Neto


EPÍGRAFE:


Soneto "Língua Portuguesa" de Olavo Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...


Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!


Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,


Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
(OLAVO BILAC)


Bons dias!


A nossa “última flor do Lácio/inculta e bela...” é tão flexível, tão flexível, que, se esticá-la até aos confins, num piscar de olhos ela chega aos cafundós, sorrindo, de olhos faiscantes e brilhantes, e ainda acena como quem diz: “Estava negligenciando os meus poderes! Que coisa feia!” Nem tanto o céu, nem tanto a terra, eis a questão. Se não houverem as devidas tramóias, trejeitos, jogos indecentes e imorais, fragmentos imaginariamente musicalizados, à luz das rapsódias, perspicácias e engenhosidades ao lidar com ela, com efeito não chegará a um palmo frente ao nariz adunco ou aquilino. Fiquemos com a sua flexibilidade, com os poderes de quem lida com ela. São a flexibilidade e os poderes que a elevam aos auspícios da beleza e do esplendor, que tanto extasiam os espíritos sedentos e famintos de sublimidade.
O poeta a chama de “inculta” e “bela”, o que penso ser um acinte o “inculta”, fosse-o como mentes e espíritos desenvolvidos e profundos iriam alcançar dela tantos esplendores; “bela” sim, quando se mergulha em todos os seus recursos de sensibilidade e espiritualidade, quando se adentra nos contornos de seu “corpinho” esbelto, de formas singelas e puras, quando se se perde nos seus olhos vivos e perspicazes, aí não há dificuldades de expressão que não se extasiam, e mesmo com todos os esforços e lutas, a felicidade e alegrias de expressão deixam volúpias não apenas no corpo, também na alma e espírito, aí me sinto no paraíso terreno de todas as sensações de prazer e clímaces. Mas o poeta tem razão, inculta e bela, realiza os sonhos de verbos outros que elevam a vida, que elevam a língua sedenta de outros movimentos, que não os do cão, que no calor indecente, descansa-a, jogando-a um palmo além de sua boca, e são os caninos que se revelam transparentes e vivos.
Anos e anos de experiência, vivência, crescimento e amadurecimento, dores e sofrimentos inestimáveis, dificuldades e limites in-descritíveis, ensinaram-me alguns de seus segredos, óbvio ela se abriu para mim, con-sentiu-me mergulhar em seus interstícios e entranhas – e mesmo assim, ainda hoje, as labutas e angústias são imensas, é um uni-verso ilimitado. Dissera-me em silêncio sublime: “Valorize-me e faça-me grande, eis a grande res-ponsabilidade que coloco em suas mãos. Sei que você jamais irá decepcionar-me, sinto isto de verdade. Mãos à obra! Os horizontes e uni-versos abro-os para você!”. Disse-me alguém:"... escrever tanto e tão bem; nao cabe só numa reencarnação!" A última Flor do Lácio ensinou-me segredos que só seriam revelados em muitos séculos, seria até falta de misericórdia de Deus enviar-me ao mundo por inúmeras vezes só para depenar os galos e garnisés da humanidade.
Não fosse assim, digo, não fossem a flexibilidade, tramóias, perspicácias e engenhosidades, nem teria sentido algum quem lida com ela escrever alguma coisa - usá-la-ia apenas para as conversas quotidianas e de alcovas, e olha se conseguisse se expressar com propriedades, se conseguisse dizer o que vai nas entranhas pré-fundas, ficaria vagando pelas beiradas dos sentimentos e emoções, dos desejos e sonhos do ser, do verbo, do amor -, fazer esforços sobrenaturais para atingir os objetivos e propósitos da arte, o que conseguiria seria reduzi-la ao máximo, quem sabe assim dissesse alguma coisa, criasse obra-prima. Não sendo flexível, o caminho seria a redutibilidade para se chegar a realizar os sonhos da eternidade, escrevendo. Quem não tem cão, resta-lhe caçar com os divinos jegues.
Cães, posso afiançar até com orgulhos da estirpe, da laia, e até da raça, tenho-os, e são eficientes nas caçadas das palavras e sentimentos devidos, da linguagem e estilo que me são próprios e singulares, mas me não é tão simples quanto se possa imaginar, sou um vastíssimo mundo no íntimo, sou um complexo de sentimentos e emoções, sensações, questionamentos, dúvidas e incertezas, sou um abismo de re-versos e in-versos, de contradições e paradoxos, mister esmero nos arrebiques, mister acuidade nas demonstrações do ser de mim, conhecer-me um pouco é sim fundamental para me expressar, os sonhos e utopias do “ser” são imensos, preciso arrancar-me de dentro, e é com as palavras, com a última flor do Lácio, a minha querida e estimada amante de todos os instantes, com os seus sentimentos de amor, carinho, ternura que por mim nutre, o que, às vezes me deixa sensivelmente ad-mirado, como fora se me entregar tanto, des-confio dos méritos, de que me sirvo para as minhas empreitadas em busca da vida, das verdades que me habitam, que vou seguindo a minha jornada, trilhando as “Veredas de Pitibiriba”, que me levarão aos caminhos do campo abertos a todos e horizontes e uni-versos da vida e da eternidade, da plen-itude e sublim-idade.
Aquém. Além. No peito, a etern-itude sem letras, não queria a vida deste jeito. No âmago de mim, as palavras sem plen-itude, não desejava os sonhos neste estilo e linguagem. In-vestigar o que fiz da vida, chegando à verdade de que a joguei fora, isto é hipocrisia deslavada. Nada fiz da vida, não a joguei fora, simplesmente arrastei pelos terrenos baldios das contingências, puxei pela coleira os lácios da última flor, deram-lhe húmus e seiva as cretinices e embófias de seus re-presentantes da escrita, perfeitas mulas do templo.
Nalgumas situações e momentos, isto quando os cães se encontram estafados de tantas caçadas, de tantos esforços para agarrarem as caças, monto no meu jegue, de botina, espora, chapéu de palha, jaquetão de couro, todos os apetrechos de um perfeito sertanejo de nossas terras, sem vergonha ou quaisquer sensos de ridículo, e vou caçar hipocrisias e farsas pela floresta das civilidades das estirpes e laias, o que é ainda mais difícil de ser realizado, entra em cena os jogos de sentidos, entram os naipes da condição e natureza humanas, entram as acuidades dos olhos e das mãos, o que está mais do que trancado a sete chaves no mais profundo.
Nas letras posso pôr o preto-no-branco, o preto não ficará branco, o branco não ficará preto, a cor do preto será preta, a cor do branco será branca, não ficarão preto e branco desbotados, branco e preto ininteligíveis, é isto que as letras podem proporcionar, é isto que a última flor do Lácio, flexível que é, pode ser nas palavras, pode ser nos sentimentos que afloram na tentativa de ser expressão.
Nas letras posso pôr o cavalo-na-chuva, o cavalo não vai ficar molhado, não se constipará, não pegará uma turbeculose, a chuva não se tornará mais importante ou adquirirá maiores ou menores poderes poder não molhar o cavalo, não deixar-lhe respingado. Isto é que é poder, o poder das letras é inestimável, qualquer coisa que for colocada na chuva é inevitável que se molhe. Seria que com a última flor do Lácio pudesse eu tirar o cavalo-da-chuva, e ela molhar apenas a sua sombra? Poderia sim, ela é tão flexível a nossa última flor do Lácio que desenhará no solo a sombra do cavalo depois que ele for retirado da chuva, e os pingos que nela caírem mergulharão profundo na sua alma, são os únicos que não seguirão a trajetória da enxurrada.
Nas letras posso pôr as manguinhas-de-fora, será até mais interessante de serem lidas, re-colhidas e a-colhidas, pois sem as minhas manguinhas colocadas para fora não serão letras minhas, não serão palavras da última flor do Lácio, serão apenas caracteres registrados na página branca de papel, sem quaisquer valores. As manguinhas-de-fora é que mostrarão os valores insofismáveis das palavras que a flexibilidade da última flor do Lácio tornou possível, são o cerne para o entendimento e compreensão dos sentimentos, desejos, sonhos e utopias que me habitam, e com eles torno-me o artífice inalienável de outros horizontes e uni-versos, de novas realidades, do ser que é o maior sonho a ser realizado, a ser vivido e vivenciado, e são os verbos que nascem e re-nascem do íntimo da flor do Lácio que se transformam na carne da arte de pôr as manguinhas de fora.
Nas letras posso por os jegues-nas-corsias devidas, comendo com os olhos os peões tomando a cachacinha, sentados no banco de madeira, contando "causos", enquanto trituram o feno, com as fuças abertas e resfolegando de tanto prazer, e não seria isto metáfora do despautério e disparate das razões puras e práticas, os jegues são superiores nas críticas aos pitis e mazelas humanas porque seus instintos fluem à mercê daqueles estremeliques na pele e na carne quando o dono lhe tira a sela e os apetrechos de animal de carga.
Nas letras posso pôr os poderes-para-fora, poder de desejar a verdade, poder de ser a eternidade, poder de contemplar a imortalidade, numa atitude de fazer tramóia com o senso e ridículo do re-verso, não lhe tirando o “re”, ficaria estranho, ao contrário, faria dele um biboque à cata de algo para se bater, criticar as instituições e entidades, o juízo que faço das ações, gestos e atitudes dos políticos, do sistema judiciário, fazendo-lhes tirar o chapéu para me venerar, lembro-lhes a mandioca e o pepino, as bananas e os vencedores, lembro-lhes de que a obra mesma é que tem seus valores, merece os seus encômios ou as costas como cínica. Os poderes de fora ficam bem mais fácil de se entender o caráter. Seria que a vida imita a arte ou a arte imita a vida nisto de flexibilidade da “última flor do Lácio, inculta e bela" ou seriam os poderes, interesses e objetivos do risível e do belo, a busca da arte, a busca da vida.


(**RIO DE JANEIRO**, 29 DE MARÇO DE 2017)


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