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quinta-feira, 23 de março de 2017

**RETALHOS DE TIRAS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Se é que se pode não acreditar – ouvir o senso da razão e da liberdade é conservar os miolos em suas respectivas dignidades e transparências, o corpo podendo mover-se de lá para cá, vice-versa – as legítimas tarefas e funções é tirar de circulação, devido aos atos ilícitos ou aos verbos rasgados, que são reconhecidos como desacato e afronta aos princípios do poder, aos lemas das ideologias, às morais e éticas de escol, deixar entre quatro paredes, vendo o sol nascer quadrado. A esperança é a última que sobrevive: os tirados ainda verão o céu azul como a alma da gente nova.
O sol,
deitando fora a carapuça,
espalhará outra vez os grandes cabelos louros.
Brotarão as ervas.
As flores deitarão aromas capitosos.
Não se imagina a eloqüência destas últimas palavras, lágrimas pujantes e quentes descem-me a face um pouco caiada de cremes para não ter rugas, de hidratação, etc. e tal, creio que desejei sempre dedicar às flores algumas palavritas sensíveis e bem ternas, daquelas palavritas que as fazem desabrochar lindas e maravilhosas, exalando aquele perfume que extasia todos os sentidos e dimensões do espírito. Cheio de entusiasmo, prometo, pelo céu e pela terra, que farei tudo para serem ditas com mais sensibilidade e ternura.



(...)
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão...



Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer.



Por que lhes chamarem de “tiras”? Nunca lhes vi andarem com as calças às tiras, rasgados e esfarrapados, na ordem vigente da moda – não seria mui interessante ver a polícia andando de barba, cabelos longos, botina, calças rasgadas? Até hoje, aquando alguém corta os cabelos, pergunta-se-lhe, cinicamente, se fora tirado de circulação? Talvez os tiras não usem cabelos grandes, devido a uma fala: “cabelos longos, idéias curtas”. São curtos, mas as idéias menores que o salário do famosíssimo Professor Raimundo. Mereceriam figurar nas colunas sociais. Apesar da mesma cor da camisa e da calça, cor de burro fugido com medo da repressão por ser teimoso e empacar-se, mudando apenas a qualidade do tecido, bem grosseiro ou tergal, andam empetecados, sapatos marrons ou pretos, sempre brilhantes, cabelos cortados, barbas bem escanhoadas, um brinco de postura estilística, com o sobrenome numa tarja de tecido preto, antecedendo o “cabo”, “soldado, “sargento” – quando leio estas palavras na blusa das mulheres, fico na dúvida da escolha sexual; para isto não acontecer, a língua deveria permitir uma exceção, ser “soldada”, “caba”, “sargenta” -, e outros mais que não se faz mister continuar elencando. Não andam às tiras. O que se diria, se pudesse compreender a carência de eufonia de um nome tão áspero, tão surdo, tão pequeno? Infelizmente, o costume secular e a sanção do mundo – em inglês, a gíria é supimpa, “cop”, nos fins dos anos ´60 o cantor Bob Dylan tinha verdadeira paixão pelos “cops” -, dos cidadãos de boa e má índole, os marginais e corruptos, consagraram de tal modo este nome, que seria bem árduo trocá-lo por outro, e bem audaz quem o propusesse seriamente.
Por que lhes chamarem de “tiras”? Não há um sequer que não se sinta insatisfeito, irritado, com este título que lhes fora legado não só pelo vulgo, também por todas as finas classes da sociedade e da marginalidade? Dependendo do humor, quem assim lhes chamar pode levar um safanão no pé da orelha, ser algemado e levado para a delegacia, falta de respeito a uma autoridade. Seria devido ao fato de suas funções e responsabilidades serem as de enjaular os infratores das leis, sejam quais forem elas? Quer dizer, tiram a liberdade de ir e vir, que é um direito de todos, da livre expressão. Há alguns anitos aí atrás não se podia nem dizer que a maçã era vermelha, declamar estas palavras de Tagore: “ser como o sândalo que perfuma o machado que o fere”. Vermelho e machado eram alusões ao comunismo. Mas são justamente os infratores, bandidos de todas as laias e estirpes que eles não enjaulam, não jogam numa cela imunda e fedorenta, temem-lhes, tornam-se bambus ao sabor dos ventos, sujam e molham as calças. Só levantam os topetes, sobem nas tamancas, falam grosso, e por nada espancam e algemam, quando os cidadãos são pacatos, frágeis, são de boa paz, são cumpridores dos deveres e obrigações. Não o fazem com os corruptos do sistema judiciário, não o fazem com os salafrários dos políticos, com os padres pedófilos, com os médicos esquartejadores de mulheres, não o fazem com os súcias em todos os âmbitos da sociedade, sabem que as leis os protegem, além de que têm dinheiro. Os assassinatos que envolvem os grandes não são desvendados a critério, cabem-lhes encobri-los com todos os sudários, podem perder o cargo, atingiu um todo o rebanho vai junto, e a digníssima moral dos valores vai por água abaixo, e as aparências todas caem do galho.
Dizem que as mulheres de tiras gostam de apanhar. Creio que por esta razão exista aquilo de dizerem que o maior brilho de um tira está no lombo das mulheres. Não disse que a imaginação do povo é esplendida, já até encontrou onde está o brilho de um tira.
Tiras? Seriam verdadeiramente tiras aqueles que tiram a liberdade dos inconvenientes, se não houvesse por parte deles qualquer privilégio, enjaulassem todos, até o presidente e o papa, autoridades máximas do Estado e da Igreja. Só tiram a liberdade dos cidadãos, dos indivíduos de boa índole, dos que estão quietos no seu cantinho, correndo atrás do prejuízo, correndo atrás da sobrevivência. A utilidade dos tiras deveria ser a de resguardar os homens das inconveniências da moral e dos bons princípios, mas só as inconveniências de suas verdades, são os deuses delas, eles as têm nas mãos feitas conchas, qualquer argumento é em vão, qualquer lógica cai por terra e se perde nos mares, eles conhecem a alma humana e suas tramóias para justificar os erros e as infrações, eles conhecem as capacidades de todos para se defenderem, tornarem-se inocentes, ingênuos, eles conhecem o medo das repressões, eles conhecem a natureza humana, e eles serão os únicos que serão reconhecidos na posteridade como os lídimos representantes da verdade. Quer isto comprovar, leitor? Pratique um delito daqueles e tente se defender? Vai parar na cadeia sem direito a Habeas Copus.
Eu cria que, apesar de termos um sol de rachar, nunca morreríamos de semelhante cousa. Há alguns anos deram-se aqui centenas de milhares de casos de não sei que moléstia fulminante, que disseram ser o sol muito quente; mas vão lá provar que sim ou que não. Para se não provar nada, é que o mal fulmina, e o mal são os riscados das leis que não são cumpridas como manda o figurino dos tiras. Assim, nem tudo acaba em cajuada, como eu supunha há quatro, cinco décadas, naquele tempo que a pizza era exclusividade só dos italianos; também se morre de insolação. Morreu um, morrerão ainda milhares de outros. A chuva daqueles anos não fez mais que açular a canícula. Mas há certo gosto particular em dizer que nas águas das leis tudo se funde e confunde, e que não há serviços à pátria ou à humanidade, que impeçam de ir para onde vão os infratores, rebeldes, revoltados, para o além curtir as delícias do paraíso celestial, ou apodrecer nos porões onde sempre o sol nasce quadrado. Vingue-se a vida guardando a memória dos que o merecem, e na proporção de cada um, distintos com distintos, ilustres com ilustres.
Conto uma troca de dedo de prosa que há anos tive com um “tira”, lá em 1978. Era soldado havia trinta e dois anos – trinta e dois anos de “soldadice” e não chegou nem a cabo, isso é que era uma inteligência esplendorosa. Discutíamos sobre a deliciosa goiabada, enquanto tomava a sua cervejinha no botequim do Hélio, às seis e meia da tarde, na rua Tamoios, frente ao cine do mesmo nome, eu tomava a minha branquinha. Dissera o “tira” que a reputação da goiabada é inferior a uma nobre ambição política, e que a gratidão do estômago, posto seja ruidosa, é por extremo efêmera; dura o espaço de um quilo. O “tira” entendeu que lutar com a goiabada da Josefina e a compota da Europa não satisfaz a vida inteira de uma cidade, e que era tempo de lançar o cassetete na balança dos destinos. Naquela época, estavam saindo muitas notas falsas. Era o assunto do momento. Perguntei ao mesmo tira o que ele diria sobre isto. Disse-me que notas falsas, letras falsas, cria que tudo ia entroncar-se numa palavra: “Enriquecer”. Palavra sinistra, se não fosse acompanhada de alguma coisa que a temperasse, com um sorriso amarelo que contrastava bem com a sua farda lustrosa, disse-lhe. Enriquecer é bom; mas há de ser a passo de boi, quando muito a passo de carroça de água. Rira a bandeiras soltas, apreciou bastante o meu humor. Se ele entendeu o que dissera eu, não o sei, nem iria questionar isto, poderia ser entendido como afronta a sua inteligência, a coisa poderia ficar preta para mim.
Essa há de ser a moda que não acaba. Ou caminhemos para a perfeição deliciosa e terna do cumprimento das leis como ditam, declamam, versam os tiras, ou não façamos mais que ruminar as angústias e tristezas, vendo o sol nascer quadrado, perpétuo camelo, o mesmo jantar de todas as idades, a moda de morrer é a mesma... Mas isto é lúgubre, e a primeira das condições do meu ofício é deitar fora as melancolias, deixar as unturas do estilo, engomar os punhos literários, falar à fresca, de paletó branco e chinelas de tapete. A observação há-de ser exata, a facécia pertinente e leve; uns tons mais carrancudos, de longe em longe; uma mistura, digamos à luz de umas características avessas e re-versas, de Geronte e Scapin, um guisado de moral doméstica e solturas da nossa Rua Ouro Preto...
Posso pôr as manguinhas de fora. Sendo positivo que nenhum cidadão correto almoça agora como nos demais dias, conto não ser lido com o repouso do costume, alfim isto de “tira” ou “meganha” deixa qualquer individuo e cidadão soltando as pulgas e os carrapatos, há sempre lembranças e recordações das finesses, finas atitudes e educação de qualquer um deles.
Mas não é só de “tiras” que lhes chamam. Chamam-lhes também de “meganhas”, junção do pronome “me” e a terceira pessoa do verbo ganhar. O povo tem uma imaginação esplendorosa, deveria ganhar uma medalha de honra ao mérito por isto. Nós os artistas somos ganhados se nossa imaginação ultrapassar os limites das permissões. O que quer dizer isto? Ganha-me no instante preciso de estar violando os princípios idôneos do Estado, conservação e preservação da moral e ética que estabelecem os rumos da sociedade. Ganha-me, isto é, estou sujeito ao poder deles de decidirem o que fazer de mim, prender, consumir, exilar, ser morto nos paus-de-arara, são eles os meus lídimos juízes. A utilidade dos meganhas deveria ser a de não se perderem nas verdades do sistema, mas se encontrarem quem sabe nas telhas do telhado da justiça, mas só a meganhidade de suas ignorâncias, analfabetismos, alienações, acompanhadas de suas carências até mesmo de uma côdea de pão para tripudiar e enganar a fome, de uma gotícula de água para engabelar a sede, se fazem presentes, e roem, não só as unhas dos dedos da mão, também as dos pés, para isto ser verdade, que eles sejam por todos os séculos dos séculos amém a verdade suprema e absoluta da defesa da honra e da moral da sociedade. Na hora do Juízo Final, poderem dizer a plenos pulmões: “Lá na terra, fomos a verdade absoluta, fomos os deuses da moral e dos bons princípios”.
O asco ao riscado das leis que os tiras seguem diminui, o cidadão é obrigado a obedecer, custando-lhe a liberdade, se não o fizer, coitado do cidadão, o horror ao sol quadrado afrouxa, o escândalo desaparece; e a imagem da última esperança emerge, não digo para o céu, mas para uma colina. Em história, os miolos dos tiras não são aptos para saber disto, as orelhas não abanam aos ventos, o ocupar uma colina é alguma coisa, tem um valor.
A consideração, porém, de que todos os tiras devem ter os mesmos dotes principais, seguir à risca o riscado das leis que traçam os destinos das boas condutas e ações, fez-me ver que os que não tiram, não seriam menos exemplares que os outros. Dos retalhos já se escreveu que são superiores às peças de panos, pois estas, feitas as vestes, seguindo o figurino, sobram, e com as sobras podem ser feitas colchas, podem ser feitas capas de almofadas, dependendo unicamente das mãos artísticas do belo e da perfeição. Isto é, que os tiras são superiores aos cidadãos, pois conhecem as verdades todas, são os absolutos, sabem de todas as regras e normas das leis, e estas não podem ter exceções, se emendadas, as emendas não podem permitir que as imaginações férteis, rebeldes e revoltadas entendam às avessas, e assim a libertinagem esteja ao alcance de todos.
Mas eu seria injusto, e isto não é de minha índole humanitária, notando um ato benemérito de um digno “tira” reformado, que tem em páginas de jornais contado, ao seu modo, à moda de “ocorrência”, as histórias da “polícia”. Vê-se que é um tira entusiasta da cultura; e, se não lhe é dado o estilo, não há-de se lhe recusar a dedicação em escrever as suas crônicas. Há muitos estilos para contar histórias, escrever crônicas, às vezes picantes, às vezes sérias demais; há só um para merecer.



(**RIO DE JANEIRO**, 23 DE JANEIRO DE 2017)


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