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quarta-feira, 29 de março de 2017

**TODOS POR UMA** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!


“...Todos por uma...” – se é o que estou imaginando, pensando, a coisa está realmente preta, os sensos caíram por terra, os limites as águas levaram, restaram as carências todas, as necessidades aumentaram, e agora não é de um ou de algumas poucas dezenas, são de todos sem qualquer exceção. O que era uma coisa individual, incapacidades, problemas de ordem psíquica, mesmo não saber como se faz, qual o caminho que garante a uma, torna-se-lhe uma realidade e verdade incontestes, agora ser coisa social, todos estão no mesmo barco furado, generalizou-se, é de se pensar muito, avaliar as razões e motivos por todos estarem por uma.
O que acontecera, em verdade, para que todos estejam a fim de uma, ansioso e paradoxal por uma, desesperado e angustiado por uma, desolado e triste por uma, solitário e desconsolado por uma, estão matando cachorro a gritos e pulgas a beliscões para somente uma, subindo nas paredes e muros, dando nó em pingo dágua? Nenhum deles, cachorro e pulgas, tem qualquer coisa a ver com a situação, não lhes é da alçada e nem do foro íntimo, e são eles que pagam o pato, são os bodes espiatórios, e morrem sem direito a único suspiro, tudo porque todos estão por uma. Sem razão ou razões, nada é possível de ec-sistir, pode ser que não se lhe(s) tenha(m) concebido, se não lhe(s) tenha(m) percebido ou intuído, se não lhe(s) tenha(m) encontrado, mas existe(m), é/são ainda inconsciente(s), o tempo as anunciará, as situações as re-velarão, aí todas as coisas serão diferentes, terão uma nova cara e feição.
Seria que os preços de uma com todas as garantias e seguranças, isenta de qualquer risco, ficou muito acima das condições, um gasto desta amplitude vai afetar o orçamento mensal, existem outras coisas mais importantes, tem de se lhes dar prioridades. Existe a de preço bem módico, preço de banana, mas não se tem qualquer segurança, garantia, os riscos são imensos, não vale a pena morrer por apenas uma, nem por várias, já que se está lascado, uma lasca a mais ou a menos, não vai dizer muito, não vai pesar na balança, a morte será inevitável, talvez pese na do Juízo Final, a uma é pecado mortal se não for com amor e carinho, sendo manifestação espiritual, sendo para a procriação. Ou será que os costumes e a cultura mudaram, retroagiram, em verdade, agora uma só é possível após os laços de união formais, da união abençoada, como o era nos tempos de outrora? Ou será que devido a grande demanda os prazeres e clímaces deixaram de existir, a coisa ficou mesmo vulgar, como se diz “é chegar, bombar e sair”, e deste modo não vale a pena, são tempo e fôlego gastos à toa, além de que depois é como se nada houvesse acontecido, as vontades e os desejos continuam, as carências são ainda mais contundentes, complementar em casa através de outros métodos acaba sendo necessário?
Com as coisas e objetos, se forem encontrados em todas as esquinas, em todos os lugares, sejam nas feiras, sejam nas lojas, sejam nos shoppings, ninguém dá mais atenção, procuram outras que não estão na moda, que às vezes é preciso de uma encomenda para adquiri-las, mesmo que os preços sejam variados, tudo que é barato demais não dura mais que alguns dias, aquilo de que está na garantia é apenas estratégia comercial, serve aos interesses de venda, e o que é caro demais muitas vezes não dura muito. Em qualquer esquina, nas calçadas, debaixo das árvores nas calçadas, na periferia, pode-se encontrar uma à escolha, serve a vários gostos, a preços módicos ou não, mas os riscos são enormes, garantia não se tem de jeito nenhum, mesmo com a nota fiscal para apresentar ao Procom para medidas serem tomadas a critério e rigor, fazendo valer os direitos, dinheiro de volta ou produto trocado. A uma se tornou produto de difícil aquisição, virou agulha no palheiro.
Se se encontrasse uma que não fosse de enfiar a mão no bolso, não custasse os olhos da cara, fosse de preço razoável, tivesse todas as garantias, tivesse todas as seguranças, além do mais saciasse todas as exigências, realizasse todas as vaidades, o serviço todo completo e mais algumas cositas para incrementar, será que iria satisfazer todas as carências, saciar as sedes e fomes, os clímaces seriam divinos e maravilhosos? Uma só não iria satisfazer, seriam necessárias outras e mais outras, mas no final do mês, embora os preços razoáveis, a quantia seria bem elevada. Se todos estão por uma, a uma aqui, a uma ali de todos iriam realmente enriquecer quem estaria satisfazendo as vontades e desejos, as carências e vaidades, e ninguém mais iria querer fazer outra coisa senão com a uma trabalhar, labutar, dar duro, suar mesmo, tremer as pernas, e quem estava pensando, imaginando que o orçamento mensal com o trabalho oficial e tradicional não estava dando, a aposentadoria era dura e simples merreca, outras necessidades estavam urgentes, iria procurar seus modos de complementar o orçamento. Mas não se encontra no mercado a uma a preço razoável, a uma que todos estão desejando, matando cachorro a gritos e pulgas a beliscões, encontrar, custa bem caro, é a de elite que só pode ser paga pelos políticos, prefeitos, vereadores, senadores, deputados estaduais e federais, presidentes, empresários, advogados, engenheiros, doutores, agentes da polícia civil, delegados, etc., etc. Se são todos que estão por uma, até mesmo estes estão carentes, e não é devido ao fator financeiro, trata-se da questão da segurança e da garantia, que não estão acontecendo, é o que mais está faltando no mercado. O Procom por mais eficiente e honesto que fosse não iria dar conta de problema tão difícil e complexo.
Como solucionar este problema sem qualquer possibilidade de avaliar a sua extensão? Por mais absurdo que seja o único modo que se me anuncia neste instante, tendo de render graças a Deus por ser capaz de pensar ou imaginar, e que me valerá, queira ou não, críticas contundentes, fundadas na questão de estar eu a negar uma das dimensões da vida, estou a negar a natureza humana. Não concebo, não vejo outro modo de a todos confortar, mostrando-lhes o que em mim trago dentro de solidariedade, demonstrar-lhes minha amizade incondicional, nisso de todos estarem por uma, e esta uma hoje constitui um risco dos mais inestimáveis, risco de morte, vale dizer e sublinhar, quem dera fosse um risco qualquer simples ou complexo, mas a vida continuasse. É esperar que os tempos sejam outros, que todos os riscos passem, não haja mais estas coisas de preços módicos ou os olhos da cara, não se encontre uma em quaisquer lugares do centro da cidade ou mesmo nas periferias. Não se sabe quanto tempo vai demorar para as coisas modificarem, pode demorar décadas, séculos ou até milênios, mas é melhor que não mais desfrutar os prazeres disso que é viver, estar-no-mundo, ser-no-mundo, do que fazer a viagem eterna devido ao desejo de uma que satisfaça, que preencha todas as carências, que preencha todos as vontades de gozos e clímaces divinos e maravilhosos.
Fazer o quê, enquanto as coisas não mudem? É deixar isso de desejar uma, de querer uma; se isso de não desejar, não querer, não for de todo possível, é fingir ou simular que a uma jamais existiu, ela nunca houve, fora apenas criação da imaginação fértil, ninguém precisa de uma. Ainda não sendo possível fingir, simular não haver necessidade, há outra coisa que se pode fazer, e não se trata do que as mentes mais criativas e ansiosas estão pensando por desejarem saídas para coisa tão difícil de com ela se conviver. Aliás, se é o que estou imaginando que as mentes criativas estejam pensando, isto não vai amenizar, diminuir, acabar com as carências, o matar cachorro a gritos e pulga a beliscões não vai satisfazer, vai é aumentar mais, devido ao fato de que para isso a imaginação do normal, do que está no cardápio, estará sempre presente, sem isso não há possibilidade, é o mesmo que chifre na cabeça de cavalo, encontra-se, mas com esforços sobrenaturais. Trata-se dos laços oficiais e tradicionais, de assumir a união sagrada, existe quem ainda não tem nem noção do que seja uma, estão inocentes, ingênuas, não estão por uma, estão esperando o momento de isso acontecer, e espera tranqüila, serena, com toda a calma do mundo, sem lançar mão de outros modos e estilos, de outras estratégias e tramóias. A uma que por ela todos estão vai deixar de estar em qualquer canto e recanto do centro da cidade, incomodando as famílias de índoles e laias tradicionais, aparentes ou não, ou mesmo nas periferias, tudo lá é mais que natural e comum, o importante são os bagos de feijão e arroz a mais nos pratos, e mais duzentos e cinqüenta gramas de alcatra, chã de dentro, patim ou mesmo contra-filé, file não se vende aos gramas, os riscos não mais existirão, haverá todas as garantias e seguranças. Aí, então, pode-se de quando em vez querer divertir-se um pouco, mudar de cardápio, experimentar outros temperos e novos pratos.
Corre-se o risco de a diversão não ser agradável, aquelas que serviam as carências e necessidades, que estavam no mercado por todos os lados, aqui e acolá, aqui e ali, nos confins e nas arribas, serão as que estarão no mercado, e isto que hoje é palavra de ordem em todas as línguas e bocas, isto é, “panela velha é que faz comida boa e gostosa” não mais será, ninguém mais vai querer saber de panela velha, vão preferir as novinhas em folha, as que se encontram no conforto e tranqüilidade do lar, na serenidade das alcovas à luz das estrelas brilhantes e das luas todas, na chuvinha da madrugada lenta e duradoura, os prazeres e clímaces os mais di-versos.
“... Todos por uma...”, creio eu, e não me sentindo à vontade, pois fico imaginando e pensando em todos os desejos latentes, todas as vontades que estão dando aquele nó górdio em todas as gargantas, estão oprimindo todos os corações, estão angustiando e desesperando, não é nada fácil viver sem uma, vai continuar por tempo indeterminado, pois quanto mais se pensa em coisas que podem ser a solução, que podem amenizar, diminuir os desejos, o que se faz é aumentar-lhes ainda mais.
Agora mesmo tive notícias frescas de que alguém estava por uma, mas antes mesmo de procurar quem iria lhe satisfazer os desejos, almoçou uma excelente e deliciosa feijoada – neste calor de porta de inferno é arriscar muito, este prato é realmente substancioso! -, e fora satisfazer seu desejo conforme os meios de outrora, quando não estava nos mercados, em todos os lugares, esquinas e becos, alamedas e terrenos baldios, o preço não era módico nem exorbitante, não lhe iria fazer a menor falta. Cinco minutos depois, ainda estava tirando as suas vestes para um banho, quando o coração não suportou a gula da deliciosa feijoada e bateu com as dez sem direito a único suspiro. Não correu os riscos da atualidade, mas não pensou direito, não pensou com os miolos, nem percebeu em nível dos instintos, a fome do estômago podia esperar, depois da uma comeria até com mais apetite, sentiria mais prazer e o clímax ultrapassaria todos os limites do divino e maravilhoso. Não chegou a realizar o desejo da uma, não satisfez a vontade da deliciosa feijoada. Pode ser que no além satisfaça as suas carências e necessidades com mais prazer ainda, as condições da uma lá sejam bem outras, irá sentir espiritualmente o que é uma excelente e esplendorosa uma.


(**RIO DE JANEIRO**, 29 DE MARÇO DE 2017)


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