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segunda-feira, 27 de março de 2017

Paulo Ursine Krettli CRÍTICO LITERÁRIO POETA E ESCRITOR ANALISA A SÁTIRA /**MODERNIDADE DO FRUTO PROIBIDO**/


Em toda arte que se pretenda discorrer, há a solidão, o sentir-se só e, até mesmo, abandonado, para se criar e enunciar os amplexos da criação, lutando contra a teimosia e a hipocrisia do mundo, mas, antes dele, contra a teimosia e a hipocrisia do homem. Assim foi com Aleijadinho, com Fernando Pessoa, com Darwin, cujas dores e alegrias ficaram eternizadas naquilo que fizeram.
Com Manoel Ferreira Neto não é diferente. É uma luta gigante e sua obra multiforme, intensa e coroada de questionamentos só será delineada em sua plenitude daqui algumas décadas, dada a universalidade e complexidade da exposição diferencial a que se otimiza para relatar as contradições do homem contemporâneo, esse homem, o dos nossos dias, infelizmente, perdido na sua comodidade material e supérflua.
Essa luta é a luta desde sempre! Antes, de forma tímida, quase obscura, absurda, sempre violada por inquisições diversas e várias; agora mais robusta de informações em livros, ciências, tecnologias virtuais, em horizontes ainda inexploráveis, porém, mantendo-se a busca que se verbaliza nas palavras, nas artes plásticas, na arquitetura, na música e na oposição, quiçá, aos descomodos valores e padrões que invariavelmente escondem o lobo que quer padronizar normas, comportamentos. Essa oposição faz bem para que se possa criar tantos silogismos tantos forem necessários para que se encontre o DNA do ser homem no universo. Essa oposição faz bem para que se entenda que a criação não precisa de veracidade, vez que criação é invenção, obra, produção; é, em suma, propagação e preservação da história da civilização, que, ora, é a nossa!


Paulo Ursine Krettli


**MODERNIDADE DO FRUTO PROIBIDO**
PINTURA: Graça Fontis
SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


EPÍGRAFE:


"Os aristocratas têm como crença básica que o povo vulgar é mentiroso, dissimulado, simulado..." (Manoel Ferreira Neto)


O erudito também tem as doenças, achaques, pitis e defeitos de uma espécie não aristocrática. Quem não os tem – infelizmente!, vale isto ressaltar com exclamação -, não se mirou na superfície lisa do espelho, ad-mirando-se tanto que a sensação outra não fora senão que outro fora colocado nela, a imagem fora dis-torcida, de-pauperada; não teve cor-agem de encarar de frente o homem que é, tenha-se tornado, por absurdo que seja não vive neste mundo, nem nas nuvens, nem no infinito, nem nasceu ainda, está sonhando tornar-se carne e ossos, refestelando-se de por baixo de uma árvore qualquer do paraíso celestial, bem distante da “árvore do fruto proibido”. Doenças e defeitos são a carne da vida, achaques e pitis, ossos, são todos as rugas da maturidade, são as muxibas da velhice. Doenças e defeitos existirão, enquanto houver vida, enquanto houver mundo, enquanto houver homem, achaques e pitis existirão, enquanto houver sonhos e desejos não real-izados, enquanto houver vontades frustradas, enquanto houver invejas e despeitos. Queira ou não é a verdade insofismável e absoluta, maior ainda que a morte, esta não é a única que o homem não há duvidar, é o único paliativo verdadeiro e eterno dos defeitos e doenças, o único alívio para os sofrimentos da inveja e do despeito; com ela termina tudo, não sei se continuam além-túmulo, ninguém dela re-tornou para dizer ser verdade continuam, se além-túmulo tudo são virtudes e valores, prazeres e felicidades, êxtases e alegrias inomináveis.
O erudito, imbuído de inveja mesquinha, despeito medíocre, como é de sua natureza e condição, tem um olho de lince indescritível para detectar o lado fraco das naturezas cuja altura não consegue atingir, assim se justifica, assim encontra conforto, consolo, assim consegue prolongar a vida, assim morre por encontro im-previsto. É confiado, mas apenas como alguém que se deixa levar pela corrente, mas não fluir como uma corrente, como água que se deixa levar pelo rio, com margem e muita lentidão. Exatamente frente ao homem da grande corrente, ele permanece frio e fechado, fica duro e calculista, insensível e sorumbático. Seus olhos parecerão, então, um laço liso e aborrecido no qual já não ondula qualquer entusiasmo, qualquer sim-patia, por mais que a anti-patia e em-patia dêem-lhe adesão a outro futuro, diferente em todos os níveis da história humana e da humanidade.
O pior e mais perigoso de que é capaz um erudito, em que suas forças são e estão concentradas, provém do instinto de mediocridade, mesquinharia, inerente à sua espécie, laia, estirpe. É desse jesuitismo, fanatismo da mediocridade, mesquinharia, que trabalha instintivamente para o aniquilamento do homem vulgar, do aquilo, do populacho, povicho, e então quebrar, ou, noutra linguagem e estilo, termos, palavras ad-versas, dis-tender todo o arco tenso. Evidentemente, dis-tendê-lo com esmero, carinho, ternura, sem fazer doer, sem fazer sofrer, dis-tender com carinhosa compaixão, com terna solidariedade, esta é a verdadeira arte do jesuitismo, também do eruditismo mesquinho e medíocre, que sempre soube apresentar-se como seita do espírito, credo da alma, religião do samaritano divino e absoluto.
Vou fornecer de graça, aproveitando que dormi profundamente esta noite, levantei tranqüilo, sereno, dis-posto, minha concepção da modernidade, isto para não dizerem por aí nas esquinas e alcovas que não tive a hombridade de não falar das flores. Cada época possui em sua parte de força também uma parte pela qual algumas virtudes lhe são permitidas e outras lhe são vetadas. Ou possui as virtudes da vida crescente: então, por razões profundas, resiste com todas as suas forças às virtudes da vida declinante. Ou é ela própria vida declinante – tem então necessidade das virtudes do declínio e detesta tudo o que se justifica apenas pela plenitude, pela superabundância de forças. A moral aristocrática, a moral dos senhores, tem suas raízes numa acepção triunfante do eu – é sua auto-afirmação, auto-celebração da vida, tem necessidade de símbolos e práticas sublimes, mas apenas “porque seu coração transborda”.
O homem aristocrático separa de si os seres nos quais se manifestam sentimentos contrários dos estados de alma elevados – por mais que tenha espremido os miolos para entender esta aversão, asco, nojo que os aristocráticos têm das almas elevadas, faltam-me re-cursos para lhe sorrir afetuosamente. É orgulhoso, despreza-os. Desde já, saliente-se, sublinhe-se, italicize-se, que nesta espécie de moral, a antinomia “bom” e “mau” significa o mesmo que “nobre” e “desprezível”. Os aristocratas têm como crença básica que o povo vulgar é mentiroso, dissimulado, simulado, os políticos, de colarinho branco, divina oratória, são corruptos – ser político, exercer esta arte com dignidade e honra é ser corrupto, isto é, há-de sê-lo para ser autêntico -, os artistas de sensibilidade e visão são ameaças aos valores e virtudes do espírito. O homem aristocrático honra em si mesmo o poderoso, as capacidades supremas e sublimes, como também o que tem poder sobre si próprio, que sabe falar e calar-se, que, com prazer, é rigoroso e duro para consigo, e tem respeito por tudo que seja duro e empedrado.
Um grande futuro! Enquanto esta palavra me bate no ouvido, o sangue corre nas veias mais rápido, o coração pulsa mais veloz, os nervos retesam-se, a carne treme, os ossos trepidam, devolvo eu os olhos, ao longe, no horizonte misterioso e vago, no uni-verso enigmático e vazio, no infinito sorumbático e ensombrecido. Uma idéia expele outra, pensamento recusa outro, sonho refuta outro, uma vontade negligencia outra, um olho manda o outro à merda. Talvez naturalista, parnasiano, literato, engenheiro, economista, arqueólogo, banqueiro, político, ou até bispo – bispo que fosse por indicação do cônego da casa paroquial que não gosta, tem nojo, asco, coceira do vulgo, - uma vez que fosse um cargo, preeminência, grande reputação, título superior, posição do bem e do mal.
Na verdade, o homem moderno se vê ao mesmo tempo transformado, pois, em nosso mundo de hoje as coisas são tão necessariamente ligadas entre si que bastaria arrancar um prego para que todo o edifício balançasse e desmoronasse. O amor fraterno e a justiça reforçados num ponto se desenvolvem e se propagam segundo a lei de sua necessidade interna, sem jamais retornar à imobilidade de seu estado anterior de crisálida.


A minha alma, talvez, não é tão pura,
Como era pura nos primeiros dias;
Eu sei; tive choradas agonias
De que conservo alguma nódoa escura...


Em épocas longínquas, que a memória não consegue vislumbrar, e muito remotas da humanidade, havia uma espécie de remorso muito diferente do existente hoje. Atualmente, as pessoas só se sentem responsáveis por aquilo que querem e por aquilo que fazem, e a altivez deriva apenas daquilo que cada um traz consigo: os nossos juristas fazem partir tudo deste amor próprio individual, deste prazer consigo mesmo, como se a fonte do direito daí tivesse jorrado deste sempre. Entretanto, durante o mais longo período da humanidade, não houve nada tão terrível como sentir-se isolado. Estar só, sentir-se como um isolado, não obedecer nem mandar, significar um indivíduo, não era de modo algum prazer, mas punição; estava-se condenado a ser “indivíduo”.
Graças aos sonhos, somos mais ricos ou mais pobres...
Quem há duvidar o universo é um composto de maldade e invejas, Não há talento, por mais prodigioso, que não seja ferido, não seja objeto de escárnio, pela seta da calúnia e do desdém dos egoístas. Como fugir a esta triste situação? Participar mudança para os quintos dos infernos? Seria um paliativo? Seria uma solução? Seria, com efeito, a consolidação da lei do menor esforço. Só se pode fugir a isto de único modo. Que cada um começando a viver deve logo compenetrar-se de que nada há acima de si, e desta convicção própria nascerá a convicção alheia. Quem há de contestar o talento a um homem que inicia por senti-lo em si e diz que o tem.
Dirão que isso é mais pura vaidade; mas se compreenderem a minha natureza e a natureza dos outros deverão saber que isso que lá embaixo se chama vaidade não é entre nós outra coisa mais do que a verdadeira tensão do espírito, a consciência da nossa elevação moral.


(**RIO DE JANEIRO**, 24 DE MARÇO DE 2017)


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