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sexta-feira, 24 de março de 2017

Maria Isabel Cunha ESCRITORA E POETISA COMENTA A SÁTIRA /**CARÊNCIA DA LÍNGUA**/


Ah! O autor, desta vez usou a ironia e malícia ao mesmo tempo. Quantas habilidades, as da língua!!! Que ela nunca nos falte e seja corajosa para pôr os pontos nos is... O autor tem razão, quando diz que devemos penteá-la para deixar cair as palavras no papel , a fim de ficarem registadas, pois as enunciadas depressa desaparecem e esquecem. Parabéns, amigo escritor Manoel Ferreira Neto. Um abraço.


Maria Isabel Cunha


**CARÊNCIA DA LÍNGUA**
PINTURA: Graça Fontis
SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Acordei hoje com a língua... Há quem acorde com a macaca - quê coisa desagradável: dá vontade de mandar a pessoa pentear macaco de tanto que ela se torna pentelha, fala pelos cotovelos, canta pelos joelhos.
Ao longo dos anos, séculos, milênios, no decorrer dos tempos, todos os homens se assemelham, tornam-se semelhantes, todavia é diferente a ordem de seu desenvolvimento, progresso.
Agora sou quem me manda pentear a língua. Entrei num abismo sem fundo. Sei não, mas me parece bem hilário pentear a língua no fundo do abismo, sob clima meredional.
Nos climas meredionais, onde a natureza é pródiga, aliás, tudo é pródigo nos climas meredionais, as necessidades nascem das paixões; nas regiões frias, onde a natureza é avara, as paixões nascem das necessidades, e as línguas, tristes filhas das necessidades as mais contundentes e punjantes, ressentem-se de sua áspera origem.
Ainda que o homem se habitue com as intempéries, com as penúrias, com as macacas da náusea, com o frio, e até com a fome, há, porém, um ponto em que a natureza sucumbe - nas garras dessas provações cruéis, insensíveis, tudo que é débil perece e tudo mais se fortalece. Não há um ponto inter-mediário entre o vigor e a morte.
As línguas valem mais escritas do que faladas; leem-nos com mais prazer do que nos escutam. Quem sabe para o leitor o sentido só em parte está nas palavras, toda a sua força reside nos acentos. Julgar os autores que conseguem essa façanha de o sentido só em parte está nas palavras é querer pintar um homem tendo por modelo seu cadáver.
Levantei com a língua, mas, engraçado, está mais parecendo que acordei com a macaca. As características assemelham-se: estou muito pentelho. Então, para não conceder primazia a um em detrimento do outro, acordei com a macaca na língua ou com a língua da macaca.
Foram em verso as primeiras histórias, as primeiras arengas, as primeiras leis. Encontrou-se a poesia antes da prosa, e haveria de assim suceder, pois que as paixões falaram antes da razão.
Paixões... Paixões... Paixões... E lá vem a língua cantar nos meus ouvidos que isto de ela estar sempre conubiada com as paixões é que estou carente, numa carência de dar dó, pena, estou à cata de outra língua para a minha brincar com ela nas nossas bocas unidas. E as paixões falam nos meus ouvidos que há outro modo de saciar a carência, mas é com a ponta da língua, sacia qualquer carência.


(**RIO DE JANEIRO** 24 DE MARÇO DE 2017)


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