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terça-feira, 21 de março de 2017

**CARÍCIAS EMBRIAGANTES E AMIZADE DAS PARCAS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Dos dois oradores, um só conseguiu, realmente, toda a razão da sua causa, vender as carícias embriagantes e a amizade das parcas, pois que se abandonou à paixão, o que fora motivo e razões dos aplausos eufóricos, de cumprimentos extasiados, quase chegando à linha limítrofe entre a sanidade e a loucura; somente a paixão lhe fez subir ao cérebro suficiente sangue e calor para forçar a sua alta inteligência a revelar-se.
Não saberia informar com lucidez se o orador se considerava imbecil, e para convencer e persuadir os presentes que precisava com veemência mostrar a si próprio não o ser, era o seu sofrimento mais profundo, já havia rezado sem-número de orações, pedindo a Deus perdão por este estado de alma tão sublime, mas tão traiçoeiro, sua imbecilidade, o nível dela era altíssimo, o seu lugar, após a morte, já estava predeterminado, iria para o inferno com toda a sua imbecilidade, aliás fora a única responsável.
Antes, contudo, de apelar para Deus, consultara na mente e memória os deuses todos que conhecera, em que acreditara na infância, adolescência, maturidade, talvez um deles fosse a saída, dar-lhe-ia as respostas necessárias. Não acreditava que Deus o fizesse. Os deuses foram-se; não deixaram sequer um raio dos domingos ou um ar de suas graças. Não havia alternativa: Deus ou nada. Era escolher. Escolheu Deus.
Deus não lhe dera qualquer resposta, então, naquela tribuna precisava de dizer uma “frase de efeito”, daquelas que o mais imbecil bateria palmas eufóricas, só ela poderia re-verter o seu destino, a partir de então assim não se consideraria mais, ao contrário, con-siderar-se-ia senão um dos homens mais inteligentes, de uma inteligência sem precedentes.
Frases de efeito surgem de imediato, não adianta qualquer tentativa de criá-las, cria-se inúmeras, mas nenhuma é capaz de suscitar as intenções que se anunciaram, as que se re-velaram, tornaram-se reais. Além do mais, a tensão que se manifesta, ou a frase de efeito ou o inferno por toda a eternidade, não acreditava em si mesmo, era considerado imbecil por todos, embora os seus discursos empolados, a erudição, as idéias profundas que neles se encontravam nas linhas, a questão não se encontrava nelas, sim nas entrelinhas, o vazio sem fundo que vivia ele.
Chegara a fazer uma lista, três páginas de ofício, com a sua letra pequena, de frases de efeito – não saberia informar quantas, um grande número. Contudo, não encontrou nelas o que lhe daria o desejado, a esperança de salvação da consideração de seus ouvintes, um grande imbecil. Rira a bandeiras soltas com algumas, somente tolices, se dissesse algumas destas, passaria de imbecil, verdadeiro palhaço, aí todos diriam “Enock, o palhaço imbecil”, causaria risos sem fronteiras e limites. De algumas, ficara sério, pensativo, se dissesse uma delas, suscitaria nos íntimos de seus ouvintes, sentimentos os mais variados, mas teria de construir discursos os mais eruditos, alguns temas teriam de ser in-vestigados nalgumas obras, a mensagem tinha a sua profundidade, e não teria tempo suficiente para esta investigação. De toda a relação feita, passando a metade da noite, lendo e relendo para escolher a que lhe valeria o Paraíso Celestial, e não havia conseguido. Levar cinco dias para escrever um discurso de duas páginas de computador, enchendo latinhas e mais latinhas de suor, é dilacerante, há quem teria um enfarto fulminante com a consciência de sua incompetência, quando a coisa não passa por um crivo de análise, se se quiser por este prisma de visão. A tensão, sem dúvida, é enorme.
Nas últimas três horas, quatro horas, não me deram a informação de quantas horas mesmo, suava, tinha calafrios, andava pela sala, a cabeça fervendo, não tinha mais qualquer idéia, qualquer noção de alguma coisa que pudesse livrá-lo do inferno, necessitava mostrar que a sua imbecilidade era apenas aparente, acostumara tanto com o servir-se delas para realizar os seus interesses mais espúrios, que perdera a rédea, tornou-se imbecilóide. Então, naquela tribuna cinqüenta minutos antes, os calafrios se tornaram tão intensos que a própria sua senhora lhe chamara a atenção, poderia até ter um enfarto com a sua neurose de “frase de efeito”, dizendo-lhe: “Enock, só lhe resta fazer um pacto com o diabo, por que não vende sua alma para o diabo, talvez ele o inspire. Caso isto seja uma ofensa e humilhação ao seu orgulho, por que não pensa como você?”.
A palavra “vender” lhe dera um calafrio tal que as idéias todas embaralharam, não seria possível que estivesse ficando maluco, isto não, tudo, menos a insanidade, seu orgulho de um dos maiores oradores de sua comunidade não lhe permitia, talvez fosse até melhor pensar em “con-sentir” que fizesse discurso de advogado e orador pelas ruas da cidade, seria motivo de chacota: “Acreditou tanto que era um imbecil, começou a pensar como ele, que enlouqueceu”. Jamais.
Quando subiu os degraus, o lenço estava molhado, o calafrio fora tal que pensara com efeito fosse desmaiar, o seu público estava todo presente, embora todos soubessem do vazio sem fundo que vivia ele. Nalguns semblantes, uma ansiedade, não podiam compreender, entender, mas havia a promessa no “ar” que será inesquecível, um homem que pensava como imbecil, iria se pronunciar como um dos homens mais inteligentes, não mais seria esquecido, acontecimento sem precedentes. Antes de iniciar o seu discurso, olhara para todos, as idéias sumiram, se é que se pode acreditar que um homem se mergulhe tanto no vazio, sentiu profundo. Dissera à mulher que estava ao seu lado: “Estou quase vendendo a alma para o diabo”. É fato na história que Jean Jacques Rosseau, vivera toda sua vida como um perfeito inútil, certo dia se sentou debaixo de uma árvore, escrevendo o Contrato Social, daí em diante considerada uma das inteligências mais brilhantes, revolucionou o mundo inteiro com suas idéias.
Ajeitou o microfone, lera “Senhores, senhoras, estive pensando muito sobre isto de me considerarem um imbecil, os meus discursos são apenas linguagem erudita, no fundo, no fundo, não tem a dizer, nada acrescenta. Jamais acreditei em mim, encontrei a imbecilidade de que me servi por todos estes anos. Não lhes tenho qualquer rancor, raiva, ressentimento por assim me considerarem. Não, senhores. Agradeço-lhes, sou-lhes eternamente grato. Não é fácil, contudo, na alcova, madrugadas, sofri por ser considerado imbecil. Confesso que tinha consciência de que me servia nalguns momentos, havia interesses em jogo, a imbecilidade é recomendada nestes momentos. Se perdi as rédeas de minhas re-presentações, não acredito por ter consciência, sabia em que momentos era necessária a imbecilidade.
Não seria o caso de lhes mostrar o que realmente senti nestes momentos, para fundamentar o que estou buscando que compreendam e entendem que não sou quem vocês pensam, sou outro homem, bem diferente desse, sem a inteligência não escreveria única letra. Vocês não podem imaginar até onde cheguei, para poder saber como me livrei de passar por um imbecil por toda a comunidade.
Chegara a um nível tão grande de imbecilidade que o meu lugar no inferno já estava garantido, isto como consequência, a única coisa por que posso julgar-me, saber que ela leva o homem para o lugar que ele quiser, eu desejava o inferno por haver sido nos meus discursos públicos. A alternativa mais razoável para enfim me mostrar vez por todas seria num discurso, ser franco e direto com todos, assumir quem sou, sem qualquer pejo ou medo, embora lhes agradeça por não tornar isto mais difícil do que já é, por não dizerem de mim “um imbecil de galocha”. O sentimento de inferioridade se revelaria com toda a pompa, talvez até preferisse fazer o mesmo de uma ave, de cujo nome não me recorda agora, que esconde a cabeça debaixo da terra, e jamais tirá-la de lá. Pergunto-me agora se não seria a avestruz?
A alternativa seria dizer uma frase de efeito que mostrasse a todos não ser quem pensam que eu seja, um imbecil, sou homem inteligente, aplaudiriam tanto que a minha redenção estava garantida, não iria mais para o inferno por tanto pensar como um, acabou se tornando um deles. Assim, o Paraíso Celestial estaria garantido
Sei com efeito estais aqui para que discurse nesta tribuna sofre o pensamento jurídico de nossa atualidade, não estavam esperando que, em verdade, falaria de duas coisas, mas penso até que irá contribuir bastante para que as minhas idéias a respeito deste pensamento alcançassem o nível que espero com ansiedade com este tempo que tomei a liberdade de tomar de vocês todos.
Não seria o caso de lhes mostrar tudo o que vivi durante alguns dias, pensando e repensando tudo o que já disse aqui, como advogado, senti na pele o sofrimento que é alguém haver usado de subterfúgios espúrios para conseguir os meus objetivos e interesses. Houvesse mais tempo iria fazer algumas considerações, tomaria uma de minhas frases de efeito na lista que compus para enfim conseguir a redenção, não mais ser assim considerado, mas mostrar-me como eu sou.
Muita tensão. Nenhuma outra tão grande como esta que se me revela neste momento, não havendo outro modo de me expressar senão que estou dis-posto a vender as carícias embriagantes e a amizade das parcas para conseguir o meu objetivo de mostrar a minha inteligência”.
Eu próprio já estive envolvido nesta questão de precisar de escrever, seria o primeiro discurso aqui realizado. Pensara por uns dias. Aconteceu de ter estado em casa de um grande amigo, Euler Pimenta, advogado de renome em nossa comunidade, estava preparando um discurso que faria na Academia de Letras, exerce o cargo de presidente, estava dando os últimos retoques, trocamos uns dedos de prosa, enquanto corrigia no computador seu discurso. Aí é que tudo se clareou na minha cabeça, não digo estar sendo fácil, contudo a dificuldade de ter o que escrever está suprassumida, para usar um termo que vós fareis pensar bastante.
Confesso com terminância que não seria jamais capaz de conceber isto de “vender as carícias embriagantes e a amizade das parcas” para conseguir quaisquer objetivos que estivessem em pauta serem realizados. Nunca. No sentido de não me prolongar neste encontro, lembra-me uma “fala” popular “a necessidade faz o momento”, outra neste mesmo nível “a oportunidade faz o ladrão”. Digo-vos com sapiência, não é nada fácil renunciar estas duas coisas, as carícias embriagantes e a amizade das parcas, fica-se sem saber o que poderá ser feito da vida, elas é que são as nossas companheiras de estrada.
(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE MARÇO DE 2017)


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