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domingo, 26 de março de 2017

**NENTES DE CATIBIRIBA** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Quem sabe seja uma verdade, a mais singular, íntima, particular, e não digo de uma verdade absoluta, nada há que me cause mais náusea, tédio, que isto de “verdade absoluta”, “uma verdade absoluta”!... Contudo, seja algo que mereça atenção maior, observação, contemplação, pode vir a transformar-me, transformar esta matéria-prima e bruta que sou; algo que contribua o máximo para me conscientizar do sentido da vida, o que representa, e assim possa atingir outras dimensões, veja as coisas com clareza, crie pensamentos positivos, tenha atitudes mais dignas; enfim, seja algo que indica os caminhos a serem seguidos.
Basta-me assumir o que me vai intimamente, e não estar a criar justificações, explicações para um estado de espírito que me tomou por inteiro, tocou-me profundamente, o que isto vai contribuir para me libertar dele? Nada. É lutar para conseguir superar, dar outro rumo às coisas, aos trilhos em que neles desenvolvo os passos, vou-me distanciando, a poeira vai ficando para trás, tudo vai ficando para trás, ao meu lado a minha sombra.
Sabeis vós, excelíssimos catibiribenses. que estive a elucubrar com todas as dimensões racionais que me habitam, residem nos recônditos de minha alma os nentes do hilário, risível, sem negligenciar poucochito sequer o sarcasmo, a respeito de altares que deveriam ser erigidos ao silêncio e à solidão. No silêncio, formam-se e concentram-se - não me fora possível encontrar outros verbos mais condizentes com a questão senão estes, mas ad-mito que são obtusos - as grandes idéias. Palavra é tempo, silêncio é eternidade. Imaginais aí com os vossos botões que o espírito só trabalha no silêncio e o mérito na solidão?
Imagino alguém que se senta ao banco de uma estação ferroviária, esperando a chegada do trem, aquando chegara não fazia uns dois minutos um havia partido. Sentou-se. Pôs-se a esperar por um outro. Outros não chegaram àquela estação. Esperou dias, meses, anos, de repente, levanta-se e sozinho segue os dormentes a caminho de seu destino, esqueceu-se até mesmo de sua maleta, contendo algumas peças de roupa limpa, sabonete, toalha, escova de dente, dentifrício... Esqueceu-a. Alguém gritou, dizendo estar esquecendo da maleta, não se virou para trás. Continuou a sua caminhada a caminho de seu destino.
Até me questiono, pergunto, se estou mesmo decidido a assumir o que me vai no íntimo, se estou desejando superar as dores todas que me perpassam, se quero amadurecer, crescer, sentir-me mais digno de quem sou. Há momentos em que não estou disposto a crescer, desejo permanecer no meu canto, encolhido, da parede. Satisfaz-me esta inércia. Não conseguiria isto de modo algum, inerte ilimitadamente. Até seria de perguntar a razão de algo tão imbecil, idiota, não quero crescer, amadurecer, chafurdo-me num canto, o resto nada mais interessa. Não seria capaz de modo algum.
Jamais consegui ficar dentro de uma sala de aula todo o tempo, ouvindo as explicações dos professores, as indagações dos alunos, dificuldades e facilidades, precisava sair, olhar para o pátio de diversões no “horário do recreio”, como assim era chamado. Irritava-me sobremodo a questão inconteste de os mestres catibiribenses só ensinarem a falar, tagarelar, algazarrear, nenhum ensinava a calar. Saía a todo instante. Se o professor dizia que não podia. Se pensava que não era por necessidade, fosse até ao banheiro comigo. Veria a necessidade. Permitia, um pé lá, outro na sala de aula, não vadiasse pelos corredores.
Não acredito haja alguém absolutamente indiferente às palavras, atitudes dos outros, posições, opiniões, até mesmo os fingidos e indiferentes sentem algumas situações, sofrem nos seus cantos, por mínima e imaginária que seja, talvez por causa sim do fingimento não puderam sentir que a situação não dizia respeito algum a ele, foram suas conclusões apressadas, seus traumas, seus conflitos, sua também paranóia, disto não se pode sair, não se pode negligenciar. Agora, aquando da situação, houve sim referências a ele, até um imbecil seria capaz de compreender, os fingidos e indiferentes sofrem ainda mais, talvez pela dúvida de estarem a dizer exatamente ao contrário, era encômio e não negligência, cinismo, sarcasmo, ironia.
Não há homem que seja indiferente aos olhares dos outros. Talvez esteja dizendo que não sou indiferente aos olhares dos outros, por ser sensível e perceptível, também por meus complexos de rejeição, mas disto tenho consciência, e se sou um homem consciente significa que a presença de uma possibilidade de mudança está em minhas mãos.
Olharam-me de soslaio, de esguelhas, sorrisos os mais esquisitos e estranhos, por haver sozinho conseguido o que realizei, não foi por política, por afagos à áspera irritação, por toalhas molhadas na testa, mas por haver lutado, com valores em mãos, valores que ninguém, ninguém mesmo, isto não tem jeito de ser negado, ninguém é capaz de tirar-me, morto, terei morrido com eles. Se lhes disse em palavras, se insinuei, se anunciei ser um homem consciente, ser um homem quem reconhece seus valores, e, se com estas palavras tiveram por bem a rejeição, disse-lhes sim que sou consciente, ainda digo mais, se me rejeitam, ainda assim tenho meus valores, inegáveis. Disse-o, ressaltando e sublinhando com arte e engenhosidade, o que consegui construir fi-lo com um instrumento que poucos são o que assumem de verdade, a luta, sou homem quem pode tomar um tombo enorme, mas isto não significa que ficarei prostrado ali, levanto e sigo a caminhada. A morte, sim, é o que me vence. Isto lá anda no sangue, e não somente na mente como uma falsa esperança, uma fuga, anda no sangue e me orgulho disto, levou-me a assumir esta matéria-prima e bruta que é a vida, cabe-me a transformação dela, que sou eu.
Não é mau este costume de escrever o que se pensa, o que se vive, o que se vê, isto tece com o coração, creio eu, ou fica sendo novo este símbolo, que só se faz bem se o desejo de amor só vive de entregas, e dizer isso mesmo quando não vejo nem penso em nada, mas isto é uma re-criação, mas acredito que não é mau, de modo algum, escrever o que vivo. Afaga-me à áspera irritação. Irrita-me por o desejo claro e límpido ser o de me sentir rejeitado, quando eles estavam sendo rejeitados por outros olhares, pois estava num local em que prestei e presto grandes contribuições, uma situação ridícula. Palco de teatro de segundo grau, aos olhares destes mesmos homens quem desejavam ridicularizar a minha presença, com atitudes de todo risíveis, os velhos e temíveis pitis, temíveis, pois que não há quem não tenha os seus, nem um perfeito imbecil está isento de seus pitis e achaques.
Consciente disto, deixei a situação rolar a todo vapor. Permaneci conversando com alguns, tendo deles o carinho, afeição, um grande agradecimento que jorrava de seus corações, através das atitudes, havendo até um pouco de exagero em tanta receptividade, não fiz outra coisa senão doar um pouco de mim. Desconheci por completo o circo que queria montar para mim, mas se esqueceram de que corre um sangue circense na veia, a comédia se fez presente. Não representei. Não era necessário. A representação ficou a cabo deles, eram os palhaços. De quem a cena, ahn?
Ridículo isto estar em casa de quem é respeitado, considerado, por atitudes e ações, estar a falar ao contrário. Vai-se com a intenção de ridicularizar, termina como personagem principal do ridículo. Há-de se relevar, pois que não têm consciência deste ridículo, o que afaga a áspera irritação.
Se me fosse dado representar não me custava coisa alguma, responderia à altura, e aí o circo estava armado, os palhaços representam no picadeiro a comédia humana, mas não era minha cena, não estava como um circense, estava como um homem quem enxerga o ridículo, transforma-o num silêncio próprio e íntimo. Dá certo gosto deitar ao papel coisas que querem sair da cabeça, por via da representação, da memória, da reflexão, da revelação. Dá certo prazer deitar ao papel os olhares de esguelha, de soslaio à comédia da condição humana, se me indagam a respeito deste cinismo, ironia, sarcasmo, digo simplesmente que não correspondo a circos montados em salões literários, não adianta estou de fora simplesmente. Ostentações não fazem parte de minhas condutas, a minha missão é escrever, é o que interessa. Nada mais. Ao resto respondo a Deus, nada mais verdadeiro que isto: “O resto Deus dá conta dele. Dei conta da minha vida”.
Irrita estas picuinhas, pitis, achaques de literatos em seus devidos e respeitados salões, pois que não é aqui ou ali, neste ou naquele tempo, o pior é que existe desde toda a eternidade e pelo jeito vai continuar ainda por uma longa outra eternidade. Fácil ser eterno, imortal, dar pitis em salões literários, não custa coisa alguma, é só começar de representar. Não resta outra alternativa senão rir destes achaques, pitis... Aí, sim, é muito fácil, custa apenas a decisão de ser indiferente às atitudes, desde que tenho valores em mãos que mostrem e revelem, tudo é simplesmente uma gargalhada sem princípio, meio e fim.
Não desejo acabar o dia de hoje, escrevendo sobre estas questões, se necessitei afagar a áspera irritação não sei responder de modo algum, tenho os olhos cansados, acaso distantes, contemplando as montanhas e serras, e não sei se esta era a intenção de atingir este nível de compreensão o que é isto de conquistar algo com esforço, com luta, com sonhos, conquistado com entregas, pensar em achaques e pitis em salões literários nada significa, pois que se trata de algo que se continuar assim ainda passará uma outra longa eternidade.
A reflexão é de todo verdadeira, por mais que se lhe possa dizer em contrário. Não afirmo que as coisas se passem exatamente assim, e que a afeição, o costume, o feitiço crescente, e por fim o templo, álibe e cúmplice de pitis e achaques, negarão o belo diamante a qualquer namorado trazido pela natureza e pela sociedade.
Antes é tudo fruto da intimidade, com seus dramas e conflitos, como a condição possível. Disto não tenho dúvida, mas começando de olhar esta intimidade intelectualmente, comunica-me esta intuição, acrescenta uma reflexão fina, um primor de ouro, e não tenho dúvida em a escrever aqui ao pé da cama, enquanto que com a porta fechada por dentro.



(**RIO DE JANEIRO**, 27 DE MARÇO DE 2017)


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