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sábado, 18 de março de 2017

*TRESANDADA DESOLADA - II PARTE** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Brás Cubas mexe-se e remexe-se na sepultura, irritadíssimo, os carros de propagandas comerciais, som no último volume, que passam à porta do Campo Santo, estão lhe tirando a atenção na escritura de seu memorial póstumo.
Macunaíma, deitado na rede, com sua eterna preguiça, ouve na emissora de rádio "Eu não sou cachorro não", com Waldick Soriano, olhando disperso para o casal de maritacas na galha do abacateiro, quietinhos, quietinhos.
Reitor da Faculdade de Administração, na sua Biblioteca particular, prato com restos de comida à frente, ao lado de um livro de Contabilidade Comercial, gira e gira o revólver no dedo indicador da mão direita. Abre uma gaveta, tira uma bala, coloca no revólver, dá um tiro em direção à porta. Cruza os braços sobre a mesa, esconde a cabeça neles.
Cinderela, no tanque de lavar roupas, enche um balde com água, põe sabão em pó, mergulha seu vestido longo branco, ouve as galinhas alvoroçadas no galinheiro, o galo está desvairado. Sai de perto do tanque, senta-se na rampa, fica olhando os garotos jogando bola na rua.
Professor de Física, na hora do recreio dos alunos, está em pé no meio do pátio, caneta nos lábios, perscrutando na mente uma fórmula de Gravitação Universal. Einstein na sala de pesquisas da universidade toma um suco de maracujá sem açúcar, disperso no quatro-negro entupigaitado de cálculos. Há um erro crasso num dos cálculos que ele não identifica, perdido que está com o sabor do suco de maracujá.
Presidente da Repúlica, em sua cela presidiária, lê um gibi de piadas picantes, vertendo lágrimas de tanto rir, a garrafa de whisky escocês está pela metade, só há dois pedaços de frango à passarinha no prato. Sairá da cadeia, seus bens restituídos, rirá na cara do povão. A justiça política é digna e honrada.
O vendedor de fumo de rolo, com sua banquinha frente à igreja, cotovelos sobre o joelho, pernas abertas, gira o chapéu de feltro puro, lembrando-se da pescaria com os amigos no final de semana, comeram carne assada e beberam conhaque, regados a causos de adultério, falências empresariais.
Aposentados, sentados na porta do cine-teatro, conversam alegres e saltitantes sobre as mazelas e pitis humanos, a humanidade está no fim do abismo. Trabalharam honestamente, adquiriram seus bens, a família está criada, podem morrer tranquilos e serenos.
A jovem estudante, acompanhada de seus amigos na lanchonete frente à prefeitura, toma sorvete de chocolate. Com a boca cheia, responde a pergunta da amiga, cuspindo chocolate. As mochilas de livros e cadernos debaixo da mesa, sobre as cadeiras.
Simão Bacamarte, na sala de estar da Casa Verde, nega peremptoriamente todas as suas teorias sobre a alienação, ouvindo no aparelho de som As Quatro Estações do Legião Urbana. Perscruta silenciosamente um quadro de Van Gogh, o par de botinas velhas, suspenso na parede.
Padre Cavalhaes, na sua sesta do almoço, bem à vontade na cama, de cueca, lê Elogio à Loucura, lembrando-se de Padre Argel sendo levado em camisa-de-força para o manicômio. A fiel, Amélia dos Santos, totalmente pudica, com ela se preocupava, no confessionário disse-lhe que ainda usava cinto de castidade, seria enterrada com ele. Outro fiel, Pedro Quatro Olhos, confessou-lhe que em treze anos de casado, nunca tocou um dedo em sua mulher. Deixa o livro sobre o criado-mudo, vira-se para o canto, dorme.
A primeira dama de Tresandada, conhecida como "A Bonequinha Dayrell", por se vestir elegantemente, está com os braços cheios de sacolas, voltando para casa, após uma tarde de compras. Vai passar um mês na Suiça com o marido, en passant visitará Paris só para tomar um café com croissant no Café onde Sartre escreveu algumas de suas obras.
E o professor de Literatura Brasileira con-templa na página do livro de Guimarães Rosa uma frase: "O que tem de ser, tem muita força". A filha de nove anos, deitada na poltrona, lê Ilusões Perdidas, de Stendhal. A esposa prepara os pães de queijo do lanche da tarde, ouvindo 'Coração de estudante", de Milton Nascimento.


(**RIO DE JANEIRO**, 19 DE MARÇO DE 2017)


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