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segunda-feira, 12 de junho de 2017

"PENSO, COGITO, COMO SE O ESTÔMAGO DIGERISSE IDÉIAS ESTRUMES, IDEAIS CASCALHOS" - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Estou antes de tudo, acima de nada, (como antes), sem saber da metafísica, da exegese, da teoria do conhecimento, da ontologia, da poética, das linguísticas e semânticas, da filosofia, do re-nascimento do Aforismo, da poética-pensante; estou antes de tudo, (como agora), sem saber destas coisas, sem qualquer noção de coisas trans-cendentes, espirituais, pura contingência não sou, não estou contingente. E antes de nada, (como antes), estou con-templando o horizonte depois do mar.
O homem há de decifrar enigmas, des-velar mistérios, des-vendar mitos e conhecer segredos (não degredos), decifrar lendas e causos, amar como nunca o olho (o perdido), amar a esposa e/ou companheira, o vazio do peito, a náusea da alma, o nada do espírito. Penso, cogito, como se o estômago digerisse idéias estrumes, ideais cascalhos. O amor e a morte fossem falácias. O sonho e o fracasso fossem metafísicas sublimes do nada. As utopias e as frustrações fossem simplesmente puras exegeses dos cânticos bíblicos.
Como a morte habito a madrugada de agonia, silencio a dor, como homem refaço as horas da vida, não sinto que a missão terrena está no fim, ao contrário, agora que está iniciando, há muito a projetar. Querer decifrar o silêncio é rir do enigma, querer des-velar a solidão é ironizar o mito, querer des-vendar o vazio da alma é tirar sarro do eterno. Minha solidão, angústia, tristeza estão escritas em meu rosto, em meus olhos reside o medo, conforme con-templo na imagem refletida, em meu rosto perdido numa imensa praça parisiense na densa névoa de um inverno tão milenar quanto o eterno paraíso perdido. Faço o verso em luz e desmaio no horizonte oposto ao po-ente. Faço o poema em verbo e espreguiço na rede ad-jacente ao infinito. Faço prosa em semiologia e fon-ética e gargalho a deus-dará do pretérito dos subjuntivos particípios, e não haverem dúvidas, dos particípios subjuntivos e subjetivos, para sintetizar. Cubro-me com uma pétala e sou mais forte que o sol, mas frágil que a lua cheia.
Eu, com meus taos versos trans-cendentes de verbos e luz do ser, vós, com vossos paletós Pierre Cardan brancos ou pretos, seus bermudões cinco estrelas, eu calça tergal e camisa de manga comprida, gastos pelo tempo; eu, com esta consciência do efêmero e da morte, vós, com o churrasco de picanha e whisky na mesa farta; eu, buscando o ser inatingível, vós, com gorros e capotes russos; eu, meditando muito sobre vossos orgulhos e vaidades, vossos poderes, vós dormindo em colchão de notas de cem reais, eu refletindo na sensibilidade do aforismo, e como revelar isto que toque a alma dos homens, e vós com idéias fixas de "barroco moderno. Eis uma grande piada.
Sign-itudes... Simbol-itudes... O in-verno real-iza a alma e o corpo, verbaliza medos, a-gonias. Frio ads-tringente aos ossos, inspirações e ideais de mãos entre-laçadas trilham caminhos de trevas, per-correm veredas de luzes, consubstanciam esperanças outras ad-vindas da síntese do pretérito de sentimentos vulgares do amor e subjuntivos de emoções insubstanciais do tempo, do ser. Sempre de nada projetado no espelho embaciado de poeiras de algures, orvalho de alhures, a imagem des-facelada, multifacetada, a vida simplesmente náuseas de outrora. Aquém, antes de quaisquer aquéns, taos de memórias despetalando a-nunciações de lembranças furtivas inda que incognoscíveis dos subjetivos interstícios da alma que vagueia solitária no sem-horizonte, sem lenço para enxugar o suor da travessia da ponte partida ao deserto na madrugada de idílios de pectivas de pers do inolvidável.


No sono a presença da efígie.


(**RIO DE JANEIRO**, 12 DE JUNHO DE 2017)


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