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sexta-feira, 9 de junho de 2017

#NOVO SER O QUE FENDE A ÁGUA DA NOITE# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Tamanha solidão e grandeza de Cristo dão a estes lugares, onde a fralda da montanha se banha nas ondas, quem sabe até seja possível relacionar este lugar com o Reino de Deus, assim definir o Reino de Deus como o lugar onde a fralda da montanha se banha nas ondas, tais imagens dão a estes lugares um rosto inesquecível, fisionomia inominável, semblante inóspito. Ao nascer da madrugada frágil e singela, passadas as primeiras vagas ainda negras e amargas, é um novo ser o que fende a água da noite, tão exultante de a seguir – Ainda Cristo chamava aos seus discípulos, dizendo-lhes que tudo abandonassem e o seguissem –; e, retornando, o mesmo céu continuaria derramando sobre mim sua carga de suspiros e estrelas.
Como homem no mundo, por se satisfazer, serei o significado e sentido, serei o presente. Se recebo aplausos e elogios, sonho um pouco, sinto que não me resta muito para assistir aos sonhos na tela resplandecida da eternidade; se descobrem nas entrelinhas a vivacidade do sempre, o jogo de terços de antemão que unem e resumem as orações, sinto-me exultante, uma alegria deslumbrante perpassa o corpo inteiro como mãos que a acariciam e amam de paixão, sou homem quem acredita de corpo, alma, espírito, nos sonhos onde a fralda da montanha se banha nas ondas, ah, sou quase um deus por criar esperanças; se me não compreendem, espanto-me menos ainda. Esqueço e sorrio a quem me ultraja ou então cumprimento com excessiva cortesia a quem estimo, olhando de soslaio para quem me ofendeu, dizendo-lhe que poderia estar também sendo cumprimentado com extrema cortesia.
Tal perseverança em tecer os liames do advérbio e vírgulas, estabelecendo a harmonia de ambos com o para sempre e o jamais, tem algo de emocionante e traz consigo uma lição: a de todos os momentos da criação, do sentimento, da emoção, do sonho do verbo e a da busca do desejo mais divino para a origem e gênese da alegria e felicidade.
Aproximando-me de ambos, advérbio e vírgulas, já com a atenção bem desperta, verifico que estas pedras, antes de me aproximar de onde a fralda da montanha se banha nas ondas, têm um sentido: a graciosa figura dos direitos à eternidade, o espírito tira proveito desses antemãos de sonhos e desejos. Que tentação mais voluptuosa esta a de identificar-me com as pedras, realizar os liames de mim e dela intimamente a esse universo frio e suave onde as águas escorrem de volta às águas, universo que desafia a história da misericórdia e compaixão – Cristo anda por sobre as águas, salva Pedro de se afogar, porque ele não teve fé – e suas agitações.


(**RIO DE JANEIRO**, 10 DE JUNHO DE 2017)


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