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sexta-feira, 30 de junho de 2017

#AFORISMO: A PALAVRA É O ESPÍRITO DA EC-SISTÊNCIA# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


#O desejo de amor só vive de entrega, onde têm raízes a iluminação e a redenção, cujos frutos são os sonhos que alimentamos e AFAGAMOS, e quem a outrem, que en-vela e re-vela, não poderá, Señor, alguma vez, desalgemar de mim as mãos rápidas de gestos, deixando-me-ser aos olhos e ouvidos atentos e à minha nítida simplicidade de Alma?#


“Há procissão de águas na moldura da vidraça”.
Iluminação.
Amor.
Misericórdia.
Ágape.
Deus.
Nous.
Inner.
Numinoso.
Assunção.
Theos.
Luz da maturidade, caminho para a velhice, para a morte, as cinzas acompanhadas de alguns ventos de lembranças, de alguns outonos e invernos de esquecimentos... Esta Luz mostra-me os devidos caminhos para sacudir a todos, arrancar-lhes de dentro, jogar-lhes na sarjeta de suas misérias, e encontro os modos de atingir estes objetivos, ainda que, no fim, seja condenado como alguém constantemente em busca de escândalos, de auto-afirmação.
É glorioso para o amor ver cair as folhas à medida que amarelecem. A rocha, sobremaneira nivelada pela erosão e coberta de espesso leito, forma vastas pradarias inundadas, sobre as quais se estendem, quase sempre, reduzidas ondulações.
A chuva, quando a chuva é precisa, não sentimos solidão, medo, tédio, a falta de algo a fazer, uma lembrança de tempos idos e de tempos que estão indo, uma memória de prazeres e satisfações, angústias e medos, uma melancolia, nostalgia. Sentimos o vento, as tempestades, às vezes, as árvores que continuam a florescer, a darem inúmeros frutos, o rio que rola suas águas continuamente, as estações do ano se unem e se afastam, se ligam e se separam...
Apenas o silêncio de perto e os rumores ao longe, distantes, podem ser belos: quem isto não consegue compreender – o que quer que digam, que dirão, que tenham dito – não me atacam em nome da Arte, mas em nome de seus segredos e fugas particulares.
Travessia do dia e noite, o sono que me vem revelar o desejo de sonhos que se manifestam em imagens.
A palavra é o espírito da ec-sistência.
Deus.
Com o correr do tempo, quando a fé primitiva me modificasse pela experiência, os sentimentos todos não sofreriam súbita revolução. Teria inda fé no destino brilhante e, talvez, amasse mais a vida, ao reconhecer que pouco posso fazer em benefício próprio. A altivez ceder-se-ia à humildade, quando conhecesse distintamente os elevados ideais; talvez percebesse claro, por qualquer dos sentidos, onde caem as sombras o terreno é sagrado; talvez apreciasse o pensamento sábio e meditado; talvez distinguisse que nenhum escrúpulo me impediria de sondar toda a profundeza da alma; talvez discriminasse o verdadeiro valor estaria no reconhecimento da força interior que transforma as vicissitudes; enfim, talvez discernisse os melhores esforços do homem são uma espécie de sonho, enquanto Deus é o único construtor de realidades, o único revérbero de outonos e memórias.
Iluminação.
Morrer no inverno. À hora absoluta, delírio de luz. Não no outono, de monco caído. Ou no verão, quando se está sem qualquer coberta ou cobertor, inteiro nu. Mesmo na primavera em que tudo está ainda para ser. À hora máxima, os olhos em chamas, mesmo fechados, a luz estrídula em todos os interstícios da vida. É para isso que vim, não tenho interesses em ensinar, em aprender, o que isto pode significar nesta derradeira hora? Vim para ser todo onde for. Até já me disseram, e confesso haver ficado orgulhoso, que não vim para aprender, e sim para ensinar. Passado o orgulho, perguntei-me o que teria para ensinar. Não encontrei qualquer resposta, e isto foi o melhor, pois que se houvesse elencado o que teria para ensinar não encontraria verdade alguma. Creio sim que atingi um nível bem diferente do que era esperado. Descobri que devo continuar exercendo a função – se não a exercer como estabeleci, nada terá sentido.
Amor.
É preciso perder o paraíso terrestre para vivê-lo verdadeiramente, para vivê-lo na realidade de suas imagens, na sublimação absoluta que transcende qualquer paixão. É preciso perder o odor frágil e ameno da flor que nasce logo ao amanhecer de um novo dia para senti-lo verdadeiramente no íntimo, dando formas e estilos a novas emoções, novos sentimentos e intuições, a verdade plena vigiando no coração aberto do dia.
Misericórdia.
Haverá imagem de intimidade mais condensada, mais certa de seu centro que o sonho do porvir de uma flor ainda fechada e encolhida em sua semente? Se não há imagem desta intimidade, dizendo que a flor seca perfuma a gaveta em que murchou, quem sabe fora eu em absoluto infeliz em dizendo assim, quando deveria dizer que o sentimento ficara na semente, a flor fica sempre na semente aquando emurchece. Como se há de querer que não a felicidade, mas a antefelicidade, permaneça fechada na gaveta.
Ágape.
Gravou-se-me na memória a imaginação. Gravou-se nela a flor seca que perfumou a gaveta em que murchou. As verdadeiras imagens aprofundam lembranças vividas, deslocam recordações vivenciadas, para se tornarem lembranças da imaginação. Interessante isto!... As palavras também são guardadas em gavetas, esperando de lá serem reveladas ainda com mais sentimentos e emoções, pois que o tempo as tornaram mais reais, mais essenciais para a vida. Por que relaciono a flor com as palavras?
Nous.
E o espírito paira sobre o abismo. Não há de ser por os olhos não se dignarem a contemplar e vislumbrar neste momento em que o espírito paira sobre o abismo que perderei a oportunidade de trazê-lo à superfície – talvez tenham eles alguma vertigem, se olharem com muita atenção e entrega, são capazes de não resistir à profundidade, respeito-lhes a vertigem, mas não posso deixar de me furtar ao prazer deste instante de contemplação. Neste caso, não é o silêncio que é diferente, não é o sublime que mostra suas nuanças, o sentimento é que é outro. Tal explicação à luz de uma justificativa parece-me viável para a compreensão: a alma volta à serenidade de antes, de outrora, naquele momento mesmo em que intuí um sonho muito forte em mim, em princípio vaguei os olhos pelos horizontes, um vazio sem medidas tomou-me por inteiro, não me pude controlar, saí correndo, mas após descansar veio-me à mente que o desejo era de trazer os abismos à superfície.
Theos.
Experimentar a intimidade, uma vez vivida e sentida não se apaga mesmo que os homens se amesquinhem, ridicularizem-se, degenerem-se. A réstia de luz que perpassa o tempo, o espaço, envolve um mistério de doação “escondido na beleza, na volúpia, na quebra da solidão, no a-núncio da esperança, no afastamento do medo, na presença e re-velação do silêncio”.
Inner.
Instante inesquecível em que torno a sentir! Escuto o riso da ampulheta, diante do tempo – o vento invade-me a voz que é sonho, o desejo da mente que é imensidão, a vontade da alma que é eternidade. O espelho procura a imagem, buscando aprimorar com ousadia o registro de mim – desço pela janela do que já se tornou inevitável, como a taça que se estiola no chão e eu não quero, insisto e persisto em não “emendar” – diria ser eu um teimoso, um burro empacado? A imagem constrói a matula de lacaios, busca a taberna de difusos, desejando a transparência de cinismos e ironias.
Numinoso.
Luzes não são suficientes para iluminar a longa área de mato e capim que se estende adentro mistério entre árvores, galhos, esquecimentos, de alguém que, sentado no meio-fio, a noite segue seu caminho, se há outra significação para o pouco ou demais de olhos que desejam com que gestos ou modos de revelar o erro abstrato da criação, e o silêncio perpassa momento difuso, profuso, completo de viver tudo de todos os lados.
Assunção.
Creio que diante de tantas dimensões divinas e humanas, a Terra-Mãe está cheia do Amor de Deus, e por isso mesmo deseja, tem vontade do Sublime e do Sagrado.


(**RIO DE JANEIRO**, 30 DE JUNHO DE 2017)


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