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sábado, 10 de junho de 2017

#MAIS LÁ QUE O IN-AUDITO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


"Vim como a saudade e vou voltar tão lírico, tão lírico que o lirismo há-de se surpreender." (Manoel Ferreira Neto)


Não comporei canção para mim. Sou nada diante da melodia, ritmo, acorde, musicalidade. Não sei se sinto ou sou sentido. É um fardo pesado, vem do mar e vai além do mar, é frio e é quente, e é, sobretudo, um inexplicável consolo para os peregrinos. Não criarei versos e estrofes para mim. Quem sou para a poesia, estesia, linguística, poética, metáforas, belo e beleza, quem sou para os inter-ditos espirituais e trans-cendentes.
Não é bom que me cale tanto assim, mas de senso permanecer-me em silêncio. Vasta é a humanidade - há muito para se lhe revelar, identificar-se-lhe, dizer-lhe em prosa e verso. É vasta a poesia: descobre e fixa o tempo e o espaço, a palavra é espacializada. É vasto o amor - mister buscar-lhe a profundidade, saber-lhe as verdades, conhecer-lhe o espírito, sentir-lhe a alma... O desejo de seu encontro é perpétuo, a continuidade dos sentimentos de amor é também o amor, as letras poéticas orientam as sendas e veredas a serem trilhadas. Vasta é a dor que devasta as carências, a fome, a sede, as frustrações e decepções, as angústias e tristezas.
Quero beber o néctar das flores que des-abrocham no alvorecer, o mel de fábulas, morar numa ilha de corujas, morrer num canteiro de hortências azuis, eternizar-me nalgum jardim metafórico realisticamente colorido e com todas nuances associadas aos sentimentos da alma livre e pronta para verdadeira entrega. Não me peçam o nome, sou inominável, in-descritível, inarrável. Não tenho quaisquer pretensões de reger a vida, apenas regenciar os verbos que não se tornam carne, deambulam entre o medo da convicção e certezas, doar sementes aos verbos defectivos que não se subjectivam. Vim nada e volto vazio de tudo. Vim como a saudade e vou voltar tão lírico, tão lírico que o lirismo há-de se surpreender. Minh´alma atingirá o universo, o sideral, brincará na margem do cócito, e lá, bem lá, além, bem além, mais lá que o horizonte, mais lá que o inaudito, ela falará aos homens da gnose e plen-itude da sabedoria, episteme do conhecimento e da verdade.


(**RIO DE JANEIRO**, 10 DE JUNHO DE 2017)


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