Total de visualizações de página

segunda-feira, 12 de junho de 2017

#GRITOS, SUSSURROS E GEMIDOS# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


#Para mim, o ser humano é uma criação indescritível, tal como uma idéia incompreensível, um pensamento ininteligível, um ideal chinfrim e fortuito.#


A verdade singela, pura, inocente, no entanto, tem sempre a aparência ambígua, dúbia, paradoxa – um assobio, um murmúrio de águas vivas, ruído de fonte ou de cascata, um assobio de ventos nas colinas. Posso ficar sentado por horas seguidas nesta poltrona, com as pernas para o alto em cima da outra poltrona, olhando a trajetória da luz do sol nas montanhas. Quem dera estivesse na Suécia, podendo contemplar não só as montanhas, mas também os fiordes!...
O sol faz refletir um desenho artístico no papel envelhecido da parede do quarto. Há o tic-tac do relógio que marca nove horas e doze minutos. Há uma grande quietude em todo o quarto, cheio como está de tantas coisas raras e irreais, cheio de nada, cheio de fome; num átimo de tempo, pode tudo transformar-se, pode tudo tornar-se coisas absolutamente novas e reais, suficiente o acreditar nelas, crer na vida que posso dar a elas.
Acho que seria suficiente se uma pessoa fosse amiga, sincera, fiel para quem vive com ela. Carinho também faz bem. Bom humor, companheirismo e tolerância – enfim, é necessário ser consciente de que os homens somos imperfeitos, mas, livres, podemos atingir a imperfeição perfeita. Ambições razoáveis a respeito do presente e do desejo de realizações do outro. Se pudesse servir todos ingredientes assim... então já não teria tanta importância o amor.
Óbvio que é apenas o medo e o pretensioso bom-senso que me faz acreditar em fronteiras. Não existem fronteiras. Não existem, embora algo grite e sussurre no íntimo, de modo vulgar, vale ressaltar e sublinhar, "o amor não tem fronteiras", dizendo-me que isto é um desejo de não existirem fronteiras, mas existem; não existem, nem para os pensamentos, nem para os sentimentos, nem para as mais puras intuições e percepções. Quem sabe, desejo sim acreditar nisto, é a angústia que fixa as fronteiras ou são as fronteiras que angustiam?!...
Conheço a voluptuosidade do vôo e do pairar da águia nesse lugar nenhum, macio e claro, para onde a alegria me arremessa antes de conhecer o êxtase e o logro do êxtase, a volúpia e o ardil da voluptuosidade. Para mim, o ser humano é uma criação indescritível, tal como uma idéia incompreensível, um pensamento ininteligível. No ser humano tudo existe, do mais alto ao mais baixo, do mais sensível ao absolutamente insensível, precisamente como na vida. E, seguindo esta idéia que elaboro e crio, dando-lhe vida, o ser humano é a imagem de Deus e em Deus tudo existe, tudo, como se fossem forças enormes.
Confesso saber que esses desejos são tolos. Relato, embora num espaço muito pequeno, devido às circunstâncias, as lutas que travo com todos os desejos, a vontade de um ínfimo minuto de daqui a pouco. Nada omito, nada minto, nada simulo, nada dissimulo. Sinto-me capaz de dizer tudo, inclusive as dores mais profundas, aquelas que as palavras não alcançam, mas que existem, e são a chama ardente de um sonho mais atirado.
Sinto-me muito mais forte e mais independente. Poderia realmente ser útil a quem está em dificuldades. Será mesmo que estou convencido de que tenho uma missão que não inclui nem a dissimulação nem as hipocrisias?; é algo que transcende a condição humana,; se não acredito nisto, poder transcender a condição humana, superando estas coisas tão cretinas e idiotas, suprassumindo estas sorrelfas tão chinfrins, baile reles de coadjuvantes, como vou poder continuar vivendo? Tudo é insípido, inóspito sem um sonho maior que tenha por objetivo encontrar além dos limites a felicidade.
Consigo confessar quaisquer segredos, mesmo que muito pouco deles tenho a capacidade de entender, patenteio o que quer que haja, relevo os medos e angústias que são partes de uma criação. Estou cansado!... terrivelmente cansado!...
Se tivesse cor-agem, romperia com tudo e me mudaria para uma choupana nalgum abismo da montanha ou talvez pedisse a alguém para varrer as ruas da cidade. Exibo as feridas. Descrevo como atravesso as águas, qual uma criança que sai se arrastando pelo chão, enquanto a mãe conversa com a amiga, e como o rio zomba de minha intenção de retornar ao centro da cidade!...
Brilham lâmpadas vermelhas e sinais de “pare” à minha volta. Não acho apenas que assim deva ser. Não me declaro satisfeito. Sinto um grande peso, como se fosse uma tristeza. Se me tivesse permitido pensar, sem ficar com a consciência pesada, então teria sabido que tudo o que digo e faço está errado. A minha tristeza é, creio, muito especial. Por isso, venho até ao quarto, sento-me à poltrona. Enquanto não pronunciar a palavra que intenciono, que desejo, a minha tristeza é como um sonho irreal. Pronunciando-a, então, terei manifestado a minha tristeza.
Há um comportamento típico entre nós, comportamo-nos como rivais, perseguimos nossos ideais. E, no entanto, tudo isso não passa de uma hipocrisia, um jogo entre nós, que nos enlaça intimamente, que nos acende a todos. Tudo não passa de pura fantasia, tudo tem uma dimensão a mais, um sentido mais profundo; tudo é jogo e símbolo...
Práticas espirituais e a imagem da morte são uma combinação sobremodo banal. A maioria dos corpos humanos são mortos, embora esta concordância não esteja correta, mas necessito de dar uma ênfase, com uma cabeça falante e extremidades sacolejantes. Algo se passa com os lábios. Percebo que têm uma forma especial. Continuo olhando-me a todo instante, sem perder de vista um único detalhe. Vejo-me e formo um sorriso quase imperceptível .
O pulso de estátua fascina e surpreende, diante do retângulo de azul resplandecente por onde a morte vai jorrar um segundo depois. Esse azul de morte, esse azul de neve – o céu desta manhã fica gravado na retina como uma catarata luminosa. É essa luz, essa chama fixa de uma cegueira, lúcida demais, que imagino ser o brilho dos olhos.
Em verdade, inda me esqueço de quem está a pensar, sentir, ser, sou ainda eu, esqueço-me de que estou só, que ninguém pode ser por mim, nem um deus. Eu só, irredutível, princípio e fim, fechado, único e para sempre. Quê alucinante!...


Mas assim mesmo, como é fascinante imaginar-me em ti, na tua aparição, na tua fulguração.


(**RIO DE JANEIRO**, 12 DE JUNHO DE 2017)


Nenhum comentário:

Postar um comentário